

LUA DE SANGUE
Nora Roberts

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ULISSEIA

s minhas amigas de infncia, irms de sangue e confidentes
que ajudaram a transformar quintais em florestas mgicas.   
	
Tory

Para mim, querido amigo, nunca podes ser velho,
Porque continuas belo como quando te olhei nos olhos
Pela primeira vez.		


William Shakespeare














    Acordou no corpo de uma amiga morta. Tinha oito anos, era alta para a idade, frgil de ossos, delicada de feies. O cabelo era da cor do milho sedoso, e caa-lhe pelas costas estreitas, embelezando-as. A me adorava escov-lo todas as noites, cem vezes, com a escova de prata de cerdas suaves que estava sobre a graciosa cmoda de madeira de cerejeira.
    O corpo da criana recordava-se, sentia cada passagem demorada da escova fazendo-a imaginar-se um gato a ser escovado. Lembrava-se de como a luz incidia obliquamente nas caixinhas e nas garrafas de cristal e cobalto, e batia na escova de prata que reluzia sobre o cabelo.
    Lembrava-se do cheiro do quarto, sentia-o naquele momento. Gardnia. Sempre gardnia para a mame.
    E no espelho,  luz da luminria, conseguia ver a palidez oval do seu rosto, to jovem, to bonito, com aqueles olhos azuis e profundos e a pele suave. To vivo.
    Chamava-se Hope.
    As janelas e as portas de vidro mantinham-se fechadas, pois o vero estava no auge. O calor pressionava os dedos midos contra os vidros, mas dentro de casa o ar era fresco e a sua camisola de algodo estava to seca que parecia estalar quando ela se mexia.
    Era o calor que ela desejava, e a aventura, mas manteve esses pensamentos guardados dentro de si quando deu  mame um beijo de boas-noites. Um beijo de leve, delicado, numa face perfumada.
    Em junho, a mame mandava tirar as cortinas do hall e lev-las para o sto. As tbuas do soalho de pinho encerado tinham um toque liso e suave sob os ps descalos da garotinha, que saiu do quarto, atravessou o corredor com os seus painis de cipreste e os seus quadros de molduras pesadas em ouro mate. Seguiu o serpentear da escada at ao escritrio do pai.
    L estava o cheiro do pai. Fumo, couro, Old Spice e bourbon.
    Adorava esta diviso da casa, com as suas paredes perfeitas e as suas cadeiras grandes e pesadas, estofadas em couro da cor do vinho do Porto que o papai bebia s vezes, depois do jantar. As estantes em volta estavam apinhadas de livros e tesouros. Amava o homem que se sentava  enorme escrivaninha, com o seu charuto e o seu pequeno copo de usque e os seus livros de contabilidade.
    O amor era uma dor no corao da mulher dentro da criana, uma lana de saudade e de inveja desse amor simples e completo.
    A voz dele troava, os seus braos eram fortes e o seu estmago suave enquanto a envolvia num abrao to diferente do beijo de boas-noites delicado e comedido da mame.
    L vai a minha princesa para o Reino dos sonhos.
    Com que  que vou sonhar, papai?
    Cavaleiros e cavalos brancos e aventuras no mar.
    Ela riu, mas deixou ficar a cabea no ombro dele um pouco mais do que o habitual, sussurrando qualquer coisa na garganta como um gatinho a ronronar.
    Saberia? Saberia que nunca mais voltaria a sentar-se naquele colo seguro?
    Voltou a descer a escada, passou pelo quarto de Cade. No estava deitado, ainda no, porque era quatro anos mais velho e rapaz, e podia ficar acordado at mais tarde nas noites de vero, vendo televiso ou lendo livros, desde que se levantasse de manh pronto para os seus deveres.
    Um dia Cade seria dono de Beaux Revs e sentar-se-ia  grande escrivaninha do escritrio com os livros da contabilidade. Contrataria e dispensaria pessoal e supervisionaria as sementeiras e as colheitas e fumaria charutos nas reunies e queixar-se-ia do governo e do preo do algodo.
    Porque ele era o filho.
    Hope no se importava. No queria ter de sentar-se a uma escrivaninha a somar nmeros.
    Parou diante da porta do quarto da irm e hesitou. Faith no estava bem. Faith parecia estar sempre mal. Lilah, a governanta, dizia que Miss Faith discutiria com Deus-Todo-Poderoso s para irrit-Lo. 
    Hope achava que isso era verdade, e embora Faith fosse sua irm gmea no compreendia o que a fazia estar constantemente irritada. Esta noite tinham-na mandado diretamente para a cama, por ter sido insolente. A porta estava completamente fechada e no se via luz por baixo da porta. Hope imaginou que Faith estaria a olhar fixamente para o teto, com aquele olhar amuado no rosto e os punhos fechados, como que  espera de esmurrar o escuro.
    Hope tocou na maaneta. Quase sempre conseguia acalmar Faith e tir-la daquela disposio soturna. Conseguia enrolar-se na cama com ela, s escuras, e inventar histrias at Faith rir e as chispas nos seus olhos desaparecerem.
    Mas esta noite era para outras coisas. Esta noite era para aventuras.
    Estava tudo planejado, mas Hope no deixou que a excitao tomasse conta dela at estar no seu quarto, com a porta fechada. Manteve a luz apagada, movendo-se em silncio na escurido prateada pelo luar. Trocou a sua camisa de noite de algodo por uns cales e uma T-shirt. O corao batia-lhe agradavelmente no peito enquanto dispunha as almofadas sobre a cama, numa forma que aos seus olhos ingnuos de criana parecia algum a dormir.
    Debaixo da cama tirou o seu kit de aventuras. A velha lancheira com tampa arredondada continha uma garrafa de Coca-Cola que entretanto aquecera, um saco de bolachas cuidadosamente surripiadas do pote na cozinha, um pequeno canivete enferrujado, fsforos, uma bssola, uma pistola de gua - carregada - e uma lanterna vermelha, de plstico.          
    Ficou sentada no cho por um momento. Sentia o cheiro dos seus lpis de cera e do p de talco, colado  sua pele desde o banho. Ouvia a msica muito tnue vinda da salinha da sua me.
    Quando abriu a janela e tirou a rede mosquiteira, sem fazer barulho, estava sorrindo.
    Jovem, gil, e louca de excitao, passou a perna por cima do parapeito e apoiou o p na trelia coberta pela glicnia.
    O ar parecia xarope, e o sabor quente e doce encheu-lhe os pulmes, enquanto descia. Uma lasca de madeira espetou um dedo da sua mo, fazendo-a soltar um silvo abafado. Mas continuou, de olhos postos nas janelas iluminadas do primeiro andar. Era uma sombra, pensou, e ningum conseguia v-la.
    Era Hope Lavelle, espi, e tinha um encontro com o seu contacto s dez e meia em ponto.
    Teve de abafar uma gargalhada nervosa e quando chegou ao cho estava arquejante, do riso que queria soltar.
    
    Para acrescentar mais emoo, correu e apressou-se a esconder-se atrs dos troncos grossos das velhas rvores de grande porte que sombreavam a casa, e depois espreitou, de trs delas, a luz azul e fraca que pulsava na janela do quarto onde o seu irmo estava vendo televiso, e o halo amarelo, mais ntido, de onde os seus pais passavam o sero.
    Ser descoberta naquele momento equivaleria a um desastre para a sua misso, pensou, acocorando-se enquanto atravessava os jardins, por entre o aroma doce das rosas e do jasmim. Tinha de evitar ser capturada, a todo o custo, pois o destino do mundo assentava nos seus ombros e nos da sua fiel companheira.
    A mulher dentro da criana gritou. Volta para trs, por favor volta para trs. Mas a criana no ouviu.
    Tirou a sua bicicleta cor-de-rosa de trs das camlias, onde a escondera naquela tarde, meteu o kit no cesto branco e depois empurrou-a por cima da almofada de relva, ao longo do caminho de cascalho, at a nitidez da casa e das luzes se perder na distncia.
    Pedalava velozmente, imaginando que a bonita bicicleta era uma moto toda artilhada, equipada com disparador de gs de nervos e leo escorregadio. As tiras de plstico branco danavam nas pontas do guidom, batendo umas nas outras alegremente.
    Voava, atravessando o ar espesso, e o coro de chilreios e vozes de cigarras transformou-se no rugido de pantera da sua mquina veloz.
    No stio onde a estrada se bifurcava, virou  esquerda e depois saltou agilmente da bicicleta, empurrando-a para fora da estrada at a ravina estreita onde iria ficar escondida pelos arbustos. Embora a lua estivesse suficientemente brilhante, tirou a lanterna do kit. A sorridente Princesa Leia do seu relgio disse-lhe que chegara quinze minutos antes da hora. Sem medo e sem pensar, meteu-se pelo caminho estreito que conduzia ao pntano.
    Ao fim do vero, da infncia. Da vida.
    Ali, havia um mundo vivo de sons, de gua e de insetos e pequenas criaturas noturnas. A luz entrava em fitas estreitas pela abbada de rvores da borracha e ciprestes, de onde pendia musgo. Aqui, as magnlias eram enormes e delas desprendia-se um perfume penetrante e doce. Conhecia de cor o caminho para a clareira. Este local de encontro, este local secreto, estava bem cuidado, guardado e era muito amado.
    Como fora a primeira a chegar, tirou da pilha de lenha gravetos velhos e ramos curtos e grossos e comeou a fazer uma fogueira.
    
    O fumo afastou os mosquitos, mas mesmo assim coou vagamente as picadelas que j lhe ponteavam as pernas e os braos.
    Preparou-se para esperar, com uma bolacha e a Coca-Cola.
    O tempo foi passando e seus olhos comearam a se fechar, embalados pela msica do pntano. O fogo consumiu a lenha magra at no ser mais do que uma rstia de calor. Cambaleante, pousou a cabea nos joelhos dobrados.
    O restolhar comeou por fazer parte do seu sonho, onde se esquivava pelo emaranhado das ruas de Paris para fugir ao malvado espio russo. Mas o estalar de um ramo debaixo de um p f-la levantar a cabea e afastar o sono dos olhos. Sorriu de imediato, mas depressa transformou o sorriso na expresso resoluta e profissional de uma agente secreta.
    A senha!
    Silncio no pntano,  exceo do zumbido montono dos insetos e do ligeiro crepitar da fogueira quase extinta.
    Ps-se de p e a lanterna acendeu em sua mo como se empunhasse uma arma. A senha!, voltou a gritar, dirigindo o curto feixe de luz para o local de onde viera o rudo.
    Mas agora ouviu o restolhar atrs de si, por isso virou-se, com o corao a bater descompassadamente e a luz da lanterna a danar em movimentos nervosos. O calor do medo, algo que raramente sentira em oito curtos anos, apoderou-se dela, queimando-lhe a garganta.
    V l, pra com isso. No me assustas.
    Um som vindo da esquerda, cauteloso, escarninho. Quando uma nova serpente de medo se lhe enrolou nas entranhas, deu um passo atrs.
    E ouviu o riso, leve, ofegante, prximo.
    Ela corria agora, atravs das sombras espessas e da luz trmula. O terror cortante na garganta esquarteja os gritos antes de estes conseguirem escapar. Passos ressoam atrs de si. Rpidos, demasiado rpidos, e demasiado prximos. Qualquer coisa atinge-a pelas costas. Uma dor aguda vibra at  sola dos ps. Os ossos e a respirao so sacudidos num espasmo quando ela cai no cho. O ar  empurrado para fora dos pulmes, num soluo, quando o peso dele a prende junto ao solo. Cheira-lhe a suor e a usque.
    E grita, agora, um longo grito de desespero, e chama pela amiga.
    Tory! Tory, ajuda-me!
    E a mulher prisioneira da criana morta chora.
    
    A sua melhor amiga, a sua irm do corao. Morrera naquela noite, no pntano, enquanto ela estava trancada no quarto, a soluar depois da ltima surra que levara.
    E ela soubera. E vira. E no pudera fazer nada.
    A culpa assolou-a, fresca como dezoito anos antes.
    - No posso ajudar-te - repetiu. - Mas vou voltar.
    Tnhamos oito anos, naquele vero. Naquele vero distante, em que nos parecia que os dias intensos e abafados iriam durar para sempre. Foi um vero de inocncia e de imprudncia, e de amizade, o tipo de mistura capaz de formar uma bela redoma de vidro  volta do nosso mundo. Uma noite mudou tudo isso. Desde ento, nada voltou a ser o mesmo para mim. Como poderia ser o mesmo!
    Ao longo de quase toda a minha vida tenho evitado falar no assunto. Isso no impediu as recordaes, as imagens. Mas durante algum tempo tentei enterr-lo, tal como Hope estava enterrada. Enfrent-lo agora, dizer isto em voz alta, ainda que apenas para mim prpria,  um alvio.  como arrancar um estilhao do corao. A dor ainda vai prolongar-se um pouco.
    Ela era a minha melhor amiga. Os laos que nos ligavam tinham a profundidade e a intensidade imediata que apenas as crianas so capazes de tecer. Acho que formvamos uma parelha estranha, a luminosa e privilegiada Hope Lavelle e a sombria e tmida Tory Bodeen. O meu pai cultivava uma pequena parcela de terreno, um cantinho da enorme plantao de que o dela era dono. s vezes, quando a me dela dava um grande jantar ou uma das suas festas exuberantes, a minha ajudava a limpar e a servir.
    Mas essas diferenas de estrato social e de classe nunca beliscaram a amizade. Na verdade, foi questo que nunca nos ocorreu.
    Ela vivia numa casa enorme, que o seu pai, bem conhecido pela sua excentricidade, construra no ao estilo Georgiano, to popular na poca, mas no intuito de que se assemelhasse a um castelo. Era de pedra, com torres e torrees, e aquilo que se poderia chamar ameias, acho eu. Mas no havia nada de princesa em Hope.
    Vivia para a aventura. E eu tambm, quando estava com ela. Com ela fugia aos tormentos e  confuso da minha casa, da minha vida, e tornava-me companheira dela. ramos espis, detetives, cavaleiros, piratas, ou salteadores do espao. ramos corajosas e autnticas, temerrias e ousadas.
    Na primavera antes desse vero usamos o canivete dela para fazer um pequeno corte nos nossos pulsos. Solenemente, misturamos os nossos sangues. Acho que tivemos sorte em no termos acabado com ttano. Em vez disso, tornamo-nos irms de sangue.
    
    Ela tinha uma irm gmea. Mas Faith raramente se juntava s nossas brincadeiras. Eram demasiado idiotas para ela, ou demasiado brutas, ou demasiado sujas. Eram sempre demasiado qualquer coisa para Faith. No sentamos a falta do mau feitio nem das queixas dela. Naquele vero, eu e Hope ramos as gmeas.
    Se algum me tivesse perguntado se eu a amava, teria ficado atrapalhada. No teria compreendido. Mas todos os dias, desde aquele momento terrvel naquele agosto, sinto a falta dela como sinto a falta da parte de mim que morreu com ela.
    Tnhamos combinado encontrar-nos no pntano, no nosso lugar secreto. Acho que no era l grande segredo, mas era nosso. Brincvamos l muitas vezes, naquele ar mido e verde onde tnhamos as nossas aventuras por entre as canes dos pssaros, o musgo e as azleas selvagens.
    Era contra as regras ir at l depois do pr do Sol, mas aos oito anos quebrar regras  uma excitao.
    Comprometi-me a levar marshmallows e limonada. Em parte, por orgulho. Os meus pais eram pobres e eu era ainda mais pobre do que eles, mas precisava de contribuir e contei todo o dinheiro que tinha no frasco que escondia debaixo da mesa. Tinha dois dlares e oitenta e seis cntimos naquela noite de agosto - depois de ter feito as compras no Hanson 's -, o que restava do meu peclio monetrio consistia apenas em algumas moedas.
    Jantamos frango com arroz. A casa estava to quente, mesmo com as ventoinhas ligadas no mximo, que comer era um suplcio. Mas mesmo que houvesse um s gro de arroz no prato, o pai esperava que o comssemos e nos sentssemos gratos por isso. Dvamos graas antes do jantar.
    Dependendo da disposio do pai, isso demorava entre cinco e vinte minutos, enquanto a comida ficava ali, a esfriar, e a barriga dava voltas e o suor nos escorria pelas costas em rios pegajosos.
    A minha av costumava dizer que quando Hannibal Bodeen encontrava Deus, at Deus tentava encontrar um lugar para se esconder.
    Era um homem grande, o meu pai, e o peito e os braos tornaram-se-lhe cada vez mais largos. Ouvi dizer que o consideravam bonito, quando era jovem. As marcas que os anos deixam num homem variam, e os anos que passaram pelo meu pai deixaram as marcas do azedume. Azedume e rispidez, com um toque de maldade. Usava o cabelo escuro puxado para trs, e o rosto parecia sair daquela cpula como rochas de arestas afiadas que saem de uma montanha. Rochas que nos esfolavam at aos ossos se dssemos um passo em falso. Tambm tinha os olhos escuros, de um escuro que queimava e que reconheo agora nos olhos de alguns pregadores na televiso e de alguns sem-abrigo.
    
    A minha me tinha medo dele. Tento perdoar-lhe isso, o ter tanto medo dele que nunca me defendeu quando ele usava o cinto para meter dentro de mim,  chibatada, o deus vingativo dele.
    Naquela noite estive sossegada ao jantar. Era muito possvel que ele no desse por mim se eu estivesse sossegada e limpasse o meu prato. Dentro de mim, a excitao antecipada era como uma coisa viva, que me deixava tensa e feliz. Mantive os olhos baixos, tentando comer ao ritmo certo, para ele no me acusar de embromar ou de devorar a comida. Com o pai, era sempre difcil encontrar o ponto de equilbrio.
    Lembro-me do som das ventoinhas a trabalhar, e dos garfos a tocar nos pratos. Lembro-me do silncio, do silncio das almas escondidas, com medo, que viviam na casa do meu pai.
    Quando a minha me lhe ofereceu mais frango, ele agradeceu-lhe educadamente e demorou um segundo a servir-se. A sala pareceu respirar melhor. Era bom sinal. A minha me, encorajada por isto, fez um comentrio qualquer sobre os tomates e o milho estarem a produzir bastante e sobre as conservas que ia fazer durante as prximas semanas. Tambm andavam a fazer conservas em Beaux Revs, e ela quis saber se ele achava uma boa idia ela ir ajudar, porque lhe tinham pedido.
    No falou em quanto iria ganhar. Mesmo quando a disposio do pai no era m de todo, era sensato no mencionar o dinheiro que os Lavelle pagavam por um servio, em jeito de caridade. Ele era o ganha-po em sua casa, e no nos era permitido esquecer este ponto to importante.
    A sala voltou a suster a respirao. Havia alturas em que a simples meno do nome dos Lavelle fazia trovejar o olhar do pai. Mas naquela noite deixou, achando que isso se afigurava uma coisa sensata. Desde que ela no negligenciasse nenhuma das suas tarefas debaixo do teto que ele punha sobre a cabea dela.
    Esta resposta relativamente agradvel f-la sorrir. Lembro-me de como o rosto dela se suavizou e de como isso quase voltou a faz-la bonita. De vez em quando, se pensar com muita fora, consigo lembrar-me de que a mame era bonita.
    Han, chamou-lhe ela enquanto sorria. A Tory e eu vamos manter as coisas a funcionar por aqui, no te preocupes. Vou falar com Miss Lilah, amanh, e combinar tudo. Com as bagas que esto a ficar prontas para colher tambm vou fazer doce. Sei que tenho parafina algures, mas no consigo lembrar-me onde.
    E isso, apenas aquela referncia casual ao doce e  parafina e a falta de cuidado, mudou tudo. Suponho que o meu pensamento tenha divagado durante a conversa deles, que estivesse a pensar na aventura que estava para breve. Falei sem pensar, sem saber as consequncias. E assim disse as palavras que me condenaram.
    A caixa da parafina est na prateleira de cima do armrio, por cima do fogo, atrs do melao e do amido de milho.
    Limitei-me a mencionar o que imaginei, a caixa quadrada de parafina atrs da garrafa escura de mel de cana, e peguei no meu ch frio e doce para me ajudar a engolir os gros duros de arroz.
    Antes de beber o primeiro gole, ouvi o silncio regressar, a vaga muda que submergiu tudo, at o zumbido montono das ps da ventoinha. O meu corao comeou a bater com fora dentro daquele vcuo, uma pancada forte aps a outra, acompanhado de um tinir que estava apenas na minha cabea e que vinha do pulsar sbito e alterado do sangue. O pulsar do medo.
    Ele falou com suavidade, como fazia, como fazia sempre antes da fria. Como sabes onde est a parafina, Vitoria? Como sabes que est ali em cima, onde no consegues v-la? Onde no consegues chegar-lhe?
    Menti. Foi uma tolice, porque j estava condenada, mas a mentira saiu precipitadamente, numa defesa desesperada. Disse-lhe que achava que tinha visto a mame p-la l. Lembro-me de a ter visto p-la l, mais nada.
    Ele reduziu a mentira a p. Tinha uma maneira de conseguir ver atravs das mentiras e de rasg-las em pedaos de todos os tamanhos, pegajosos. Quando tinha eu visto isso? Porque no era melhor na escola, se a minha memria era to boa que conseguia lembrar-me onde estava a parafina um ano depois da ltima poca das conservas? E como sabia que estava atrs do melao e do amido de milho e no  frente deles, ou ao lado deles?
    Ah, era um homem esperto, o meu pai, e nunca falhava o mais pequeno pormenor.
    A me no disse nada enquanto ele falava naquele tom suave, atirando-me as palavras como murros embrulhados em seda. Entrelaou as mos, que tremiam. Tremeria por minha causa? Acho que gosto de pensar que sim. Mas ela no disse nada quando a voz dele subiu de tom, nada quando ele empurrou a cadeira para trs, afastando-a da mesa. Nada quando o copo me escorregou da mo e se partiu no meio do cho. Um dos fragmentos de vidro feriu-me o tornozelo, e senti aquela pequena dor por entre o terror que crescia em mim.
    Primeiro verificou, claro. Ter dito a si prprio que era a coisa mais justa, a coisa certa a fazer. Quando ele abriu o armrio, afastou as garrafas e, lentamente, tirou aquela caixa quadrada, azul, com parafina, de trs do melao escuro, chorei. Nessa altura ainda tinha esperana. Mesmo quando ele me puxou e me obrigou a levantar-me, tive esperana de que o castigo fosse apenas oraes, horas de orao at os meus joelhos ficarem entorpecidos. s vezes, pelo menos s vezes naquele vero, isso era suficiente para ele.
    No me tinha avisado para no deixar entrar o demnio? Mas, mesmo assim, eu tinha trazido a maldade para aquela casa, tinha-o envergonhado perante Deus. Pedi-lhe desculpa, disse-lhe que no tinha feito de propsito. Por favor, papai, por favor, no volto a fazer. Vou ser boa.
    Implorei-lhe, ele gritou escrituras e com as suas mos grandes e duras arrastou-me at ao meu quarto, mas eu continuei a implorar-lhe. Foi a ltima vez que fiz isso.
    No ofereci resistncia. Era pior quando lhe oferecia resistncia. O quarto mandamento era uma coisa sagrada, e o pai era para honrar naquela casa, mesmo quando ele nos batia at fazer sangue.
    Tinha o rosto vermelho de integridade, grande e ofuscante como o sol. Deu-me uma bofetada s. Foi o que bastou para calar as minhas splicas e as minhas desculpas. E para matar a minha esperana.
    Fiquei deitada em cima da cama, de barriga para baixo, passiva como um cordeiro prestes a ser sacrificado. O som do cinto quando ele o fez passar pelas presilhas das calas de trabalho foi o de o silvo de uma cobra e depois um estampido, preciso e hbil, quando ele o fez estalar.
    Fazia-o estalar sempre trs vezes. Uma santssima trindade de crueldade.
    O primeiro golpe  sempre o pior. Seja qual for o nmero de primeiras vezes, o choque e a dor deixam-nos atordoados e arrancam-nos um grito das entranhas. O corpo contorce-se, em sinal de protesto. No, em sinal de descrena. Ento, somos atingidos pelo segundo golpe e pelo terceiro.
    Em breve os gritos tornam-se mais animais do que humanos. A nossa humanidade foi comprometida, enterrada sob uma avalanche de dor e humilhao.
    Pregava enquanto me batia, e a voz dele troava. E sob esse troar havia uma excitao horrvel, uma espcie de prazer que eu no compreendia. Nenhuma criana devia conhecer essa sensao e, durante algum tempo, eu fui poupada.
    A primeira vez que ele me bateu eu tinha cinco anos. A minha me tentou impedi-lo, e ele lhe ps um olho negro. Ela no voltou a tentar. No sei o que ela fez naquela noite enquanto ele zurzia o demnio que me fazia ter vises. No consegui ver, nem com os olhos nem com a mente, seno um torpor ensanguentado.
    Ele deixou-me a chorar e fechou a porta  chave, por fora. Algum tempo depois, a dor fez-me adormecer.
    Quando acordei estava escuro e um fogo parecia arder dentro de mim. No posso dizer que a dor fosse insuportvel, porque a suportei. Que escolha tinha? Tambm rezei, rezei para que o que quer que estivesse dentro de mim tivesse sido finalmente arrancado. No queria ser m.
    Contudo, enquanto rezava, senti a presso na barriga e o formigueiro, como pequenos dedos pontiagudos a danar na parte de trs do pescoo. Foi a primeira vez que me aconteceu desta maneira, e pensei que estava doente, com febre.
    Ento vi Hope, to claramente como se estivesse sentada ao lado dela na nossa clareira, no pntano. Cheirei a noite, a gua, ouvi o gemido dos mosquitos, o zumbido dos insetos. E, como Hope, ouvi o restolhar nos arbustos. Como Hope, senti medo. Em jorros vivos, quentes. Quando ela fugiu, eu fugi, a minha respirao soluante, magoando-me o peito. Vi-a soobrar sob o peso do que quer que saltou sobre ela. Uma sombra, uma forma que no consegui ver claramente, embora conseguisse ver a ela.
    Ela chamou por mim. Gritou por mim.
    Depois, no vi mais nada seno escurido. Quando acordei, o Sol ia alto e eu estava no cho. E Hope tinha desaparecido.
    
    Optara por se perder em Charleston, e o conseguira durante quase quatro anos. A cidade fora para ela como uma mulher encantadora e generosa, mais do que disposta a acarinh-la no seu colo macio e a acalmar os nervos esfrangalhados nas ruas implacveis de Nova Iorque.
    Em Charleston as vozes eram mais lentas, e ela conseguia misturar-se na sua corrente morna e fluida. Podia esconder-se, como acreditara que poderia esconder-se nas multides compactas e apressadas do Norte.
    O dinheiro no era problema. Sabia viver com frugalidade e estava disposta a trabalhar. Guardara as suas economias como um falco, e quando esse ovo comeou a crescer no ninho permitiu-se sonhar em ter o seu prprio negcio, em trabalhar por conta prpria e em viver a vida calma e sem sobressaltos que sempre lhe escapara.
    Vivia metida consigo mesma. As amizades verdadeiras implicavam relaes verdadeiras. No tivera a vontade ou a fora suficientes para voltar a abrir-se a elas. As pessoas faziam perguntas. Queriam saber coisas sobre ns, ou fingiam querer saber.
    Tory no tinha respostas para dar, nem nada para dizer.
    Descobriu a pequena casa - velha, arruinada, perfeita - e negociara ferozmente o preo at conseguir compr-la.
    As pessoas subestimavam muitas vezes Victoria Bodeen. Viam uma mulher jovem, pequena e franzina. Viam a pele macia e as feies delicadas, uma boca sria e olhos cinzentos e lmpidos que eram frequentemente tomados por ingnuos. Um nariz pequeno, apenas ligeiramente curvado, acrescentava um toque de doura a um rosto emoldurado por cabelo castanho bem alinhado. Viam fragilidade, ouviam-na na musicalidade sulista da sua voz. E nunca viam o ao, por dentro. O ao moldado pelos inmeros golpes do cinto de Sam Browne.
    Quando queria alguma coisa trabalhava para ela, lutava por ela, com toda a garra e a determinao de um soldado na linha da frente empenhado em chegar  praia. Quisera a velha casa com o seu jardim tomado pelo crescimento excessivo das plantas e com a tinta a soltar-se das paredes, e mexera-se e agira, insistira e persistira, at adquiri-la. Os apartamentos traziam-lhe recordaes de Nova Iorque e do desastre que acabara com a sua vida, l. No haveria mais apartamentos para Tory.
    Dera tambm o seu contributo quele investimento, usando o seu tempo, o seu trabalho e as suas habilidades para reabilitar a casa, uma diviso de cada vez. Demorara trs anos inteiros, e agora a venda, a acrescer s suas economias, ia fazer o seu sonho tornar-se realidade.
    Tudo o que tinha a fazer era regressar a Progress.
     sua mesa da cozinha, Tory leu pela terceira vez o contrato de arrendamento do espao em Market Street. Perguntou-se se Mr. Harlowe, da agncia imobiliria, se lembrava dela.
    Tinha apenas dez anos quando se mudaram de Progress para Raleigh, para os pais dela arranjarem um trabalho fixo. Um trabalho melhor, argumentara o pai, do que escarafunchar num pedao de terra estafado e alugado pelos todos-poderosos Lavelle.
    Claro que tinham sido to pobres em Raleigh como em Progress. Tinham ficado apenas com menos espao.                     
    No interessava, recordou Tory a si prpria. No ia voltar a ser pobre. J no era a rapariga assustada e magricela de outrora, mas sim uma mulher de negcios que ia montar uma empresa nova na sua cidade natal.
    Ento, perguntaria a sua analista, porque tem as mos a tremer?
    Expectativa, decidiu Tory. Excitao. E nervos. Pronto, eram nervos. Os nervos eram humanos. Tinha direito a t-los. Era uma pessoa normal. Era o que quer que desejasse ser.
    - Que se dane!
    De dentes cerrados, pegou na caneta e assinou o contrato.
    Era apenas por um ano. Um ano. Se no desse certo, partiria para outra. J no seria a primeira vez. Parecia que estava sempre a partir para outra.
    Mas, desta vez, antes de partir para outra havia muito a fazer. O contrato de arrendamento era apenas uma fina camada de uma montanha de papel. As licenas para a loja que tencionava abrir estavam assinadas e seladas. Considerava o estado da Carolina do Sul um autntico ladro, mas pagara os impostos. A seguir tinha de instalar-se e tratar dos assuntos com os advogados que, pensava ela, eram piores que os ladres.
    Mas, no final do dia, teria o cheque na mo e estaria a caminho.
    As malas estavam quase feitas. No havia muito que emalar, pensou, pois vendera quase tudo o que adquirira desde que se mudara para Charleston. Viajar com pouca bagagem simplificava as coisas, e ela aprendera muito cedo que nunca, nunca devia ligar-se a uma coisa que pudesse ser-lhe retirada.
    Levantou-se, lavou a chvena, secou-a e depois embrulhou-a em jornal para acondicion-la na pequena caixa de utenslios de cozinha que achou prtico levar consigo. Da janela sobre o lava-loua observou o seu pequeno quintal.
    O pequeno ptio estava esfregado e varrido. Deixaria aos novos donos os vasos de barro com verbena e petnias brancas. Esperava que tratassem do jardim, mas se resolvessem enterr-lo debaixo de um pavimento, bem, era da conta deles.
    Deixara a sua marca ali. Podiam pintar e forrar as paredes a papel, pr alcatifa e azulejos, mas o que ela fizera estaria ali primeiro. Estaria sempre primeiro que tudo o resto.
    No se podia apagar o passado, nem mat-lo, nem desejar que ele deixasse de existir. Nem se podia afastar o presente ou mudar o que estava para vir. Estvamos todos fechados naquele ciclo de tempo, girando em torno de um centro de dias passados. Por vezes, esses dias passados eram suficientemente fortes, suficientemente voluntariosos para nos arrastarem, por mais que lutssemos contra isso.
    Conseguiria ser mais deprimente?, perguntou-se.
    Fechou a caixa, pegou-lhe para lev-la para o carro, e saiu da cozinha sem olhar para trs.
    Trs horas mais tarde, o cheque da venda da sua casa foi depositado. Apertou a mo aos novos donos, ouviu com delicadeza o seu entusiasmo estonteante por comprarem a sua primeira casa, e foi abrindo caminho at  sada.
    A casa, e as pessoas que doravante iam viver nela, j no faziam parte do seu mundo.
    - Tory, espere um minuto.
    
    Tory virou-se, com uma mo na porta do carro e o pensamento j na estrada. Mas esperou at a sua advogada acabar de atravessar o parque de estacionamento do banco. Serpentear por ele, diria, corrigiu Tory. Abigail Lawrence nunca apressava nada nem ningum, especialmente a si prpria. O que provavelmente explicava por que motivo parecia sempre acabada de sair graciosamente das pginas da Vogue.
    Para o encontro de hoje escolhera um traje azul-plido, prolas que provavelmente devia ter herdado da bisav, e saltos altos e finos que causavam cibras nos tornozelos de Tory s de olhar para eles.
    - Uff! - Abigail agitou a mo diante do rosto, como se tivesse acabado de correr trs quilometros e no andado dez metros. - Tanto calor, e ainda s estamos em abril. - Desviou o olhar de Tory para o carro e observou as caixas. - Ento, vai-se mesmo embora?
    - Parece que sim. Obrigada, Abigail, por ter tratado de tudo.
    - Foi voc que tratou da maior parte das coisas. No me lembro de ter um cliente que compreendesse metade do que eu digo, muito menos de ter um capaz de me dar lies.
    Espreitou para a parte de trs do carro, vagamente surpreendida por a vida de uma mulher ocupar to pouco espao.
    - No pensei que estivesse a falar a srio quando disse que se ia embora diretamente, hoje  tarde. Mas devia ter pensado. - Voltou a pousar o olhar no rosto de Tory. -  uma mulher sria, Victoria.
    - No tenho motivos para ficar.
    Abigail abriu a boca e depois abanou a cabea.
    - Ia dizer que a invejo. Fazer as malas, levar o que cabe no porta-bagagens do carro, e partir para um novo lugar, uma nova vida, um novo comeo. Mas a verdade  que no a invejo. Nem um pouco. Deus Todo-poderoso, a energia que uma coisa dessas requer, e a coragem! Mas voc  suficientemente jovem para ter tanto uma como a outra.
    - Talvez seja um novo comeo, mas vou regressar s minhas origens. Ainda tenho famlia em Progress.
    - Se quer saber a minha opinio, ainda  preciso mais coragem para regressar s origens do que para partir para qualquer outro lugar. Espero que seja feliz, Tory.
    - Fico bem.
    - Bem  uma coisa. - Para surpresa de Tory, Abigail pegou-lhe na mo e depois inclinou-se, depositando-lhe um beijo ao de leve na face. - Feliz  outra. Seja feliz.
    - Tenciono ser. - Tory voltou atrs. Havia qualquer coisa naquele toque das mos, qualquer coisa nos olhos preocupados de Abigail. - Voc sabia - murmurou Tory.
     - Claro que sim. - Abigail apertou ligeiramente os dedos de Tory antes de solt-los. - As notcias de Nova Iorque voam at aqui, e alguns de ns at lhes prestam ateno de vez em quando. Mudou o cabelo, o nome, mas eua  reconheci. Sou boa em memorizar rostos.
    - Porque no me disse nada? No me perguntou nada?
    - Contratou-me para tratar dos seus negcios, no para me meter onde no era chamada. Achei que se quisesse que as pessoas soubessem que era a Victoria Mooney das notcias de Nova Iorque de h uns anos atrs, teria dito.
    - Obrigada.
    A formalidade e a cautela fizeram Abigail sorrir.
    - Por amor de Deus, querida, acha que lhe vou perguntar se o meu filho vai casar ou onde diabo perdi o anel de noivado com diamantes da minha me? S estou a dizer que sei que passou por tempos difceis e que espero que conhea melhores dias. E se tiver problemas em Progress, d-me uma ligada.
    A bondade simples deixava-a sempre atrapalhada. Tory lutou desajeitadamente com a maanete da porta.
    - Obrigada. A srio. Acho melhor ir andando. Tenho que fazer vrias paradas. - Mas voltou a estender a mo. - Agradeo-lhe tudo o que fez.
    - Conduza com cuidado.
    Tory deslizou para dentro do carro e depois abriu a janela, enquanto punha o motor a trabalhar.
    - Na gaveta do meio, do arquivo do seu escritrio, entre os Ds e os Es.
    - O que  isso?
    - O anel da sua me. Fica-lhe um bocado grande, caiu e ficou entre os arquivos. Devia mand-lo ajustar  medida do seu dedo. - Tory apressou-se a fazer marcha atrs e deu a volta ao carro enquanto Abigail a seguia, piscando os olhos.
    
    Saiu de Charlston e rumou a oeste, e depois mergulhou no caminho para sul, para iniciar a planejada volta ao estado antes de aterrar em Progress. A lista de artistas e artesos que tencionava visitar estava cuidadosamente impressa e guardada na sua mala nova. A lista inclua indicaes para chegar a cada um, e isso significava entrar em vrias estradas secundrias. Levava tempo, mas era necessrio.
    J tratara das coisas com vrios artistas do Sul para exporem e venderem os seus trabalhos na loja que iria abrir em Market Street, mas precisava de mais. Comear uma coisa pequena no significava no comear bem.
    Os custos iniciais, a compra de artigos, encontrar um lugar aceitvel para viver iam levar-lhe quase todo o dinheiro que poupara. Tencionava fazer com que o investimento valesse a pena e colher lucros.
    Dali a uma semana, se tudo corresse como planejado, estaria a comear a instalar a loja. No final de maio abriria as portas. Depois, veria.
    Quanto ao resto, lidaria com as coisas  medida que elas fossem surgindo. Na altura certa tomaria o caminho longo e sombrio at Beaux Revs e enfrentaria os Lavelle.
    Enfrentaria Hope.
    
    No final da semana Tory estava exausta, vrias centenas de dlares mais pobre, graas a um radiador estragado, e pronta a pr fim s suas viagens. A substituio do radiador significou o adiamento da sua chegada a Florence at  manh seguinte e a necessidade de pernoitar no conforto duvidoso de um motel da Route 9, fora de Chester.
    O quarto tresandava a fumo bafiento, e as suas comodidades incluam uma lasca de sabo e a possibilidade de aluguel de filmes destinados a estimular os apetites sexuais da clientela que pagava os quartos  hora e impedia que o estabelecimento decretasse falncia. Havia manchas no carpete, cuja origem Tory decidiu ser melhor no procurar descobrir.
    Pagara o quarto em dinheiro, pois no lhe agradara a idia de entregar o seu carto de crdito a um empregado de olhar manhoso, que cheirava ao gin sabiamente disfarado numa caneca de caf.
    O quarto era to repulsivo como a idia de ficar atrs do volante durante mais uma hora, mas era o que havia. Tory pegou na cadeira bamba, a nica que havia, e usou-a para trancar a porta, prendendo o espaldar sob a maaneta. Achou que era to segura como a corrente fina e ferrugenta. Mesmo assim, o uso de ambas deu-lhe a iluso de segurana..
    Sabia que era um erro permitir a si prpria estar to cansada. A resistncia quebrou-se. Mas tudo conspirara contra ela. O oleiro que visitara em Greenville era temperamental e difcil de agarrar. Se no fosse o fato de ser tambm brilhante, Tory teria sado do estdio ao fim de vinte minutos, em vez de ter passado duas horas a elogi-lo, a cair-lhe nas boas graas e a convenc-lo.
    O carro demorara mais quatro horas, entre rebocar, arranjar um radiador num ferro-velho e fazer cara feia para convencer o mecnico a fazer a reparao no local.
    A acrescentar a isso, admitia que fora a sua estupidez que a levara at  By the Way Inn. Se tivesse alugado um quarto num hotel em Greenville, ou parado numa das penses perfeitamente respeitveis na estrada nacional, no andaria aos tropees num quarto malcheiroso.
    Era apenas por uma noite, recordou a si prpria, olhando para a colcha verde e suja que cobria a cama. Por uns meros trocos, oferecia os prazeres questionveis de um sistema Magic Fingers.
    Decidiu aceitar as circunstncias.
    Umas horas de sono e estaria a caminho de Florence, onde a av teria pronto o quarto de hspedes: lenis lavados, um banho quente. S tinha de aguentar aquela noite.
    Sem sequer descalar os sapatos, estendeu-se em cima da colcha e fechou os olhos.
    Corpos em movimento, empapados em suor.
    Querida, sim, querida. Isso. Com mais fora!
    Uma mulher a chorar, a dor jorrando atravs dela como lava.
    Meu Deus, meu Deus, que vou eu fazer? Para onde posso ir? Para qualquer lado, menos para trs. Por favor, fazei com que ele no me encontre.
    Pensamentos dispersos e mos hesitantes, envoltos em pnico ou devastados pela culpa.
    E se eu engravidar? A minha me mata-me. Ir doer? Ser que ele me ama realmente?
    Imagens, pensamentos, vozes inundavam-na em vagas de formas e sons.
    Deixem-me em paz, exigiu. Deixem-me em paz! Com os olhos ainda fechados, Tory imaginou um muro, grosso, alto e branco. Construiu-o tijolo a tijolo, at ele se interpor entre ela e todas as memrias que pairavam no quarto como fumo. Atrs do muro tudo era fresco, azul-claro. Havia gua para flutuar, para mergulhar. E, finalmente, para dormir.
    E bem acima daquela piscina azul, o Sol erguia-se branco e quente. Ouvia os pssaros a cantar e o movimento da gua quando passava as mos por ela. O seu corpo no tinha peso, a sua mente estava tranquila.  volta da piscina, via os carvalhos com o seu rendilhado de musgo, e um salgueiro curvado como um corteso, mergulhando a sua fronde na superfcie vtrea.
    Sorrindo para si prpria, fechou os olhos e deixou-se ir,  deriva.
    O som de risos era audvel e claro, a alegria despreocupada de uma rapariga. Preguiosamente, Tory abriu os olhos.
    
    Ali, junto ao salgueiro, Hope acenava-lhe.
    Ol, Tory! Andava  tua procura!
    A felicidade atingiu-a como uma seta certeira. Virando-se na gua, Tory acenou tambm. Anda. A gua est tima.
    Vamos ser apanhadas a mergulhar sem roupa, vamos ser castigadas. Mas, soltando gargalhadas, Hope descalou os sapatos, despiu os cales e depois a camisa. Pensei que tinhas ido embora.
    No sejas tonta. Para onde iria?
    H muito tempo que ando  tua procura. Lentamente, Hope meteu-se na gua. Magra como o salgueiro e branca como o mrmore. O cabelo espalhou-se-lhe pela superfcie, flutuando. Ouro sobre azul. Para todo o sempre.
    A gua escureceu, comeou a agitar-se. Os ramos graciosos do salgueiro fustigavam como chicotes. E a gua ficou fria, subitamente to fria que Tory comeou a tremer.
    Vem a uma tempestade.  melhor irmos para casa.
    Est por cima da minha cabea. No consigo chegar ao fundo. Tens que me ajudar. Hope emergiu por entre as guas revoltas, batendo os braos jovens e magros, lanando cortinas de gua que adquiriam o tom lgubre de um pntano.
    Tory debateu-se freneticamente, mas cada vez que Hope batia os braos ela era afastada mais e mais do stio onde a menina lutava. A gua queimava-lhe os pulmes, arrastou-a. Sentiu-se afundar, sentiu-se afogar-se com a voz de Hope dentro da sua cabea.
    Tens que vir. Tens que te apressar.
    
    Acordou no escuro, a boca tomada pelo sabor do pntano. Sem nimo nem energia para voltar a construir o seu muro, Tory levantou-se. No banheiro, passou gua ferrugenta pelo rosto e depois ergueu-o pingando at ficar frente ao espelho.
    Uns olhos toldados e ainda vtreos do sonho olharam para ela. Demasiado tarde para voltar atrs, pensou. Era sempre demasiado tarde.
    Pegou na mala e no estojo de viagem que trouxera consigo.
    A escurido era agora mais suave, e o chocolate e o refrigerante que comprara l fora, na mquina ruidosa  entrada do quarto, mantiveram-na desperta. Ligou o rdio para se distrair. No queria pensar em mais nada seno na estrada.
    Quando chegou ao corao do estado, o Sol ia alto e havia muito trnsito. Parou para reabastecer o carro sedento, antes de rumar para leste. Quando passou a estrada que conduzia ao lugar onde os seus pais se tinham reinstalado, sentiu uma cibra no estmago, que se manteve apertado durante os prximos cinquenta quilometros.
    Pensou na av, na bagagem que levava na traseira do carro e na que estava a ser expedida para Progress. Pensou no oramento que tinha para os seis meses seguintes e no trabalho que havia a fazer para ter a sua loja aberta e a funcionar no Memorial Day.[ Dia no final de maio em que so recordados os que morreram ao servio da nao. (N.T.)]
    Pensou em tudo exceto no verdadeiro motivo que a levava a regressar a Progress.
    Logo a seguir a Florence, voltou a parar e usou o banheiro de um posto da Shell para escovar o cabelo e aplicar alguma maquiagem. O artifcio no enganaria a av, mas pelo menos teria feito um esforo.
    Num impulso, voltou a parar, desta vez numa florista. Os jardins da av eram sempre um espetculo, mas a dzia de tulipas cor-de-rosa era um outro tipo de esforo. Vivia - vivera, recordou a si prpria - a apenas duas horas de caminho da av e desde o Natal que no se dava ao trabalho de fazer a viagem.
    Quando entrou na bonita rua com os seus cornisos e as suas olaias em flor, perguntou-se porqu. Era um local agradvel, o tipo de bairro onde as crianas brincavam nos quintais e os ces dormitavam  sombra. O tipo de lugar onde reinava os mexericos, onde as pessoas observavam os carros estranhos e no tiravam os olhos de casa do vizinho, tanto por considerao como por curiosidade.
    A casa de ris Mooney ficava no meio do quarteiro, irrepreensivelmente cuidada, com as velhas e enormes azleas a guardar a casa. As flores estavam j a descair um pouco, mas os rosa e os prpura desbotados acrescentavam uma cor delicada ao azul forte que a av escolhera para as paredes. Como seria de esperar, o jardim da frente estava vioso e encantador, com a relva bem aparada em volta da fonte e a pedra bem esfregada.
    Uma pickup onde se lia encanamentos a qualquer hora estava estacionada no caminho, atrs do pequeno carro da av. Tory estacionou junto  curva. A tenso que ignorara durante o caminho comeou a diminuir  medida que ela caminhava em direo  casa.
    No bateu. Nunca tinha de bater a esta porta, e sempre soubera que ela estaria sempre aberta para receb-la. Em certas alturas, essa fora a nica coisa que a impedira de soobrar.
    Ficou surpreendida por no ouvir barulho na casa. Eram quase dez horas, pensou, enquanto entrava. Esperava encontrar a av no jardim, ou de um lado para o outro dentro de casa.
    A sala estava, como sempre, apinhada de moblia, quinquilharias, livros. E, observou Tory, uma jarra com uma dzia de rosas vermelhas que faziam das suas tlipas fracas relaes pblicas. Largou a mala de viagem, a bolsa, e depois chamou, na direo do hall.
    - V? Est em casa? - Com as flores na mo, encaminhou-se na direo dos quartos e ergueu as sobrancelhas ao ouvir o movimento atrs da porta fechada do quarto da av.
    - Tory? Potinho de mel, j vou. Vai indo e... serve-te de um ch gelado.
    Encolhendo os ombros, Tory tomou a direo da cozinha, olhando para trs ao ouvir o que lhe pareceu uma gargalhada abafada.
    Pousou as flores no balco e abriu a geladeira. O jarro com o ch estava  espera, feito como ela mais gostava, com rodelas de limo e folhas de menta. A av nunca se esquecia de nada, pensou Tory, sentindo lgrimas de sentimento e fadiga incomodarem-lhe os olhos.
    Piscou-os quando ouviu os passos apressados da av.
    - Meu Deus, vieste cedo! S te esperava l para o meio-dia, ou depois! - Pequena, magra e gil, ris Mooney entrou na cozinha e abraou Tory com fora.
    - Parti cedo e no parei em lado nenhum em especial. Acordei-a? No se sente bem?
    - O qu?                                                                 
    - Ainda est de robe.
    - Ah, pois. - Aps um ltimo abrao, ris desprendeu-se de Tory. - Estou fresca como a chuva. Deixa-me olhar para ti. Oh, querida, ests esgotada.
    - S um bocadinho cansada. Mas a av... Est com um ar maravilhoso.
    Era inegavelmente verdade. Sessenta e sete anos de vida tinham-lhe marcado o rosto, mas no lhe tinham estragado a pele de magnlia nem ensombrado o cinzento profundo dos olhos. O cabelo, que fora ruivo na sua juventude, mantinha-se dessa cor. Como ris gostava de dizer, se Deus quisesse que as mulheres ficassem grisalhas, no teria inventado Miss Calirol. ris cuidava do seu aspecto e mimava-se.
    Coisa que, pensou naquele momento, no podia dizer sobre a neta.
    - Senta-te aqui. Vou arranjar-te o pequeno-almoo.
    - No se incomode, V.
    -J sabes que no ganhas nada em discutir comigo, no sabes? Senta-te. - Apontou para uma cadeira junto  mesinha de apoio. - Ora vejam, to bonitas! - Pegou nas tulipas, com a satisfao estampada nos olhos. - No h ningum mais doce do que tu, minha Tory.
    - Tive saudades suas, V. Desculpe no ter vindo visit-la.
    - Tens a tua vida, e foi isso que eu sempre quis para ti. Agora, descansa, e quando voltares a te sentir bem podes contar-me tudo sobre a tua viagem.
    - Valeu todos os quilmetros. Encontrei umas peas maravilhosas.
    - s como eu, tens bom olho para as coisas bonitas. - Piscou-lhe o olho, virando-se mesmo a tempo de ver a neta ficar de boca aberta quando viu o homem que acabara de entrar na cozinha.
    Era alto como um carvalho, com um peito largo como um Buick. O emaranhado de cabelo grisalho tinha a cor e a textura de palha de ao. Os olhos eram do castanho polido das bolotas e lnguidos como os de um basset hound. O seu rosto de couro estava bronzeado a condizer. Pigarreou de forma exagerada e depois fez um gesto com a cabea na direco de Tory.
    - Bom-dia - comeou ele, num tom arrastado, caracterstico do interior. - Ah... Miz Mooney, j lhe consertei aquele cano.
    - Cecil, deixa-te de tolices, nem sequer tens a caixa de ferramentas contigo. - ris pousou uma caixa com ovos. - No vale a pena corares - disse-lhe ela. - A minha neta no vai desmaiar por saber que a av tem um namorado. Tory, este  Cecil Axton, a razo para eu no estar vestida s dez da manh.
    - ris. - O rubor assolou-lhe o rosto, como fogo a espalhar-se pelo mato. - Prazer em conhec-la, Tory. A sua av tem estado desejosa de v-la.
    - Muito prazer. - disse Tory,  falta de qualquer coisa mais inteligente. Estendeu a mo, e como ainda estava atordoada e os sentimentos de Cecil estavam to  superfcie, teve um ligeiro vislumbre do que fizera a av rir atrs da porta do quarto.
    Afastou rapidamente a imagem quando os seus olhos encontraram os de Cecil, num desconforto mtuo.
    - ...  encanador, Mister Axton?
    - Veio consertar-me o aquecedor - interrompeu ris -, e desde essa altura que me tem mantido quente.
    
    - ris! - Cecil baixou a cabea, encolheu os ombros montanhosos, mas no conseguiu esconder o sorriso. - Tenho que ir andando. Espero que goste da visita, Tory.
    - Nem penses que te escapas sem me dares um beijo de at logo. - Para resolver o assunto, ris aproximou-se dele, pegou com ambas as mos no rosto marcado pelo tempo para baix-lo ao nvel do dela, e beijou-o firmemente na boca. - Ora a tens: no houve relmpagos nem troves, e esta criana no teve um colapso com o choque. - Voltou a beij-lo e depois fez-lhe uma festa na bochecha. - Vai l, lindo, e tem um bom dia.
    - Vou ter. Ahn... Volto logo mais.
    -  bom que voltes. Foi o que decidimos, Cecil. Agora, pira-te. Vou conversar com a Tory.
    - Vou andando. - Com um sorriso hesitante, virou-se para Tory. - Discutir com esta mulher s nos d dor de cabea. - Pegou num bon azul desbotado que estava pendurado no cabide da cozinha, p-lo sobre o seu cabelo de arame e apressou-se a sair.
    - No  um amor? Tenho aqui um belo bacon. Como queres os teus ovos?
    - Com bolachas de chocolate, V. - Tory soltou um suspiro cauteloso e levantou-se. - No tenho absolutamente nada a ver com isso, mas...
    - Claro que no tens nada a ver com isso, a no ser que eu te convide a ter, coisa que fiz. - ris ps o bacon na velha caarola em cima do trip, e deixou-o l ficar at estalar. - Vou ficar muito desapontada contigo, Tory, se estiveres chocada e estarrecida com a idia de a tua av ter uma vida sexual.
    Tory estremeceu, mas conseguiu manter a compostura no rosto quando ris se virou para ela.
    - No estou chocada, nem estarrecida, mas  claro que estou um pouco desconcertada. A idia de aparecer aqui esta manh e quase dar consigo...
    - Bem, chegaste cedo, docinho. Vou fritar estes ovos, e vamos ambas refestelar-nos com um belo pequeno-almoo cheio de gordura, a meio da manh.
    - Parece que no lhe falta apetite.
    ris pestanejou e depois virou a cabea e riu.
    - Ora a est a minha menina. Quando no sorris, fico preocupada contigo, ameixinha.
    - Que razes tenho eu para sorrir? A av  que anda a ter sexo.
    Divertida, ris coou a cabea.
    - E de quem  a culpa?
    - Sua. A av viu o Cecil primeiro. - Tory tirou dois copos do armrio e serviu o ch. Quantas mulheres, pensou, podiam gabar-se de ter uma av que tinha encontros escaldantes com o encanador? No sabia se havia de sentir-se orgulhosa ou divertida, e decidiu que a combinao de ambas as coisas se adequava  situao. - Parece ser um bom homem.
    - E . Melhor:  um homem muito bom. - Com o garfo, ris comeou a brincar com o bacon e decidiu pr tudo em pratos limpos. - Tory, ele vive aqui.
    - Vive? A av vive com ele?
    - Ele quer casar, mas no sei bem se  isso que quero. Por isso, estou a fazer o que poderia ser chamado um teste.
    - Acho que afinal me vou sentar. Meu Deus, V. Disse  me?
    - No, e no tenho inteno de dizer, porque passo bem sem um sermo sobre viver em pecado e perdio e sobre os planos de Deus Todo-Poderoso. A tua me  uma seca maior do que as estaes de servio em self-service. No percebo como uma filha minha conseguiu tornar-se num rato e no numa mulher.
    - Sobrevivncia - murmurou Tory, mas ris limitou-se a dizer em tom rspido:
    - Teria sobrevivido mais que bem se tivesse deixado o filho da me com quem casou, num dia qualquer de h vinte e cinco anos para c. A escolha foi dela, Tory. Se tivesse iniciativa, a escolha teria sido diferente. A tua foi.       
    - Foi? No sei que escolhas fiz, nem as que foram feitas por mim. No sei quais foram certas e quais foram erradas. E aqui estou eu, V, de regresso ao ponto de partida. Digo a mim prpria que agora quem manda sou eu. Que tudo depende da minha deciso. Mas no fundo sei que no consigo parar.
    - E queres parar?
    - No sei a resposta.
    - Ento, vais continuar  procura dela. Tens uma luz muito forte dentro de ti, Tory. Hs-de encontrar o teu caminho.
    - A av sempre disse isso. Mas, acima de tudo, aquilo que sempre me assustou foi sentir-me perdida.
    - Devia ter-te ajudado mais. Devia ter estado ao teu lado.
    - V. - Tory levantou-se e atravessou a cozinha para lanar os braos  volta da cintura de ris, para unir o seu rosto ao dela, enquanto o bacon estalava e frigia. - Sempre foi o nico alicerce da minha vida. No estaria aqui se no fosse a av.
    - Claro que estarias. - ris fez uma festa na mo de Tory, e depois, bruscamente, tirou o bacon da frigideira e p-lo a escorrer. - s mais forte do que todos ns juntos. E, se queres saber, acho que era isso que assustava Hannibal Bodeen. Quis quebrar-te porque tinha medo de ti. Filho da me ignorante. - Partiu um ovo na borda da frigideira e deixou-o escorregar sobre a gordura borbulhante. - Faz umas torradas para ns, docinho.
    - Ela no  nada como a av. A me - disse Tory, enquanto punha o po na torradeira. - No  nada parecida consigo.
    - No sei com quem se parece a Sarabeth. Perdi-a, h muitos anos. Na mesma altura em que perdi o teu av, acho eu. Ela tinha apenas doze anos quando ele morreu. Raios, eu prpria tinha pouco mais de trinta, e dei por mim viva, com dois filhos para criar sozinha. Foi o pior ano da minha vida. Nenhum outro se lhe assemelhou, nem de perto nem de longe. Meu Deus, eu amava aquele homem.
    Soltou um suspiro e serviu os ovos nos pratos.
    - Ele era o meu mundo, o meu Jimmy. Num minuto, o mundo estava firme, e no minuto seguinte tinha-se desmoronado. E a Sarabeth com doze anos e o J.R. tinha acabado de fazer dezesseis. Ela despejou a raiva toda em cima de mim. Talvez devesse ter encurtado as rdeas dela. Deus sabe que era o que eu devia ter feito.
    - No tem por que culpar-se a si prpria.
    - No culpo. Mas quando olhamos para trs vemos certas coisas. Vemos que quando uma coisa  feita de forma diferente  a vida inteira que muda. Se eu tivesse sado de Progress naquela altura, se tivesse usado o dinheiro do seguro do Jimmy em vez de ter arranjado emprego no banco. Se no me tivesse dedicado a poupar todos os tostes para os meus filhos poderem ir para a universidade.
    - Queria o melhor para eles.
    - Queria, sim. - ris pousou os pratos na mesa e virou-se para tirar doce e manteiga da geladeira. - O J.R. foi para a universidade e soube usar o curso que fez. A Sarabeth arranjou Hannibal Bodeen. Era assim que estava destinado. E  por isso que eu e a minha neta vamos sentar aqui e comer uns ataques de corao.[referncia ao excesso de gordura] Se pudesse voltar atrs e mudar alguma coisa, no mudaria. Porque assim no te teria.                                                           
    - Eu vou voltar, V, e sei que no posso mudar nada. - Tory pousou a torrada num prato pequeno e levou-o at  mesa. - Assusta-me, precisar tanto assim de voltar. J no conheo aquelas pessoas. Tenho medo de no conhecer a mim prpria quando l chegar.
    - No vais descansar enquanto no fizeres isto, Tory. No vais conseguir libertar-te enquanto no puseres um ponto final no assunto. Tens regressado continuamente a Progress desde que saste de l.
    - Eu sei. - E ter algum que compreendesse isso ajudava. Sorrindo um pouco, Tory serviu-se de uma fatia de bacon. - Fale-me ento do seu encanador.
    - Ah, aquela doura. - Deliciada com o assunto, ris atirou-se ao pequeno-almoo. - Parece um urso grande e velho, no parece? Olhando para ele nem se percebe como ele  inteligente. Fundou a empresa, que  dele, h mais de quarenta anos. Perdeu a mulher, que conheci vagamente, h cerca de cinco anos. Est quase aposentado. Dois dos filhos praticamente tomam conta de todo o negcio. Tem seis netos.
    - Seis?
    - Sim,   verdade.  Um at  mdico.  Um jovem muito bem-parecido. Estava a pensar...
    - No diga mais nada. - De olhos semicerrados, Tory espalhou doce na torrada. - No estou interessada.
    - Como sabes? Nem sequer conheces o rapaz.
    - No estou interessada em rapazes. Nem em homens.
    - Tory, no te envolveste com um homem desde...
    - O Jack - concluiu Tory. -  isso mesmo, e no tenciono voltar a envolver-me. Uma vez chegou. - Como o assunto ainda lhe deixava um travo amargo na boca, pegou no ch. - Nem toda a gente  feita para viver a dois, V. Sou feliz sozinha.
    Perante o erguer de sobrancelhas de ris, Tory encolheu os ombros.
    - Pronto, est bem, digamos que tenciono ser feliz sozinha. Vou esforar-me para isso.
    
    Passara demasiado tempo, pensou Tory, desde a ltima vez que se sentara num balano, num alpendre, a observar as estrelas e a ouvir o cantar dos grilos. Muito tempo desde que se sentira suficientemente descontrada para no fazer nada seno ficar sentada a cheirar a brisa.
    No momento em que pensou isto apercebeu-se de que era provvel que passasse muito tempo at voltar a sentir-se assim.
    Amanh faria os ltimos quilmetros at Progress. Ali, apanharia os cacos da sua vida e, finalmente, deixaria uma amiga morta descansar.
    Mas esta noite era de brisas suaves e pensamentos tranqilos.
    Olhou para cima, ao ouvr o chiar da porta de tela, e ofereceu um sorriso a Cecil. A av tinha razo, concluiu. Parecia mesmo um urso velho e grande. E, naquele momento. Muito nervoso tambm.
    - A ris ps-me fora da cozinha. - Tinha uma garrafa de cerveja, castanho-escura, na mo e apoiava-se nervosamente ora num p ora noutro, dentro das suas botas nmero 44. - Disse-me para vir at c fora, sentar-me um bocado e fazer-te companhia.
    - Quer que sejamos amigos. Porque no se senta um bocado? Gostaria da companhia.
    - Parece um bocado esquisito. - Sentou a sua enorme massa corporal no balano e lanou a Tory um olhar pelo canto do olho. - Sei bem o que vocs, jovens, pensam. Um velho pato-marreco como eu a cortejar uma mulher como ris.
    Ainda cheirava ao sabonete Lava que usara para se lavar antes do jantar. Sabonete Lava e cerveja Coors. Era uma agradvel combinao masculina.
    - A sua famlia no aprova?
    - Bem, agora j no se importam. A ris conquistou os meus rapazes.  aquela maneira de ser dela. Um dos filhos, o Jerry, ficou um bocado abespinhado, mas ela deu-lhe a volta. S que...
    Deteve-se e pigarreou duas vezes. Tory cruzou as mos e mordeu um sorriso que se preparava para surgir, enquanto ele se lanava naquilo que era, sem dvida, um discurso preparado.
    - s terrivelmente importante para ela, Tory. Acho que s a coisa mais importante que existe, para a ris. Tem orgulho em ti e preocupa-se contigo, e fala de ti sempre com muito orgulho. Sei que h uma divergncia entre ela e a tua me. Acho que pode dizer-se que isso te torna ainda mais especial para ela.
    - O sentimento  mtuo.
    - Eu sei. Pude ver isso ao jantar. S que... - voltou ele a dizer, e depois pegou na cerveja e bebeu-a em tragos profundos. - Ora, raios! Eu a amo. - Soltou as palavras impulsivamente e o rubor assomou-lhe s faces. - Acho que isto te parece tonto, vindo de um homem que j passa dos sessenta e cinco, mas...
    - E porque haveria de parecer? - No se sentia confortvel a tocar casualmente em quem no conhecia bem, mas ele parecia estar a precisar e ela pousou-lhe a mo no joelho. - E o que tem a idade a ver com isto? A av gosta de si. Isso me basta.
    O alvio tomou conta dele. Tory conseguiu ouvir isso no suspiro que ele soltou.
    - Nunca pensei voltar a sentir este tipo de coisas. Fui casado durante quarenta e seis anos, com uma mulher maravilhosa. Crescemos juntos,  criamos uma famlia juntos,  iniciamos um negcio juntos. Quando a perdi, achei que era o fim dessa parte da minha vida. Depois, conheci a ris e, Jesus Cristo!, ela fez-me voltar a ter vinte anos.
    - A ela, pe-lhe estrelas nos olhos.
    Ele corou mais ao ouvir isso, mas os lbios contorceram-se-lhe num sorriso tmido e deliciado.
    - Verdade? Tenho mos jeitosas. - Ao ouvir o resfolegar do riso incontrolvel de Tory, abriu desmesuradamente os olhos. - Quero dizer, tenho jeito para consertar coisas c em casa.. Coisas estragadas.
    - Eu sei o que quis dizer.
    - E a Stella, que era a minha mulher, acho que pode se dizer que me treinou bem. No passo com as botas cheias de lama num cho lavado, nem atiro as toalhas sujas para o cho. Sei cozinhar qualquer coisa, se no se for muito exigente, e tenho uma vida decente.
    A av tinha razo, pensou Tory. O homem era um doce.
    - Cecil, est pedindo a minha bno? Ele soltou o ar num sopro.
    - Tenciono casar com ela. Ela no quer ouvir falar nisso agora.  uma mula teimosa, aquela mulher. Mas eu tambm tenho a cabea dura. S queria que soubesses que no quero aproveitar-me dela, que as minhas intenes...
    - So respeitveis - concluiu Tory, maravilhosamente comovida. - Estou a torcer por si.
    - Verdade? - Voltou a recostar-se, fazendo o balano gemer. - Isso  um alvio para mim, Tory.  mesmo um alvio. Deus Todo-Poderoso, ainda bem que acabou. - Abanando a cabea, bebeu mais cerveja. - Fico com a lngua toda entaramelada.
    - Saiu-se muito bem. Cecil, faa-a feliz.
    -  essa a minha inteno. - Outra vez  vontade, pousou o brao nas costas do balano e ficou a observar o jardim de ris. - Est uma bela noite.
    - Sim, est uma bela noite.
    Dormiu profundamente e sem sonhos, na casa da av.
    
    - Gostava que ficasses mais um dia ou dois.
    - Tenho de ir-me embora.
    ris acenou com a cabea, tentando conter a emoo enquanto Tory levava a mala at ao carro.
    - Telefona, depois de estares instalada.
    - Claro que telefono.
    - E vai logo ter com o J.R., para ele e o Boots poderem ajudar-te.
    - Vou sim, e tambm vou ver a Tia Boots e o Wade. - Beijou a av em ambas as faces. - Agora, no te preocupes.
    - S que j estou com saudades. D-me as tuas mos. - Como Tory hesitasse, ris pegou simplesmente nelas. - Tem pacincia comigo, pote de mel. - Apertou-lhe as mos firmemente e os olhos enevoaram-se-lhe um pouco quando olhou para ela.
    Ela no tinha o esplendor de luz com que a neta fora dotada. Via cores e formas. O cinzento-fumo da preocupao, o rosa-luminoso do entusiasmo, o azul-bao da dor. Tudo atravessado pelo vermelho-escuro e profundo do amor.
    - Vais ficar bem. - ris apertou-lhe as mos uma ltima vez. - Estarei aqui, se precisares de mim.
    - Sempre soube isso. - Tory meteu-se no carro e respirou fundo. - No lhes diga onde estou, V.
    ris abanou a cabea, sabendo que Tory se referia aos pais.
    - No digo.
    - Adoro-a. - Manteve os olhos fixos em frente, enquanto arrancava.
    
    Os campos comearam a passar pelo carro, ondulando suavemente, cobertos pelo verde suave do que cresce na terra. Reconheceu as culturas. Soja, tabaco, algodo; as hastes delicadas cobriam o solo castanho.
    Tivera saudades dos campos cultivados.
    A terra nunca exercera em relao a ela o apelo que exercia sobre outros. Gostava de fazer umas coisas leves no jardim, de vez em quando, mas no tinha qualquer necessidade imperiosa de sentir a terra nas mos, de semear e de colher, de armazenar o que colhera.
    Ainda assim, apreciava o ciclo, a continuidade. Gostava do aspecto dos campos. Os campos bem cuidados que os homens lavravam e alimentavam passavam lado a lado com a opulncia dos carvalhos misturados com o musgo, o sumagre presente em toda a parte, os veios de gua escura que nunca poderiam ser, nunca seriam verdadeiramente domados.
    O cheiro era forte e escuro como eles. Fertilizante e gua do pntano. Mais como o perfume do Sul do que o de magnlia, pensou. Afinal, era ali o corao do Sul. Para l dos jardins formais e dos relvados profusos, o Sul era feito de colheitas e suor e das sombras secretas dos seus rios.
    Tomara estradas secundrias por causa da solido, e cada quilmetro aproximava-a mais desse corao.
    Na zona a oeste de Progress algumas das fazendas e dos campos tinham dado lugar a casas. Empreendimentos bem acabados, com jardins verdes e rega automtica. Havia sedans ltimo modelo e mini-vans nas entradas, e passeios largos e iguais. Aqui estavam os jovens casais, refletiu, na sua maioria com dois ordenados, que queriam uma casa simptica nos subrbios para criarem uma famlia.
    Eram estes os seus clientes-alvo e a principal razo para conseguir justificar a sua mudana. Os proprietrios de uma casa, com sucesso e rendimentos disponveis, gostavam de decorar o seu espao. Com a publicidade adequada e cartazes inteligentes, conseguiria cham-los  sua loja.
    E eles iriam comprar.                     
    
    Haveria algum a viver bem naquelas casas tranquilas que ela tivesse conhecido quando era criana? E que se recordasse da rapariguinha magra que chegava  escola cheia de ndoas negras? Recordar-se-iam de que por vezes ela sabia coisas que no era suposto saber?
    A memria era curta, lembrou Tory a si prpria. E, mesmo que algum se recordasse, havia de encontrar uma maneira de usar isso para promover a sua loja.
    As casas acotovelavam-se mais  medida que se aproximava dos limites da cidade, como se ansiassem por companhia. Entrou-lhe pela mente, num flash, uma imagem do extremo oposto, onde o serpentear mais estreito do rio marcava a fronteira de Progress. Na sua juventude, as casas que escorriam suavemente em direo ao vale eram pequenas e escuras, com telhados que deixavam passar a gua e carrinhos de mo ferrugentos, quase sempre em cima de blocos de cinza amassada. Um lugar onde os ces rosnavam e puxavam furiosamente pelas suas correntes. Onde as mulheres estendiam roupa encardida, enquanto as crianas se sentavam em tufos de erva, quase sempre suja.
    Alguns dos homens cultivavam a terra para terem que comer, e alguns viviam apenas de cerveja e hidromel. Quando criana estivera a um passo trmulo desse destino. E quando criana receara perder o equilbrio e afundar-se no vale onde o po era servido com o suor da exausto.
    Comeou por avistar o campanrio da igreja. A cidade ostentava quatro, ou ostentara. Mesmo assim, quase toda a gente que ela conhecia pertencia  Igreja Batista. Sentara-se, durante horas infindveis, num dos bancos duros, a ouvir, a ouvir o sermo desesperadamente, porque o pai ia fazer-lhe perguntas sobre ele,  noite, antes do jantar.
    Se ela no respondesse bem, o castigo era duro e rpido.
    Havia oito anos que no entrava em qualquer tipo de igreja.
    No penses nisso, ordenou a si prpria. Pensa no agora. Mas o agora, como o via, parecia-se muito com o dantes. Pareceu-lhe que muito pouco mudara dentro dos limites de Progress.
    Deliberadamente, virou para Lake Oak Drive, para passar pela zona residencial mais antiga da cidade. As casas eram grandes e graciosas, as rvores antigas e de folhagem abundante. O tio mudara-se para aqui alguns anos antes de ela ter sado de Progress. Com o dinheiro da mulher, dissera o pai com azedume.
    Tory no tinha autorizao para ir ali de visita, e mesmo agora sentia uma pontada de pnico e de culpa, s de passar pela velha casa de tijolo, branca e encantadora, com os seus arbustos floridos e as suas janelas resplandecentes.
    O tio devia estar a trabalhar, a gerir o banco como fizera praticamente desde sempre, segundo ela se recordava. E embora tivesse um grande afeto pela tia, Tory no estava com disposio para o aperto de mos sacudido nem para a voz sussurrante de Boots Mooney.
    Serpenteou pelas ruas, passou por casas mais pequenas e por um pequeno complexo de apartamentos que no existia dezesseis anos antes. Ergueu as sobrancelhas ao deparar em uma esquina com uma loja de convenincia, com os seus vermelhos e amarelos brilhantes, que substitura o velho drive-in de Progress.
    O liceu fora aumentado, e havia um pequeno parque, muito agradvel, logo a seguir  praa, no lugar onde outrora existira uma fila de casas geminadas a cair aos pedaos. Havia rvores novas plantadas entre os velhos troncos, e flores graciosas que se entornavam de vasos de cimento.
    Parecia tudo mais bonito, mais limpo, mais fresco do que ela se recordava. Perguntou-se at que ponto estaria tudo na mesma sob aquela nova capa de verniz.
    Quando virou para a Market, ficou ridiculamente satisfeita por ver que o Hanson's ainda estava de p, ainda ostentava o mesmo letreiro carcomido, e a sua vitrine continuava semeada de folhetos e letreiros.
    O gosto doce da infncia de Grape Nehi encheu-lhe de imediato a boca, a garganta, e f-la sorrir.
    O salo de beleza mudara de proprietrios, observou. A Lou's Beauty Shop se chamava agora Hair Today. Mas o restaurante de Market Street permanecia onde sempre estivera, e pareceu-lhe que os mesmos homens velhos, com os mesmos sobretudos, se reuniam  porta para mexericar.
    A meio do quarteiro, metido entre a Rollins Paint and Hardware e a Flower Basket estava a velha loja de tecidos. Aquela, pensou Tory enquanto estacionava junto  curva, ia ser a sua mudana.
    Saiu do carro para o calor espesso do meio-dia. O exterior do edifcio estava exatamente como ela se lembrava. Os velhos tijolos cozidos mantinham-se unidos entre si pela argamassa cinzenta como fumo. A vitrine era alta e larga e estava coberta de p e sujidade da rua. Mas ela iria tratar disso.                     
    A porta tambm era de vidro, que estava quebrado. O senhorio, decidiu enquanto pegava no seu bloco-notas, trataria disso.
    
    Iria pr um banco  porta, o banco estreito com as costas em ferro forjado, que despachara. E, ao lado do banco, vasos cheios de petnias prpura e brancas. Flores simpticas.
    Na vitrine, por cima do banco, mandaria gravar o nome da loja. CONFORTO DO SUL
    Seria isso que ofereceria  sua clientela. Ambientes confortveis, onde os artigos estariam expostos com estilo e com o preo discretamente marcado na etiqueta.
    Em pensamento j estava no interior da loja, a encher prateleiras, a dispor mesas e candeeiros. S ouviu chamarem-na pelo nome quando algum a arrebatou do cho.
    O sangue subiu-lhe  cabea, ressoando nela enquanto a sua pulsao subia at ao nvel de pnico.
    - Tory! Vi logo que eras tu! Tenho andado de olho na tua chegada, nestes ltimos dias.
    - Wade. - O nome dele saiu numa espcie de silvo.
    - Assustei-te. - Imediatamente constrangido, voltou a pous-la no cho. - Desculpa. Estou to contente por ver-te!
    - Deixa-me recuperar o flego.
    - Recupera, enquanto eu olho para ti. Raios, passaram mesmo dois anos? Ests com um ar maravilhoso.
    - Estou? - Era agradvel ouvir isso, embora no acreditasse nem por um instante no que ouvia. Puxou o cabelo para trs, enquanto a pulsao se recompunha.   
    Embora ele no chegasse a ter um metro e oitenta, ela teve de inclinar a cabea para trs para lhe observar o rosto. Sempre fora bonito, recordou, mas imaginou que ele estivesse aliviado por o tempo ter passado um pouco pelo rosto angelical da sua juventude. Os olhos dele eram de um chocolate profundo e tranquilo. O rosto tinha agora traos mais acentuados do que na juventude, mas continuava a ter covinhas nas faces. O cabelo, um pouco mais claro do que o dela, estava bem aparado, para contrariar a tendncia para encaracolar.
    Trazia vestidas umas calas de brim e uma camisa simples de algodo, de um azul-desbotado. Enquanto ela o estudava, os lbios dele curvaram-se subitamente.
    Tinha um ar jovem, bonito e tranquilamente prspero, decidiu ela.
    - Se eu estou com um ar maravilhoso, no tenho palavras para descrever o teu. Reuniste tudo o que h de bonito na famlia, primo Wade.
    Ele esboou um sorriso ao ouvir aquilo, rpido e arrapazado, mas resistiu a voltar a abra-la. Sabia que Tory sempre fora avessa a abraos e festas. Limitou-se a passar-lhe brevemente a mo pelo cabelo.
    - Ainda bem que voltaste.
    - No podia ter arranjado melhor comisso de boas-vindas. - Fez um gesto largo. - A cidade est com bom ar. Igual, em muitos aspectos, mas melhor. Mais alinhada, acho eu.
    -  o progresso em Progress - disse ele. - Devemos muito disto aos Lavelle,  cmara municipal e, em particular, ao presidente dos ltimos cinco anos. Lembras-te do Dwight? Dwight Frazier?
    - Dwight, o Marro, um dos Trs Magnficos, formados por ti, por ele e pelo Cade Lavelle.
    - O Marro saiu-se bem no liceu, tornou-se uma estrela do atletismo, nas corridas, casou com a rainha do curso, meteu-se no negcio de construo do pai e ajudou a transformar Progress. Hoje, somos todos cidados de carter.
    Ao ver-se ali, com o trnsito a passar na rua atrs dele, a ouvir o ritmo familiar da sua voz, ocorreu-lhe por que motivo ele fora sempre objeto do seu afeto.
    - Tens saudades da confuso, no tens, Wade?
    - Um bocado. Ouve, tenho uma consulta a seguir. Tenho de convencer um dinamarqus enorme, chamado Igor, de que precisa de uma vacina contra a raiva.
    - Antes tu do que eu, doutor Mooney.
    - O meu consultrio fica do outro lado da rua, no final do quarteiro. Vem comigo e ofereo-te um ch gelado.
    - Gostava muito, mas preciso de passar pela imobiliria, para ver o que tm para mim. - Notou o brilho nos olhos dele e inclinou a cabea. - Que foi?
    - No sei o que achas disso, mas a tua antiga casa est vaga.
    - A casa? - Instintivamente, cruzou os braos e agarrou os cotovelos. O destino, pensou, tinha um brao to comprido e to traioeiro. - Tambm no sei o que acho disso. Acho que devia descobrir.
    Numa cidade com menos de seis mil habitantes era difcil andar dois quarteires sem dar com algum conhecido. No importava se se tinha estado fora dezesseis anos ou setenta. Quando entrou no escritrio da imobiliria viu apenas uma pessoa sentada  escrivaninha.
    A mulher era bonita, pequena e bem tratada. O cabelo comprido e louro estava preso atrs, afastado de um rosto em forma de corao, dominado por olhos grandes, azul-beb.
    - Tarde. - A mulher pestanejou e largou um romance em edio de bolso, com um pirata de peito nu no meio da capa. - Posso ajud-la?
    Tory vislumbrou uma imagem rpida do recreio na escola primria de Progress. Um grupo de meninas a gritar, amedrontadas e ofendidas, e a fugir. E o olhar complacente, satisfeito, nos olhos grandes e azuis da lder, que lanava um sorriso de escrnio por cima do ombro, enquanto o seu longo cabelo louro voava atrs dela.
    - Lissy Harlowe.
    Lissy inclinou a cabea.
    - Conheo-a? Bem, peo desculpa, no... - Os olhos azuis abriram-se mais. - Tory? Tory Bodeen? Por amor de Deus! - Deu um gritinho agudo e ps-se de p, de um salto. Parecia estar grvida de uns seis meses, a avaliar pelo volume sob a camisa rosa-plido. - O pai disse que chegavas esta semana.
    Apesar do passo automtico que Tory deu atrs, Lissy apressou-se a dar a volta  escrivaninha para abraar aquela que parecia ser uma amiga querida, que no via h muito.
    - Isto  to excitante. - Recuou um pouco, irradiando alegria e boas-vindas. - Tory Bodeen regressa a Progress, passado todo este tempo. E ests muito bonita.
    - Obrigada. - Tory viu os olhos de Lissy avaliarem, medirem e depois luzirem de satisfao. No havia dvida sobre quem se tinha sado melhor. - Ests na mesma. Mas sempre foste a rapariga mais bonita de Progress.
    - Ora, que tontice. - Lissy agitou a mo, mas no conseguiu deixar de sentir-se um pouco lisonjeada. - Agora, senta-te e deixa-me ir buscar-te uma bebida fresca.
    - No, no te incomodes. Eu estou bem. O teu pai conseguiu o contrato de arrendamento?
    - Acho que ele disse que sim. Toda a cidade fala na tua loja. Estou ansiosa pela abertura. No se encontram coisas bonitas em Progress. - Voltou a sentar-se  escrivaninha, enquanto falava. - E Deus sabe que no se pode ir a Charleston sempre que se quer alguma coisa com um pouco de estilo.
    -  bom saber isso. - Tory sentou-se e encontrou ao nvel dos olhos a placa que identificava Lissy Frazier. - Frazier? Dwight? Casaste com o Dwight?
    - Cinco anos felizes. Temos um filho. O meu Luke  uma coisinha fofa. - Pegou numa fotografia emoldurada, para mostrar um garoto de olhos vivos e de cabelos louros esbranquiados. - E estamos  espera de um irmozinho ou de uma irmzinha para o final do Vero.
    Acariciou com satisfao a sua barriga proeminente e mexeu os dedos de modo a que a aliana e o anel de noivado refletissem a luz e os diamantes disparassem fogo.
    - Tu no casaste, querida?
    Havia veneno suficiente na pergunta para Tory saber que Lissy ainda gostava de ser a melhor.
    - No.
    - Admiro as mulheres que apostam na carreira, tanto que nem tenho palavras. So todas to corajosas e inteligentes! Deixam envergonhadas a todas ns que no samos de casa. - Quando Tory ergueu uma sobrancelha, olhando para a escrivaninha e a placa com o nome, Lissy riu e voltou a agitar a mo. - Oh, s venho algumas vezes por semana, para ajudar o papai. Quando o beb nascer, sei que no vou ter tempo nem energia.
    E iria, pensou Lissy, enlouquecer rpida e no muito calmamente em casa, com dois filhos. Mas lidaria com isso, e com Dwight, quando chegasse a altura.
    - Agora, conta-me tudo o que tens feito.
    - Gostava muito de conversar, Lissy. - Se me puxasses a lngua e ma enrolasses  volta do pescoo. - Mas preciso de instalar-me.
    - Oh, que tonta sou. Deves estar exausta e pronta para te deixares cair num sof. - O sorriso forado disse a Tory que se no estava com ar disso, Lissy pensava certamente que sim. - Havemos de ter uma bela conversa para pr a escrita em dia, quando descansares.
    - Mal posso esperar. - Lembra-te, disse Tory a si prpria, este  exatamente o tipo de cliente de que precisas. - Encontrei o Wade, h uns minutos. Disse que a casa, a minha antiga casa, deve estar para alugar.
    -  claro que est! Os caseiros dos Lavelle mudaram-se h umas semanas. Mas, querida, no queres viver ali, pois no? Temos uns bons apartamentos aqui, na cidade. River Terrace tem tudo o que uma moa solteira pode desejar, incluindo homens solteiros - acrescentou ela, com uma piscadela de olho matreira. - Equipamentos modernos, alcacarpetados. Temos um com jardim, que  um encanto.
    - No estou interessada num apartamento. Gostava de ficar no campo. Quanto  o aluguel?
    
    - Vou ver. - Ela sabia, claro. A mente de Lissy era muito mais afiada do que as pessoas pensavam. Mudou a posio da cadeira e brincou um pouco com o teclado do computador. - Juro que nunca hei de entender como estas coisas funcionam. Sabes que so dois quartos e um banheiro.
    - Sim, sei.
    Procurando na tela, Lissy anotou rapidamente o aluguel mensal.
    - Fica a uns bons quinze, vinte minutos da cidade, de carro. Aquele apartamento amoroso de que estava a falar-te no fica a mais de dez minutos a p, num dia bonito.
    - Fico com a casa.
    Lissy olhou para cima e pestanejou.
    - Ficas? No queres passar por l e veres como est, primeiro?
    - J vi. Vou passar um cheque. O aluguel do primeiro e do ltimo ms?
    - Sim. - Lissy encolheu os ombros. - Vou imprimir o contrato de aluguel.
    Menos de trinta segundos depois de Tory ter assinado o contrato e sado com a chave na mo, j Lissy estava ao telefone, a espalhar a novidade.
    Tambm isto tinha mudado. A casa estava como sempre estivera, um pouco recuada em relao a um carreiro estreito e lamacento e a pouca distncia do pntano. Os campos estendiam-se a oeste, com os tenros rebentos de algodo j a sair da terra, como filas de crianas dceis. Mas algum plantara azleas rosa e brancas e uma jovem magnlia perto da janela do quarto.
    Lembrava-se de os caixilhos terem ficado ferrugentos e a pintura branca se ter tornado cinzenta. Mas algum cuidara de tudo. As janelas reluziam e a tinta era de um azul fresco e suave. Fora acrescentado um alpendre, suficientemente grande para a cadeira de balano que estava junto  porta.
    Era quase acolhedora.
    O pulso acelerou-se-lhe enquanto ela se aproximava. Haveria fantasmas, mas fora pelos fantasmas que ela regressara. No seria melhor enfrent-los a todos?
    As chaves tiniram-lhe na mo.
    A porta de tela rangeu. Disse a si prpria que era um som acolhedor. Uma porta de tela acolhedora devia ranger, e devia bater.
    Mantendo-a aberta com o brao, meteu a chave na fechadura e deu-lhe uma volta. Respirou fundo antes de entrar.
    
    Viu o sof coado, com as suas rosas desbotadas, o velho televisor, o tapete carcomido. Paredes amarelas, montonas, sem quadros a alegrar o espao. O cheiro a vegetais demasiado cozidos e a Lysol.
    Tory! Vem c e vai lavar-te imediatamente. No te disse que queria esta mesa posta para o jantar antes de o teu pai chegar a casa?
    Depois, a imagem desvaneceu-se e ela encontrou-se num quarto vazio. As paredes estavam pintadas de creme, uma cor simples mas prtica. O cho estava nu, mas limpo. O ar transportava um vago aroma a tinta e a verniz, mais funcional do que ofensivo.
    Vagueou pela cozinha. As bancadas tinham sido substitudas por umas de pedra cinzenta, neutra, e os armrios estavam pintados de branco. O fogo era novo - ou mais novo do que aquele diante do qual a me suara. A janela por cima do lava-loua dava para o pntano, como sempre dera. Luxuriante e verde e secreto.
    Ganhando coragem, virou-se e encaminhou-se para o seu antigo quarto.
    Fora assim sempre to pequeno?, perguntou-se. Quase no dava para albergar um gato, embora tivesse sido suficientemente grande para ela. A cama estava perto da janela. Tinha uma pequena cmoda, cujas gavetas inchavam e ficavam emperradas todos os veres. Escondia livros na de baixo, pois o pai no aprovava que ela lesse alguma coisa que no fosse a Bblia.
    Havia recordaes boas misturadas com ms, neste quarto. De ler  noite, no quarto, em segredo, de sonhar sonhos privados, de planejar aventuras com Hope.
    E, claro, das surras.
    Ningum voltaria a pr-lhe as mos em cima, nunca mais.
    Daria um escritrio agradvel, decidiu. Uma escrivaninha, um arquivo, talvez uma cadeira de leitura e um candeeiro. Servia.
    Dormiria no antigo quarto dos pais. Sim, dormiria ali e o transformaria no seu quarto.
    Fez meno de sair, mas no conseguiu resistir. Mansamente, abriu a porta do armrio. Ali, o fantasma de si prpria estava enrolado no escuro, o rosto cheio de lgrimas. Chorara as lgrimas de uma vida inteira antes de fazer oito anos.
    Acocorando-se, passou os dedos pelo rodap, e os dedos tremeram-lhe ao sentir o ligeiro relevo. Com os olhos fechados, leu as cartas com as pontas dos dedos, como um cego que l Braille.
    SOU A TORY
    -  verdade.  verdade. Sou a Tory. Ningum pode tirar-me isso, nem  pancada. Sou a Tory. E estou de volta.
    
    Ps-se de p, pouco firme. Ar, pensou. Precisava de ar. Nunca havia ar no armrio, nem luz. As palmas das mos comearam a transpirar-lhe, enquanto ela recuava.
    Virou-se, preparando-se para sair do quarto a correr, para fugir da casa. Mas uma sombra furtiva aproximou-se, do lado de l da porta de tela. O sol da tarde incidia sobre ela, vindo de trs, desenhando a forma de um homem.
    Quando a porta se abriu e rangeu, ela voltou a ter oito anos. Sozinha, indefesa. Aterrorizada.
    A sombra disse o nome dela. Por extenso, Victoria, derramado como um nctar sado de uma garrafa aquecida.
    Apeteceu-lhe fugir, e sentiu-se envergonhada e surpreendida ao descobrir que ainda havia dentro dela muito daquele coelho que procurava desaparecer desastradamente, num buraco qualquer, ao primeiro estalar de um ramo qualquer. Os fantasmas da casa rodeavam-na, murmurando-lhe censuras ao ouvido.
    J fugira. Mais do que uma vez. Isso nunca a salvara.
    Ficou onde estava, sem se mexer. O pnico subiu-lhe do estmago at  garganta, numa onda de nusea, quando a porta se abriu com um estalido.
    - Assustei-te. Desculpa. - A voz dele era suave, naquele tom que um homem usa para tranquilizar algum ferido ou para fazer um jogo de seduo. - Vim ver se precisavas de alguma coisa.
    Manteve-se  entrada, em contraluz, o que lhe deixava os traos indefinidos. Os pensamentos giravam em turbilho na cabea dela, suavizando-se  medida que caam uns sobre os outros.
    - Como sabias que eu estava aqui?
    - Ests fora h tanto tempo que j no sabes que em Progress as novidades correm depressa?
    Havia um sorriso na voz dele, na inteno de p-la  vontade, pensou ela. Isso significava que o seu medo transparecia e fazia dela um alvo fcil. Com isso, pelo menos com isso, ela podia acabar. Entrelaou as mos.
    - Com quem estou a falar?
    - O som que ests a ouvir  o meu ego a desfazer-se aos pedaos. Mesmo depois destes anos todos, conseguiria reconhecer-te no meio de uma multido. Sou o Cade - disse ele, e aproximou-se um pouco. - Kincade Lavelle.
    Saiu da luz forte, que mergulhou atrs dele num jogo de sol e sombra. Todos os vestgios de medo se dissiparam, e ela viu-o claramente.
    Kincade Lavelle, irmo de Hope. T-lo-ia reconhecido? No, achava que no. O rapaz de quem se recordava tinha um corpo magro e um rosto suave. A compleio deste homem era esguia, mas revelava fora nos msculos que sobressaam debaixo das mangas enroladas da camisa. E embora ele sorrisse francamente, no havia qualquer suavidade nos ossos ou nas feies do seu rosto.
    Tinha o cabelo mais escuro, cor de avel, com as pontas encaracoladas aclaradas pelo sol. Sempre gostara de andar ao ar livre. Recordava-se disso. Recordava-se de o ter visto algumas vezes a passear pelos campos com o pai, com uma espcie de orgulho que advinha de ser dono da terra que pisava.
    Os olhos, pensou ela. Talvez tivesse reconhecido os olhos. Aquele azul profundo de vero, como os de Hope. O sol deixara ali tambm a sua marca, nas linhas que convergiam nos cantos dos olhos. O tipo de marca que conferia carter aos homens e desesperava as mulheres.
    Aqueles olhos observavam-na agora, com uma espcie de pacincia indolente que a teria embaraado se a sua pulsao estivesse regular.
    - Passou muito tempo - foi o melhor que conseguiu dizer.
    - Quase metade da minha vida. - No lhe estendeu a mo. O instinto disse-lhe que ela daria um salto para trs e que ambos ficariam embaraados. Ela parecia pronta a dar um pulo ou a ter um colapso. No lhe apetecia nada disso. Assim, enfiou os polegares nos bolsos da frente das calas de brim.
    - Porque no vens at ao alpendre, para te sentares? Parece que a velha cadeira de balano  a nica cadeira que temos, de momento.
    - Estou bem. Eu estou bem.
    Na verdade estava branca como cal, com aqueles olhos cinzentos que sempre o tinham fascinado muito abertos e brilhantes. O fato de ter crescido numa famlia largamente dominada por mulheres ensinara-lhe a lidar com o orgulho e com os estados de esprito femininos sem grandes complicaes e com um mnimo de dispndio de energia. Limitou-se a virar-se e abrir a porta de tela.
    - Est abafado, aqui dentro - disse ele, saindo para o alpendre e mantendo a porta aberta, num gesto de boas maneiras, fazendo-lhe sinal para que o seguisse.
    Com pouca alternativa, ela atravessou a sala e saiu tambm para o alpendre. Ele sentiu o perfume dela e pensou no jasmim que preferia florir  noite, quase em segredo, no jardim da sua me.
    - Deve ser uma experincia e tanto. - Tocou-a de leve, para gui-la at  cadeira. - Voltar aqui.
    Ela no saltou, mas afastou a mo dele, num gesto ligeiro mas deliberado.
    - Precisava de um lugar para viver, e queria instalar-me rapidamente. - Os msculos do estmago recusavam-se a relaxar. No gostava de falar assim com os homens. Nunca se sabia com segurana o que estava por detrs das palavras e dos sorrisos fceis.
    - H uns tempos que vives em Charleston. A vida  muito mais calma aqui.
    - Eu quero calma.
    Ele encostou-se ao varandim. Havia ali uma espcie de aresta viva, pensou. Por mais delicada que ela parecesse, havia aquela aresta viva, como um grito pronto a soltar-se. Estranho, apercebeu-se que era exatamente disso que mais se lembrava nela.
    A delicadeza dela, como a parte cortante de um bisturi.
    - Fala-se muito sobre a tua loja.
    - Ainda bem. - Ela sorriu, apenas uma ligeira curva dos lbios, mas os olhos permaneceram srios e observadores. - Isso significa curiosidade, e a curiosidade vai fazer com que as pessoas apaream.
    - Tinhas alguma loja em Charleston?
    - Era gerente de uma. Mas ser dona de uma  diferente.
    - Pois . - Beaux Revs era seu, agora, e ser dono de alguma coisa era, de fato, diferente. Olhou para trs, na direo dos campos onde as plantas jovens e os rebentos procuravam a luz do Sol. - Qual  a sensao, Tory? Depois de todo este tempo e esta distncia?
    - A mesma. - No olhava para os campos, mas sim para ele. - E, ao mesmo tempo, completamente diferente.
    - Estava a pensar nisso sobre ti. Cresceste. - Olhou para ela, e viu-a cravar os dedos nos braos da cadeira, como que para manter o equilbrio. - Cresceste  medida dos teus olhos. Sempre tiveste olhos de mulher. Quando eu tinha doze anos, metiam-me medo.
    Foi necessria toda a sua fora de vontade e o orgulho em que se alicerara para aguentar o olhar dele.
    - Quando tinhas doze anos estavas demasiado ocupado a correr por a com o meu primo Wade e com o Dwight Mar..., o Dwight Frazier, para reparares em mim.
    - A  que te enganas. Quando eu tinha doze anos - disse ele devagar - houve uma altura em que reparava em tudo o que havia em ti. Ainda tenho essa imagem tua na cabea. Porque no paramos de fingir que ela no est aqui, neste preciso momento?
    Tory levantou-se de repente, avanou at ao outro extremo do alpendre e ficou ali, de braos cruzados sobre o peito, a observar os campos.
    - Ambos a amvamos - disse Cade. - Ambos a perdemos. E nenhum de ns a esqueceu.
    Sentiu um peso no peito, como se algum a esmurrasse.
    - No posso ajudar-te.
    - No estou a pedir-te ajuda.
    - Ests a pedir o qu, ento?
    Confuso, mudou de posio e depois voltou a deter-se, para a estudar de perfil. Ela se fechara, pensou. A pequena fresta que se abrira voltara a se fechar.
    - No estou a pedir nada, Tory.  isso que esperas de toda a gente?
    Ela sentia-se mais forte, agora, de p, e virou-se, olhando-o com firmeza:
    - Sim.
    Um pssaro voou como uma seta por detrs dele, um flash cinzento e breve que encontrou poleiro numa das rvores que delimitavam o pntano. E ali, segundo pareceu a Tory, cantou o que lhe ia no corao horas a fio, antes de Cade voltar a falar.
    Tinha esquecido isto?, perguntou-se. As pausas longas e confortveis, o ritmo paciente das conversas do campo?
    -  pena - disse ele, quando o sangue dela comeou a pulsar no silncio. - Mas no quero nada de ti, exceto talvez uma palavra amiga de vez em quando. A verdade  que a Hope significava muito para ns dois. Perd-la teve um grande impacto na minha vida. No quero chamar mentirosa a uma senhora, mas se me olhasses nos olhos e me dissesses que isso no afetou a tua, no poderia deixar de faz-lo.
    - Que te importa aquilo que sinto? - Apeteceu-lhe esfregar os braos, para aquec-los, mas resistiu. - No nos conhecemos. Nunca nos conhecemos realmente.
    - Conhecamos a ela. Talvez o teu regresso remexa as coisas e as faa voltar  tona, outra vez. A culpa no  tua, as coisas so apenas como so.
    - Isto  uma visita de boas-vindas ou um aviso para me manter  distncia?
    Por um momento ele no disse nada, e depois abanou a cabea. O humor regressou-lhe aos olhos, iluminando-os mais rapidamente do que  sua voz.
    - No h dvida de que cresceste e te tornaste irritadia. Para comear, no tenho por hbito pedir s mulheres bonitas que se mantenham  distncia. Eu  que sofreria com isso, no era?
    Ela no sorriu, mas ele sim, e desta vez deu um passo na direco dela, aproximando-se deliberadamente. Talvez o movimento, ou o som das botas de trabalho na madeira, fez o pssaro embrenhar-se mais no pntano e silenciou a cano.
    - Por tua vez, podes sempre dizer-me que me mantenha  distncia, mas  pouco provvel que te d ouvidos. Voltei para te dar as boas-vindas, Tory, e para te ver. Tenho direito  minha curiosidade. E ver-te traz de volta um pouco daquele vero.  uma coisa natural. Vai traz-lo de volta a outras pessoas, tambm. J devias saber isso quando decidiste vir.
    - Vim por minha causa.
     por isso que tens um ar doente, cansado e assustado?, perguntou-se ele.
    - Ento, s bem-vinda a casa.
    Estendeu-lhe a mo. Ela hesitou, mas ao mesmo tempo que lhe pareceu um desafio, pareceu-lhe tambm um gesto sincero. Quando a mo dela tocou a dele, sentiu-a mais quente e mais firme do que esperara. Assim como sentiu a ligao, uma espcie de clique interno, suave, inesperado. E indesejado.
    - Desculpa se te pareo desagradvel. - Libertou a mo. - Mas tenho muito que fazer. Preciso de comear.
    - Se eu puder fazer alguma coisa, diz-me.
    - Obrigada. Ah... arranjaste bem a casa.
    -  uma boa casa. - Mas ele manteve o olhar fixo nela, quando ela falou. - Fica num bom stio. Vou deixar-te trabalhar - acrescentou, e comeou a descer os degraus. Parou junto a uma pickup com ar maltratado, que precisava desesperadamente de uma lavagem. - Tory? Sabes, aquela imagem tua que fixei na minha cabea? - Abriu a porta da camioneta e uma ligeira brisa passou-lhe pelos cabelos iluminados pelo sol. - Tenho uma melhor, agora.
    Arrancou, mantendo-a enquadrada no retrovisor at fazer a curva e sair da terra para o asfalto.
    No pensara em falar em Hope, no para j. Como dono de Beaux Revs, como senhorio dela, como conhecimento de infncia, disse a si mesmo que era uma mera visita de cortesia, por dever. Mas no conseguira enganar-se a si prprio, e no conseguira enganar Tory, obviamente.
    A curiosidade fizera-o rumar de imediato ao que toda a gente por ali chamava a Casa do Pntano, quando tinha uma dzia de assuntos urgentes a tratar. Fora criado para dirigir a fazenda, mas dirigia-a  sua maneira. E essa maneira no agradava a toda a gente.
    Aprendera a ser poltico e diplomata. Aprendera a desempenhar qualquer papel que lhe fosse pedido, desde que conseguisse o que queria.
    Perguntou-se que papel teria de desempenhar com Tory.
    Quer ela estivesse pronta a admiti-lo, quer no, o seu regresso alterava todos os equilbrios. Ela era a pedrada no charco, e a agitao formada por essa pedrada ia ser grande.
    No estava bem certo do que fazer com ela, do que queria fazer com ela. Mas era um homem da terra, e os homens que viviam da terra e das sementeiras e do tempo sabiam esperar.
    Num impulso, estacionou a camioneta junto ao acostamento. No tinha nada que fazer aquele tipo de desvios, quando todas as suas responsabilidades estavam em Beaux Revs. As novas colheitas estavam a nascer, e quando as plantas cresciam tambm cresciam as ervas daninhas. Tinha de supervisionar as culturas. Este era um ano decisivo para os planos que fizera. Queria vigiar tudo de perto e em todas as etapas.
    Mesmo assim, saiu, atravessou a pequena ponte de madeira e entrou no pntano.
    Ali o mundo era verde e rico e vivo. Os caminhos tinham sido limpos, e ao longo deles, alinhadas como num parque, cresciam azleas impressionante e teimosamente floridas. Entre as magnlias e as rvores de borracha havia tufos de flores silvestres, pequenos outeiros e arbustos de folhagem persistente. J no era o mundo excitante e ligeiramente perigoso da sua juventude.
    Agora era um altar em honra de uma criana perdida.
    Fora o seu pai que fizera aquilo. Movido pela dor, pelo orgulho, talvez mesmo pela raiva que nunca mostrara. Mas Cade sabia que essa raiva vivera dentro dele, como um cncer. Crescendo e espalhando-se em segredo e em silncio, aqueles tumores de raiva e de desespero.
    A dor fora tratada como uma doena, dentro dos muros de Beaux Revs.
    E aqui, pensou ele, fora transformada em flores.
    Os lrios iriam danar no vero, num desfile colorido, e os delicados ris amarelos que gostavam de ter os ps molhados, estavam j a florir nas sombras da primavera, como pequenos raios de sol. A erva mantinha-se afastada. Embora voltasse a crescer rapidamente, enquanto o seu pai vivera houvera mos para voltar a cort-la. Agora, essa responsabilidade cabia tambm a Cade.
    Havia um pequeno banco de pedra na clareira onde Hope fizera a fogueira na ltima noite da sua vida. Havia mais uma ponte sobre a gua castanho-tabaco assombrada por ciprestes, bordejada por fetos espessos e encaracolados e rododendros de flores do mais puro branco. Camlias e amores-perfeitos trariam flores e aromas ao inverno, quando desabrochassem.
    E entre o banco e a ponte, no meio de um lago cheio de flores cor-de-rosa e azuis, havia uma esttua de mrmore que parecia de uma jovem sorridente, que teria oito anos para sempre.
    Tinham-na enterrado dezoito anos antes, num outeiro ensolarado. Mas era ali, nas sombras verdes e nos aromas selvagens, que vivia o esprito de Hope.
    Cade sentou-se no banco, com as mos entre os joelhos. Desde a morte do pai, oito anos antes, que ningum se sentava ali, pelo menos ningum da famlia.
    Quanto  me, este lugar deixou de existir no momento em que encontraram Hope. Violada, estrangulada, e depois deixada ao abandono como uma boneca velha.
    Cade perguntou-se, como fizera vezes sem conta ao longo daquele comprido mar de anos, se a sua mente retivera tudo o que lhe fora feito.
    Recostou-se e fechou os olhos. Mentira a Tory, admitia agora. Queria, de fato, qualquer coisa dela, Queria respostas. Respostas pelas quais esperara mais de metade da sua vida.
    Demorou cinco minutos preciosos a acalmar-se. Estranho s agora ter reparado o quanto o enervara voltar a v-la. Ela tinha razo ao dizer que ele mal lhe prestava ateno quando eram crianas. Ela era a garota Bodeen com quem a irm andava, e um rapaz de doze anos no se dava ao trabalho de lhe prestar ateno.
    
    At quela manh, aquela manh terrvel de agosto, quando ela chegara  sua porta com a cara ferida e cheia de ndoas negras e os olhos aterrorizados. A partir daquele momento, no havia nada nela em que ele no reparasse. Nada que ele tivesse esquecido.
    Empenhara-se em saber tudo o que havia a saber sobre onde ela fora, o que fizera, em quem se tornara muito depois de ter deixado Progress.
    Soubera praticamente o momento exato em que ela comeara a fazer planos para regressar.
    E, ainda assim, no estava preparado para v-la naquela diviso vazia, to plida que os seus olhos sobressaam como lagos de fumo.
    Ambos precisavam de tempo, decidiu Cade enquanto se punha de p. Depois, tratariam de Hope.
    Voltou  camioneta e arrancou, para passar os olhos pelas suas colheitas e pelos seus trabalhadores.
    Tinha calor, estava transpirado e sujo quando entrou no caminho entre os pilares de pedra que guardavam o caminho comprido e sombreado at Beaux Revs. Vinte carvalhos, dez de cada lado, flanqueavam a estrada e arqueavam-se sobre ela, formando um tnel verde e dourado. Entre os seus troncos grossos podia ver os arbustos em flor, a grande extenso relvada, o serpentear de um caminho de ladrilho que conduzia ao jardim e aos anexos.
    Quando estava cansado, como agora, esta extenso nunca deixava de lhe abrir os braos, aliviando-lhe a fadiga como uma mo apaziguadora. Na seca e na guerra, na destruio de uma parte da sua vida e na construo de outra, Beaux Revs estava ali, firme.
    A terra estava nas mos dos Lavelle havia mais de duzentos anos. Eles tinham-na preparado, alimentado, abusado dela e amaldioado, mas ela sobrevivia. Enterrava-os e dava-lhes vida.
    E agora era dele.
    Talvez a casa fosse uma enorme excentricidade no centro da elegncia, mais fortaleza do que casa, mais desafiadora do que graciosa. A pedra refletia a luz fraca do sol. As torres erguiam-se arrogantemente contra um cu que era agora da cor de uma ndoa negra acabada de fazer.
    Havia um enorme canteiro de flores oval, no meio da rotunda que encimava o caminho. Cade sempre pensara que se tratava da tentativa, por parte de algum antepassado distante, de suavizar as linhas arrogantemente masculinas. Em vez disso, o mar de flores e de arbustos fazia um ntido contraste com as portas grandiosas e macias da entrada, em carvalho trabalhado em relevos, e a rigidez das janelas.
    Deixou a camioneta na curva mais distante do caminho e subiu os seis degraus de pedra. O alpendre fora acrescentado pelo seu bisav. Um toque de simpatia, pensou Cade, com a sombra lanada pelo telheiro e as clemtides trepando de ambos os lados. Podia sentar-se, se quisesse, como os membros da sua famlia tinham feito durante geraes, e observar a relva e as rvores e as flores, sem estragar a vista com o trabalho dos campos, rduo e empapado em suor.
    Razo pela qual raramente se sentava ali.
    Raspou a terra das botas. Para l daquelas portas ficava o domnio da sua me e, embora ela no dissesse nada, o seu silncio de desaprovao, o seu olhar frio ao ver qualquer vestgio dos campos no seu soalho, seriam piores do que uma preleo.
    A primavera fora generosa, por isso as janelas estavam abertas ao entardecer. O aroma dos jardins entrava, misturando-se com os perfumes das flores selecionadas em arranjos dentro de casa.
    O hall era impressionante, o cho de mrmore, verde-mar, dava idia de que os ps iriam simplesmente afundar-se em gua fresca.
    Pensou numa ducha, numa cerveja e numa bela refeio quente antes de folhear o jornal da tarde. Movia-se em silncio,  escuta, sem se sentir culpado por ter esperana de conseguir evitar qualquer contacto com a sua famlia antes de estar limpo e restabelecido.
    Chegara ao bar na sala principal e acabara de tirar a tampa de uma Beck's, quando ouviu o toque feminino de saltos. Estremeceu, mas o seu rosto estava composto e tranquilo quando Faith entrou de rompante.
    - Serve-me um pouco de vinho branco, querido, tenho umas arestas que precisam de ser limadas.
    Estendeu-se no sof enquanto falava, com um pequeno suspiro irritado, e afastava uma madeixa do seu cabelo louro. Voltara a ser loura. Havia quem dissesse que Faith Lavelle mudava a cor do cabelo quase to frequentemente como mudava de homens.
    Havia quem gostasse de dizer isso.
    Divorciara-se pela segunda vez aos vinte e seis anos, e arranjara e deixara mais amantes do que a maioria se dava ao trabalho de contar. Em especial Faith. Contudo, conseguia projetar a imagem da delicada flor do Sul, com a sua pele branca-camlia e os olhos azuis dos Lavelle. Olhos azuis temperamentais que podiam encher-se de lgrimas quando ela quisesse e eram especialistas em fazer promessas que ela podia ou no tencionar cumprir.
    O seu primeiro marido era um rapaz irreverente e bonito, de dezoito anos, com quem ela fugira dois meses antes de acabar o liceu. Amara-o com toda a paixo e com todo o capricho da juventude e ficara devastada quando ele a deixara sem um tosto, menos de um ano depois.
    No que tivesse permitido que algum soubesse disso. Para o mundo, ela deixara Bobby Lee Matthews e regressara a Beaux Revs porque se fartara de brincar de casinha.
    Trs anos mais tarde, casara com um ambicioso cantor country, que conhecera num bar. Fizera-o por se sentir aborrecida, mas aguentara-o durante dois anos, antes de perceber que Clive aspirava tambm a viver as letras que falavam de traio e de violncia e que escrevia toldado por Budweiser e Marlboro.
    Por isso, uma vez mais, voltou a Beaux Revs, irritadia, insatisfeita e secretamente descontente consigo prpria.
    Lanou a Cade um sorriso doce e derretido quando ele lhe trouxe um copo de vinho.
    - Querido, pareces exausto. Porque no te sentas e levantas os ps por um bocado? - Pegou-lhe na mo e apertou-a um pouco. - Trabalhas de mais.
    - Se quiseres colaborar...
    O sorriso dela acentuou-se, numa lmina afiada.
    - Beaux Revs  teu. O Papai deixou isso claro ao longo das nossas vidas.
    - O Papai j no est aqui.
    Faith limitou-se a encolher um ombro, descontraidamente.
    - Isso no muda os fatos.
    Ergueu o copo de vinho e bebericou. Era uma mulher bonita, que exagerava na pintura para explorar a sua beleza. Mesmo agora, para um sero em casa, acrescentara alguma cor s faces, pintara a sua boca sensualmente grande de um cor-de-rosa iridescente e vestira uma blusa de seda e calas rosa suave.
    - Pode se mudar tudo aquilo que se queira mudar.
    - Fui criada para ser decorativa e intil. - Inclinou a cabea e depois espreguiou-se como um gato. - E fao isso muitssimo bem.
    - Irritas-me, Faith.
    - Tambm fao isso muito bem. - Divertida, tocou-lhe na perna com o p descalo. - No sejas irritante, Cade. A discusso vai estragar-me o vinho. J troquei umas palavras com a Mame, hoje.
    - No passa um s dia em que no troques umas palavras com a Mame.
    - Isso no aconteceria, se ela no fosse to crtica em relao a tudo. Tem estado mal-disposta a maior parte do dia. - Os olhos de Faith faiscaram. - Desde que a Lissy telefonou.
    - No ter sido por isso. Ela sabia que a Tory tinha inteno de voltar.
    - Ter inteno  diferente de estar aqui. Acho que ela no gosta da idia de lhe alugar a Casa do Pntano.
    - Se a Tory no viver ali, viver noutro stio qualquer. - Como estava cansado, recostou a cabea e tentou aliviar a tenso do dia, acumulada no pescoo e nos ombros. - Est de volta e parece que veio para ficar.
    - Ento, foste v-la. - Faith tamborilou com os dedos na coxa.- Logo vi que irias. O dever em primeiro lugar, para o nosso Cade. Bem... como  que ela ?
    - Educada, reservada. Nervosa, acho eu, em relao ao regresso.
    - Bebeu um gole de cerveja. - Atraente.
    - Atraente? Lembro-me de um cabelo que parecia a casca de uma rvore e de uns joelhos salientes. Magricela e estranha.
    Ele no disse nada. Faith tinha tendncia a amuar quando um homem, mesmo que fosse o irmo, tecia comentrios sobre a beleza de outra mulher. E ele no estava com disposio para os amuos dela.
    - Podias fazer um esforo para seres simptica com ela, Faith. A Tory no foi responsvel pelo que aconteceu  Hope. De que serve faz-la sentir como se fosse?
    - E eu disse que no ia ser simptica com ela? - Faith passou os dedos pelo bordo do copo, parecia no conseguir mant-los quietos.
    - Acho que ela precisa de uma amiga.
    Faith deixou cair a mo, e a sua voz de seda endureceu.
    - Ela era amiga da Hope e no minha.
    - Talvez no, mas a Hope j aqui no est. E tu tambm precisas de uma amiga.
    - Querido, tenho montes de amigos. Acontece apenas que nenhum  mulher. Para dizer a verdade, as coisas esto to aborrecidas por aqui que sou capaz de ir at  cidade esta noite, afinal. Ver se consigo estar com um amigo durante umas horas.
    - Como queiras. - Afastou o p dela e levantou-se. - Preciso de tomar uma ducha.
    - Cade - disse ela antes de ele chegar  porta. Vira o laivo de decepo nos olhos dele e isso magoou-a. - Tenho o direito de viver a minha vida como entender.
    - Tens o direito de desperdiar a tua vida como entenderes.
    - Sim - disse ela, sem alterar o tom de voz. - E tu tambm. Mas deixa-me dizer-te que, por uma vez na vida, concordo com a Mame numa coisa. Estaramos todos bem melhor se a Victoria Bodeen voltasse para Charleston e ficasse l. E tu ficarias bem melhor se te mantivesses afastado de qualquer problema que ela traga com ela.
    - De que tens medo, Faith?
    De tudo, pensou ela, enquanto ele se afastava. De tudo.
    Inquieta agora, endireitou-se e foi at s enormes janelas da frente. A bela sulista lnguida desaparecera. Os seus movimentos eram rpidos, quase agitados por uma energia nervosa.
    Talvez fosse at  cidade, pensou. A qualquer lado. Talvez fosse embora.
    E para onde iria?
    Nada foi o que ela pensava que seria, quando deixou Beaux Revs. Ningum era como ela pensava que seria. Incluindo ela prpria.
    Sempre que ia embora dizia a si mesma que era de vez. Mas voltava sempre. Sempre que ia embora dizia a si prpria que seria diferente. Que ela seria diferente.
    Mas nunca era.
    Como podia esperar que algum compreendesse que tudo o que acontecera antes, tudo o que acontecera desde ento, tudo tinha a ver com aquela noite quando ela - quando Hope - tinha oito anos?
    Agora a pessoa que ligava aquela noite a todas as outras estava de volta.                                                                               
    De p, a olhar para o relvado e os jardins que o crepsculo prateava, Faith desejou que Tory Bodeen fosse para o inferno.
    
    Eram quase oito horas quando Wade acabou de atender o seu ltimo paciente, um rafeiro velhote com problemas de rins e um sopro cardaco. A sua dona, igualmente velhota, no podia imaginar-se a mandar abater o pobre co, por isso, mais uma vez, Wade voltara a tratar o co e a apaziguar o elemento humano.
    Estava demasiado cansado para jantar e pensou em limitar-se a fazer uma sanduche simples ou a abrir uma lata.
    O pequeno apartamento por cima do consultrio agradava-lhe. Era prtico, conveniente e barato. Podia pagar qualquer coisa melhor, como os seus pais estavam constantemente a recordar-lhe, mas preferia viver de forma simples e aplicar os lucros da profisso no consultrio.
    De momento, no tinha animais de estimao, embora tivesse tido uma grande coleo quando era criana. Ces e gatos, claro, e com eles os incontornveis pssaros feridos, as rs, as tartarugas, os coelhos e, uma vez, um porco ano a que chamara Buster. A sua me, paciente, s impusera limites quando ele quisera levar para casa uma cobra preta que encontrara estendida no meio da estrada.
    Estava certo de que conseguiria convenc-la, mas quando apareceu  porta da cozinha com uma splica nos olhos e um metro e meio de cobra a mexer-lhe nas mos, a me gritou suficientemente alto para fazer o Sr. Pritchett, da casa ao lado, saltar a vedao que separava os dois quintais.
    Pritchett fez uma ruptura de ligamentos, a me de Wade deixou cair a sua leiteira adorada nos mosaicos da cozinha e a cobra foi expulsa para o rio, fora da cidade.
    Mas, abenoada, pensou Wade, tolerara tudo o resto que ele arrastara at casa, praticamente sem um queixume.
    Havia de ter uma casa com quintal e tempo para si prprio. Mas at poder pagar a mais pessoal, a maior parte dos seus dias tinha um mnimo de dez horas, sem contar com as urgncias. As pessoas que no tm tempo para dedicar a animais de estimao no deviam t-los. Sentia o mesmo em relao a filhos.
    Primeiro, foi at  cozinha e pegou numa ma. O jantar, fosse o que fosse, iria esperar at ele tirar o cheiro de co que trazia consigo.
    Mordendo a ma, passou os olhos pelo correio que trouxera consigo, enquanto se dirigia para o quarto.
    Sentiu o cheiro dela antes de v-la. A ondaa quente da mulher atingiu-lhe os sentidos, dispersou-lhe os pensamentos. Ela mexeu-se na cama, num restolhar de seda contra os lenis.
    No tinha nada vestido, exceto um sorriso convidativo.
    - Ol, amor. Trabalhaste at tarde.
    - Disseste que ias estar ocupada, esta noite.
    Faith chamou-o com o dedo:
    - E tencionava estar. Porque no vens at aqui ocupar-me?
    Wade largou o correio e a ma:
    - Porque no?
    
    Wade achava que era deplorvel para um homem ligar-se a uma mulher a vida inteira. E era mais do que deplorvel quando essa mulher insistia em entrar e sair dessa vida como uma borboleta inconsequente. E o homem deixava.
    Sempre que ela voltava, ele dizia a si prprio que no iria jogar o jogo. E ela conseguia sempre fisg-lo de tal maneira que ele ficava sem hiptese de fuga.
    Fora o primeiro homem a estar com ela. E no tinha a esperana de ser o ltimo.
    Era to incapaz de resistir-lhe agora como fora mais de dez anos antes. Naquela bela noite de vero ela subira at  janela dele e metera-se na sua cama enquanto ele dormia. Ainda se lembrava de como fora, acordar com aquele corpo suave e quente a deslizar junto ao dele, aquela boca faminta a asfixi-lo, a devor-lo, agarrando-se a ele at ele estar louco de desejo.
    Ela tinha quinze anos, pensou ele, e lidara com ele com a eficcia rpida e desprovida de sentimento de uma prostituta de cinquenta dlares. E era virgem.
    Era precisamente disso que se tratava, dissera-lhe ela. No queria ser virgem, e decidira ver-se livre do fardo com a menor complicao possvel e com algum que conhecia, de quem gostava e em quem confiava.
    To simples quanto isso.
    Para Faith, sempre fora simples. Mas para Wade, aquela noite de vero, semanas antes de ter voltado  faculdade, fora a primeira de muitas voltas complicadas de que era feita a sua relao com Faith Lavelle.
    
    Naquele vero, fizeram sexo sempre que puderam. No banco de trs do carro dele,  noite, quando os pais dele estavam a dormir, durante o dia, enquanto a me dele estava sentada no alpendre, a mexericar com as amigas. Faith estava sempre desejosa, ansiosa, pronta. Era o sonho mido de um homem tornado realidade.
    E tornara-se a obsesso de Wade.
    Tinha a certeza de que ela esperaria por ele.
    Em menos de dois anos, enquanto ele estudava arduamente e fazia planos para o futuro, o futuro deles, ela fugira com Bobby Lee. Wade embebedara-se e ficara bbado durante uma semana.
    Ela voltara, claro. A Progress, e para ele. Sem qualquer pedido de desculpas e sem rogar qualquer perdo.
    Era assim a relao entre ambos. Ele detestava-a por isso, quase tanto como se detestava a si prprio.
    - Ento... - Faith rolou para cima dele e tirou um cigarro do mao que estava na mesa-de-cabeceira e, mantendo-se em cima dele, acendeu-o. - Fala-me da Tory.
    - Quando recomeaste a fumar?
    - Hoje. - Sorriu, inclinando-se para lhe dar uma pequena mordidela no queixo. - No me venhas com sermes, Wade. Toda a gente tem direito a ter um vcio.
    - E que vcio  que tu no tens?
    Ela riu, mas havia uma certa amargura naquele riso, uma certa amargura nos olhos.
    - Se no os experimentarmos a todos, como sabemos de quais gostamos? Agora, v l, fofo, fala-me da Tory. Estou morta por saber tudo.
    - No h nada para saber. Ela voltou.
    Faith soltou um enorme suspiro.
    - Os homens so criaturas to irritantes. Como  ela? Que atitudes tem? O que tenciona fazer?
    -  adulta e tem atitudes de adulta. Tenciona abrir uma loja em Market Street. - Diante do olhar frio de Faith, encolheu os ombros. - Cansada. Parece cansada, talvez um tanto magra de mais, como algum que no tem estado muito bem ultimamente. Mas h um certo brilho nela, do tipo que se ganha quando se vive na cidade. Quanto s intenes dela, no sei. Porque no lhe perguntas?
    Ela passou a mo pelo ombro dele. Ele tinha uns ombros maravilhosos.
    -  provvel que ela no me diga. Nunca gostou de mim.
    - Isso no  verdade, Faith.
    - Eu  que sei. - Impaciente, saiu de cima dele, levantou-se da cama, graciosa e indomada como um gato, aspirando profundamente o seu cigarro enquanto andava pelo quarto. O luar brilhava sobre a sua pele branca, conferindo-lhe um tom azul plido e extico. Ele notou as marcas, as ndoas negras.
    Ela quisera um pouco de violncia.
    - Sempre a olhar para mim com aqueles olhos assustadores, quase sem dizer palavra, a no ser  Hope. Tinha sempre muito a dizer  Hope. As duas andavam sempre aos segredinhos. Para que querer voltar  velha Casa do Pntano? Em que estar a pensar?
    - Imagino que esteja a pensar que seria agradvel ter um teto familiar sobre a cabea. - Levantou-se, fechando as cortinas cuidadosamente, antes que um dos vizinhos a visse.
    - Sabes to bem como eu o que aconteceu debaixo daquele teto. - Faith virou-se e os seus olhos brilharam quando Wade diminuiu a intensidade da luz da luminria da mesa-de-cabeceira. - Que tipo de pessoa volta a um lugar onde foi prisioneira? Talvez seja to maluca como as pessoas diziam.
    - Ela no  maluca. - Cansado, Wade vestiu as calas de brim. - Sente-se sozinha. s vezes, as pessoas que se sentem sozinhas voltam a casa porque no h mais nenhum lugar para ir.
    Aquilo atingiu-a demasiado perto do corao. Desviou os olhos dos dele e bateu o cigarro no mao.
    - s vezes, a nossa casa  o lugar mais solitrio de todos.
    Tocou-lhe no cabelo, apenas e leve. Isso f-la desejar embrenhar-se nele, agarrar-se a ele. Deliberadamente, levantou a cabea, ostentando um sorriso radioso.
    - Seja como for, porque estamos a falar da Tory Bodeen? Vamos arranjar o jantar e comer na cama. - Lentamente, com os olhos fixos nos de Wade, puxou o fecho das calas de brim dele. - Tenho sempre tanto apetite quando estou contigo.
    Mais tarde, ele acordou no escuro. Ela desaparecera. Nunca ficava, nunca dormia com ele, simplesmente. Havia alturas em que Wade se perguntava se ela dormiria ou se aquele motor interno dela trabalharia incessantemente, alimentado a nervos e a necessidades que nunca eram totalmente satisfeitas.
    Supunha que era a sua maldio, amar uma mulher que parecia incapaz de retribuir com sentimentos genunos. Devia p-la fora da sua vida. Era a coisa mais sensata a fazer. Ela voltaria a feri-lo, e de cada vez que isso acontecia levava mais tempo a sarar. Mais cedo ou mais tarde, no restaria nada do seu corao seno cicatrizes, e ele seria o nico culpado.
    Sentiu a fria crescer dentro de si, um calor negro que lhe borbulhava no sangue. Mantendo as luzes apagadas, vestiu-se s escuras. A sua fria precisava de um alvo antes que se virasse para dentro e implodisse.
    
    Teria sido mais inteligente, mais confortvel, mais sensvel, porventura, ter alugado um quarto de hotel. Teria sido mais simples ter aceitado a hospitalidade do tio e dormido num dos quartos cheio de bugigangas, decorado de cima a baixo, que os Boots tinham prontos na casa grande.
    Quando era criana, sonhara muitas vezes em dormir naquela casa perfeita, naquela rua perfeita, onde imaginava que tudo cheirava a perfume e a verniz.
    Em vez disso, Tory estendeu um cobertor no cho nu e ficou acordada, s escuras.
    Orgulho, teimosia, necessidade de provar alguma coisa a si prpria? No estava certa dos motivos que a levavam a passar a sua primeira noite em Progress na casa vazia da sua infncia. Mas fizera a sua cama, por assim dizer, e estava decidida a deitar-se nela.
    De manh, haveria muito a fazer. Naquela tarde verificara a lista e acrescentara mais uma dzia de coisas. Precisava de comprar uma cama e um telefone. Toalhas novas, uma cortina para o chuveiro. Precisava de um candeeiro e de uma mesa onde p-lo.
    Acampar j no era a aventura que costumava ser, e ter gostos e necessidades simples no significava que no quisesse ter o conforto bsico.
    Deitada no escuro, verificou a sua lista como costumava usar a parede imaculadamente branca. Cada coisa verificada mentalmente era mais um tijolo que bloqueava imagens e a mantinha concentrada no momento presente.
    Iria ao mercado e abasteceria a cozinha. Se deixasse a situao prolongar-se demasiado, voltaria ao hbito de saltar refeies. E quando negligenciava o corpo, era mais difcil controlar a mente.
    Iria ao banco, abrir contas, uma pessoal e outra para os negcios. Estava agendada uma visita ao Progress Weekly. J fizera o seu anncio.
    
    Acima de tudo, enquanto montasse a loja nas prximas semanas, precisava de estar visvel. Treinaria para conseguir ser simptica, agradvel. Normal.
    Levaria algum tempo a conseguir enfrentar os inevitveis mexericos, as perguntas, os olhares. Estava preparada. Quando abrisse a loja, as pessoas estariam outra vez habituadas  sua presena. Mais, muito mais importante, estariam habituadas a v-la como ela queria ser vista.
    Pouco a pouco, faria parte da cidade. E depois comearia a explorar. Seria ela a fazer as perguntas. Comearia a procurar as respostas.
    Quando as tivesse, poderia despedir-se de Hope.
    Fechando os olhos, ficou a escutar os sons da noite, o coro de cigarras, to alegremente montono, o piar agudo e irritante de uma coruja que caava, os lamentos suaves da madeira, os movimentos astutos dos ratos a instalarem-se do lado de l da parede.
    Teria de pr armadilhas, pensou, ensonada. Lamentava imenso, mas no queria partilhar o espao com roedores. E colocaria bolas de naftalina sob os alpendres, para desencorajar as cobras.
    Eram bolas de naftalina, no eram? Havia tanto tempo que no vivia no campo. Usava-se bolas de naftalina para as cobras e pendurava-se sabo por causa dos veados, e assim protegia-se aquilo que era nosso, embora tivesse sido deles primeiro.
    E se os coelhos viessem mordiscar a horta, espalhava-se pedaos de mangueira, para eles pensarem que eram as cobras que tnhamos afastado com as bolas de naftalina. Ou o pai chegava a casa e matava-os com a sua 22. E tnhamos de com-los ao jantar, embora ficssemos doentes depois, porque eles eram muito engraados, a mexer as orelhas compridas. Tnhamos de comer o que Deus nos dava, ou pagar pelo pecado. E ficar doente sempre era melhor do que levar uma surra.
    No, no penses nisso, ordenou a si prpria, mudando de posio no cho duro. Ningum ia faz-la comer o que ela no queria, nunca mais. Ningum ia erguer o chicote contra ela, nem um punho.
    Agora, era ela quem mandava.
    
    Sonhou que estava sentada no cho macio, junto a uma fogueira que crepitava, fumegante, e queimava o marshmallow que ela segurava sobre a chama, num pau. Gostava dele queimado, com a parte de fora preta e estaladia sobre o interior macio, pegajoso e branco. Afastou-o do lume, soprando para apagar a chama que ardia nele.
    Queimou o cu da boca, mas isso fazia parte do ritual. A dor rpida e depois o contraste do crocante com o acar.
    - Mais valia comeres carvo - disse Hope, virando o seu doce dourado. - Ora aqui tens um marshmallow perfeitamente assado.
    - Gosto deles  minha maneira.
    Para prov-lo, Tory tirou outro do saco e enfiou-o na ponta aguada do seu pau.
    - Como diz a Lilah, sela-se o burro  vontade do dono. - A sorrir, Hope mordeu delicadamente o seu marshmallow. - Ainda bem que voltaste, Tory.
    - Sempre quis voltar. Acho que talvez tivesse medo. Acho que ainda tenho.
    - Mas ests aqui. Vieste, exatamente como se esperava.
    - Naquela noite, no apareci. - Tory desviou os olhos do fogo e mergulhou-os no olhar da sua infncia.
    - Acho que no tinhas que aparecer.
    - Prometi que viria. s dez e trinta e cinco. Mas no apareci. Nem sequer tentei.
    - Tens que tentar agora. Porque houve mais. E continuar a haver mais at lhes pores fim.
    O peso voltava a aumentar, e o seu peito de oito anos ardia sob ele.
    - Que queres dizer, mais?
    - Mais como eu. Exatamente como eu. - Os olhos solenemente azuis, profundos como lagos, fixaram os de Tory atravs do fumo. - Tens de fazer o que tens de fazer, Tory. Tens de ter cuidado e tens de ser esperta. Victoria Bodeen, a espi.
    - Hope, j no sou uma garota.
    - Por isso  que est na hora. - O fogo subiu mais alto e mais brilhante. Os olhos profundamente azuis refletiam as chamas, pedaos de luz selvagem. - Tens que pr um fim a isto.
    - Como?
    Mas Hope abanou a cabea e murmurou:
    - H qualquer coisa no escuro.
    Os olhos de Tory abriram-se de repente. O corao parecia querer saltar-lhe do peito e na boca sentia o sabor do medo e do doce queimado.
    H qualquer coisa no escuro. Ouviu o eco da voz de Hope e o restolhar, como um sopro de vento por entre as folhas, do lado de fora da janela.
    Viu a ligeira mudana de luz quando algum passou diante da lua.
    A criana dentro de si quis enrolar-se sobre si mesma, cobrir o rosto com as mos, tornar-se invisvel. Estava sozinha. Indefesa.
    Quem quer que se encontrasse l fora estava  espreita,  espera. Conseguia sentir isso, mesmo atravs do medo. Tentou libertar a mente, ser racional. Mas diante de si estava apenas a parede de vidro do terror.
    O terror no era apenas dela.
    Eles tambm tm medo, pensou. Medo de mim. Porqu? A mo tremia-lhe, enquanto tentava chegar  lanterna, ao lado do cobertor. O peso slido ajudou-a a afastar grande parte do medo. No ficaria indefesa. Defender-se-ia, enfrentaria a situao, domin-la-ia. A criana fora uma vtima. A mulher no o seria. Ps-se de joelhos, tateou para acender a lanterna e quase gritou quando viu o feixe de luz. Apontou-o para a janela como uma arma. E s havia sombras e lua.
    Respirava de forma irregular, mas ps-se de p. Correu para a porta e acendeu as luzes do teto. Quem quer que estivesse l fora podia v-la, agora. Deixa-os ver, pensou. Deixa-os ver que ela no se acovarda no escuro.
    O feixe de luz balanava enquanto ela corria do quarto para a cozinha. Uma vez mais, acendeu as luzes do teto. Deixa-os ver, pensou de novo, e tirou uma faca do conjunto preso no bloco de madeira, que desempacotara. Deixa-os ver que no estou indefesa.
    Trancara as portas, um hbito que adquirira na cidade. Mas estava perfeitamente ciente da inutilidade dessa precauo. Um bom pontap faria saltar as fechaduras.
    Saiu da luz e envolveu-se nas sombras da sala. De costas para a parede, fez um esforo para controlar a respirao, at conseguir que ela fosse lenta e calma. No conseguia ver se tivesse a cabea num turbilho, no conseguia concentrar-se se o seu sangue estivesse aos gritos.
    Pela primeira vez em mais de quatro anos preparou-se para se abrir ao dom com que fora amaldioada  nascena.
    Mas as luzes entraram como setas pela janela da frente e varreram a sala. Os seus pensamentos voltearam como ptalas, ao ouvir o som de um carro a subir rapidamente o caminho de acesso  casa.
    Os pneus cuspiram a fina camada de cascalho, num som impaciente e exigente. Voltou a respirar de forma ofegante, forando-se a aproximar-se da porta. Meteu a lanterna no bolso do traje de treino com que dormira, agarrou a faca com firmeza e destrancou a fechadura.
    
    As luzes do carro apagaram-se e o condutor abriu a porta.
    - O que quer daqui? - Voltando a pegar na lanterna, Tory procurou o boto para acend-la. - O que est a fazer aqui?
    - Apenas a visitar uma velha amiga.
    Tory apontou a luz para a figura que saiu do carro. Sentiu os joelhos fracos, a pele arrepiada.
    - Hope. - Pronunciou o nome, a meia-voz, enquanto a faca lhe caa dos dedos e tilintava no cho. - Oh, meu Deus!
    Mais um sonho. Mais um episdio. Ou talvez fosse apenas loucura. Talvez sempre tivesse sido.
    Ela subiu os degraus do alpendre. O luar refletia-se-lhe no cabelo, nos olhos. A porta de tela rangeu quando ela a abriu.
    - Parece que viste um fantasma, ou que estavas  espera de algum. - Baixou-se e apanhou a faca. Passou um dedo elegante pela ponta da lmina.
    - Mas sou real. - Dizendo isto, virou o dedo e mostrou uma gota minscula de sangue. - Sou a Faith - acrescentou, entrando em casa. - Vi a luz acesa, quando ia a passar.
    - Faith? - Pareceu-lhe que a cabea era varrida pelo mar. A alegria, aquele arrebatamento esfriou quando ela voltou a pronunciar o nome. - Faith.
    - Isso mesmo. Tens alguma coisa que se beba? - Entrou na cozinha.
    Como se fosse a dona da casa, pensou Tory, e depois lembrou a si prpria que os Lavelle eram, de fato, os donos da casa. Passou uma mo pela cara, pelo cabelo. Depois, cruzando os braos, seguiu Faith at  cozinha.
    - Tenho ch gelado.
    - Referia-me a qualquer coisa com mais esprito.
    - No, desculpa. No tenho. No estou propriamente apetrechada para ter companhia, por enquanto.
    - Estou a ver. - Intrigada, Faith deambulou pela cozinha, pousando a faca em cima da bancada, quando passou por ela. - Um pouco mais espartana do que eu esperava. Mesmo para ti.
    Era este o aspecto que Hope teria, se fosse viva. Tory no conseguia tirar aquela idia da cabea. Era exatamente o aspecto que ela teria, olhos azuis profundos a contrastar com uma pele muito branca, o cabelo da cor do milho sedoso. Elegante e linda. E viva.
    - No preciso de muita coisa.
    - Essa foi sempre a diferena entre ns, ou pelo menos uma delas. Tu no precisavas de muito. Eu precisava de tudo.
    - Chegaste a consegui-lo?
    Faith arqueou uma sobrancelha e depois limitou-se a sorrir, encostando-se ao balco.
    - Oh, ainda estou a juntar coisas. Qual  a sensao de estar de volta?
    - No estou de volta h tempo suficiente para saber.
    - H tempo suficiente para vires  porta com uma faca de cozinha na mo quando algum te faz uma visita.
    - No estou habituada a visitas s trs da manh.
    - Tive um encontro at tarde. Estou entre casamentos, de momento. Tu nunca casaste, pois no?
    - No.
    - Juro que ouvi qualquer coisa sobre estares noiva, uma vez. No deve ter dado certo.
    O sentimento de falha, desespero, traio, comeou a querer soltar-se.
    - No, no deu certo. Presumo que os teus casamentos, dois, no foram?, tambm no tenham dado certo.
    Faith sorriu, e desta vez o sorriso era genuno. Preferia um jogo equilibrado.
    - Vejo que ests sada da casca.
    - No quero espetar-te alfinetadas, Faith. E no vejo qual o teu interesse em me espetar, passado todo este tempo. Eu tambm a perdi.
    - Ela era minha irm. Nunca te lembraste disso.
    - Era tua irm. E era a minha nica amiga.
    Qualquer coisa ameaou remexer-se dentro dela, mas Faith travou-a.
    - Podias ter feito amigos novos.
    - Tens razo. Nada que eu possa dizer conseguir compensar, alterar as coisas, traz-la de volta. Nada que eu possa dizer ou fazer.
    - Ento, porque voltaste?
    - Nunca me deixaram despedir dela.
    -  demasiado tarde para despedidas. Acreditas em recomeos e segundas oportunidades, Tory?
    - Sim, acredito.
    - Eu no. E vou dizer-te porqu. - Tirou um cigarro da bolsa e acendeu-o. Deu uma tragada e agitou-o. - Ningum quer recomear. Os que dizem que sim so mentirosos ou iludem-se a si prprios, mas so sobretudo mentirosos. As pessoas s querem ir embora a partir do ponto em que as coisas deram erradp, seguir noutra direo e sem bagagem. Aqueles que o conseguem so uns sortudos, porque de alguma forma conseguem livrar-se de todos esses fardos irritantes, como a culpa e as consequncias.
    Voltou a saborear o cigarro, lanando a Tory um olhar contemplativo.
    - E no me parece que tenhas tanta sorte.
    - Sabes uma coisa? Tu tambm no. E isso  surpreendente.
    A boca de Faith entreabriu-se, trmula, e depois ela voltou a fech-la e sorriu pensativamente.
    - Ora, viajo sem bagagem e com muita frequncia. Pergunta a quem quiseres.
    - Parece que aterramos no mesmo stio. Porque no tiramos o melhor partido disso?
    - Desde que te lembres de quem chegou c primeiro, no teremos problemas.
    - Nunca me deixaste esquecer disso. Mas neste momento esta  a minha casa e estou cansada.
    - Ento, at depois. - Dirigiu-se  sada, soltando baforadas de fumo. - Dorme bem, Tory. Ah, e se ficar aqui sozinha te d arrepios, eu c trocava aquela faca por uma pistola.
    Parou, abriu a bolsa e tirou de l uma pistola pequena, com coronha de madreprola.
    - Uma mulher nunca anda suficientemente segura, pois no? - Com uma pequena gargalhada, voltou a meter a pistola na mala, fechou-a e depois fez a porta de tela bater atrs de si.
    Tory deixou-se ficar  porta, mesmo quando os faris a cegaram. Ficou ali at o carro dar meia volta no caminho, chegar  estrada e afastar-se a toda a velocidade.
    Trancou a porta e depois voltou  cozinha,  procura da lanterna e da faca. Uma parte de si queria meter-se no carro, ir at  cidade e bater  porta do tio. Mas se no conseguisse passar aquela primeira noite na casa, ficaria mais fcil evitar a seguinte e a outra.
    Encostou-se  parede, com os olhos fixos na janela, at a escurido comear a suavizar-se e os primeiros pssaros da manh despertarem.
    Tivera medo. Quando se aproximara silenciosamente da janela, sentira o que raramente sentia. O medo a estrangular-lhe a garganta.
    Tory Bodeen, de regresso ao stio onde tudo comeara.
    
    Estava a dormir, enrolada no cho como uma cigana, e ele podia ver a curva da sua face, a forma dos seus lbios,  luz oblqua do luar.
    Era preciso fazer alguma coisa. Ele sabia isso e comeara a fazer planos, ao seu jeito calmo e firme. Mas que impacto v-la ali, recordar tudo com toda a nitidez s de v-la ali.
    Ficara surpreendido quando ela acordara, saindo do sono rpida e certeira como uma flecha disparada por um arco. Mesmo no escuro vira vises nos olhos dela. Isso inundara-lhe o rosto de suor, e as palmas das mos. Mas havia muitas sombras, muitos stios onde esconder-se. Buracos na parede.
    Enrolara-se num dos buracos e vira Faith chegar. O cabelo claro brilhando ao luar, num contraste interessante com o de Tory, escuro. Tory, que parecia absorver a luz em vez de refleti-la.
    Naquele momento em que elas tinham estado juntas, em que as suas vozes se tinham misturado, soubera onde seria delas. Onde elas seriam dele.
    Seria como da primeira vez, havia tanto tempo. Seria o que tentava reviver havia dezoito longos anos.
    Seria perfeito.
    
    Planejara levantar-se cedo. Quando o bater na porta da frente a acordou, s oito, Tory no sabia bem se estava mais irritada consigo mesma ou com o novo visitante. Esfregando os olhos para afastar o sono, saiu do quarto aos tropees, semicerrou os olhos ao encarar a luz do sol e debateu-se com a fechadura.
    Lanou a Cade um olhar exausto atravs da porta de tela.
    - Talvez no deva pagar renda, se os Lavelle decidiram fazer desta a sua casa fora de casa.
    - Desculpa?
    - Nada. - Empurrou a porta de tela com pouca energia, num convite pouco claro, e virou-lhe as costas. - Preciso de caf.
    - Acordei-te. - Entrou e seguiu-a at  cozinha. - Os agricultores tm tendncia a pensar que toda a gente se levanta de madrugada. Eu... - Parou diante da porta aberta do quarto e soltou uma exclamao. - Por amor de Deus, Tory, nem sequer tens cama!
    - Vou comprar uma, hoje.
    - Porque no ficaste com o J.R. e a Boots?
    - Porque no quis.
    - Preferes dormir no cho? O que  isto? - Entrou no quarto, abusivamente, pensou Tory, tal como a irm fizera  noite, e depois saiu com a faca na mo.
    
    -  a minha agulha de croch. Ando a fazer um xaile. - Quando ele ficou a olhar para ela, ela soltou um suspiro e voltou a entrar na cozinha, batendo os ps. - Tive uma noite atribulada e estou de mau humor, por isso toma cuidado.
    Sem dizer nada, ele voltou a meter a faca na ranhura que lhe correspondia, no bloco de madeira. Enquanto ela media o caf e a gua, ele pousou na bancada o prato que tinha na mo.
    - O que  isso?
    -  a Lilah que manda, sabia que eu vinha para estes lados, esta manh. - Cade levantou uma ponta da folha de alumnio. - Bolo de caf. Disse que tinhas uma predileo pelo bolo de caf amargo que ela faz.
    Tory ficou a olhar para o bolo, chocando ambos quando os olhos se lhe encheram de lgrimas. Antes que ele pudesse mexer-se, ela levantou a mo e manteve-a assim, como um escudo, enquanto se virava.
    Incapaz de resistir, ele passou-lhe a mo pelo cabelo e no insistiu quando ela se apressou a dar um passo em frente, para ficar fora do alcance dele.
    - Diz-lhe que lhe agradeo muito. Ela est bem, no est?
    - Porque no vens ver por ti prpria?
    - No, pelo menos por enquanto. - Mais calma, abriu um armrio e tirou de l uma chvena.
    - Queres partilhar o teu caf?
    Ela olhou para trs, por cima do ombro. Tinha os olhos secos e lmpidos. Ele no se parecia nada com o raio de um agricultor, pensou ela. Estava bronzeado e era magro, e tinha o cabelo aclarado pelo sol. Vestia umas calas de brim velhas e a camisa era de um azul desbotado. Tinha os culos de sol presos por uma das hastes no bolso.
    Parecia antes a imagem dada por algum realizador de Hollywood de um jovem agricultor sulista, prspero, que vertia charme e sex appeal com um simples sorriso.
    Ela no confiava em imagens.
    - Suponho que tenha que ser delicada.
    - Podes ser mal-educada e gananciosa - disse ele -, mas mais tarde vais sentir-te muito mal por isso.
    Ele notou que ela tinha quatro chvenas e quatro pires, tudo num branco slido e sensvel. Tinha uma cafeteira automtica e no tinha cama. As estantes, tambm brancas, estavam j escrupulosamente arrumadas. No havia uma nica cadeira na casa.
    O que diziam aquelas coisas sobre Tory Bodeen?, perguntou-se.
    Ela pegou noutra faca e depois ergueu as sobrancelhas, olhando para ele, enquanto media uma fatia. Ele agitou os dedos at ela a tornar um pouco maior.
    - Ests com apetite, esta manh? - perguntou ela, enquanto cortava a fatia de bolo.
    - Vim a cheirar o bolo todo o caminho at aqui. - Pegou nos pratos. - Porque no levamos isto l para fora, para o alpendre? Quero o meu caf simples - acrescentou, e depois saiu.
    Tory limitou-se a suspirar e serviu duas chvenas.
    Quando ela chegou, ele estava sentado nos degraus, com as costas apoiadas no degrau de cima. Ela sentou-se ao lado dele, bebericando o caf e olhando para os campos dele.
    Sentira a falta disto. Percebeu isso com surpresa, sentindo mais choque do que dor. Sentira a falta das manhs ali, quando o calor do dia ainda no tinha envolvido o ar, quando os pssaros cantavam como milagres e os campos estavam verdes, a crescer.
    Tivera manhs preciosas como aquela mesmo quando era criana, quando se sentava no que fora um degrau de cimento rachado, a observar o dia que chegava e a sonhar sonhos tontos.
    -  um bonito sorriso - comentou ele. - Arrancado pelo bolo ou pela companhia?
    O sorriso desapareceu como um fantasma.
    - Porque vinhas para este lado, esta manh, Cade?
    - Tenho campos para cuidar e trabalhadores para supervisionar.
    - Partiu um pedacinho do bolo de caf. - E queria voltar a ver-te.
    - Porqu?
    - Para verificar se eras to bonita como eu pensei que eras, ontem.
    Ela abanou a cabea, deu uma dentada no bolo que a levou imediatamente at  bela cozinha de Miss Lilah. Ficou to animada que voltou a sorrir e deu outra dentada no bolo.
    - No me digas.
    - Estavas com melhor ar ontem - disse ele, descontraidamente. - Mas tenho de ter em conta que no dormiste grande coisa, naquele cho. E faz um belo caf, Miz Bodeen.
    - No h razo nenhuma para te sentires no dever de verificar se est tudo bem comigo. Eu estou tima, aqui. S preciso de uns dias para me instalar. Seja como for, no vou passar aqui nem metade dos dias. Montar a loja vai levar-me o tempo quase todo.
    - Imagino que sim. Janta comigo esta noite.
    - Para qu? - Como ele no respondeu, ela virou a cabea. O olhar dele era divertido e tinha os lbios ligeiramente curvados. E naquela expresso suave e simptica ela viu qualquer coisa que conseguira evitar com sucesso durante anos. Interesse masculino.
    - No, no. Oh, no. - Levantou a chvena e bebeu grandes goles de caf.
    - Foi bastante peremptrio. Fica para amanh, ento.
    - No, Cade, tenho a certeza de que devo sentir-me lisonjeada, mas no tenho tempo nem disposio para nenhum tipo de... nenhum tipo de coisa.
    Ele esticou as suas pernas compridas e cruzou-as nos tornozelos.
    - Nesta altura, no sabemos que tipo de coisa cada um de ns tem em mente. Quanto a mim, gosto de uma boa refeio de vez em quando e gosto ainda mais quando a companhia  boa.
    - No saio com ningum.
    - Isso  uma obrigao religiosa ou uma opo social?
    -  uma escolha pessoal. Agora... - Como ele parecia perfeitamente instalado, demasiado confortvel, ela ps-se de p. - Desculpa, mas tenho que comear o meu dia. J estou atrasada.
    Ele levantou-se e viu-a abrir muito os olhos quando ele se aproximou mais.
    - Algum te fez das boas, no foi?
    - No continues.
    -  precisamente isso, Tory. - Como no queria que ela fugisse dele, deu um passo atrs. - Eu no faria. Obrigado pelo caf.
    Foi at  camioneta e fez uma pausa, virando-se para trs quando abriu a porta. Olhou para ela demoradamente, achando que faria bem a ambos se ela se habituasse quele olhar.
    - Estava enganado - gritou enquanto se metia na cabina. - Ests igualmente bonita, hoje.
    Ela sorriu antes de conseguir deter-se e viu-o sorrir antes de recuar pelo caminho de acesso  casa. Sozinha, voltou a sentar-se.
    - Raios partam - resmungou, e encheu a boca com mais caf.
    
    Os pequenos bancos das pequenas cidades eram uma raa em vias de extino. Tory sabia isso porque o tio, que geria o Banco e Seguradora de Progress havia doze anos, raramente esquecia de mencion-lo. Mesmo que no houvesse uma ligao familiar, t-lo-ia escolhido para o seu negcio. Fazia parte da boa poltica.
    Ficava no lado este de Market Street, a dois quarteires da loja dela. Isso tornava-o ainda mais conveniente. O velho edifcio de tijolo vermelho fora cuidadosa e maravilhosamente preservado. Isso acrescentava encanto. Os Lavelle tinham-no fundado em 1853 e mantinham-se proprietrios.
    Ali, pensou ela enquanto se encaminhava para a porta principal, estava a poltica. Quem queria fazer negcios bem-sucedidos em Progress, Carolina do Sul, fazia-os com os Lavelle.
    Praticamente no havia torta onde no tivessem metido os dedos.
    O interior do banco mudara. Lembrava-se de visitar a av e de pensar que os bancrios viviam em gaiolas, como animais exticos no jardim zoolgico. Agora a entrada era aberta, quase arejada, e quatro empregados dominavam um balco comprido e alto.
    Tinham acrescentado um guichet nas traseiras, e atrs de um gradeamento de madeira,  altura da cintura, dois empregados sentavam-se a duas belas escrivaninhas antigas, com computadores de aspecto eficiente. A adornar as paredes, vrios quadros muito bem executados que representavam paisagens da terra e do mar da Carolina do Sul.
    Algum, pensou ela, descobrira como modernizar sem apagar a alma. Interrogou-se sobre se conseguiria convencer o tio a comprar algum dos quadros ou dos enfeites de parede que em breve iria ter  venda.
    
    - Tory Bodeen, s tu?
    Dando um pequeno salto, Tory virou a ateno para a mulher que estava atrs do gradeamento. Conseguiu esboar um sorriso enquanto tentava reconhecer o rosto, sem sucesso.
    - Sim, ol.
    - Bem,  muito bom voltar a ver-te, ainda por cima assim, crescida. - A mulher era minscula, mal devia chegar ao metro e meio. Abriu a cancela do gradeamento e estendeu-lhe ambas as mos. - Sempre soube que te tornarias numa bela jovem. No te lembras de mim.
    Sentiu que era m educao no se lembrar, perante tanta alegria sincera. Por um momento, Tory esteve tentada a agarrar-se a um nome. Mas no podia quebrar uma promessa por causa de uma coisa to trivial.
    - Desculpe.
    - Ora, no tens porqu pedir desculpa. A ltima vez que te vi eras uma amostra de gente. Sou a Betsy Gluck. A tua av deu-me lies, logo depois de eu sair do liceu. Lembro-me de te ver entrar de vez em quando e de ficares sentada, calada como um rato.
    - Dava-me pirulitos. - Foi um tremendo alvio recordar-se, ter na boca aquele sabor doce e clere a cereja.
    - Ora vejam s, lembrares-te de uma coisa dessas passado todo este tempo. - Os olhos de Betsy brilharam enquanto apertava as mos de Tory. - Ests ento aqui para falares com o J.R.
    - Se ele estiver ocupado, posso...
    - No sejas tonta. Tenho instrues para te levar imediatamente ao gabinete dele. - Passou um brao pela cintura de Tory e f-la passar pela cancela.......
    Teria de habituar-se a isto, recordou Tory a si prpria. A ser tocada. No podia ser uma estranha, ali.
    - Deve ser to emocionante abrir uma loja s nossa. Mal posso esperar por ir s compras. Aposto que a Miss Mooney est to orgulhosa que podia rebentar. - Betsy bateu a uma porta no fim de um pequeno corredor. - J.R., a sua sobrinha est aqui.
    
    A porta abriu-se de imediato e J. R. Mooney encheu o espao. O tamanho dele nunca deixava de espantar Tory. Como este homem grande e possante nascera da sua av era um dos mistrios da vida.
    - Aqui est ela! - A sua voz era quase to grande como o resto, e troou enquanto ele a abraava.
    Tory estava preparada para isso, mas ficou sem respirao quando o abrao de urso a levantou no ar. E, como sempre, a surpresa chegou quando os dedos dos ps deixaram de tocar no cho e o abrao que lhe fez estalar as costelas f-la tambm rir.
    - Tio Jimmy. - Tory encostou o rosto ao pescoo de touro e finalmente, finalmente sentiu-se em casa.
    -J. R., est a abanar a rapariga como se fosse um ramo.
    - Ela  pequena. - J.R. piscou o olho a Betsy. - Mas  forte. Certifica-te de que vamos conseguir ter uns minutos sossegados aqui, est bem, Betsy?
    - No se preocupe. Bem-vinda a casa, Tory - acrescentou Betsy, e fechou a porta.
    - Anda c, senta-te. Queres alguma coisa? Coca-Cola?
    - No, nada. Estou bem. - No se sentou, levantou as mos e depois deixou-as cair. - Devia ter vindo falar consigo ontem.
    - No te chateies por causa disso. Ests aqui, agora. - Ele encostou-se  escrivaninha, um homem de sessenta e dois anos. Musculado. O seu cabelo cor de gengibre no esmorecera com a idade, mas havia pequenos fios prateados tecidos por entre a massa capilar. O bigode, que conferia um pouco de movimento ao rosto redondo, era de prata pura, tal como as lagartas peludas das sobrancelhas.. Os olhos eram mais azuis do que cinzentos, e sempre pareceram simpticos a Tory.
    De repente sorriu, grande como a lua.
    - Tens mesmo um ar da cidade, mocinha. To bonita e refinada como uma estrela de televiso. A Boots vai adorar mostrar-te a toda a gente.                                                        
    Riu ao ver Tory estremecer automaticamente.
    - Ora, vamos, vais dar-lhe um bocadinho desse prazer, no vais? Ela nunca teve a filha que queria ter tido, e o Wade no colabora e no casa nem lhe d netinhas para ela vestir e enfeitar.
    - Se ela tentar vestir-me um aventale cheio de rendas, vamos ter sarilho. Eu vou v-la, Tio Jimmy. Mas primeiro preciso instalar-me, ir at  loja e arregaar as mangas. Tenho material que vai chegar nos prximos dias.
    - Pronta para trabalhar, no ?
    - Ansiosa. H muito tempo que queria dar este passo. Espero que o Banco e Seguros de Progress tenha espao para mais uma cliente.
    - Temos sempre espao para mais dinheiro. Eu prprio vou tratar disso, j daqui a pouco. Querida, ouvi dizer que alugaste a casa velha.
    - A Lissy Frazier detm o recorde da maior boca de Progress?
    - Est numa luta renhida com umas quantas. Ouve, no quero pressionar-te, nem nada disso, mas o Cade Lavelle no ia obrigar-te a manter o contrato se mudasses de idias. A Boots e eu gostvamos que ficasses conosco. Sabe Deus que espao no falta.
    - Agradeo muito, Tio Jimmy...
    - Espera a. No digas mas, ainda. s uma mulher feita. Tenho olhos na cara, consigo ver isso muito bem. H anos que vives por tua conta. Mas no me agrada a idia de viveres ali, naquela casa. Acho que no  bom para ti.
    - Bom ou  no,    necessrio.  Ele batia-me,  naquela casa. - Quando J.R. fechou os olhos, Tory aproximou-se. - Tio Jimmy, no estou a dizer isto para mago-lo.
    - Eu devia ter feito alguma coisa. Devia ter-te tirado de l. Ter-te afastado dele. Devia ter-vos tirado de l a ambas.
    - A mame no iria. - Falava agora com simpatia, porque ele parecia precisar. - O tio sabe isso.
    - Naquela altura, desconhecia o ponto a que as coisas tinham chegado. No me preocupei o suficiente. Mas agora sei, e no me agrada pensar que ests l, a recordar aquilo tudo.
    - Lembro-me, esteja onde estiver. Ficar ali, bem... prova a mim mesma que consigo encarar isso. Consigo viver com isso. J no tenho medo dele. No me vou deixar ter medo dele.
    - Ento, porque no vens at l em casa s por uns dias? ver como te adaptas? - Ele suspirou quando ela abanou a cabea. -  a minha sina, estar rodeada de mulheres teimosas. Bem, senta-te para eu tratar desta papelada e ficar com o teu dinheiro.
    
    Ao meio-dia, os sinos da igreja batista martelaram as horas. Tory deu uns passos atrs e limpou o suor do rosto. A vitrine da sua loja brilhava como um diamante. Trouxera algumas caixas no carro e levara-as para dentro, para o depsito. Tirara medidas para as prateleiras, os balces, e fizera uma lista de perguntas e de pedidos que tencionava fazer  imobiliria.
    Estava elaborando a segunda lista, de ferramentas, quando algum bateu no vidro partido da porta.
    Observou o homem magro e bem constitudo, vestido com roupas de trabalho, enquanto se aproximava. Cabelo escuro, bem cortado, rosto brando e bonito, com um sorriso franco. Os culos escuros escondiam-lhe os olhos. 
    - Desculpe, est fechado - disse ela, enquanto abria a porta.
    - Parece que precisas de um carpinteiro. - Passou o dedo pelo vidro rachado. - E de um vidraceiro. Como vai isso, Tory? - Tirou os culos de sol, revelando uns olhos escuros e intensos e uma pequena cicatriz em forma de gancho logo abaixo do olho direito. - Dwight Frazier.
    - No te reconheci.
    - Um bocado mais alto e com mais uns quilos desde a ltima vez que me viste. Pensei que devia vir at c, dar-te as boas-vindas como presidente da cmara, e ver se h alguma coisa que as Construes Frazier possam fazer por ti. Importas-te que eu entre por um instante?
    - No, claro. - Afastou-se. - No h grande coisa para ver, por agora.
    -  um bom espao.
    Movia-se a vontade, notou ela. No parecia nada o mido estranho e gorducho que j fora. O aparelho dos dentes desaparecera, bem como o corte  escovinha que o pai dele insistia em lhe fazer.
    Parecia em forma e prspero. No, pensou ela. No o teria reconhecido.
    - O edifcio  slido - prosseguiu ele -, com boas fundaes. E o telhado est firme. - Virou-se, exibindo o sorriso que ajudara o seu ortondontista a comprar um barco de recreio. - Sei do que falo, fomos ns que o pusemos de p h dois anos.
    - Ento j sei a quem dirigir-me quando comear a entrar gua. Ele riu e prendeu os culos de sol na abertura da camisa.
    - Os Frazier constrem para durar. Vais querer balces, prateleiras e expositores.
    - Bem, estava precisamente a tirar as medidas.
    - Posso mandar-te um carpinteiro, por um bom preo.
    Era inteligente, e, uma vez mais, boa poltica, usar mo-de-obra local. Se, pensou ela, a mo-de-obra local estivesse dentro do seu oramento.
    - Bem, a tua idia de bom preo e a minha podem no coincidir. O sorriso dele era luminoso e cheio de encanto.
    - Vamos fazer o seguinte. Deixa-me pegar umas coisas no meu carro. Dizes-me o que tens em mente e eu te fao um oramento. E logo vemos se coincidem ou no.
    Ele tinha conscincia de que ela estava a medi-lo, enquanto ele media as paredes. Estava habituado a isso. Quando era um garoto, o pai o media e ele estava sempre abaixo do esperado.
    
    Dwight Frazier, ex-fuzileiro, caador vido, presidente da cmara da cidade e fundador das Construes Frazier, tinha grandes expectativas em relao ao seu rebento. A sua desiluso, quando verificara que esse rebento ficava muito aqum do esperado, cravara-se como um espinho.
    E nunca fora permitido ao jovem Dwight Jnior esquecer isso.
    A verdade era que, pensou Dwight enquanto rabiscava nmeros no seu bloco, ficara muito aqum do esperado. Baixo, gordo, desajeitado, era candidato constante a brincadeiras e escrnios e ao ar de desapontamento do pai.
    O pior de tudo  que ele tinha crebro. Quando era garoto, no havia combinao mais fatal do que um corpo gorducho, ps desajeitados e um crebro esperto. Era o querido dos professores, o que equivalia a ter pintado nas costas um letreiro dizendo Dem-me um chute.
    A me tentara compens-lo da melhor forma que sabia. Empanturrando-o de comida. Na idia da sua querida me, no havia nada como uma caixa de Ho Ho's para fazer as pazes com o mundo.
    A sua salvao tinham sido Cade e Wade. O fato de eles terem se tornado seus amigos nunca fizera grande sentido para Dwight. Fora tambm uma questo de classe. Pertenciam a trs das famlias mais proeminentes da cidade. Ficara e continuava a lhes estar grato por isso.
    Talvez existisse ainda uma pequena chispa de ressentimento dentro dele, quanto aos caprichos do destino que tinham feito os outros dois altos, bem-parecidos e geis, enquanto ele fora gordo, desinteressante e estranho. Mas ele dera a volta a isso. Sem sombra de dvida.
    - Comecei a correr aos catorze anos. - Disse como que por acaso, enquanto voltava a usar a sua fita mtrica.
    - Desculpa?
    - Ests a ruminar. - Baixou-se e voltou a tomar apontamentos no seu bloco. - Cansei-me de ser o garoto gordo e decidi fazer qualquer coisa. Perdi seis quilos de gordura em apenas alguns meses. Quando comecei a correr, fazia-o  noite, para ningum poder ver-me. Sentia-me de rastos. Parei de comer os bolos e os doces que a minha me me mandava na lancheira, todos os dias. Achei que ia morrer de fome.
    Levantou-se e voltou a exibir o seu sorriso.
    - No primeiro ano do liceu, comecei a ir para a pista  noite, e corria ali. Ainda tinha peso de mais, ainda era lento, mas j no vomitava o jantar. Parece que o treinador Heister costumava ir at l  noite, tambm, no seu Chevy sedan, na companhia da mulher de outro homem. No vou dizer quem, porque a senhora continua casada e  av orgulhosa de trs netos. Segura aqui esta ponta, minha querida.
    Fascinada, Tory pegou na ponta da fita mtrica, enquanto Dwight andava para trs, para medir a rea do balco.
    - Ora, aconteceu que numa das minhas visitas  pista da escola secundria de Progress dei com o treinador e a futura av de trs netos. Como podes imaginar, foi um momento bastante estranho para todas as partes envolvidas.
    -  o mnimo que se pode dizer.
    - E quanto menos se disser, melhor, que foi o que o treinador me sugeriu que fizesse, com as mos  volta do meu pescoo. Tive que concordar. Contudo, como homem justo que era, ou talvez apenas desconfiado, fez-me uma oferta. Se eu continuasse a treinar e perdesse mais cinco quilos, ele arranjava-me lugar na equipe de atletismo, na primavera seguinte. Foi este o nosso acordo tcito, que eu esquecesse o incidente e ele abster-se-ia de matar-me e de enterrar o meu corpo em campa rasa.
    - Parece ter sido um bom acordo para todos.
    - Para mim, foi. Perdi o peso e surpreendi toda a gente, incluindo eu prprio, no s por ter integrado a equipe como por ter ganhado tudo nos cinquenta e nos cem metros. Tornei-me um velocista de primeira. Ganhei o trofeu All Star durante trs anos e o amor da bela Lissy Harlowe.
    Ela sentiu empatia em relao a ele, de um excludo para outro.
    -  uma linda histria.
    - Com um final feliz. Acho que consigo ajudar-te a ter uma histria com final feliz aqui, na tua loja. Porque no me deixas oferecer o almoo enquanto falamos disso?
    - Eu no... - Interrompeu-se quando a porta se abriu atrs de si.
    - No me digas que ests a contratar este trapalho de meia-tijela. - Wade entrou com passo decidido e ps o brao por cima do ombro de Tory. - Graas a Deus cheguei a tempo.
    - Este mdico de cachorros no entende nada de construo. Vai fazer um clister a um poodle, Wade. Vou levar a tua bonita prima, e minha potencial cliente, a almoar.
    - Ento, resta-me ir tambm para proteger os interesses dela.
    - Preciso mais de prateleiras do que de uma sanduche.
    - Vou arranjar-te as duas coisas. - Dwight piscou-lhe o olho. - Anda, minha querida, e traz esse peso morto contigo.
    
    Fez uma pausa de trinta minutos, e gostou mais do que esperava. Dava gosto ver a amizade adulta entre Dwight e Wade, que tinha razes nos rapazes de quem se lembrava.
    F-la sentir saudades de Hope.
    Era fcil, para uma mulher que raramente se sentia confortvel na companhia de homens, sentir-se bem quando um deles era seu primo e o outro perfeitamente casado. To perfeitamente que Dwight estava a mostrar fotografias do filho antes dos sanduches serem servidos. Fosse como fosse, Tory teria soltado as expresses habitualmente esperadas, mas na verdade o rapazinho era realmente adorvel, com o bonito rosto de Lissy e os olhos vivos do pai.
    E, enquanto ia a caminho das compras, concluiu que fora construtivo e fcil, ao mesmo tempo. No s Dwight compreendeu o que ela pretendia, como melhorou as idias dela, e o oramento ajustava-se confortavelmente s suas disponibilidades. Ou melhor, ajustou-se depois de ela ter regateado, recusado, questionado e pressionado. E, limpando o suor imaginrio da testa, prometeu que o trabalho estaria feito antes de meados de maio.
    Satisfeita, saiu e comprou uma cama.
    O que ela tinha realmente em mente era apenas o colcho e o estrado. Anos de frugalidade nunca lhe tinham permitido comprar nada por impulso. E era raro, muito raro, sentir o desejo forte de ter alguma coisa.
    No momento em que a viu, ficou fascinada.
    Afastou-se duas vezes, e duas vezes voltou. O preo no estava fora de contas, mas no precisava de uma bela cama de ferro clssica, com um enquadramento delicado da cabeceira e dos ps do colcho. Sim, era prtica, mas no era necessria.
    Um estrado slido e um bom colcho era tudo o que precisava. Pelo amor de Deus, era apenas para dormir.
    Debateu-se consigo mesma, mesmo enquanto tirava o carto de crdito da carteira, enquanto levava o carro at ao armazm, enquanto dirigia em direo a casa. Depois, ficou demasiado ocupada descarregando, praguejando e puxando para perder tempo discutindo.
    Entre filas de algodo recm-cultivado, Cade observou a luta dela durante dez minutos. Depois, praguejou tambm, marchou at  sua camioneta e meteu-se no caminho para a casa dela.
    No bateu a porta quando saiu, mas teve vontade de faz-lo.
    - Esqueceste as pulseiras mgicas.
    
    Ela estava arquejante, algumas madeixas de cabelo tinham escapado do arranjo que ela fizera e estavam coladas ao rosto, mas j conseguira levar a caixa enorme e pesada at o meio dos degraus do alpendre. Endireitou-se, tentando controlar a respirao.
    - O qu?
    - No podes ser a Supermulher sem as tuas pulseiras mgicas. Eu pego por este lado.
    - No preciso de ajuda.
    - Deixa de ser casmurra e abre a porta. Ela avanou furiosamente e abriu a porta.
    - Ests sempre por aqui?
    Ele tirou os culos de sol e atirou-os para o lado. Era um hbito que lhe custava uma mdia de dois pares por ms.
    - Vs aquele campo, ali?  meu. Agora, afasta-te enquanto eu fao subir isto. Que raio de cama  esta?
    - De ferro - disse ela, com alguma satisfao quando viu que ele tinha de empurrar a caixa com as costas.
    -  o que parece. Precisamos levant-la para passar pela porta.
    - Isso j eu sabia. - Firmou os ps, acocorou-se e tomou o peso do seu lado da caixa. Houve muito resmungo, muito jeito e um n de dedo esfolado da parte dela, mas conseguiram. Ela continuou a andar para trs, forada a confiar nele enquanto ele lhe dava indicaes para a direita ou para a esquerda, at conseguirem chegar ao quarto.
    - Obrigada. - Sentia os braos como se fossem de borracha. - Agora j me arranjo.
    - Tens ferramentas?
    - Claro que tenho ferramentas!
    - Muito bem. Vai busc-las. Evita eu  ir buscar as minhas.  melhor armarmos isto antes de trazermos o resto para dentro.
    Num gesto irritado, ela atirou a cabea transpirada para trs.
    - Eu consigo fazer isso.
    - E s quase suficientemente teimosa para eu deixar que faas. Mas sou vtima da minha raa superior. - Pegou-lhe na mo, examinou a pele ferida e beijou-a de leve antes de ela conseguir libert-la. - Podes ir tratar disto enquanto eu fao isto.
    Pensou em insult-lo, p-lo fora, ou mesmo corr-lo a pontaps, e decidiu que qualquer opo era uma perda de tempo. Foi buscar as ferramentas.
    
    Ele admirou a caixa preta das ferramentas, que parecia realmente eficaz:
    - Estars tu preparada para tudo?
    - Provavelmente no sabes distinguir um alicate de uma chave de fendas.
    Obviamente divertido, pegou num alicate de pontas finas:
    - Tesoura, certo?
    Quando a respirao dela terminou numa gargalhada, ele deu incio  pesada tarefa de tirar os grampos cravados na caixa.
    - Vai pr qualquer coisa nesse dedo.
    - No  nada.
    Ele no se deu ao trabalho de olhar para ela, nem de mudar o tom de voz, mas fez ouvir a leve dureza de uma ordem.
    - Vai pr a qualquer coisa. E depois, porque no vais arranjar-nos uma bebida fria?
    - Ouve, Cade, no sou a tua mulherzinha. Ele ergueu os olhos e observou-a, impassvel.
    - s pequenina e s mulher. E sou eu que tenho a tesoura.
    - Suponho que se eu te disser onde podes meter esse alicate isso no tire esse sorriso da tua cara.
    - Suponho que se eu te disser que ficas sexy quando ests cansada isso no te convena a batizar esta cama comigo, depois de montada.
    - Deus meu! - foi tudo o que ela disse enquanto saa do quarto, com passos decididos.                                                              ,
    Deixou-o sozinho. Ouvia o arrastar e o praguejar ocasional, enquanto trazia as mercearias para casa, as arrumava e fazia ch. Ele tinha umas mos compridas, pensou ela. Dedos elegantes de pianista, que contrastavam com as palmas speras e calosas. Tinha a certeza de que ele sabia plantar, tratar e colher. Fora criado para isso. Mas tarefas do dia a dia? No, isso era uma questo diferente.
    Como achava que ele nunca tinha montado uma cama na sua vida privilegiada, imaginou que quando entrasse no quarto iria deparar com um caos completo. E estava decidida a dar-lhe muito tempo para armar a maior confuso.
    Pendurou o seu novo telefone na cozinha, guardou os seus novos panos da loua e, preguiosamente, cortou rodelas de limo para o ch. Convencida de que ele tivera tempo suficiente para mortificar-se, deitou o ch em dois copos com gelo e dirigiu-se para o quarto, com eles.
    
    Ele estava a apertar o ltimo parafuso.
    Os olhos dela iluminaram-se e o leve som que soltou foi de absoluta alegria feminina.
    - Oh! Que maravilha!  realmente uma maravilha! Eu sabia que ia ficar linda!
    Sem pensar, meteu-lhe os copos nas mos, para poder passar as dela pelo ferro.
    A primeira reao dele foi de divertimento, e depois de satisfao. Quando ele comeou a beber o ch, ela aproximou-se do centro da cama e passou as pontas dos dedos pelas traves.
    E a reao dele transformou-se em puro desejo, to bsico, to forte, que ele deu um passo atrs, deliberadamente. Imaginou perfeitamente os dedos dela enrolados  volta daqueles ferros, segurando-se a eles enquanto ele entrava nela. Em impulsos fortes e longos, enquanto aqueles olhos de bruxa com pestanas compridas se esvaam em fumo.
    -  slida. - Abanou um pouco a cabeceira e o estmago dele doeu-lhe e apertou.
    -  bom que seja.
    - Fizeste um bom trabalho, e eu fui mal-educada. Obrigada e desculpa.
    - De nada, e esquece isso. - Estendeu-lhe o copo e depois estendeu o brao para puxar a corrente do ventilador de teto. - Est calor, aqui dentro. - Apeteceu-lhe morder aquele bocadinho mesmo por baixo da orelha esquerda dela, onde comeava a curva do maxilar.                                                   
    Como a voz dele soou pouco firme, ela sentiu-se outra vez atacada pela culpa.
    - Fui realmente mal-educada, Cade. No sou muito boa em lidar com as pessoas.
    - No s boa a lidar com as pessoas? E vais abrir uma loja onde vais lidar com elas todos os dias?
    - Isso so clientes - disse ela. - Sou muito boa em lidar com clientes.
    - Ento... - Deu alguns passos at ficar exatamente diante dela, do outro lado da moldura da cama. - Se eu te comprar qualquer coisa, vais ser simptica comigo.
    No precisava ler os pensamentos dele quando podia ler-lhe os olhos.
    - To simptica, no. - Entorpecida, afastou-se dele e saiu do quarto.
    - Eu podia ser um bom cliente.
    - Ests a tentar vencer-me outra vez pela exausto.
    - Estou a tentar vencer-te outra vez pela exausto, Tory. - Pousou-lhe uma mo no ombro. - Pra com isso - disse ele suavemente quando ela se contraiu. Pousou o copo no cho e depois f-la vi-rar-se para ficar frente a frente com ele. - Pronto, no doeu nada, pois no?
    As mos dele eram suaves. Havia muito tempo, muito tempo que no sentia um toque suave vindo de um homem.
    - No estou interessada em namoros.
    - Eu estou. Mas, por enquanto, podemos arranjar um compromisso. Vamos tentar ser amigos.
    - Eu no sou uma boa amiga.
    - Eu sou um bom amigo. E agora, porque no vamos buscar o resto da tua cama, para poderes dormir decentemente esta noite?
    Ela deixou-o chegar quase at  porta. Dissera a si prpria que no falaria nisso. Nem a ele, nem a ningum, at estar preparada. At se sentir forte e segura. Mas estava borbulhando dentro dela.
    - Cade, nunca perguntaste. Nem naquela altura, nem agora. Nem uma nica vez perguntaste como eu sabia. - As mos comearam a transpirar-lhe quando ele se virou, por isso agarrou os cotovelos. - Nunca perguntaste como eu sabia onde ela estava. Como eu sabia o que tinha acontecido.
    - No foi preciso perguntar.
    As palavras dele fluam agora em torrente, saltando como gua de uma fonte desgovernada.
    - Algumas pessoas acharam que eu estava com ela, apesar de eu dizer que no estava. Que fugi e a deixei sozinha. Que a abandonei...
    - Eu no penso isso.
    - E aquelas que acreditaram em mim, que acreditaram que eu vi da maneira que vi, afastaram-se de mim, afastaram os filhos de mim. Deixaram de olhar-me nos olhos.
    - Eu olhava-te nos olhos. Naquela altura e agora.
    Ela teve de respirar fundo para se acalmar.
    - Porqu? Se acreditas que eu tenho aquilo dentro de mim, porque no te afastaste? Porque ests aqui, agora? Ests  espera que eu te revele o futuro?  que no consigo. Ou que te d algumas dicas para comprares aces na bolsa? No fao isso.
    Ele notou que ela tinha o rosto afogueado, os olhos escuros e vivos com emoes  flor da pele. Uma dessas emoes, uma que sobressaa por entre todas as outras, era a raiva.
    Ele no ia jogar aquele jogo, nem reagir como ela esperava que ele reagisse.
    - Gosto de viver um dia de cada vez, mas obrigado na mesma. E tenho um corretor para tratar das minhas aes. J te ocorreu que estou aqui agora porque gosto de olhar por ti?
    - No.
    - Ento s a primeira e nica mulher sem vaidade que tive ocasio de conhecer. No te fazia mal nenhum arranjares alguma. Agora vejamos... - Inclinou a cabea. - Queres trazer este colcho c para dentro ou surpreender-me, contando-me o que almocei hoje?
    A boca dela abriu-se, enquanto ele se aproximava da porta. Estaria ele a fazer uma piada? As pessoas faziam troa dela, ou reviravam os olhos. Ou afastavam-se cautelosamente. Alguns vinham pedir-lhe que resolvesse os seus problemas e infelicidades. Mas ningum, que fosse do seu conhecimento, dissera uma piada sem m inteno.
    Rodou os ombros, para aliviar a tenso, e depois foi ajud-lo a trazer o colcho.
    Trabalhavam agora em silncio, ela amuada e ele com a cabea noutro lado qualquer. Quando a cama estava no lugar, Cade acabou de beber o ch, levou o copo para a cozinha e depois dirigiu-se para a porta.
    - A partir daqui, j deves dar conta do recado. J estou um bocado atrasado.
    Ai, isso  que no ests, pensou, e correu atrs dele.
    Fosse por impulso ou por aborrecimento, ela seguiu-o e segurou-lhe o brao at ele parar e olhar para baixo.
    - Agradeo a ajuda. De verdade.
    - Bem, ento pensa em mim quando estiveres a entrar na terra dos sonhos, esta noite.
    - Sei que o tempo te faz falta. Falaste em almoo?
    Perplexo, ele abanou a cabea.
    - Almoo?
    Era de mais.
    - Sim, o teu almoo, hoje. Metade de uma sanduche de presunto com queijo suo e mostarda escura. Deste a outra metade quele co preto escanzelado que vem pedinchar quando te v. - Sorrindo, afastou-se. - Deves estar ficando com fome para o jantar.
    Ele refletiu um minuto e depois decidiu seguir o instinto.
    - Tory, porque no voltas aqui e me dizes o que estou a pensar agora?
    Ela sentiu uma espcie de riso a agitar-se no peito.
    - Acho que vou deixar isso s para ti.
    E deixou a porta de tela fechar-se atrs de si.
     
    Eram as flores, Margaret sempre pensara isso, que a mantinham lcida. Quando tratava das flores, elas nunca respondiam, nunca lhe diziam que ela no compreendia, nunca arrancavam as razes nem se iam embora, amuadas.
    Ela podia cortar as partes selvagens, aqueles rebentos que cresciam de repente e que pensavam que podiam seguir o seu caminho, at a planta ter a forma que ela entendia que devia ter.
    Imaginou que devia estar muito melhor se tivesse ficado solteira e criado penias em vez de filhos.
    Os filhos partem coraes s por serem filhos.
    Mas o casamento fazia parte do que era esperado da parte dela. E tanto quanto se lembrava sempre fizera o que era esperado da parte dela. De vez em quando fazia um pouco mais, mas raramente, muito raramente, fazia menos.
    E amara o seu marido, pois evidentemente que isso tambm era esperado da parte dela. Jasper Lavelle era um jovem bem-parecido quando comeou a cortej-la. Bem, e tambm tinha charme, o mesmo sorriso lento e evasivo que ela via por vezes desenhar-se no rosto do filho que tinham feito juntos. Era temperamental, mas isso era excitante quando ela era suficientemente jovem para achar excitante esse tipo de coisa. Reconhecia esse mesmo temperamento na sua filha. Na filha que estava viva.
    Era grande e forte, um homem dramtico com um riso alto e mos rijas. Talvez por isso ela visse tanto dele e to pouco de si prpria nos filhos que lhes restavam.
    Quando analisava a situao, irritava-a o fato de a sua marca naquelas vidas que ela ajudara a criar ser to tnue. Em vez disso, optara, estava certa de que sensatamente, por deixar a sua marca em Beaux Revs. Ali, o seu toque, a sua viso eram to profundas como as razes dos velhos carvalhos que ladeavam o caminho de acesso  casa.
    E isso, mais do que o filho ou a filha, tornara-se o seu orgulho.
    Se Hope fosse viva, teria sido diferente. Cortou a cabea murcha de um cravo, sem lamentar a perda daquela flor outrora perfumada. Se Hope fosse viva, refletiria e compreenderia todas as esperanas e sonhos que uma me tem para uma filha.Teria dado um novo brilho ao nome dos Lavelle.
    Jasper teria permanecido forte e firme, e nunca se teria desgraado com mulheres e escndalos. Nunca se teria desviado do caminho que ambos tinham iniciado, nem deixado a sua esposa a esfregar as ndoas do nome que partilhavam.
    Mas no fim Jasper ficara intratvel, e quando no estava furioso estava se preparando para ficar. Na vida com ele no tinham faltado acontecientos. O ltimo fora o mau gosto de sofrer um ataque de corao fatal na cama da amante. O fato de a mulher ter tido o bom senso e a dignidade de se manter afastada enquanto o incidente era abafado cravara-se no estmago de Margaret como um osso pontiagudo.
    Ainda assim, feito o balano, era muito mais fcil ser viva dele do que sua esposa.
    No sabia porque estava a lembrar-se tanto dele naquela abenoada manh fresca, em que o orvalho depositava beijos molhados nas suas flores e o cu se apresentava no azul suave da primavera.
    Fora um bom marido. Na primeira fase do casamento fora um alicerce forte e slido, um homem que tomava as decises para ela ter de se preocupar com pormenores. Fora um pai atento, talvez at um pouco permissivo.
    A paixo entre eles j acalmara quando chegaram ao primeiro aniversrio da sua noite de casamento. Mas a paixo era um elemento difcil e perturbador na vida de uma pessoa, uma emoo exigente e instvel. No que ela alguma vez lhe tivesse dito que no, claro, nem uma nica vez desde a noite do casamento lhe virara as costas na cama.
    Margaret tinha orgulho nisso, orgulho em ter sido uma boa esposa, dedicada. Mesmo quando a idia de sexo a deixava nauseada, no ficara ao dispor dele, em silncio, para que ele se aliviasse?
    Cortou mais flores murchas, com um clique afiado da tesoura, e colocou-as no cesto do lixo.
    Fora ele que lhe virara as costas, que mudara. Nada voltara a ser o mesmo no casamento deles, nas suas vidas, na sua casa, desde aquela manh terrvel, aquela manh quente e pegajosa de agosto, quando encontraram a sua Hope no pntano.
    Doce e boa Hope, pensou, com uma dor que se tornara mais surda e mais pesada com o passar dos anos. Hope, o seu anjo de luz, a nica das crianas a quem tinha dado vida que parecia verdadeiramente ligada a si, verdadeiramente sua.
    Havia momentos, passados todos estes anos ainda havia momentos em que se perguntava se aquela perda fora uma espcie de castigo. Ter-lhe sido levada a filha de quem ela gostava mais. Mas que crime, que pecado cometera ela para merecer tal castigo?
    Permissividade, talvez. O ter permitido que a menina se ligasse  mida Bodeen, quando teria sido mais sensato - era to fcil ver isso agora,  distncia! - contrariar, at mesmo proibir a sua inocente Hope de desenvolver tal ligao. Esse fora o erro, mas no fora verdadeiramente um pecado.
    E se fora um pecado, era mais da responsabilidade de Jasper. Ele minimizava a sua preocupao quando ela a manifestava, chegava mesmo a rir-se dela. A mida Bodeen era inofensiva, dizia ele. Inofensiva.
    Jasper pagara por aquele juzo errado, aquele erro, aquela pecado, para o resto da sua vida. E, mesmo assim, no era suficiente. Nunca seria suficiente.
    A mida Bodden matara Hope, exatamente como se lhe tivesse tirado a vida com as suas prprias mos, pequenas e sujas.
    Agora, estava de volta. De volta a Progress, de volta  Casa do Pntano, de volta s suas vidas. Como se tivesse todo o direito.
    Margaret arrancou um pedao de trepadeira daninha e atirou-o para o cesto. A av costumava dizer que as ervas daninhas eram apenas flores silvestres que cresciam no lugar errado. Mas no eram. Eram invasoras e precisavam de ser arrancadas, cortadas, destrudas de qualquer maneira.
    No podia permitir-se que Victoria Bodeen criasse razes e florescesse em Progress.
    
    Era to bonita, pensou Cade. A sua me, aquela mulher admirvel e distante. Vestia-se para jardinar como se vestia para tudo: com cuidado, preciso e perfeio.
    Usava um chapu de palha de abas largas, para lhe proteger a cabea, com uma fita azul clara a condizer com a saia comprida de algodo e a blusa curta, que ela protegia com um avental de jardinagem cinzento.
    Tinha prolas nas orelhas, luas redondas e brancas, to luminosas como as gardnias que tanto adorava.
    Usava tambm o cabelo branco, embora tivesse apenas cinquenta e trs anos. Era como se quisesse que ele fosse um smbolo de idade e de dignidade. Tinha a pele suave. As preocupaes pareciam nunca se refletir nela. O contraste entre aquele rosto bonito e jovem e o choque causado pelo cabelo branco era marcante.
    Mantinha-se em forma. Esculpia o corpo impiedosamente, com dietas e exerccio. Os quilos indesejados no eram mais tolerados do que as ervas daninhas no seu jardim.
    Havia oito anos que era viva, e assumira to facilmente essa condio que era difcil record-la de outro modo.
    Sabia que ela estava descontente com ele, mas isso no era novidade. O seu descontentamento era quase sempre mostrado da mesma forma que a sua aprovao. Com algumas palavras frias.
    No se lembrava da ltima vez que ela lhe tocara com sentimento, ou com calor. No se lembrava se alguma vez esperara que ela lhe tocasse assim.
    Mas continuava a ser sua me, e ele faria tudo o que pudesse para apagar a distncia entre eles. Sabia demasiado bem que uma pequena brecha se podia transformar num abismo, atravs do silncio.
    Uma pequena borboleta amarela volteava junto  cabea dela e foi ignorada. Margaret sabia que ela estava ali, tal como sabia que ele caminhava na direo dela, com largas passadas, pelo caminho pavimentado. Mas no reagiu  presena de nenhum dos dois.
    - Est uma bela manh para andar c fora - comeou Cade. - A primavera est boa para as flores.
    - Era bem-vinda alguma chuva.
    - Anunciaram chuva para esta noite, j no  sem tempo. Abril est muito seco para o meu gosto. - Ele acocorou-se, deixando a distncia de um brao entre eles. As abelhas zumbiam loucamente ali perto, nos montes de azleas. - As primeiras sementeiras esto quase prontas. Tenho que ir dar uma volta para ver como est o gado. Temos uns bezerros prontos a serem desmamados. Tenho umas compras a fazer. Quer que lhe traga alguma coisa?
    - Um herbicida dava-me jeito. - Nessa altura, levantou a cabea. Os olhos dela eram de um azul mais plido e mais suave do que os dele. Mas eram igualmente diretos. - A no ser que tenhas alguma objeco moral a que eu use herbicida nos meus jardins.
    - Os jardins so seus, Me.
    - E os campos so teus, como me foi lembrado. Tratas deles como entenderes. Exatamente como as propriedades so as tuas propriedades. Arrenda-las a quem te apetecer.
    - Exatamente. - Podia ser to frio como ela, se quisesse. - E os lucros desses campos e dessas propriedades iro manter Beaux Revs sem dvidas. Enquanto estiverem nas minhas mos.
    Arrancou um amor-perfeito,  rpida e impiedosamente,  com as pontas dos dedos.
    - Os rendimentos no so os padres pelos quais regemos as nossas vidas.
    - Mas o que  certo  que as tornam bem mais fceis.
    - No h necessidade de falares nesse tom comigo.
    - Peo desculpa. Pensei que havia. - Pousou as mos nos joelhos, aguardando que eles se acalmassem. - Alterei o funcionamento da fazenda, comecei a mud-lo h mais de cinco anos. E funciona. No entanto, recusa-se a aceitar ou a reconhecer que fiz com que as coisas funcionassem. No posso fazer nada quanto a isso. Quanto s propriedades, tambm trato delas  minha maneira. Que  diferente da do pai.
    - Achas que ele deixaria aquela mida Bodeen pr os ps naquilo que era nosso?
    - No sei.
    - Nem te importa - disse ela, voltando a arrancar ervas daninhas.
    - Talvez no. - Afastou o ohar. - No posso viver a minha vida a perguntar-me o que ele faria, ou quereria ou esperaria. O que sei  que a Tory Bodeen no  responsvel pelo que aconteceu h dezoito anos.
    - Ests enganado.
    - Bem, um de ns est. - Ps-se de p. - Seja como for, ela est c. Tem direito a estar c. No h nada a fazer quanto a isso.
    Era o que iriam ver, pensou Margaret, enquanto o filho se afastava. Iriam ver o que havia a fazer quanto a isso.
    
    O mau humor manteve-se durante o dia. Por mais vezes que tentasse, sem sucesso, aproximar-se da me, sentia a dor dessa rejeio como se fosse a primeira.
    Deixara de tentar explicar e justificar as alteraes que fizera na fazenda. Ainda se lembrava da noite em que lhe mostrara mapas, grficos e projees, ainda se lembrava de como ela olhara para ele, de como o informara, dura como pedra, antes de lhe virar as costas, que Beaux Revs era uma coisa que no podia ser posta no papel e analisada.
    Magoara-o, mais ainda, supunha ele, porque ela tinha razo. No podia ser posta no papel. Nem a terra, que ele estava to decidido a proteger, a preservar e a passar  prxima gerao de Lavelle.
    O seu orgulho nela, o seu compromisso para com ela, no eram menores do que os da me. Mas para Cade era, como sempre fora, uma coisa viva que respirava e crescia e mudava com as estaes. E para a me era esttica, como um monumento cuidadosamente preservado. Ou um tmulo.
    Tolerava a falta de confiana dela, tal como tolerava a troa e o ressentimento dos vizinhos. Passara inmeras noites sem dormir durante os primeiros trs anos em que estivera  frente da fazenda. A preocupao e o medo de estar enganado, de falhar, de que o legado que lhe fora parar s mos escorregasse por entre elas na sua impacincia e no seu entusiasmo, na teimosia e na insistncia em fazer as coisas  sua maneira.
    Mas no estava enganado, pelo menos quanto  fazenda. Sim, requeria mais tempo, esforo e dinheiro fazer a cultura biolgica do algodo. Mas a terra... ah!, a terra ficava mais forte. Via-a explodir no vero, descansar no inverno, e surgir na primavera, sedenta de tudo o que ele pusesse nela.
    Recusava-se a envenen-la, por mais que lhe dissessem que com essa recusa estava a condenar a terra e as colheitas. Tinham-lhe chamado obstinado, teimoso, louco, e muito pior.
    E no primeiro ano em que atingira as condies impostas pelo governo para a cultura biolgica do algodo, depois de colher e vender, celebrara embebedando-se calmamente, sozinho no escritrio que fora do pai.
    Comprou mais gado, porque acreditava na diversificao. Adquiriu mais cavalos, porque os adorava. E porque tanto os cavalos como o gado produziam estrume.
    Acreditava na fora e no valor do algodo biolgico. Estudou, fez experincias. Aprendeu. Manteve-se suficientemente fiel s suas crenas para arrancar as ervas daninhas  mo quando era necessrio e para tratar das bolhas sem se queixar. Observava o cu e ouvia as previses meteorolgicas com igual devoo, e voltava a aplicar os lucros na terra, ciclicamente, tal como lavrava depois da colheita.
    Havia outras reas a operacionalizar, os contratos, os arrendamentos e as fbricas. Ele usava-os, trabalhava-os, sem nunca os descurar. Mas o seu corao no era deles.
    Era da terra.
    No conseguia explicar, e nunca tentara. Mas amava Beaux Revs como alguns homens amam uma mulher. Completamente, obsessivamente, com cime. Todos os anos o seu sangue fervia de emoo quando ela dava  luz os seus filhos.
    A manh fresca transformara-se numa tarde abafada quando ele terminou todas as tarefas aborrecidas, incluindo as compras, que tinha para fazer. Tinha a lista na cabea e ia-as eliminando sistematicamente.
    Passou pela estufa, a dois quarteires da praa da cidade, para comprar o herbicida para a me. As caixas de flores chamaram-lhe a ateno. Impulsivamente, escolheu uma caixa de alegria-da-casa cor-de-rosa e levou-a para dentro.
    Havia dez anos que os Clampett tinham a estufa. Comeara por ser uma forma de complementar os seus campos de soja. Com os anos, tinham-se sado melhor com as flores do que com as colheitas.
    - Leva outra com um desconto de vinte por cento. - Billy Clampett fumava um Camel, mesmo por baixo do letreiro NO FUMAR que a me pusera na parede.
    - Cobra-me duas, ento. Levo a outra quando sair. - Cade pousou a caixa no balco. Andara na escola com Billy, embora nunca tivessem sido propriamente amigos. - Como vo as coisas?
    - Pouco movimentadas, disso no h dvida. - Billy semicerrou os olhos atravs do fumo. Tinha os olhos escuros e insatisfeitos. Insistia em usar o cabelo cortado  escovinha, spero como agulhas, e sem cor definida. Engordara desde o liceu ou, para ser mais exacto, perdera os msculos que o tinham tornado um conhecido defesa no futebol.
    - Vo ser mais umas das tuas plantas de cobertura?
    - No. - Sem querer entrar em atrito, Cade deu alguns passos pela estufa, observando uns vasos. Pegou em dois com uma patina verde, e p-los em cima do balco. - Preciso de Roundup.
    Billy acabou o cigarro e meteu a chepa numa garrafa que guardava por baixo do balco. Sabia bem que no podia deixar provas  vista, ou a me iria desanc-lo.
    - Bem, pensei que no aprovavas essas coisas. Quando deixaste de andar aos abraos com as rvores?
    - E um saco de terra, para plantar as alegrias-da-casa - disse Cade, simplesmente.
    - Tambm te posso arranjar pesticida; andas  procura de algum insecticida?
    - No, obrigado.
    - No, est certo. - Billy soltou uma gargalhada sonora. - No queres nada com inseticidas, nem pesticidas, nem com os horrveis fertilizantes qumicos. As tuas colheitas so puras como virgens. At te citaram numa revista por causa disso.
    - Quando foi que comeaste a ler? - disse Cade em tom agradvel. - Ou andavas s a ver as imagens?
    - As revistas e os discursos bonitos no fazem mossa, por aqui. Toda a gente sabe que tu te limitas a ficar sentado e a colher os benefcios das despesas que os vizinhos fazem nos campos deles.            
    - Ai, sim?
    - Sim, pois - atacou Billy. - Tiveste uns anos com sorte. Sorte de mais, acho eu.                                                                                               
    - No me lembro de te ter perguntado o que achavas, Billy. No te importas de fazer a conta?
    - Mais cedo ou mais tarde, vais pagar por isto. Ests apenas a  abrir os braos  peste e s doenas.
    O dia fora comprido e aborrecido, e Cade Lavelle era um dos alvos preferidos de Billy. Era manso e nunca respondia.
    - Mas se as tuas colheitas forem infectadas, as outras tambm vo ser. E nessa altura vai ser o inferno.                             
    - Vou ver se no me esqueo. - Cade tirou algumas notas da carteira e atirou-as para cima do balco. - Vou levar isto para a camioneta enquanto fazes a conta.
    Manteve as emoes aaimadas, por mais que lhe apetecesse deix-las rosnar como um co raivoso. Mas  solta eram selvagens. Billy       Campbell no valia o tempo nem o esforo de refre-las depois de        deixadas  solta.                                                                                                
    Foi isso que disse a si prprio enquanto punha os vasos e as caixas de flores na camioneta.                                                                   
    Quando voltou a entrar, o Roundup e um saco de dez quilos de terra estavam em cima do balco.
    - Tens a haver trs dlares e seis cntimos. - Com uma lentido deliberada, Billy contou o troco. - Vi a tua irm uma ou duas vezes na cidade. Est com bom aspecto. - Ergueu os olhos e sorriu. - Mesmo bom.
    Cade meteu o troco no bolso e manteve nele o punho fechado, para impedi-lo de ir direito quela boca trocista.
    - Como est a tua mulher, Billy?
    - A Darlene est bem. Grvida outra vez, a terceira. Espero ter plantado mais um filho forte dentro dela. Quando meto o arado num campo ou numa mulher, fao o servio bem feito. - Os olhos brilharam-lhe e o sorriso alargou-se. - Pergunta  tua irm.
    A mo de Cade estava fora do bolso, agarrando Billy pelo colarinho antes de qualquer deles estar preparado para isso.
    - S uma coisa - disse Cade calmamente. - No te esqueas quem  o dono daquela casa onde moras. No te esqueas disso, Billy. E deixa a minha irm em paz.
    - Tens muita garganta acerca do teu dinheiro, mas no tens bolas para usar os punhos como um homem.
    - Deixa a minha irm em paz - repetiu Cade -, ou vais descobrir para que tenho bolas.
    Cade soltou-o, pegou no resto das compras e saiu com grandes passadas. Saiu do parque de estacionamento e seguiu at ao primeiro sinal de Pare. Ficou ali, sentado e com os olhos fechados, at a nuvem vermelha de fria desaparecer.
    No tinha a certeza do que era pior: andar a murros com Clampett num lugar cheio de ramos de flores, ou no se esquecer da insinuao de que a irm tinha deixado um lixo como Clampett pr-lhe as mos em cima.
    Engatando a primeira, deu meia volta e dirigiu-se a Market Street. Encontrou lugar para estacionar a meio quarteiro da loja de Tory, mesmo atrs do carro do Dwight. Fazendo o melhor possvel para acalmar-se, pegou nos vasos e pousou-os  entrada da loja.
    Ouviu o som agudo de uma serra eltrica, antes de entrar.
    A base do balco j estava no lugar e a primeira fila de prateleiras estava pronta. Mandara-as fazer em pinho e depois as envernizara. Uma escolha inteligente, pensou Cade. Simples e sem artefatos, evidenciariam os artigos que ela exporia nelas em vez de chamar a ateno sobre elas prprias. O cho estava coberto de lona e ferramentas, e o ar cheirava a serragem e a suor.
    - Ol, Cade. - Dwight veio ter com ele, cheio de ferramentas. Cade deu um puxo  gravata azul com riscas que Dwight usava.
    - Que bonito que ests.
    - Tive uma reunio. Uns banqueiros. - Como se se tivesse lembrado apenas naquele momento que a reunio j acabara, Dwight desapertou um pouco o n da gravata. - Vim verificar se estava tudo bem, antes de ir para o escritrio.
    - Ests fazendo progressos.
    - A cliente tem idias bem definidas sobre o quer e quando quer. - Dwight revirou os olhos. - Estamos aqui para nos entendermos, mas deixa-me que te diga, ela no te d o mnimo espao de manobra. Aquela menina gaguejante transformou-se numa mulher de negcios dura de roer.
     
    - Onde est ela?
    - Nas traseiras. - Dwight fez um gesto com a cabea na direo da porta fechada. - Deixa-me trabalhar  vontade, verdade se diga. Deixa-me trabalhar  vontade desde que eu faa as coisas como ela quer.
    Cade voltou a olhar para o trabalho j feito.
    - As coisas como ela quer parecem-me bem - concluiu.
    - Tenho de admitir que sim. Ouve, Cade... - Dwight mexeu-se um pouco. - A Lissy tem uma amiga.
    - No.
    - Meu Deus, escuta-me.
    - No tenho de escutar-te. Ela tem uma amiga, uma amiga que  perfeita para mim. Porque no telefono a esta amiga ou no apareo l em casa para jantarmos os quatro, ou tomarmos um copo?
    - Bem, porque no? A Lissy no me vai deixar em paz at tu fazeres isso.
    - A mulher  tua, o problema  teu. Diz  Lissy que descobriste que sou gay, ou qualquer coisa assim.
    - Boa, vai dar certo. - A idia divertiu tanto Dwight que riu com gosto. - Vai mesmo dar resultado. Da maneira que as coisas esto, vai comear a escolher homens para ti.
    - Deus Todo-Poderoso. - Cade percebeu que aquele cenrio no estava afastado. - Ento diz-lhe que tenho um caso secreto e escaldante com algum.
    - Quem?
    - Escolhe algum - disse Cade, pondo fim ao assunto e dirigindo-se para a porta do fundo. - Ou diz-lhe simplesmente que no. - Bateu  porta e depois entrou, sem esperar pela resposta.
    Tory estava em cima de um escadote, a substituir uma lmpada fluorescente na calha do teto.
    - Deixa que eu fao isso.
    -J est. Isto  obrigao do arrendatrio, no do senhorio. -
    Ainda a irritava, s um pouco, saber que ele era o dono do edifcio.
    -J vi que puseram um vidro novo na porta.
    - Sim, obrigada.
    - Parece que consertaram o ar condicionado.
    - Sim.
    - Se quiseres chatear-te comigo hoje, vais ter que ir para a fila. H muita gente  espera.
    
    Ele virou-se, de mos nos bolsos. Ali, optara por prateleiras de metal, observou. Cinzentas, feias, slidas e prticas. J estavam atulhadas de caixas de carto, e as caixas meticulosamente etiquetadas com um nmero de estoque.
    Comprara uma escrivanuinha, tambm slida e prtica. Em cima dela j havia um computador e um telefone, bem como uma pilha de papis cuidadosamente arrumados.
    Em dez dias, era uma organizao considervel. No pedira ou aceitara a ajuda dele uma nica vez. Desejou que isso o deixasse indiferente.
    Tinha vestido uns cales pretos, uma T-shirt cinzenta e tnis cinzentos. Desejou no se sentir atrado por eles.
    Virou-se enquanto ela descia do escadote e agarrou-o para dobr-lo.
    - Eu arrumo isto.
    - Eu fao isso.
    Ele puxou o escadote e ela tambm.
    - Raios partam, Tory.
    O sbito silvo de fria, a luz perigosa nos olhos dele, fizeram-na recuar, juntando as mos. Ele fechou o escadote e meteu-o num pequeno armrio.
    Quando ele estava ali, de costas viradas para ela, ela sentiu um toque de culpa e de simpatia. Era estranho aperceber-se de que no sentia medo nem nervosismo, como acontecia habitualmente diante de homens zangados.
    - Senta-te, Cade.
    - Porqu?                          
    - Porque pareces estar precisando. - Foi at ao stio onde colocara uma minigeladeira, tirou de l uma garrafa de Coca-Cola e tirou-lhe a tampa. - Toma, ests precisando refrescar.
    - Obrigado. - Deixou-se cair na cadeira de escrivaninha e bebeu um longo gole da garrafa.
    - Mau dia?
    -J tenho tido melhores.
    Sem dizer nada, ela abriu a sua bolsa e encontrou a caixa de comprimidos com incrustaes, onde guardava a aspirina. Quando ela lhe estendeu duas, ele ergueu o sobrolho.
    Ela sentiu o calor assomar-lhe rapidamente s faces.
    - Eu no...  que parece, s isso.
    - Obrigado. - Engoliu a aspirina, suspirou e rodou os ombros. - Suponho que no queiras melhorar as coisas vindo at aqui e sentando-te no meu colo.
    - No, no quero.
    - Tinha que perguntar. E que tal jantar e ir ao cinema? No, no digas no sem sequer pensares no assunto - disse ele, antes de ela conseguir falar. - S jantar e ir ao cinema. Que diabo, uma pizza, um hambrguer, qualquer coisa simptica. Prometo no te pedir em casamento.
    -  um alvio, mas no  l grande incentivo.
    - Pensa nisso durante cinco minutos. - Ele largou a garrafa na escrivaninha e levantou-se. - Vem at l fora. Tenho uma coisa para ti.
    - Ainda no acabei aqui.
    - Ters tu que argumentar a propsito de tudo, mulher? Cansas-me. - Para resolver o problema, pegou-lhe na mo e arrastou-a at  porta.
    Era de esperar que ela resistisse. Mas havia dois carpinteiros na loja, o que significava dois pares de olhos e de ouvidos. Haveria menos razes para falatrio se ela sasse calmamente com Cade.
    - Gostei deles - comeou Cade, fazendo um gesto na direo dos vasos, enquanto continuava a pux-la pelo passeio, at  sua camioneta. - Se no gostares, podes troc-los na loja dos Clampett. E estas tambm, acho eu.
    Ele parou e tirou uma das plantas da caamba da camioneta.
    - Mas acho que ficam muito bem.
    - Bem com qu?
    - Contigo. Com a tua loja. Considera-as uma espcie de presente de boa sorte, mesmo que tenhas que ser tu a plant-las. - Meteu-Ihe a primeira caixa na mo e tirou a segunda e o saco de terra.
    Ela ficou ali, perplexa e comovida. Lembrou-se de que queria flores, flores em vasos,  porta da loja. Pensara em petnias, mas estas eram mais bonitas e igualmente simpticas.
    - Foi bonito da tua parte. E atencioso. Obrigada.
    - Podes olhar para mim? - Ele esperou que ela levantasse a cabea e que os olhos dela encontrassem os seus. - De nada. Onde as queres?
    - Vamos lev-las at  entrada. Vou plant-las.
    Quando comearam a caminhar pelo passeio, juntos, ela olhou-o demoradamente.
    - Que se dane. Podes aparecer por volta das seis. A pizza parece-me bem. Se correr bem, podemos falar sobre o cinema.
    - timo. - Pousou as flores e a terra diante da vitrine. - Eu volto.
    - Sim, eu sei - murmurou ela, enquanto ele se afastava.
     
    Talvez as pessoas no morressem mesmo de tdio, concluiu Faith, mas tambm no sabia como raio conseguiam viver com ele.
    Quando era criana e se queixava de que no tinha nada para fazer, as palavras caam nos ouvidos de adultos pouco condodos, que lhe distribuam tarefas aborrecidas. Detestava essas tarefas ainda mais do que detestava o tdio. Mas h lies que se aprendem da forma mais difcil.
    - No h nada para fazer aqui. - Faith estava confortavelmente sentada  mesa da cozinha, a mordiscar uma bolacha ao pequeno-almoo. Passava das onze, mas no se dera ao trabalho de vestir-se. Usava o robe de seda que comprara numa viagem a Savannah, em Abril.
    E aquilo tambm comeava a entedi-la.
    - As coisas so sempre iguais aqui, dia aps dia, ms aps ms. Juro que  milagre nenhum de ns sair daqui a correr, aos gritos, durante a noite.
    - Est com problemas de aborrecimento, Miss Faith? - A voz de Lilah, spera como grs, pairou sobre a pronncia francesa. Mantinha-a em parte porque a av era crioula, mas principalmente porque gostava.
    - Nunca acontece nada por aqui. Todas as manhs so iguais, e os dias vo-se estendendo em longas linhas de mais nada.
    Lilah continuou a esfregar a bancada. A verdade era que tinha a cozinha arrumada havia mais de uma hora, mas sabia que Faith havia de aparecer. Tinha estado  espera.
    - Acho que est precisando de alguma atividade. - Lanou a Faith um olhar suave, com os seus olhos castanhos e cndidos. Como ausncia de candura era coisa que Lilah tinha em abundncia, aquele olhar requerera alguma prtica.
    Mas ela conhecia o seu alvo. Cuidara de Miss Faith desde o dia em que aquela menina nascera. Nascera, recordou Lilah com alguma ternura, a berrar e a ameaar o mundo com os seus punhos cerrados. A prpria Lilah fazia parte do crculo domstico dos Lavelle desde os seus vinte anos de idade, quando fora contratada para ajudar nas limpezas, quando Mrs. Lavelle estava grvida de Mr. Cade.
    Nessa altura, tinha o cabelo preto e no grisalho, como agora. Tinha as ancas consideravelmente mais estreitas, mas no se desleixara. Amadurecera e tornara-se, como gostava de pensar, uma bela figura de mulher.
    Tinha a pele da cor do caramelo escuro que fazia para envolver as mas, no Halloween. Gostava de real-la com um batom vermelho forte, e trazia-o no bolso do avental.
    Nunca casara. No que no tivesse tido oportunidade. Lilah Jackson tivera muitos pretendentes, no seu tempo. E como o seu tempo estava longe de chegar ao fim, ainda gostava de enfeitar-se para correr a cidade na companhia de um homem bem-parecido. Mas casar? Bem, isso era diferente.
    Preferia as coisas como estavam, e isso significava ter um homem que viesse busc-la  porta e a levasse onde ela queria ir. E se ele quisesse sair com ela outra vez, era melhor lembrar-se de trazer uma bela caixa de chocolates ou umas flores e abrir-lhe as portas, como um cavalheiro.
    Casar com um homem significava passar a vida atrs dele, a v-lo soltar gases e a coar-se e sabe Deus mais o qu, enquanto ela se esfalfava para fazer esticar o cheque e conseguir manter a sanidade e comprar umas coisas bonitas para si.
    No, assim tinha uma bela casa: para dizer a verdade, Beaux Revs era tanto dela como de qualquer pessoa, que diabo! Criara trs bebs e ficara com o corao doente por causa da que tinham perdido, e tinha, na sua forma de pensar, todos os benefcios da companhia masculina sem qualquer dos problemas.
    Tambm gostava de um bom aconchego, de vez em quando. Se o bom Deus no quisesse que os seus filhos se aconchegassem no teria posto neles essa necessidade.
    E Miss Faith, pensou, estava ali cheia de necessidades e tinha de descobrir como preench-las sem se magoar a si mesma. Isso significava que a rapariga estava igualmente cheia de problemas. A maioria por culpa prpria. Lilah sabia que havia pintos que demoravam mais tempo a encontrar o caminho no ptio em volta do galinheiro.
    - Talvez possa ir dar um belo passeio de carro - sugeriu Lilah.
    - Onde? - Faith bebericou o caf, sem mostrar interesse. -  tudo igual, qualquer que seja a direo.
    Lilah tirou o batom do bolso e retocou a pintura aproveitando o reflexo no metal da torradeira.
    - Sei o que me anima quando fico deprimida. Uma belo monte de compras.
    - Vejam s. - Faith suspirou e brincou com a idia de ir at Charleston. No h nada melhor para fazer.
    - Muito bem, ento. V l fazer as compras e animar-se. Aqui est a lista.
    Faith pestanejou e depois ficou a olhar para a lista de compras que Lilah abanava diante do seu rosto.
    - Mercearias? No vou comprar mercearias!
    - No tem nada melhor para fazer, e foi a menina que o disse. Veja l se esses tomates esto maduros, ouviu? E traga-me o detergente para o cho que escrevi a. O anncio na televiso fez-me rir, por isso vale a pena experimentar.
    Virou-se para o lava-loua para enxaguar a esponja da loua e teve de conter uma gargalhada por causa da forma como a sua menina tinha a boca aberta.
    - Depois, passe pela drogaria e traga-me o meu leo de palma, daquele em frascos, o da garrafa no. E a espuma de banho. De leite e mel. No regresso, passe pela lavandaria e traga tudo o que l deixei a semana passada, que  quase tudo seu, a propsito. Sabe Deus para que quer meia centena de blusas de seda.
    Faith semicerrou os olhos.
    - Mais alguma coisa? - disse ela, docemente.
    - Est tudo escrito a, no h como se enganar. Assim, tem alguma coisa para fazer e no se aborrece durante algumas horas. V, agora v vestir qualquer coisa,  quase meio-dia.  pecado, pecado ficar a preguiar metade do dia, de robe. V, mexa-se.
    Lilah fez de conta que estava a enxotar uma galinha e depois levantou da mesa o prato e a chvena de Faith.
    - No terminei o meu pequeno-almoo.
    - No a vi com-lo. Estava a depenicar e a fazer beicinho, foi isso que a vi fazer. Agora, fora da minha cozinha e torne-se til, para variar.
    Lilah cruzou os braos, inclinou a cabea e ficou a olhar para ela. Tinha uma maneira de olhar capaz de vergar a alma mais intrpida. Faith levantou-se da mesa, fungou e saiu com passos amuados.
    - Quando voltar, voltei - gritou.
    Abanando a cabea e soltando uma gargalhada, Lilah acabou de beber o caf de Faith.
    - Alguns pintos nunca aprendem quem manda no galinheiro.
    
    Wade levara trs anos e dezoito cachorros a convencer Dottie Betrum a esterilizar a sua labrador retriever doida por sexo. A ltima ninhada de seis acabara de ser desmamada, e enquanto a sua mam descansava dos efeitos da cirurgia, ele deu a cada um dos alegres e barulhentos cezinhos a necessria injeco.
    - No posso ver agulhas, Wade. Fico com a cabea  roda.
    - No precisa olhar, Mistress Betrum. Porque no vai esperar l para fora? Daqui a alguns minutos est tudo terminado.
    - Oh! - As mos agitavam-se como borboletas em volta das suas faces, e os seus olhos mopes brilhavam, perturbados, atrs das grossas lentes dos culos. - Acho que devo ficar. No me parece certo... - Interrompeu-se quando Wade espetou a agulha sob o plo.
    - Maxine, leve a Mistress Betrum para a sala de espera. - Deu  sua assistente uma rpida piscadela de olho. - Eu trato disto.
    E trato melhor assim, pensou ele, enquanto Maxine ajudava a chocada senhora a sair da sala, antes que houvesse velhinhas queridas a desmaiar no meio do cho.
    - Pronto, meu lindo. - Wade afagou a barriga do cachorro para lhe dar confiana e fez o resto das inoculaes. Pesou, coou orelhas, viu se havia parasitas e preencheu impressos, enquanto uivos e latidos ecoavam entre as paredes.
    A Sadie de Mrs. Betrum dormia pacificamente, o velho gato de Mr. Klingle, o Silvester, assanhava-se na sua gaiola, e o Speedy Petey, o hamster mascote da turma do terceiro ano da escola primria, corria na sua roda, provando que estava recuperado de uma grave infeco na bexiga.
    Para o Dr. Wade Mooney, aquele era o seu pequeno paraso.
    Despachou o ltimo cachorro, enquanto os irmos caam por cima uns dos outros, lhe puxavam os atacadores dos sapatos ou faziam chi-chi no cho. Mrs. Betrum j lhe assegurara que tinha encontrado bons lares para cinco dos cachorros. Ele, como sempre, declinara a oferta de ficar com um para si prprio.
    Mas tinha uma idia de onde o ltimo podia ter uma casa.
    - Doutor Wade? - Maxine espreitou pela porta.
    - Est tudo pronto, aqui. Vamos reunir as tropas.
    - So to engraados. - Os seus olhos negros danavam. - Pensei que no ia resistir a ficar com um, desta vez.
    - Se comearmos,  difcil parar. - Mas as covinhas na sua cara tornaram-se mais profundas quando um dos cachorros se aninhou nas suas mos.
    - Quem me dera poder ficar com um. - Maxine pegou num cachorro, afagando-o enquanto ele lhe lambia a cara com um amor e uma velocidade desesperados.
    Adorava animais, razo pela qual a oportunidade de trabalhar com o Dr. Wade cara do cu. J havia dois ces l em casa, e sabia que no conseguiria convencer os pais a ficar com mais um.
    Nascera no vale, e os pais tinham-se esfalfado para se sustentarem a si prprios,  filha e aos dois filhos mais novos. O dinheiro continuava a ser curto, recordou a si prpria enquanto acariciava o cachorro, com vontade de lev-lo para casa.
    E o dinheiro ia continuar a ser curto por mais algum tempo, pensou, soltando um suspiro. Era a primeira da sua famlia a ir para a universidade, e havia que poupar todos os tostes.
    - So to doces, doutor Wade. Mas entre o trabalho e a escola, no ia ter tempo para lhe dar ateno suficiente. - Voltou a pousar o cachorro. - Alm disso, o meu pai matava-me.
    Wade no pde deixar de sorrir. O pai de Maxine adorava-a.
    - As aulas vo bem?
    Ela revirou os olhos. Estava no segundo ano da faculdade, e o tempo era to pouco como o dinheiro. Se no tivesse sido o Dr. Wade a dar-lhe total flexibilidade de horrio e a deix-la estudar quando no havia movimento, nunca teria conseguido chegar ali.
    Era o seu heri, e j tivera uma paixoneta maravilhosamente dolorosa por ele. Agora esperava apenas poder ser um dia uma veterinria to boa e to inteligente como ele.
    - Os exames esto a. Tenho tanta coisa na cabea que parece que vai explodir. Vou levar estes bebs l para fora, doutor Wade. - Pegou no cesto cheio de cachorros. - O que digo a Mistress Betrum sobre a Sadie?
    - Ela pode vir busc-la ao fim da tarde. Diz-lhe que por volta das quatro. Ah, e pede-lhe para no dar o ltimo cachorro. Estou a pensar numa pessoa para ficar com ele.
    - Est certo. Posso ir almoar, agora? No temos nada marcado na prxima hora, e pensei que podia ir estudar um bocado no parque.
    - Vai. - Foi at ao lavatrio, para lavar as mos. - Podes demorar a hora toda, Maxine. Vamos l ver que mais consegues meter nesse teu crebro.
    - Obrigada.
    Ia ter pena quando ela se fosse embora. Coisa que Wade pensava que iria acontecer assim que ela tivesse o diploma na mo. No iria ser fcil encontrar algum to competente, to solcito ou to bom com os animais, e que soubesse tambm datilografar, lidar com donos de animais  beira de um ataque de nervos e atender o telefone.
    Mas a vida continuava.
    Preparava-se para ver como estava Sadie, quando Faith apareceu  porta de trs.
    - Doutor Mooney. Exatamente quem eu procurava.
    - Sou fcil de encontrar a esta hora do dia.
    - Bem, estou s de passagem. Ele coou uma sobrancelha.
    - Belo vestido para se estar de passagem.
    - Oh. - Passou um dedo pelo tecido macio, de algodo, justo e curto, vermelho-vivo com riscas finas. - Gostas? Estou virada para o vermelho. - Atirou o cabelo para trs, lanando nuvens de um perfume sedutor. Avanando na direo dele, passou-lhe as mos pelo peito, pelos ombros. - Adivinha o que tenho vestido por baixo.
    Era sempre assim, pensou ele. Como um estalar de dedos, bastava um olhar dela para deix-lo pronto a implorar.
    - Porque no me ds uma pista?
    - s um homem to inteligente. Tens um diploma e aquelas letras antes do teu nome. - Pegou na mo dele e, com a dela por cima, comeou a pass-la pela coxa. - Aposto que conseguias descobrir depressa.
    - Meu Deus. - O sangue dele agitou-se violentamente. - Andas pela cidade sem nada por baixo do vestido?
    - E s tu e eu  que sabemos. - Inclinou-se para a frente, com os olhos brilhantes fixos nos dele, e mordeu-lhe o lbio inferior. - O que vais fazer, Wade?
    - Anda l para cima.
    -  muito longe. - Com uma gargalhada rouca, abriu a porta atrs dele. - Quero-te agora. E quero-te depressa.
    A cadela dormia sossegadamente, respirando de forma regular.
    O espao cheirava a co e a anti-sptico. A velha cadeira onde ele passava muitas horas a observar pacientes estava cheia de plos de inmeros ces e gatos.
    - No tranquei a porta da rua.
    - Vamos viver perigosamente. - Desapertou-lhe o boto das calas de brim e puxou o fecho. - Ora, vejam o que encontrei! - Acariciou-o com a mo, e viu os olhos dele enevoarem-se antes de esmagar a boca contra a dela.
    A enorme excitao que sentira enquanto se vestia, dirigia at  cidade sabendo que ia ter com ele e seduzi-lo, transformou-se num emaranhado de desejos. Era quase doloroso.
    - Leva-me daqui. - Ela arqueou as costas, enquanto a boca dele lhe tomava a garganta. - Leva-me para um stio doce e escuro e selvagem. Preciso disso. Despacha-te e leva-me daqui.
    O quase limite do desespero dela entrou-lhe no sangue como uma lmina, deixando-o indefeso. No havia nada de dcil entre eles quando atingiram o clmax juntos, nada de suave, nada de doce. Quando ela disse o nome dele, com as mos no sexo dele, arquejante, ele esqueceu-se de que queria suavidade e doura.
    Tudo o que ele queria era Faith.
    Puxou-lhe a saia vermelha para cima e agarrou-lhe as ancas. Ela estava quente e molhada, e pareceu agarrar-se a ele como uma mandbula faminta quando ele entrou dentro dela.
    Ela enrolou uma perna  volta da cintura dele e gemeu, longa e profundamente. Ele preenchia o vazio. No importava se era apenas no momento, se o vazio regressava. Ele preenchia-o, e mais ningum o preenchera antes.
    Sons selvagens, animalescos, o movimento slido e rtmico de corpo contra corpo, os corpos contra a madeira, e ele, forte, dentro dela. Ela soltou-se, com um pequeno grito estrangulado na garganta, quando o orgasmo se libertou. Com Wade, o orgasmo era sempre rpido e forte, uma surpresa, um choque maravilhoso para o seu sistema.
    Depois, recomeava, mais lentamente, mais profundamente, numa insistncia gradual que abria qualquer coisa dentro dela para ele.
    E porque era ele, ela podia agarrar-se, render-se. Podia aguentar-se e saber que ele estaria com ela quando casse.
    O telefone estava a tocar. Pelo menos nos ouvidos dele. A respirao dele estava em sintonia com a dela. Movia-se com ele, a cada impulso, sem nunca parar, sem nunca abrandar. Havia alturas em que ele conseguia pensar nela de forma lcida e se perguntava por que razo os dois no se devoravam um ao outro at no sobrar nada.
    Ela repetia o nome dele, misturando a palavra com sons arquejantes e gemidos. E mesmo antes de se esvair dentro dela, viu os olhos de Faith fecharem-se, como que em orao.
    - Meu Deus. - Ela estremeceu uma vez e encostou a cabea  porta, mantendo os olhos fechados. - Meu Deus. Sinto-me maravilhosamente. De ouro por dentro e por fora. - Abriu os olhos, espreguiando-se. - E tu?
    Ele sabia do que ela estava  espera, por isso resistiu a enterrar a cara no cabelo dela, murmurando palavras em que no acreditava. Palavras que no tinham sido importantes para ela anos antes, quando ele fora suficientemente louco para pronunci-las.
    - Foi bastante mais apetitoso do que o sanduiche de presunto e alface em que tinha pensado para o almoo.
    Ela riu e enrolou-lhe os braos ao pescoo, de uma forma to simptica quanto ntima.
    - Ainda h umas partes em mim que no provaste. Por isso...
    - Wade? Wade, querido, ests a em cima?
    - Credo! - A parte dele que ainda estava aninhada dentro de Faith estremeceu. - A minha me.
    - Ora, mas que interessante.
    No momento em que Faith se preparava para soltar uma gargalhada, Wade tapou-lhe a mo com a boca.
    - Chiu. Meu Deus, era mesmo disto que eu estava a precisar. Com os olhos a danar, Faith produzia sons esquisitos contra a mo dele, enquanto o corpo se lhe agitava de riso.              
    - No tem graa. - Mas ele prprio teve de controlar as suas prprias gargalhadas. Ouvia a me andar de um lado para o outro, chamando-o alegremente no mesmo tom vivo em que costumava cham-lo para jantar quando ele tinha dez anos.
    - Est calada - sussurrou a Faith. - E fica aqui. No saias daqui e no faas barulho nenhum.
    Recuou devagar e semicerrou os olhos quando Faith mordeu o lbio e riu devagarinho.
    - Wade, querido - disse ela quando ele chegou  porta, e depois calou a boca com os dedos quando ele se virou e lhe lanou um ar furioso.
    - Nada de barulho - repetiu.
    - Est bem, s pensei que querias guardar isso.
    Ele olhou para baixo, praguejou e apressou-se a meter o sexo dentro das calas e a correr o fecho.
    - Me? - Lanou a Faith um ltimo olhar de aviso e depois saiu, fechando a porta com firmeza atrs de si. - Estou c em baixo. Estava com um paciente.
    Apressou-se a subir as escadas, grato por a me ter subido para procur-lo.
    - A ests tu, meu amor. Ia mesmo agora deixar-te um bilhete a dizer que te adoro.
    Boots Mooney era um poo de contradies. Era uma mulher alta, mas toda a gente a considerava baixa. Tinha voz de gato de desenho animado e uma vontade de ferro. Fora a Rainha do Algodo no ltimo ano de liceu e continuara a reinar como Miss Georgetown County.
    Tinha muito a agradecer ao seu ar reto, rosado e de rebuado. Preservava-o religiosamente, no por vaidade, mas por esprito de obrigao. O marido era um homem importante e ela nunca permitiria que ele fosse visto ao lado de algum que no o merecesse.
    Boots gostava de coisas bonitas, incluindo ela prpria.
    Abriu os braos a Wade, como se no o visse h dois dias e sim h dois anos. Ele aproximou-se dela e deu-lhe um beijo em cada face, e depois apressou-se a recuar.
    - Querido, ests todo corado. Tens febre?
    - No. - A seu favor teve o fato de no vacilar quando ela lhe encostou as costas da mo  testa. - No, estou bem. Acabei... uma operao. Est um bocado quente, aqui dentro.
    Era fundamental distra-la, e ele conhecia a sada de emergncia.
    - Olhe para si. - Pegou-lhe nas mos, f-la estender os braos e observou-a com ar de aprovao. - Est to bonita, hoje.
    - Ora, ora. - Ela riu, mas corou de satisfao. - Vim agora do cabeleireiro,  s isso. Devias ter-me visto antes de a Lori me ter posto as mos em cima. Parecia um sem-abrigo.
    - Impossvel.
    - Tu  que s tendencioso. Tinha uma mo-cheia de coisas para fazer, e no podia ir para casa sem ver o meu beb. - Deu-lhe uma palmadinha na bochecha e depois encaminhou-se imediatamente para a cozinha. - Aposto que no almoaste. Vou arranjar-te qualquer coisa.
    - Mam, tenho uma paciente. A Sadie, de Miss Dottie.
    - Oh, cus! O que tem ela? A Dottie no saberia o que fazer sem aquela cadela.
    - No tem nada. Acabei de trat-la.
    - Se no tem nada, porque precisou de ser tratada?
    Wade passou a mo pelo cabelo enquanto a me espreitava a geladeira.
    - Para deixar de ter cachorros todos os anos.
    - Oh, Wade, no tens comida suficiente nesta casa para tratares de ti como deve ser. Vou comprar-te umas coisas ao mercado.
    - Me...
    - No me venhas com me. No comes nada de jeito desde que saste de casa, e no me digas o contrrio. Quem me dera que fosses mais vezes l jantar. Amanh vou trazer-te uma bela caldeirada de atum.  o teu prato preferido.
    Odiava caldeirada de atum. Detestava-a completamente. Mas nunca conseguira convencer a me.
    - Obrigado, gostava muito.
    - Talvez tambm leve uma  Toryzinha. Passei por l para a ver. Est to crescida. - Boots ps trs ovos a cozer. - A loja dela est a avanar to depressa. No sei onde aquela rapariga vai buscar a energia. Deus sabe que a me dela nunca teve nenhuma, que eu notasse, e o pai, bom...  melhor nem falar.
    Boots apertou os lbios um contra o outro e pegou num frasco de pickles.
    - Sempre tive um fraco por aquela criana, embora por uma razo ou por outra nunca me tivesse aproximado dela. Pobre cordeirinho. s vezes desejava poder ir l busc-la e lev-la comigo para casa.
    O amor, pensou Wade, tornava-nos fracos. Fosse onde fosse ou como fosse. Aproximou-se de Boots, ps-lhe os braos  volta e pousou a sua face no cabelo dela, que ainda cheirava a laca.    
    - Adoro-a, me.
    - Ora, querido, eu tambm te adoro.  por isso que te vou fazer uma bela salada de ovo, para no ter que ver o meu nico filho morrer de fome. Ests ficando muito magro.
    - No perdi nem um quilo.
    - Ento j estavas muito magro. Ele no pde deixar de rir.
    - O melhor  cozer mais um ovo, me, assim chega para ns dois. Eu vou l abaixo ver a Sadie e depois volto e almoamos juntos.
    - Isso era agradvel. Vai l, sem pressas.
    Meteu mais um ovo na gua e olhou para trs, por cima do ombro, quando ele saiu.
    Boots sabia bem que o filho era um homem feito, mas continuava a ser o seu beb. E uma me nunca deixava de preocupar-se nem de tratar dos filhos.
    Os homens, pensou com um suspiro, eram criaturas to delicadas, to esquecidas. E as mulheres, bem, algumas mulheres, podiam aproveitar-se disso.
    As portas do velho edifcio no eram to grossas como o filho pudesse julgar. E uma mulher no chegava aos cinquenta e trs anos sem reconhecer certos sons. Tinha quase a certeza de quem estava do outro lado daquela porta, com o seu rapaz. No faria juzos sobre o assunto, disse a si mesma enquanto cortava pickles.
    Mas vigiava Faith Lavelle como um falco.
    Fora-se embora. Wade percebeu que era mesmo isso que estava  espera que ela fizesse. Colara um post-it na porta, com um corao desenhado, e pressionara os lbios no centro, deixando-lhe um beijo vermelho e sexy.
    Ele descolou-o, e embora dissesse a si prprio que era um idiota, meteu-o numa gaveta para guard-lo. Ela voltaria quando lhe apetecesse. E ele deix-la-ia. Deix-la-ia at se desprezar a si prprio ou, se tivesse sorte, at voltar a ter domnio sobre o seu corao e ela passasse a ser uma simples diverso.
    Afagou a cabea de Sadie e depois verificou os sinais vitais, a inciso e os pontos. Como ela estava acordada, com os olhos de um castanho profundo vtreos e confusos, pegou-lhe cuidadosamente. Ia lev-la l para cima com ele, para no a deixar sozinha.
     
    O sexo dera-lhe sede. Com muito melhor disposio do que antes, Faith decidiu ir at ao Hanson's, comprara uma garrafa de qualquer coisa fresca e doce para saborear a caminho do mercado.
    Lanou mais um olhar ao consultrio veterinrio e depois ao andar de cima, s janelas do apartamento de Wade. Mentalmente, atirou-lhe um beijo. Pensou que talvez lhe telefonasse mais tarde, para ver se lhe apetecia dar uma volta de carro  noite. Talvez pudessem ir at Georgetown e descobrir um stio bonito junto  gua.
    Era agradvel estar com Wade, confortvel por um lado, emocionante por outro. Ele era previsvel como o nascer do Sol, estava sempre l quando ela precisava.
    As recordaes de um vero j distante em que ele falara de amor e de casamento, de casas e de filhos, tentaram afastar-se do pensamento dela, do corao dela. Ela expulsou-as e concentrou-se na excitao do ltimo encontro sexual secreto.
    Era isso que ela queria e, felizmente, ele tambm. Arranjaria programa para ambos, mais tarde. Pegaria o conversvel de Cade e dariam aquela volta at  costa. Estacionariam algures e dariam largas  sua paixo, dentro do carro, como adolescentes.
    Estacionara o carro vrias portas acima da do consultrio de Wade. No valia a pena dar motivos de conversa s ms-lnguas, embora Deus soubesse que elas falavam a propsito de tudo e de nada. Estava quase a entrar no carro quando viu Tory sair da loja dela, recuar um pouco no passeio e ficar a observar.
    H um patinho feio que no se transformou, debaixo daquelas penas esquisitas, pensou Faith, mas a curiosidade f-la atravessar a rua.
    - Ests num dos teus transes?
    Tory deu um salto e depois forou-se a distender os ombros que tinham ficado tensos.
    - Estava s a ver o aspecto da vitrine. O pintor terminou o letreiro h pouco tempo.
    - Humm. - Faith ps a mo na anca, observando ela prpria o letreiro demoradamente. As letras pretas e arredondadas tinham um ar novo e elegante. - Conforto do Sul.  isso que vendes?
    - Sim. - Como o prazer daquele momento fora interrompido, fez meno de voltar a entrar na loja.
    - No  uma forma l muito simptica de tratar uma potencial cliente.
    Tory olhou para trs, com um olhar suave. Faith estava deslumbrante, pensou. Impecvel, radiante e satisfeita. E ela no estava com disposio para isso.
    - Ainda no abri.
    Aborrecida, Faith segurou a porta antes de ela se fechar na sua cara e entrou.
    - C para mim, nem vais abrir to depressa - comentou, olhando para as prateleiras quase vazias.
    - Falta menos do que parece. Tenho trabalho para fazer, Faith.
    - Oh, no te importes comigo. Vai l, e faz o que tiveres a fazer. - Faith levantou a mo e, tanto por teimosia como por interesse, comeou a andar de um lado para o outro.
    O local estava meticulosamente limpo, teve de admitir. Os vidros reluziam e nas prateleiras que os homens de Dwight tinham construdo a madeira brilhava. At as caixas de material estavam cuidadosamente alinhadas, e um grande saco de plstico continha os pedaos de esferovite usados no acondicionamento. Havia um computador porttil e um bloco em cima do balco.
    - Tens coisas que cheguem para encher isto?
    - Vou ter. - Conformando-se com a intruso, Tory continuou a tirar material das caixas. Se bem conhecia Faith Lavelle, aborrecer-se-ia rapidamente e voltaria a sair. - Se ests interessada, estou a pensar abrir no prximo sbado. Haver artigos selecionados com dez por cento de desconto, s nesse dia.
    Faith encolheu os ombros.
    - Costumo estar ocupada aos fins-de-semana. - Passou pelo balco com topo de vidro,  altura da cintura. L dentro, sobre um pedao de cetim branco, estavam algumas jias feitas  mo: prata e contas e pedras coloridas, artisticamente dispostas, feitas para apelar  vista e  imaginao.
    Deu por si a comear a levantar o topo de vidro, mas estava trancado e ela praguejou. Lanou um olhar discreto a Tory, contente por a outra mulher no ter reparado.
    - Tens aqui uma bijuteria bem bonita. - Queria os brincos de prata com as pequenas bolas de lpis-lazli, e queria-os imediatamente. - Nunca pensei que te interessasses por bijuteria. Quase nunca usas nada disso.
    - Neste momento, tenho bijuteria de trs artistas - acrescentou Tory secamente. - Gosto especialmente da pregadeira que est ao centro. O arame  de prata de lei e as pedras so granadas, citrinas e cornalinas.
    - Estou vendo. As pedras esto todas espalhadas pelo arame como estrelas, como um daqueles foguetes que os garotos lanam no quatro de julho.
    - Sim, muito parecido com isso.
    -  bonito, acho eu, mas no sou muito de alfinetes e pregadeiras. - Mordeu o lbio, mas a ganncia venceu o orgulho. - Gosto destes brincos, aqui.
    - Vem c no sbado.
    - Devo estar ocupada. - E queria-os agora. - Porque no me vendes? Fazias uma venda mais cedo do que o previsto.  para isso que ests a abrir um negcio, no ? Para venderes.
    Tory colocou um candeeiro a petrleo na prateleira. Teve o cuidado de apagar o sorriso do rosto quando se virou.
    - Ainda no abri, mas... - Aproximou-se da vitrina. - Pelos bons velhos tempos.
    - Nunca tivemos bons velhos tempos.
    - Acho que tens razo. - Pegou nas chaves que trazia penduradas no cinto. - O que  que te chamou a ateno?
    - Aquele. Aqueles. - Bateu com o dedo no vidro. - De prata e lpis-lazli.
    - Sim, so lindos. Condizem contigo. - Tory tirou-os do cetim e admirou-os contra a luz antes de entreg-los a Faith. - Podes usar um dos espelhos, se quiseres experiment-los. A artista vive  sada de Charleston. Faz um trabalho maravilhoso.
    Enquanto Faith se aproximava de um trio de espelhos emoldurados em bronze e cobre, Tory tirou um longo pendente do estojo. Porqu fazer uma venda quando podia fazer duas?
    - Esta  uma das peas dela que prefiro. Ficava bem com os brincos.
     Tentando no se mostrar abertamente interessada, Faith olhou para baixo. O pendente era uma barra grossa de lpis-lazli incrustada em prata.
    - Fora do vulgar. - Trocou os brincos que trazia pelos novos e depois cedeu e pegou no colar. - Espero no encontrar ningum com um igual, no meio da rua.
    - No. - Tory sorriu. - Tenciono oferecer objetos nicos.
    - Acho que devo levar as duas coisas. H sculos que no me mimo. Parece que todas as coisas que h em Progress so iguais umas s outras.
    Calmamente, Tory fechou o vidro do expositor.
    - Agora j no.
    Pressionando os lbios um contra o outro, Faith virou o colar para ver o preo.
    - Algumas pessoas vo achar que ests a exceder-te nos preos. - Passou o dedo pela corrente enquanto olhava para Tory. - Mas enganam-se. O preo  justo. Na verdade at podias cobrar mais, se estivesses em Charleston.
    - Mas no estou. Vou buscar as caixas.
    - No te incomodes, vou us-los j. - Abriu a carteira e atirou os outros brincos l para dentro. - Corta apenas as etiquetas e registra.
    - Vou fazer a conta - corrigiu Tory. - Ainda no tenho a caixa registradora pronta a funcionar.
    - Faz como entenderes. - Pegou no colar e nos brincos. - Vou passar-te um cheque. - Faith franziu o sobrolho quando Tory lhe estendeu a mo. - S posso pass-lo quando me disseres quanto .
    - No, d-me os teus outros brincos. No  maneira de trat-los. Vou dar-te uma caixa.
    Com uma breve gargalhada, Faith procurou na carteira e tirou-os de l.                                  
    - Est bem, mezinha.
    Sexo e compras, pensou Faith, enquanto dava mais uma volta pela loja. No podia haver melhor maneira de passar o dia. E pelo que estava a ver, podia passar um tempo muito agradvel na loja de Tory.
    Quem haveria de pensar que a pequena Tory Bodeen, com os seus olhos estranhos, desenvolveria um gosto to requintado? E aprenderia a us-lo com tanta inteligncia?
    Devia ter tido um trabalho a escolher as coisas certas, a procurar as pessoas que fizessem essas coisas, a calcular o que deveria cobrar por elas, a organizar o espao e a exp-las.
    Antes isto do que outra coisa, pensou Faith. Livros e esse tipo de coisas aborrecidas.
    Deu por si algo impressionada e com alguma inveja, diante da idia de Tory possuir o expediente e a habilidade para criar um negcio a partir do nada.
    No que ela quisesse para si alguma parte daquele esforo ou daquela responsabilidade. Uma loja daquelas agarrava uma pessoa mais do que uma droga. Mas no era bom a loja ser to perto de Wade? Talvez a vida em Progress estivesse prestes a animar-se.
    - Devias pr esta taa num encosto, na vertical. - Parou e pegou na grande taa. - Para as pessoas verem o interior, do stio onde estiverem.
    Era isso que Tory tencionava fazer, depois de desempacotar os encostos. Mal levantou os olhos, enquanto fazia as contas.
    - Queres um emprego? Tenho aqui o teu total, IVA includo, mas  melhor conferires.
    - Sempre tiveste melhor nota em Matemtica do que eu. - Comeou a passar o cheque e a porta da loja abriu-se. Faith juraria ter ouvido Tory resmungar qualquer coisa.
    
    Os gritinhos de Lissy eram, na opinio de Tory, apenas um dos seus detestveis hbitos. Outro deles era a sua tendncia para se ensopar daquele cheiro a lrios do vale que entrava sempre antes dela e ficava muito tempo depois de ela se ir embora.
    Quando o cheiro e os gritinhos entraram na loja, Tory rangeu os dentes, esperando que tal fosse tomado por um sorriso.
    - Ora, que engraado! Acabei de sair do cabeleireiro e ia a caminho do escritrio quando vos vi aqui dentro.
    Quando Lissy juntou as mos e comeou a dar uma vista de olhos, Tory lanou a Faith um olhar mortfero. Esta respondeu com um sorriso luminoso que evidenciava a mais perfeita compreenso e com um bater de pestanas provocatrio.
    - Passei por aqui quando a Tory estava a pendurar o letreiro.
    - Que tambm est muito bonito. Est tudo a compor-se, no est? - Com uma mo pousada sobre o peso da barriga, Lissy virou-se para espreitar as prateleiras. - Est tudo to bonito, Tory. Deves ter trabalhado que nem seis mulas para ter tanta coisa pronta em to pouco tempo. E o meu Dwight fez um belo trabalho.
    - Sim, no podia estar mais satisfeita com ele.
    - Claro que no. Ele  o melhor. Ai, mas que querido! Pegou avidamente no candeeiro a petrleo que Tory acabara de colocar na prateleira.
    - Adoro bibelots espalhados pela casa. O Dwight diz que s servem para apanhar p, mas so esses toques que fazem um lar, no so?
    Tory respirou fundo. Outra das caractersticas irritantes de Lissy era o seu hbito de transformar todas as frases em exclamaes.
    - Sim, acho que sim. Se o p no tiver onde cair, cai numa simples mesa vazia.
    -  exatamente isso! - Discretamente, Lissy virou a etiqueta com o preo e depois abriu a boca num O surpreendido. -  caro, no ?
    -  feito  mo e est assinado - comeou Tory a dizer, mas Faith interrompeu-a.
    - O que  bom custa dinheiro, no custa, Lissy? E o Dwight ganha o suficiente para te pagar estas extravagncias, especialmente quando ests quase a dar  luz outro beb. Juro que se alguma vez carregasse um peso desses durante nove meses, o homem que o tivesse plantado dentro de mim teria que comprar-me a Lua e as estrelas.
    Sem saber bem se estava a ser elogiada ou insultada, Lissy franziu o sobrolho.
    - O Dwight estraga-me com mimos.
    - Claro que sim. Eu acabei de comprar estes brincos para mim. - Fez balanar um deles tocando-lhe com a ponta do dedo. - E um colar, tambm. A Tory deixou-me adiantar um bocadinho em relao  abertura do prximo sbado.
    - Verdade? - Os olhos de Lissy tornaram-se penetrantes: Faith sabia que ela no tolerava que ningum lhe levasse a melhor. Agarrou o candeeiro avidamente contra os seios.
    - Tory, tens de deixar-me levar isto agora. Estou apaixonada por ele. No sei se consigo vir aqui no sbado, cedo, e algum pode chegar antes de mim. No podias ser uma querida e deixar-me comprar hoje?
    Tory fez um crculo em volta do total de Faith, para poder comear a fazer contas.
    - Vai ter que ser em dinheiro ou cheque, Lissy. Ainda no posso trabalhar com cartes de crdito. Mas no me importo de te guardar se...
    - No, no, posso passar-te um cheque. J que aqui estou, talvez possa dar mais uma vista de olhos...  como brincar s lojas.
    - Sim. - Tory pegou no candeeiro e pousou-o em cima do balco.
    Afinal, parecia que j tinha aberto a loja ao pblico.
    - Oh! Estes espelhos esto  venda?
    - Tudo est  venda. - Tory tirou uma pequena caixa azul-marinha que tinha debaixo do balco e ps l dentro os brincos de Faith. - Vou tambm pr aqui dentro o carto da artista.
    - Est bem. No precisas de me agradecer - acrescentou, a meia voz.
    - Estou a pensar se ters feito isto para me ajudares ou para me irritares - disse Tory em igual tom. - Ou para a irritares a ela. Mas... - Anotou o preo do candeeiro. - Negcio  negcio, por isso agradeo-te. Sabias exatamente em que boto carregar.
    - Naquela? - Faith olhou para onde Lissy soltava repetidos ohs e ahs. -  do mais simplrio que h.
    - Se ela me comprar um daqueles espelhos passa a ser a minha nova melhor amiga.
    - Bem, maravilhoso. - Divertindo-se mais do que imaginara, Faith pegou no seu talo de cheques. - J fui posta de lado, mesmo depois de ter sido a tua primeira cliente.
    - Tenho que ter este espelho, Tory. O oval, com os lrios de um lado. Nunca vi nada assim. Vai ficar to querido na minha salinha!
    Os olhos de Tory encontraram os de Faith, por cima do balco, e brilharam.
    - Desculpa, ela acabou de comprar mais do que tu. E depois, para Lissy:
    - Vou buscar a caixa, l atrs.
    - Obrigada. J h tanta coisa para escolher, e acho que ainda no tens metade das coisas  vista. Uma noite destas estava a dizer ao Dwight que no sei onde vais arranjar tempo para tanta coisa. Entre a mudana para a tua casa, o arranjar das coisas aqui, as entregas de mercadoria e as noites passadas com o Cade, os teus dias devem ter vinte e seis horas.
    - O Cade?
    O nome saiu ao mesmo tempo dos lbios de Tory e de Faith.
    - Aquele homem  mais expedito do que eu pensava. - Lissy deu mais uns passos pela loja. - Devo dizer que nunca imaginei os dois juntos, como casal. Mas sabes o que se diz sobre quem no parte um prato.
    - Sim. No. - Tory ergueu a mo. - No sei do que ests a falar. O Cade e eu no estamos juntos.
    - Ora, no vale a pena esconderes, estamos s aqui as trs. O Dwight contou-me tudo, e explicou-me que devias querer manter as coisas em segredo por algum tempo. Eu no disse a ningum, no te preocupes.
    - No h nada para dizer. Absolutamente nada para dizer. Ns s... - Viu dois pares de olhos penetrantes e sentiu a lngua entaramelar-se. - Nada. O Dwight est enganado. Vou buscar a caixa.
    - No sei porque est to decidida a fazer segredo disto - comentou Lissy, enquanto Tory se apressava a ir ao armazm. - Afinal, nenhum deles  casado, nem nada disso. Claro - acrescentou com um trejeito de ironia -, acho que a idia de se rebolar nos lenis com o Cade depois de estar de volta h menos de um ms no condiz com a atitude de senhora calma e educada que ela pretende dar de si.
    - No? - Os assuntos do Cade eram os assuntos do Cade, disse Faith a si prpria. E diabos a levassem se ia deixar esta gata assanhada arranh-lo. - E as senhoras calmas e educadas no tm sexo? - Com um sorriso vivo e irnico, bateu com o dedo na barriga de Lissy. - Acho que essa bola que trazes a no foi de comeres chocolate a mais.
    - Eu sou uma mulher casada.
    - No eras, quando tu e o Dwight andavam enrolados no assento de trs do Camaro de segunda mo que o pai dele lhe comprou quando ele ganhou as corridas.
    - Oh, por amor de Deus, Faith, tu tambm te enrolaste bastante nessa altura.
    - Exatamente. Por isso tenho muito cuidado a quem atiro pedras, quando tenho vontade de atirar alguma. - Assinou o cheque com um floreado e depois pegou no par do brinco que tinha posto.
    - S estou a dizer que para algum que acabou de regressar a Progress e que tem feito sabe Deus o qu estes anos todos, apanhou um Lavelle bem depressa.
    - Ningum apanha um Lavelle, se ele no quiser.
    Mas ia pensar no assunto. Ia pensar muito bem no assunto.
    Tory ficou tentada a trancar a porta assim que viu na rua as suas duas clientes inesperadas. Mas isso iria atras-la e significaria dar demasiada importncia aos mexericos de Lissy.
    Trabalhou na loja durante mais trs horas, colocando preos, fazendo registros e dispondo objetos pela loja. O trabalho manual e o tdio da papelada impediram-na de ficar a matutar.
    Mas o regresso a casa deu-lhe bastante oportunidade para isso.
    No era desta forma que tinha planejado voltar a estabelecer-se em Progress. No ia tolerar, nem por um momento, ser alvo da bisbilhotice da cidade. A melhor maneira de derrotar essa bisbilhotice era ignor-la, ser superior a ela.
    E manter-se longe de Cade.
    Nada disso representava para ela qualquer problema.
    Estava acostumada a ignorar lnguas viperinas, e sobre assuntos muito mais vitais do que um romance inventado. Era mais do que evidente que no precisava passar tempo com Cade Lavelle. Fosse como fosse, a verdade era que no passara praticamente tempo nenhum com ele. Umas refeies, um filme ou dois, talvez uma carona. Tudo coisas inofensivas e casuais.
    A partir de agora, andaria sozinha.
    E ponto final, pensou.
    Deveria ser ponto final, se no tivesse visto a camioneta dele  beira de um campo.
    Disse a si prpria que iria at l. Na verdade, no valia a pena falar no assunto. Seria muito mais sensato continuar a caminho de casa e deixar aquele assunto idiota morrer de morte natural.
    E continuou a ver o brilho faminto, predatrio, nos olhos de Lissy.
    Virou o volante e estacionou  beira da estrada, onde a erva era curta e espessa. Ia apenas mencionar a questo, mais nada. Apenas dizer a Cade que se calasse e parasse de falar dela com os seus amigos idiotas. J no estavam no liceu, que raios!
    Piney Cobb aspirou contemplativamente o seu ltimo Marlboro. Vira a station wagon encostar no acostamento, observara a mulher - diabos o levassem se no era a garota Bodden, j crescida! - comear a caminhar pelo campo e continuara a observ-la enquanto ela punha os ps entre as filas de ps de algodo e continuava a avanar.
    Ao lado dele, Cade estava de p a pensar no dia de trabalho e no progresso das colheitas. Quanto a ele, o rapaz tinha idias esquisitas, mas essas idias esquisitas estavam a dar resultado. Fosse como fosse, no era da sua conta. Ganhava o mesmo se espalhasse pesticidas nas plantas ou se as apaparicasse com merda de vaca e joaninhas.
    - Vinha a calhar mais uma chuva como a da outra noite - considerou Cade.
    - Pois vinha. - Piney coou o queixo semeado de plos grisalhos e pressionou os lbios um contra o outro. - O que tem aqui est uns bons dez centmetros mais alto do que os campos tradicionais.
    - O algodo orgnico cresce mais depressa - disse Cade, distraidamente. - Os qumicos travam o crescimento.
    - Pois, foi o que disse. - E assim, apesar das dvidas de Piney, viera a provar-se verdade. F-lo pensar que, afinal, talvez os cursos universitrios no fossem s tretas.
    No que dissesse uma coisa daquelas em voz alta. Mas era coisa para deixar a fermentar.
    - Patro? - Piney deu uma ltima passa no cigarro e depois pisou-o cuidadosamente com o p. - Tem problemas com mulheres?
    Como tinha a cabea cheia de trabalho, Cade demorou um minuto a reagir.
    - Como disse?
    - V por mim, tenho-me mantido bem longe das mulheres, mas ando neste mundo h tempo suficiente para reconhecer uma mulher a fumegar.
    Virou a cabea, semicerrando os olhos por causa do sol forte, e apontou-a preguiosamente na direo onde Tory abria caminho por entre as filas de algodo.
    - E ali vem uma, agora. Ao que parece,  um homem morto.
    - No tenho problema nenhum.
    - Eu c acho que est enganado - resmungou Piney, e recuou um pouco para no levar por medida.
    - Cade.
    Era um prazer v-la, um verdadeiro e puro prazer.
    - Tory, que bela surpresa.
    - Verdade? Isso  o que vamos ver. Preciso de falar contigo.
    - Est bem.
    - A ss.
    - Vamos andar por a.
    Tory respirou fundo e lembrou-se das suas boas maneiras.
    - Desculpe, Mister Cobb.
    - No  preciso desculpares-te. Achei que j no te lembravas de mm.
    E no lembrava. Pelo menos conscientemente. Dissera o nome dele sem pensar. Por um instante, a sua irritao misturou-se com a velha imagem de um homem escanzelado, de peito magro e cabelo cor de trigo, que costumava cheirar a lcool e lhe dava balas de hortel-pimenta sem ningum ver.
    Continuava escanzelado, notou ela, mas a idade e a bebida estavam-lhe marcadas no rosto. Era vermelho, gasto e descado, e o cabelo cor de trigo, se ainda o tinha, era suficientemente parco para estar completamente coberto por uma velha boina cinzenta.
    - Lembro-me que costumava dar-me balas e que trabalhava no campo ao lado do do meu pai.
    - Era. - Os lbios estenderam-se-lhe num sorriso,  revelando dentes to tortos e espaados entre si como uma velha vedao de madeira. - Agora trabalho aqui para o rapaz da universidade. Paga melhor. Vou andando. At amanh, patro.
    Levou a mo  boina e depois tirou do bolso uma bala de hortel-pimenta e deu-o a Tory.
    - Se bem me lembro, estas eram as tuas preferidas.
    - Ainda so. Obrigada.
    - Ficou satisfeito por te lembrares - disse Cade, enquanto Piney atravessava o campo, em direo  estrada.
    - O meu pai costumava gritar com ele por causa dos males do usque, e a uma vez por ms embebedavam-se juntos. No dia seguinte, Piney estava outra vez no campo, a trabalhar como de costume. E o meu pai voltava a gritar com ele.
    Abanou a cabea e virou-se para Cade.
    - No vim aqui para fazer uma viagem ao passado. Em que estavas a pensar quando disseste ao teu amigo Dwight que andamos a sair juntos?
    - No sei bem se...
    - Ns no andamos a sair juntos.
    Cade ergueu uma sobrancelha, tirou os culos de sol e prendeu-os na camisa.
    - Ento, Tory, andamos sim. Estamos aqui os dois juntos, neste preciso momento.
    - Sabes muito bem o que quero dizer. No andamos juntos. Ele no sorriu, mas apetecia-lhe faz-lo. Optou antes por coar a cabea e fazer um ar perplexo.
    - A mim parece-me que o que andamos a fazer se parece bastante com isso. Samos, qu, quatro vezes nos ltimos dez dias. E acho que, quando um homem e uma mulher saem para jantar, andam juntos.
    - Pois achas mal. No andamos juntos, portanto mete bem isso na tua cabea.
    - Sim, senhora.
    - No me venhas com os teus sorrisos irnicos. - Um trio de corvos grasnou, com as suas penas alinhadas e brilhantes. - E mesmo que tivesses essa idia em mente, no era da tua conta, no tinhas o direito de dizer ao Dwight que andamos envolvidos. Ele foi logo contar  Lissy e agora ela meteu naquele crebro de ervilha que temos um caso, com uma relao sexual trrida. No quero, nem tenciono deixar que as pessoas daqui se convenam que eu sou a tua ltima conquista.
    - A minha ltima? - Meteu os polegares nos bolsos e rodou nos calcanhares usados das suas botas de trabalho. Achou que, quanto a entretenimento, aquele era o momento alto do dia. - Mas quantas conquistas pensas tu que eu tive?
    - No estou interessada.
    - Tu  que trouxeste o assunto  baila - salientou ele, apenas pelo prazer de v-la furiosa.
    - A questo  que disseste ao Dwight que andvamos um com o outro.
    - No, no disse. Mas no vejo... - Lembrou-se. - Ah, sim. Humm.
    - Ora a tens. - Com uma espcie de triunfo, espetou um dedo na direco dele. - s um homem, e podias ter evitado a conversa de vestirio.
    - Foi um mal-entendido. - E um mal-entendido fascinante, em sua opinio. - A Lissy no pra de tentar tramar-me. Parece que no suporta que haja um nico homem livre.  uma chata. Da ltima vez disse ao Dwight que lhe dissesse qualquer coisa para ela me deixar em paz, que lhe dissesse que eu tinha um caso escaldante ou qualquer coisa assim.
    - Comigo? - Admirou-se que no lhe sasse fumo pelos ouvidos. - Porque  que de todas...
    - Eu no disse contigo - interrompeu Cade. - Imagino que o Dwight te tenha escolhido porque estvamos em tua casa na altura da conversa. Se quiseres saltar em cima de algum, salta em cima de mim. Mas, pessoalmente, no vejo para qu tanta agitao. Somos ambos solteiros, andamos juntos... Andamos, sim, Tory - acrescentou ele, antes de ela poder argumentar. - E se a Lissy quiser pensar que as coisas entre ns progrediram e chegaram ao que  um estgio perfeitamente natural, onde est o problema?
    Ela no estava certa de conseguir falar. Ele estava divertido. Conseguia ver isso nos olhos dele, ouvi-lo na voz dele.
    - Achas que tem graa?
    - No tem graa, mas  anedtico - concluiu ele. - Parece uma pequena anedota engraada.
    - Anedtico, o diabo! A Lissy vai espalhar isto pela regio toda, se  que j no espalhou.
    Os corvos voltaram, voando em crculo.
    - Ora a est uma verdadeira tragdia. Se calhar  melhor fazermos um comunicado  imprensa negando tudo.
    Ela soltou um som, algo perigosamente parecido com um grunhido. Quando deu meia volta, ele pegou-lhe no brao e reteve-a.
    - Acalma-te, Victoria.
    - No me digas para acalmar-me. Estou a tentar estabelecer aqui um negcio, uma casa, e no quero ser alvo dos mexericos dos vizinhos.
    - Os mexericos dos vizinhos so o combustvel que faz andar as cidades pequenas. Viveste na cidade grande tanto tempo que te esqueceste disso. E se as pessoas falarem vo aparecer na tua loja para verem. Onde est o mal disso?
    Fez a questo parecer menor e razovel.
    - No gosto que as pessoas se metam estupidamente na minha vida. J tenho que chegue disso.
    - Antes de vires para c, j sabias que isso iria acontecer. E se as pessoas querem mexericar um pouco acerca da mulher que chamou a ateno de Cade Lavelle, basta olhar para ti para perceber porqu.
    - Ests a dar a volta ao assunto. - No sabia inteiramente porqu, mas sabia que j no estava em terreno firme. - A Faith estava na loja quando a Lissy fez o seu anncio. - Ele vacilou, o que deu a Tory alguma satisfao. - Agora j no ests to contente, pois no?
    - Se a Faith me vai chatear por causa disso, e com certeza que no vai conseguir resistir, est na altura de tirar algum proveito disso.
    Apertou-lhe mais o brao e atirou os culos de sol para o cho. Depois, puxou-a para si.
    Os alarmes soaram e ela empurrou o peito dele com a mo.
    - O que ests a fazer?
    - No  preciso ficares com espinhos. - Com a mo livre, segurou-lhe a nuca. - Vou s provar-te.
    - No.
    Mas os lbios dele j se apossavam dos dela.
    - No vai doer. Prometo.
    Manteve a palavra. No doeu. Fortaleceu-a e acalmou-a, estimulou-a e despertou aquelas necessidades que ela tinha to bem fechadas. Mas no doeu.
    
    A boca dele era macia, suave e convidava a dela a sabore-la. Como ele estava a saborear a dela. O calor alastrou-se-lhe na barriga, enquanto cordas de tenso e de semiconscincia se misturavam. E quando aquela mistura comeou a subir-lhe na direo do corao, ele soltou-a.
    - Senti qualquer coisa - murmurou. A mo dele continuou a afagar a nuca dela. - Senti-a da primeira vez que voltei a ver-te.
    Ela tinha a cabea  roda. No era uma sensao que apreciasse.
    - Isto  um erro. Eu no... - Recuou, numa tentativa de defesa, e sentiu qualquer coisa estalar debaixo do seu salto.
    - Raios partam,  o segundo par esta semana. - Cade abanou a cabea, olhando para os culos partidos. - A vida est cheia de erros - prosseguiu, voltando a beij-la, de leve. - Isto no parece ser um, mas vamos ter que experimentar para ver.
    - Cade, no tenho jeito para este tipo de coisa.
    - Que tipo de coisa? Beijar?
    - No. - Foi surpreendida pelo seu prprio riso. Como conseguia ele faz-la rir quando estava aterrorizada? - Esta coisa do homem-mulher, esta coisa da relao.
    - Ento, vais ter que praticar.
    - No quero praticar. - No pde fazer mais nada seno suspirar quando ele pressionou os lbios contra a nuca dela. - Cade, h tantas coisas que no sabes sobre mim.
    - Posso dizer o mesmo. Por isso, vamos descobrir. A noite est bonita. - Fez deslizar a mo at  dela. - Porque no vamos dar uma volta de carro?
    - No  assim que se resolve o assunto.
    - Podemos parar e comer qualquer coisa, quando nos apetecer.
    - F-la voltar-se e, com bastante elegncia, baixou-se para apanhar os culos partidos. Comeou a caminhar, com o algodo jovem entre ambos. - Um passo de cada vez, Tory - disse ele com suavidade.
    -  Sou um homem paciente. Se olhares  tua volta e prestares ateno, podes ver como sou paciente. Levei trs anos a transformar a fazenda e a fazer dela aquilo que eu queria. Aquilo em que acreditava, e fi-lo contra algumas geraes de tradio. H pessoas que ainda me apontam o dedo e fazem troa, ou resmungam e praguejam. Tudo porque no segui o caminho com que a maioria se sente confortvel, que a maioria compreende. E o que as pessoas no compreendem costuma assust-las.
    Ela olhou para ele e depois desviou o olhar. O homem encantador e despreocupado que troara discretamente da fria dela, era atravessado por uma corda de ao. No seria sensato da parte dela esquecer isso, refletiu.
    - Eu sei. Vivo com isso.
    - Ento porque no nos consideramos dois inadaptados e vemos o que isso nos traz?
    - No sei do que ests a falar. Nenhum Lavelle  inadaptado em Progress.
    - Pensas isso porque ainda no te chateei at  exausto com as maravilhas da agricultura orgnica e a beleza do algodo biolgico. - Pegou na mo dela e beijou-a. - Mas vou chatear-te, j que h meses que no tenho uma nova vtima. Vamos fazer assim: vai andando para casa. Preciso lavar-me. Eu vou buscar-te daqui a uma hora.
    - Tenho coisas para fazer.
    - Deus sabe que no h dia em que no tenhamos coisas para fazer. - Abriu-lhe a porta do carro. - Apareo daqui a uma hora - disse-lhe, enquanto ela se sentava ao volante. - E, Tory? Para que no haja confuso: andamos juntos.
    Fechou a porta e depois, metendo as mos nos bolsos, encaminhou-se para a sua camioneta.
    
    - Oh, no sejas mau, Cade. S estou a pedir-te um favorzinho. - Faith estava estendida na cama do irmo, com o queijo apoiado nas mos fechadas e o seu olhar mais convincente.
    Adquirira o hbito de vir ao quarto dele para ter companhia, depois de Hope ter morrido e a solido ser insuportvel. Agora, costumava aparecer quando queria alguma coisa.
    Ambos sabiam isso, e ele no parecia importar-se.
    - Ests a perder tempo a lanar-me esse olhar. - Despido at  cintura, com o cabelo ainda molhado, Cade tirou uma camisa lavada do armrio. - Vou precisar do carro esta noite.
    - Podes us-lo sempre que quiseres. - Tentou um amuo.
    - Pois posso. E vou us-lo esta noite. - Ofereceu-lhe o sorriso de complacncia reservado a irms irritantes.
    - Fui eu que comprei a comida que meteste na boca. - Levantou-se e ajoelhou-se na cama. - E fui  lavandaria buscar as tuas roupas estpidas, e tudo o que estou a pedir-te  que me emprestes a porcaria do teu carro por uma noite. Mas s demasiado egosta.
    Ele vestiu a camisa e comeou a aboto-la, mantendo o sorriso satisfeito no rosto.
    - E com isto tu queres dizer...
    - Odeio-te. - Pegou numa almofada, fez pontaria e falhou por uns bons centmetros. Nunca tivera uma pontaria decente.
    - Espero que te espetes com a porcaria do carro e acabes entalado num monte de ferros retorcidos e a arder. - A almofada que se seguiu passou-lhe por cima da cabea. Ele nem se deu ao trabalho de se baixar. - Espero que os vidros se espetem nos teus olhos e fiques cego, e se ficares vou fartar-me de rir quando fores contra as paredes.
    
    Ele virou-lhe as costas, num insulto deliberado e calculado.
    - Bem, ento acho que no vais querer pedir-me emprestado o que restar do carro amanh.
    - Eu quero o carro agora!
    - Faith, meu tesouro... - Meteu a camisa para dentro das calas e pegou no relgio que estava em cima da cmoda. - Tu queres tudo agora. - Incapaz de resistir, pegou nas chaves e abanou-as diante dos olhos dela. - Mas no podes t-lo.
    Ela gritou, um grito de guerra, e atirou-se da cama. Ele poderia ter-se ido embora, mas era mais divertido segurar-lhe os braos antes de ela usar aquelas unhas lindas e letais na cara dele.
    Alm disso, se ele sasse do caminho dela, ela teria mergulhado de imediato, cega de fria, na cmoda dele.
    - Vais magoar-te - avisou ele, danando com ela enquanto ele lhe mantinha os braos seguros.
    - No, vou  matar-te. Vou arrancar-te os olhos da cabea.
    - Tens uma verdadeira obsesso com a minha cegueira esta noite. Se me arrancas os olhos, como vou poder ver como s bonita?
    - Larga-me, seu filho da me. Luta como um homem.
    - Se eu lutasse como um homem, dava-te um murro que te deixava estendida e pronto. - Para a enfurecer, inclinou-se e deu-lhe um beijo rpido. - Gastava menos energia.
    Ela deixou-se cair pesadamente, derrotada, com os olhos cheios de lgrimas.
    - Deixa l. No quero a porcaria do teu carro velho.
    - Isso tambm no vai resultar. Choras com demasiada facilidade. - Mas ele beijou-a na face. - Podes levar o carro amanh, o dia inteiro e metade da noite, se quiseres. - Apertou-lhe os braos com carinho e preparou-se para sair.
    E viu estrelas quando ela lhe deu um pontap na canela.
    - Raios partam! Deus meu! - Deu-lhe um empurro, tentando minimizar a dor. - Sua cabra falsa.
    - D-te por satisfeito eu no ter seguido o meu primeiro instinto e usado o joelho. Estive quase. - Quando ele se inclinou para esfregar o stio do pontap, ela deu um salto, tentando agarrar as chaves que ele ainda tinha na mo. Quase conseguiu, mas ele mexeu-se e o impulso dela para tentar apanhar a chave fez com que fosse projetada para a frente e casse no cho com uma enorme pancada.
    - Kincade! Faith Ellen! - A voz parecia uma chicotada no cetim. Margaret estava  porta, o corpo rgido, o rosto plido. Instantaneamente, tudo ficou imvel.
    - Me! - Cade pigarreou.
    - Ouvi os gritos e as pragas no andar de baixo. E o juiz Purcell, que estou a receber esta noite, tambm. E Lilah, e a criada, e o jovem que veio mesmo agora traz-la a casa.
    Esperou um pouco, para que o peso da indecncia se abatesse sobre os ombros dos filhos.
    - Talvez vocs achem este tipo de comportamento aceitvel, mas eu no acho, e no quero que convidados, criados e estranhos acreditem que eu criei duas hienas nesta casa.
    - Peo desculpa.
    - Obriga-o a pedir-me desculpa, a mim - exigiu Faith, soluando enquanto esfregava o cotovelo magoado. - Ele empurrou-me.
    - No fiz nada disso. Tropeaste nos teus prprios ps.
    - Ele estava a ser cruel e nada razovel. - Ainda tinha um cartucho para gastar, pensou Faith, e tencionava gast-lo. - Tudo o que eu fiz foi pedir, e pedir educadamente, que ele me emprestasse o carro esta noite, e ele comeou a chamar-me nomes e a empurrar-me. - Estremeceu, tocando delicadamente no brao. - Estou cheia de ndoas negras.
    - Suspeito que tenha havido mais do que uma pequena provocao, mas no h desculpa para teres posto as mos na tua irm.
    - No, senhora. - Cade reforou o que disse abanando firmemente a cabea e lamentou q,ue uma idiotice pudesse ter chegado a contornos to implacveis. - Tem razo. Desculpe.
    - Muito bem. - Margaret fixou o olhar de Faith. - O que  do Cade  para ele usar ou emprestar quando e a quem quiser. E vamos pr um fim a isto.
    - S quero sair desta casa por umas horas. - No conseguiu conter a fria, e as palavras jorraram-lhe da boca. - Ele podia bem usar a camioneta. S quer ir para qualquer stio escuro e sossegado e apalpar a Tory Bodeen.
    - Que bela conversa - murmurou Cade. - Muito simptica.
    - Ora,  verdade. Toda a gente na cidade sabe que vocs andam enrolados um com o outro.
    Margaret deu dois passos em frente antes de recuperar o controle.
    - Vais... Pretendes ir ter com a Victoria Bodeen esta noite?
    - Sim.
    - Desconheces os meus sentimentos em relao a ela?
    - No, me. No desconheo.
    
    - Obviamente, eles no te interessam. O fato de ela ter participado na morte da tua irm, o fato de ela recordar constantemente essa perda, no significam nada para ti.
    - No a culpo pela morte da Hope. Lamento que a me o faa e lamento ainda mais que a minha amizade com ela lhe cause dor e sofrimento.
    - Guarda as tuas desculpas - disse Margaret friamente. - As desculpas no passam de capas para atitudes pouco prprias. Podes optar por trazer essa mulher para a tua vida, mas mantm-na fora da minha. Entendido?
    - Sim, senhora. - A voz dele era gelada, num reflexo direto da dela. - Est perfeitamente entendido.
    Sem mais uma palavra, ela virou-se e saiu, em passos lentos e calculados.
    Cade ficou a olhar na direco em que ela sara, desejando no ter visto aquele ltimo flash de dor nos olhos dela. Desejando no se sentir responsvel por ele. Para se distrair da culpa, lanou a Faith um olhar violento.
    - Belo trabalho, como sempre. Tem uma boa noite.
    Ela fechou os olhos enquanto ele saa com passos furiosos. Tinha um buraco no estmago, que ardia devido  sua prpria leviandade. Por um momento, ficou com pena de si prpria, sentou-se e balanou-se para a frente e para trs. Depois ps-se de p, de um salto, e saiu a correr como uma flecha na direo das escadas. E ouviu a porta da frente bater.
    - Desculpa - murmurou, e sentou-se no patamar. - No pensei. No queria que acontecesse nada disto. No me odeies. - Deixou cair a cabea nos joelhos. - J me odeio a mim prpria.
    
    - Espero que perdoe o comportamento dos meus filhos, Gerald. - Margaret regressou ao salo, onde o seu velho amigo a esperava.
    No havia tais comportamentos na casa dele quando as filhas viviam debaixo do seu teto. Mas, pensou, as suas filhas tinham sido criadas para se comportarem como senhoras, em qualquer ocasio.
    Ainda assim, ofereceu a Margaret um sorriso compassivo e afetuoso.
    - No, Margaret, no tem de se desculpar. Animemo-nos. - Pegou no copo de xerez que ela pousara antes de subir e voltou a oferece-lo.
    Havia msica a tocar baixinho. Bach. Uma das preferncias de ambos. Ele comprara rosas, como fazia sempre, e Lilah j as pusera na jarra Baccarat, sobre a grande cauda do piano.
    A sala, com as suas poltronas em azul profundo e as suas madeiras antigas e polidas, era perfeita, tranquila, e precisamente como Margaret queria. O piano raramente era tocado, mas mantinha-se afinado. Ela gostaria que as filhas se tivessem dedicado quele instrumento, mas ficara desiludida.
    No havia fotografias de famlia, nesta sala. Todas as recordaes tinham sido cuidadosamente selecionadas para que as suas heranas se misturassem perfeitamente com as suas prprias aquisies.
    No era stio onde um homem pusesse as botas em cima da mesa, nem onde uma criana espalhasse brinquedos no tapete.
    - Animemo-nos - repetiu ela. -  muito simptico da sua parte, dizer isso. - Aproximou-se da janela e viu o carro de Cade a toda a velocidade pelo caminho. A contrariedade picava-lhe a pele como l spera. - Receio bem que se trate de muito mais, e de muito menos, do que animao.
    - Os filhos crescem, Margaret.
    - Alguns.
    Ele no disse nada durante algum tempo. Sabia que o assunto de Hope nunca era fcil para ela. E como preferia as coisas fceis, ia deixar que as palavras se esvassem como se nunca tivessem sido ditas.
    Conhecia-a havia trinta e cinco anos, e a dada altura chegara a cortej-la. Ela escolhera Jasper Lavelle, que era mais rico e tinha sangue mais azul. Isso no fora um espinho no caminho de Gerald, ou pelo menos ele gostava de pensar isso.
    Nessa altura, quando era um jovem advogado, j tinha ambies. Ele tambm casara bem, criara duas filhas e era confortavelmente vivo havia cinco anos.
    Tal como a sua velha amiga, preferia a viuvez ao casamento. Exigia muito menos tempo e energias.
    Era um homem alto e bem constitudo, de sessenta anos, com os traos dramticos decorrentes de umas sobrancelhas enormes e pretas, que se erguiam como penas onduladas no rosto quadrado e digno.
    Fizera da lei a sua vida, com os seus altos e baixos, prosperara e conseguira uma posio respeitvel na comunidade.
    Gostava da companhia de Margaret, das conversas que tinham sobre arte e literatura, e costumava acompanh-la em ocasies sociais. Nunca tinham trocado mais do que um beijo breve e educado na face.
    No sexo, ele gostava dos favores de jovens prostitutas, que trocavam fantasias sexuais por dinheiro e no tinham nome.
    Era um republicano convicto e um batista devoto. Considerava as suas aventuras sexuais uma espcie de passatempo. Afinal, no praticava golfe.
    - No sei bem se sou boa companhia esta noite, Gerald.
    Era tambm uma criatura de hbitos. Era a noite em que costumavam jantar calmamente em Beaux Revs, um jantar a que se seguia caf e uns agradveis trinta minutos nos jardins.
    - Sou um amigo demasiado antigo para se preocupar com isso.
    - Acho que preciso mesmo de um amigo. Estou transtornada, Gerald. Victoria Bodeen. Achei que conseguia lidar com o regresso dela a Progress. Mas fiquei agora a saber que o Cade anda saindo com ela.
    - Ele  um homem adulto, Margaret.
    -  meu filho. - Nessa altura virou-se, o rosto duro como pedra. - No vou tolerar isto.
    Ele quase suspirou.
    - Parece-me que se insistir no assunto vai dar-lhe demasiada importncia, e a ela tambm.
    - No tenciono insistir. - No, ela sabia o que precisava de ser feito, e ia tratar disso. - Ele devia ter casado com a sua Deborah, Gerald.
    Era algo que ambos lamentavam, mais moderadamente no caso dele, o que o fez sorrir tristemente.               
    - Podamos ter netos comuns.                                          
    - Que idia - murmurou Margaret, e decidiu beber outro xerez.
    
    Tory estava  espera que ele aparecesse. J tinha percebido tudo. Precisava sempre de um pouco de tempo e de distncia para perceber que Cade a manipulara. Fazia isso muito suavemente, muito dissimuladamente e muito habilidosamente. Mas no deixava de manipul-la.
    Era dona da sua vida h demasiado tempo para permitir que algum se sentasse ao volante.
    Ele era um homem simptico, e Tory no podia negar que gostava da companhia dele. Ficou orgulhosa por aquilo soar to calmo e maduro quando ensaiou ao espelho. Tal como ficou satisfeita com o resto do discurso que tencionava fazer.
    Estava demasiado ocupada a instalar o seu negcio, a estabelecer-se na cidade, a voltar a relacionar-se com a zona, para gastar tempo e esforo numa relao com ele ou com qualquer outra pessoa.
    Claro que se sentia lisonjeada por ele estar interessado nela, mas seria melhor para todos se se afastassem agora. Esperava que continuassem a ser amigos, mas no poderiam ser mais do que isso. Nem agora, nem nunca.
    Passou os dentes pelo lbio inferior. Reacendeu o sabor dele. Tinha jeito para reacender sabores, mesmo quando no queria.
    O sabor quente e doce dos pssegos atirados ao cho pelo vento, debaixo da velha rvore retorcida junto ao rio,  sada da cidade. As abelhas, bbadas no sumo fermentado, cobriam a fruta cada e zumbiam agradavelmente.
    Ela no esperava que o sabor dele fosse to quente e doce, e to forte.
    No esperava ter ficado to perfeitamente ligada a ele naquele momento, como se ele fosse um dos pedaos perdidos do puzzle da sua vida.
    Estava a romantizar uma coisa sem importncia, disse a si mesma. Era idiota fingir que no tinha imaginado como seria beij-lo. Afinal, era humana.
    Era normal.
    Mas quando o imaginara, tudo fora bastante suave, agradvel e simples. Na realidade no fora um beijo, fora mais uma amostra. E ela supunha que ele fizera isso de propsito, s para intrig-la.
    Inteligente da parte dele, decidiu. Ele era um homem inteligente. Mas no ia resultar.
    Estava pronta para ele, agora, e estava decidida. No havia raiva nem embarao a toldar-lhe os sentidos. Ela sairia assim que ele estacionasse. Dessa forma, impedi-lo-ia de entrar e de ter oportunidade de voltar a confundir tudo. Faria o seu belo discurso, desejar-lhe-ia tudo de bom e depois voltaria para casa e fecharia a porta.
    E ficaria segura.
    O plano voltou a deix-la  vontade, com uma sensao de controle. Por isso, quando o ouviu chegar deu um pequeno suspiro de alvio. Tudo estava prestes a voltar a entrar em ordem.
    Depois, saiu e viu a cara dele.
    Estava sentado no bonito conversvel, com a massa de cabelos j totalmente despenteada, com as mos pousadas no volante. Lanou-lhe um sorriso agradvel, mas por detrs dele ela viu raiva e frustrao. Acima de tudo, viu uma infelicidade amarga.
    Nenhuma manobra que ele pudesse ter arquitetado, nenhum plano que ele pudesse ter feito conseguiria atingir a fraqueza dela com maior eficcia.
    - Essa  uma das coisas que mais gosto em ti, Tory. s despachada. - Saiu do carro e comeou a dar a volta para abrir a porta do outro lado.
    Ela no lhe tocou. A ligao tendia a tornar-se demasiado prxima com o contacto fsico.
    - Diz-me o que se passa.
    - O que se passa? - Ele olhou para baixo e comeou a ceder, mas depois ergueu as defesas. Recuou e voltou ao seu lugar enquanto ela entrava no carro. - Abres a cabea s pessoas e espreitas l para dentro?
    A cabea dela balanou para trs, como se tivesse levado uma pancada. Depois, cruzou as mos no colo. Era melhor assim. De qualquer modo, teria acabado por acontecer, lembrou a si prrpia. Quanto mais cedo e rpido, melhor.
    - No. Isso seria m educao. Ele riu e sentou-se ao volante.
    - Ah, estou a ver. H uma tica no que toca  leitura de pensamentos.
    - Eu no leio pensamentos. - Entrelaou os dedos com fora, em grande tenso, brancos nos pontos de presso. Soltou um suspiro para aliviar a presso no peito e olhou em frente. -  mais uma leitura de sentimentos. Aprendi a bloquear isso, porque penses o que pensares no  agradvel ter as emoes das outras pessoas a cair-nos em cima.  bastante fcil filtrar isso, mas de vez em quando, se no prestar ateno, h qualquer coisa, principalmente emoes fortes, que consegue passar. Desculpa intrometer-me na tua privacidade.
    Por um momento ele no disse nada, limitou-se a ficar sentado com a cabea para trs e os olhos fechados.
    - No, eu  que peo desculpa. Foi horrvel da minha parte. Sinto-me horrvel, como j percebeste. Acho que estava a precisar de descarregar em algum e tu foste a escolhida.
    - Compreendo que seja desconfortvel estar com algum em quem no se pode confiar. Algum que se sente que pode tirar e vai tirar vantagem dos nossos pensamentos e sentimentos e us-los para controlar-nos ou para dominar a nossa vida. Essa foi uma das razes por que tentei explicar-te que no tenho jeito para relaes, por que no quero envolver-me numa.   perfeitamente  compreensvel ter questes e dvidas, e que essas questes e dvidas conduzam a ressentimentos e a desconfianas.
    Calou-se e usou o silncio para recuperar foras para o resto.
    - Isso - disse Cade suavemente -  um surpreendente monte de asneiras. Posso perguntar-te de quem so as palavras que acabaste de pr na minha boca?
    - Foram as tuas palavras. - Mexeu-se um pouco, usando o seu prprio naco de amargura para enfrent-lo. - Sou o que sou e no posso mudar isso. Sei como hei de lidar com isso. No quero nem espero que ningum fique ao meu lado. No preciso. Aprendi a aceitar a minha vida tal como ela  e no me importo se tu ou qualquer outra pessoa no a aceitam.
    -  melhor teres cuidado com os buracos, Tory. Ests sentada num cavalo muito alto. - Quando ela ps a mo na maaneta da porta, ele ergueu o sobrolho. - Covarde.
    Os dedos dela apertaram a maaneta e depois soltaram-na.
    - Filho da me.
    - Tens razo, foi o que eu fui por ter descarregado em ti um bocado do meu mau humor. Esta noite disseram-me que as desculpas so apenas capas para atitudes pouco prprias, mas, seja como for, desculpa. Mas tu ests a atribuir-me opinies que eu no exprimi e no tenho. E no te posso exprimi-las, porque ainda no acabei de form-las. Quando uma coisa  importante, gosto de pensar nela com tempo. E tu me pareces importante.
    Ele inclinou-se na direo dela.  Instintivamente,  ela voltou a aconchegar-se no lugar.
    - Sabes, isso  uma coisa que me irrita at  medula. - Calmamente, ele puxou o cinto de segurana dela e prendeu-o. - E, ao mesmo tempo,  um desafio. Sabes, estou decidido a no deixar de tocar-te, de aproximar-me cada vez mais, at tu deixares de empurrar-me.
    Ps o motor a trabalhar, ps o brao em cima do assento, deixou o seu olhar pousar no dela antes de fazer marcha atrs no caminho.
    - Podes achar que  tudo orgulho e ego, no me importo. Fez-se  estrada e acelerou.
    - Nunca bati numa mulher. - Disse aquilo no que se esforou por ser um tom normal, mas ela ouviu a raiva contida. - E no vou comear por ti. Gostava de pr-te as mos em cima. Sei que vou acabar por pr-te as mos em cima. Mas no vou magoar-te.
    - No acho que todos os homens batem em mulheres. - Olhou pela janela, tentando manter a compostura da mesma forma que costumava empilhar tijolos para a sua parede. - Trabalhei esse e vrios outros assuntos na terapia.
    - timo - limitou-se ele a dizer. - Ento no preciso preocupar-me, no vais pensar que cada gesto meu  uma ameaa para ti. No me importo de te deixar nervosa, mas importo-me se te deixar assustada.
    - Se eu tivesse medo de ti no estaria aqui. - O vento soprava-lhe no rosto, entre os cabelos. - No sou ingnua, Cade, nem capacho de ningum. J no.
    Ele esperou um pouco.
    - Se fosses, no te quereria aqui.
    Ela virou a cabea, s um pouco, e observou-o longamente, de perfil.
    - Disseste uma coisa muito inteligente. Talvez a melhor coisa que podia ser dita. Melhor ainda: acredito que a disseste a srio.
    - Sou uma dessas criaturas estranhas que tenta dizer as coisas a srio.
    - Tambm acredito nisso. - Respirou fundo. - Tinha decidido no vir, esta noite. Ia sair de casa, dizer-te que no vinha, explicar-te como as coisas iam passar a ser. E aqui estou eu.
    - Tiveste pena de mim. - Lanou-lhe um olhar. - Foi o teu primeiro erro.
    Ela soltou uma gargalhada curta.
    - Acho que sim. Onde vamos?
    - A nenhum lugar especial.
    - Muito bem. - Recostou-se, surpreendida com a rapidez e a facilidade com que descontraiu. -  um bom lugar.
    Cade foi at mais longe do que tencionava, escolhendo estradas secundrias ao acaso, mas sempre rumo a este. Em direo ao mar. O Sol mergulhava cada vez mais baixo, atrs deles, lanando raios vermelhos pelo cu que pareciam sangrar at aos campos, entornar-se sobre os pequenos bosques, mergulhar nas curvas serpenteantes do rio.
    Ele deixou-a escolher a msica, e embora fosse Mozart a ouvir-se bem alto, em vez do rock que ele teria escolhido, parecia condizer com o crepsculo.
    Descobriu um pequeno restaurante  beira-mar, bem a sul das multides que acorriam a Myrtle Beach. Estava suficientemente agradvel para ficarem sentados c fora, a uma pequena mesa onde uma vela baixa e grossa, branca, ardia num globo de vidro e a conversa  volta deles era abafada pelo bater ritmado das ondas.
    Na praia, crianas perseguiam caranguejos, fazendo-os esconder nos seus buracos, ou atiravam migalhas de po para o ar, para as gaivotas que gritavam. Um grupo de jovens chapinhava, emitindo os guinchos e os gritos a meio caminho entre a infncia e as tentativas de chamar a ateno do sexo oposto.
    Num cu ainda azul profundo dos ltimos bafejos do dia, piscou a primeira estrela, brilhando como um diamante isolado.
    A tenso e os problemas do dia evadiram-se da mente de Tory.
    No sabia que tinha fome. O seu apetite nunca era particularmente forte. Mas lanou-se  salada, enquanto ele comeava a falar-lhe do seu trabalho.
    - Quando sentires que os olhos esto a comear a fechar-se, manda-me calar.
    - No me aborreo com essa facilidade. E sei umas coisas sobre algodo biolgico. A loja onde eu trabalhava, em Charleston, vendia camisas de algodo biolgico. Trazamo-las da Califrnia. Eram caras, mas vendamo-las bem.
    - D-me o nome da loja. A Algodo Lavelle comeou a trabalhar com algodo orgnico o ano passado. Posso garantir que o nosso preo ser melhor do que o da Califrnia. Isso faz parte do que ainda no consegui fazer to bem como gostaria. Competir com os mtodos qumicos com o produto pronto a ser utilizado. E o produto ganhar vantagem no mercado.
    - O que significa mais lucro.
    - Exatamente. - Ps manteiga num pozinho e passou-lhe. - As pessoas do mais ouvidos ao lucro do que s preocupaes ambientais. Posso falar nos resduos dos pesticidas, nos efeitos que tm na vida selvagem e nas espcies de risco...
    - Espcies de risco?
    - Codornizes e outras aves que nidificam na erva ao longo dos campos. Os caadores matam as codornizes, comem as codornizes e consomem os pesticidas. E h tambm os inseticidas.  verdade que matam as pragas, mas tambm matam os insetos bons, infetam aves, reduzem a cadeia alimentar. Um pinto come um inseto morto ou moribundo que foi pulverizado e esse pinto fica infetado.  um ciclo vicioso que s se quebra quando se tenta outro mtodo.
    Estranho, pensou ela, aperceber-se de que tinha dentro de si a viso que o seu pai tinha da agricultura, em que a natureza era o inimigo a combater dia aps dia e o governo o inimigo nmero dois.
    - Adoras isto. A agricultura.
    - Sim. Porque no haveria de adorar?
    Ela abanou a cabea.
    - Muitas pessoas ganham a vida a fazer coisas de que no gostam e para as quais no tm verdadeiro talento. A mim, estava reservado trabalhar na fbrica de tintas e ferramentas, depois do liceu. Fiz cursos de gesto em segredo, em vez de rebelar-me contra esses planos. Por isso, acho que sei o que  lutar contra a corrente para se conseguir fazer o que se quer fazer.
    - Como sabias o que querias fazer?
    - S queria ser inteligente. - Para fugir, pensou ela, mas voltou a centrar a conversa nele. - O mtodo biolgico  sensvel e, sem dvida, muito avanado, mas se no usas qumicos tens ervas daninhas e doenas e pragas. Tens uma colheita doente.
    - O algodo  cultivado h mais de quatro mil anos. O que achas que as pessoas faziam at h sessenta, setenta anos, antes de comearem a usar aldedo, metilo e trifluralina?
    Ver aquela fora nele intrigava-a, interessava-a. Sentir a paixo que vibrava nele e transparecia assim.
    - Tinham escravos. E depois disso a mo-de-obra deixou de poder trabalhar um nmero de horas obsceno por um salrio de escravo. Essa foi uma das razes, caso estejas a interrogar-te sobre isso, que levou o Sul a perder a guerra entre os estados.
    - Podemos falar de histria noutra altura. - Inclinou-se para a frente, para esclarecer o seu ponto de vista. - O algodo cultivado biologicamente pode usar e usa mais mo-de-obra, mas tambm faz uso de recursos naturais. Adubo orgnico, composto, em vez de fertilizantes qumicos que podem poluir as guas subterrneas. Culturas de cobertura, para ajudar a controlar as ervas daninhas e as pragas, e a conservao bsica do solo atravs da rotao. Os insetos bons, como as joaninhas, os louva-a-deus, e outros, so usados para acabar com as pragas do algodo, e trabalhadores, vizinhos, crianas, no so expostos aos resduos dos pesticidas. Deixamos que as plantas morram naturalmente, em vez de as matarmos com produtos qumicos.
    Voltou a sentar-se direito quando as entradas foram servidas, serviu mais vinho, mas estava ligado  corrente.
    - Cumprimos as regras durante o processo de descaroamento. Limpamos as fibras de quaisquer resduos, segundo o regulamento federal. Por isso, quando  vendido,  puro, livre de qumicos. Nem toda a gente considera isso importante numa camisa, ou nuns cales de montar, mas o algodo, para alm de fibra  tambm sementes.
    E as sementes de algodo entram numa grande quantidade de comidas preparadas. Que quantidade de pesticidas achas que ingeres de cada vez que comes um pacote de batatas fritas?
    - Acho que no quero saber. - Mas lembrou-se do pai, a chegar a casa e a amaldioar a terra. Lembrou-se de ver as nuvens de pesticidas serem lanadas sobre as plantas e de como uma parte delas era levada pelo ar, na direo da casa.
    Lembrou-se do cheiro. E do calor no ar.
    - Como te interessaste pelo mtodo orgnico?
    - No primeiro ano da universidade. Comecei a ler sobre o assunto e, bem, para dizer a verdade, havia uma certa rapariga.
    - Ah! - Divertida, Tory cortou um pedao de truta. - Agora j estou a ver.
    - Chamava-se Lorilinda Dorset, de Mill Valley, Califrnia. Fiquei de lngua de fora, a primeira vez que a vi. Uma morena alta e esguia, de calas apertadas.
    Soltou um suspiro, diante da recordao adoada pela distncia.
    - Era membro da PETA, do Greenpeace, da Conservao da Natureza, e sabe Deus que mais. Ento, claro, para impression-la, fartei-me de ler sobre os direitos dos animais e a agricultura biolgica e por a adiante. No comi carne durante dois meses.
    Tory franziu a testa ao olhar para o bife que ele tinha no prato.
    - Deve ter sido amor.
    - Foi, durante umas semanas radiosas. Deixei que ela me arrastasse at um seminrio sobre agricultura biolgica, e ela deixou que eu a tirasse daquelas calas de brim apertadas. - Rasgou um sorriso lento e malicioso. - Claro que a minha necessidade desesperada de comer um hambrguer acabou por suplantar a minha devoo, e a Lorilinda, agastada, afastou-se do carnvoro.
    - Que outra coisa podia ela fazer?
    - Precisamente. Mas continuei a pensar no que tinha ouvido no seminrio e no que tinha lido naqueles livros, e as coisas foram fazendo cada vez mais sentido para mim. Vi como podia fazer-se e porque devia fazer-se assim. Por isso, quando fiquei com Beaux Revs, iniciei este processo, longo e no inteiramente desprovido de conflitos.
    - A Lorilinda ficaria orgulhosa.
    - No, nunca h-de perdoar-me aquele cheeseburger. Foi uma verdadeira machadada na f. Depois disso, durante meses e meses no consegui engolir outro, tal era a culpa.
    - Os homens so uns filhos da me.
    - Eu sei. - Tambm sabia que ela conseguia comer uma refeio completa, se ele continuasse a manter-lhe o pensamento ocupado. - Mas, se perdoares esse defeito gentico, o que achas de seres o ponto de venda exclusivo em Progress dos produtos da Algodo Biolgico Lavelle?
    - Queres que eu venda as tuas camisas na minha loja? - perguntou, surpreendida.
    - No necessariamente camisas, se elas no se adequarem ao ambiente. Mas que tal roupa de casa? Toalhas de mesa, guardanapos, esse tipo de coisa?
    - Bem... - Apanhada de surpresa, pensou em termos do negcio. - Havia de querer ver amostras, obviamente. Mas como o produto seria fabricado aqui, no estado, deve adequar-se  minha loja. Vamos precisar de discutir custos, quantidades e qualidade e estilo, claro. No quero produtos fabricados em srie. Quero dar a conhecer s pessoas peas nicas e representativas da enorme variedade de artistas e de artesos que temos na Carolina do Sul.
    Fez uma pausa para beber um gole de vinho e pensar um pouco.
    - Atoalhados de algodo biolgico - murmurou. - Dos campos  mesa, tudo dentro de Georgetown County. Pode ser muito interessante.
    - timo. - Ergueu o copo e tocou no dela. - Havemos de encontrar uma maneira de fazer com que funcione para ns dois. Para fazer com que tudo funcione - acrescentou.
    
    Sem dvida, a noite estava a terminar num tom bem mais agradvel do que aquele em que comeara. Com a lua cheia por cima das suas cabeas e uma adorvel neblina causada pelo vinho, dentro delas. Tory no tinha inteno de beber, raramente o fazia, mas era to agradvel estar ali sentada  beira-mar, a saborear o vinho.
    To agradvel que bebera dois copos em vez de um, e estava agora tomada por uma agradvel sonolncia. O carro seguia rapidamente e sem sobressaltos, e o vento que soprava sobre a sua cabea cheirava ao vero que se avizinhava.
    F-la pensar em madressilvas e rosas muito abertas, no cheiro do alcatro a derreter sob o sol e no zumbido preguioso das abelhas cortejando as flores de magnlia no pntano.
    Como desejava que refrescasse um pouco agora, que o Sol j se pusera. Se no aparecesse uma carona depressa, podia guardar o polegar e fazer todo o caminho a p at  porcaria da praia. Claro que a culpa foi da Mareie, aquela cabra, deix-la para trs para poder enrolar-se com aquele parvalho do Tini. Bem, estava se lixando para a Mareie, havia de arranjar carona para Myrtle Beach e divertir-se imenso.
    Tudo o que precisava era a porra de uma carona. V l, querido, pra o carro! A est. Maldito calor.
    Tory ergueu-se no assento, com os olhos muito abertos, arquejante como algum que viesse  tona depois de um mergulho longo e profundo.
    - Ela entrou no carro. Atirou a mala para o assento de trs e entrou no carro.
    - Tory? - Cade encostou  beira da estrada e agarrou-a pelos ombros. - Est tudo bem. Adormeceste por um minuto.
    - No. - Empurrou-o, sentindo-se mal e desesperada e puxou o cinto de segurana. Havia mos a apertar-lhe o corao, por isso ele doa-lhe a cada batida. - No! - Abriu a porta, saiu e comeou a correr ao longo do acostamento. - Ela est a apanhar carona para a praia. Ele deu-lhe carona l atrs, algures l atrs.
    - Espera. Calma! - Ele conseguiu alcan-la e teve de agarr-la com firmeza. - Querida, ests a tremer.
    - Ele levou-a. - Estava tudo a entrar na cabea dela, imagens e formas, sons e cheiros. A garganta ardia-lhe, irritada como a de algum que fumara demasiados cigarros. - Ele levou-a, saiu da estrada, saiu e meteu-se por entre as rvores. E bateu-lhe com qualquer coisa. Ela no consegue ver o que , sente apenas a dor e est tonta. O que se passa? O que  isto? Ela est a empurr-lo, mas ele est a arrast-la para fora do carro.
    - Quem?
    Ela abanou a cabea, tentando encontrar-se a si prpria no meio da confuso, da dor. Do terror.
    - Naquela direo. Logo ali, naquela direo.
    - Est bem. - Os olhos dela estavam enormes, desfocados, e tinha a pele fria e mida sob as mos dele. - Queres ir at ali?
    - Tenho que ir. Deixa-me.
    - No. - Ele segurou-a com firmeza. - No deixo. Vamos andar um bocado. Estou aqui. Podes sentir-me: estou aqui, ao teu lado.
    - Eu no quero isto. No quero! - Mas comeou a andar. Conseguiu dominar o seu instinto de autopreservao. No lutou enquanto as imagens passavam e se solidificavam.
    As estrelas moviam-se l em cima, to brilhantes que cegavam. O calor apertava-a como um punho cerrado.
    - Ela queria ir para a praia. No conseguia arranjar boleia. Estava zangada com a amiga, Mareie. Uma amiga chamada Mareie, tinham combinado viajar juntas para passarem o fim-de-semana. Agora ela tem que apanhar carona porque no quer deixar aquela cabra estpida estragar-lhe a viagem. Ele vem na direo dela e ela est feliz. Est cansada e com sede, e ele diz que vai para Myrtle. Fica a menos de uma hora, de carro.
    Tory parou e levantou a mo. Deixou pender a cabea para trs, mas os olhos continuaram abertos. Escancarados.
    - Ele d-te uma garrafa. Jack Black. Blackjack. Bebes um gole. Bem longo. Para matar a sede e porque  to fixe pegar carona bebendo usque. Deve ter sido com a garrafa que ele te bateu. Deve ter sido, porque lha passaste e estavas a rir e depois qualquer coisa te bateu na cabea. Meu Deus! Di!
    Tory vacila e leva a mo  cara. O sabor a sangue enche-lhe a boca.
    - No. No! - Cade abraou-a contra si, surpreendido por ela no lhe escorrer por entre os braos como fumo.
    - No consigo ver. No consigo! No h nada nele. S vazio. Espera. Espera! - Com as mos fechadas, arquejante, empurrou-o. Sentia-se nauseada, mas libertou-se. E viu.
    - Ele levou-a para ali. - Comeou a balanar-se para trs e para a frente. - No consigo. No consigo.
    - No tens que conseguir. J passou. Volta para o carro.
    - Ele levou-a para ali. - O sofrimento e a dor sobrepunham-se a tudo o resto. - Est a viol-la. - Agora, fechou os olhos, dehando acontecer, deixando arder. - Lutas por um momento. Ele est a magoar-te e tu ests to assustada, por isso debates-te. Ele bate-te outra vez, duas vezes, com fora, na cara. Ai, di, di. No queres estar aqui. Queres a tua me. Gritas enquanto ele grunhe e arfa e acaba. Sentes o cheiro do suor e do sexo dele e do teu prprio sangue, e j no consegues debater-te.
    Tory ergueu as mos e passou-as pelo rosto. Precisava de sentir os traos da sua prpria face, o nariz, a boca. Precisava de se lembrar quem era.
    - No consigo v-lo. Est escuro e ele  uma mera coisa. No h nada nele que me faa sentir que ele  real. Ela tambm no o v. Nem mesmo quando ele a estrangula com as mos. No demora muito, porque ela est meio inconsciente e quase no oferece resistncia. No esteve com ele mais do que meia hora, e est morta. Estendida no cho, nua,  sombra das rvores.  a que ele a deixa. Ele... ia a assobiar quando voltou para o carro.
    
    Nessa altura afastou-se de Cade, da forma deliberada que era habitual nela. Ele olhou para o rosto dela, plido como a lua, com aqueles olhos a desfazerem-se em espirais de fumo.
    - Ela s tinha dezasseis anos. Uma rapariga bonita, com cabelo comprido, louro, e pernas compridas. Chamava-se Alice, mas no gostava do nome, por isso toda a gente lhe chamava Ally.
    A exausto e a dor venceram-na.
    Cade segurou-a, pegou-lhe ao colo. Estava inerte, como se estivesse morta. Abalado pela sbita imobilidade dela e pela histria que ela contara, apressou-se a lev-la dali. Pensou que, esperou que, se a levasse daquele stio, daquele lugar, ela ficaria melhor.
    Quando ele se inclinou para voltar a p-la no carro, ela mexeu-se. Quando abriu os olhos, estavam escuros e vtreos.
    - Est tudo bem. Tu ests bem. Vou levar-te a casa.
    - S preciso de um minuto. - A nusea e o frio tinham voltado. Mas iam passar. O horror demoraria mais tempo. - Desculpa. - Encolheu os ombros, sem foras. - Desculpa.
    - Porqu? - Deu a volta pela frente do carro, at junto do volante. Depois sentou-se. - No sei o que posso fazer por ti. Deve haver qualquer coisa que eu possa fazer. Vou levar-te a casa e depois vou voltar e... vou encontr-la.
    Confusa, Tory olhou fixamente para ele.
    - Ela no est ali, agora. Aconteceu h muito tempo. H anos. Ele comeou a falar e depois interrompeu-se. Alice, dissera ela.
    Uma rapariga loura chamada Alice. Aquilo despertou-lhe a memria e uma espcie de nusea no estmago. - Acontece-te sempre assim? Vindo do nada?
    - s vezes.
    - Faz-te sofrer.
    - No, esgota-me, deixa-me um bocado enjoada, mas no sofro.
    - Faz-te sofrer - repetiu ele e deu a volta  chave.,
    - Cade. - Hesitante, tocou na mo dele. - Foi... Desculpa falar-te nisto, mas tens que saber. Foi como a Hope. Por isso foi to forte. Foi como a Hope.
    - Eu sei.
    - No, no compreendes. O homem que matou aquela pobre rapariga e a deixou ali, no meio das rvores, foi o mesmo homem que matou a Hope.
    
     Progress
    Quando compreenderes o que  a Revoluo, chama-lhe Progresso; E quando compreenderes o que  o Progresso, chama-lhe
    Amanh.
    Victor Hugo
     
    Eu no queria acreditar. Havia - h - dzias de razes racionais e lgicas pelas quais Tory est enganada. Pequenas coisas e outras maiores que tornam impossvel o que ela diz sobre a adolescente morta  beira da estrada. A rapariga no pode ter sido morta pelo mesmo monstro que matou a minha irm.
    A pequena Hope, com o seu cabelo esvoaante e os seus olhos cheios de alegria e de segredos.
    Posso fazer uma lista dessas razes imediatamente, apesar de no a ter conseguido apresentar a Tory, a noite passada. Sei que a decepcionei. Sei, pela maneira como ela olhou para mim, pela maneira como se barricou atrs daquele silncio dela. Sei que a magoei porque no dei a devida importncia ao que ela disse, pela forma como sugeri, no, insisti em que ela no pensasse mais nisso.
    Mas o que ela me disse, o que me deixou ver atravs dos olhos dela, o horror que reviveu  minha frente e do qual falou mais tarde de modo to contido, trouxe tudo de volta. Fez-me recuar at quele vero distante, quando tudo mudou no mundo.
    Talvez ajude mais escrever sobre a Hope do que sobre aquela rapariga desgraada que nunca conheci.
    Aqui, sentado  escrivaninha do meu pai - porque para toda a gente, incluindo para mim prprio, ela ser sempre a escrivaninha do meu pai - recuo os dias e meses e anos at voltar a ter doze anos e ser suficientemente inocente para no dar grande ateno s pessoas que amo, e ver os meus amigos como mais importantes do que a famlia, em todos os aspectos, at voltar ao tempo em que ainda sonhava com o dia em que teria idade para conduzir, ou para beber, ou para fazer qualquer das coisas mgicas que pertencem ao almejado mundo dos adultos.
    Naquela manh, tinha feito as minhas tarefas como sempre. O meu pai insistia nas responsabilidades e martelava-me constantemente a cabea com aquilo que era esperado de mim. Pelo menos era assim antes de termos perdido a Hope. Tinha sado com ele, a meio da manh, para dar uma volta pelos campos. Lembro-me de estar ali, a olhar para aquele oceano de algodo. O meu pai cultivava sobretudo algodo, mesmo quando muitas das fazendas vizinhas se viraram, para a soja ou para o tomate ou o tabaco. Beaux Revs era algodo, e eu nunca deveria esquecer isso.
    Nunca esqueci.
    E naquele dia foi to simples ver porqu, a olhar para aquele espao vasto, para a magia das cpsulas que se abriam em fios. A ver as hastes vergadas sob o peso - algumas delas com o que devia ser uma centena de capsulas, todas abertas como ovos. E naquela poca do ano, com os campos to cheios, todo o ar cheirava a algodo. O cheiro quente do fim do vero.
    A colheita ia ser boa, naquele ano. O algodo espalhar-se-ia pelos campos, seria apanhado, ensacado e processado. Beaux Revs ia continuar, mesmo que aqueles que ali viviam fossem pouco mais do que fantasmas.
    Fiquei livre pouco depois do meio-dia. Embora o meu pai esperasse que eu trabalhasse, aprendesse, suasse, esperava tambm que eu fosse um rapaz. Era um bom homem, um bom pai, e nos primeiros doze anos da minha vida foi tudo de slido e quente e bom.
    J tinha saudades dele muito antes de ele morrer.
    Mas naquele dia, quando ele me dispensou, peguei na minha bicicleta, aerodinmica e com doze velocidades, que me tinha sido oferecida no Natal, e atravessei a parede de ar espesso e quente at  casa do Wade. Tnhamos uma casa na rvore, nas traseiras do quintal do Wade, no alto de um velho sicmoro. O Dwight e o Wade j l estavam, bebendo limonada e lendo livros de quadradinhos. Estava demasiado calor para fazer o que quer que fosse, mesmo para ns, com os nossos doze anos.
    Mas a me do Wade nunca nos deixava sossegados. Estava sempre a vir c fora e a perguntar se queramos isto ou aquilo ou porque no amos para dentro, tomar uma bela bebida fresca e comer um sanduiche de atum. A Mrs. Boots sempre tivera um corao doce, mas foi uma chata para ns, naquele vero. Estvamos no auge da nossa masculinidade, ou pelo menos era o que achvamos, e era mais do que humilhante algum oferecer-nos atum e Pepsi, sendo esse algum uma me, de avental impermevel e sorriso indulgente, que nos fazia recuar  infncia.
    Fugimos, fomos at ao rio, nadar um pouco. Acho que lanamos insultos mal-educados, mas para ns brilhantes, a propsito do rabo branco e gordo do Dwight. Em resposta, ele comparou as nossas partes masculinas a vrios vegetais pouco atraentes. Evidentemente, tais atividades mantiveram-nos em histeria durante uma hora.
    Era muito fcil ter doze anos. Discutamos assuntos importantes: A Aliana Rebelde regressaria e derrotaria Darth Vader e o Imprio do Mal? Quem era o mais fixe: o Super-Homem ou o Batman? Como havamos de convencer os nossos pais a levar-nos a ver o ltimo filme, Sexta-feira, 13? Nunca conseguiramos enfrentar os nossos colegas na escola se no vssemos o louco Jason a matar a sua quota anual de adolescentes.
    Naquele momento, eram essas as questes vitais das nossas vidas.
    Pouco depois das quatro, aps termos comido uns pssegos meio azedos e picados das vespas e umas pras ainda verdes, o Dwight teve de ir para casa. A sua tia Charlotte vinha a Lexington, de visita, e ele tinha de lavar-se e estar pronto a tempo para o jantar. Os pais do Dwight eram severos e no lhe poderia passar pela cabea chegar atrasado.
    Sabamos que ele ia ser obrigado a usar cales bem vincados e lao, e com a generosidade dos amigos esperamos que ele j no pudesse ouvir-nos para gozar  vontade.
    O Wade e eu fomo-nos embora pouco depois, e separmo-nos no meio do caminho. Ele em direo  cidade e eu a Beaux Revs.
    
    No caminho, passei pela Tory. Ela no tinha bicicleta. Ia para casa e cruzou-se comigo. Pensei que devia ter estado a brincar com a Hope. Tinha os ps descalos e cheios de p e a camisa ficava-lhe demasiado pequena. Naquela altura no notei nada disso, mas agora lembro-me exatamente do aspecto dela, daquele cabelo castanho-escuro apanhado atrs, daqueles olhos grandes e cinzentos que fixaram os meus enquanto eu passava por ela, sem dizer uma palavra. Eu no podia parar para falar com uma rapariga e continuar a manter a minha dignidade masculina. Mas lembro-me de ter olhado para trs e de a ter visto afastar-se, caminhando com as suas pernas fortes e bronzeadas pelo vero.
    Quando voltei a ver as pernas dela estavam cheios de verges recentes.
    Quando cheguei, a Hope estava no alpendre, a jogar trs-marias. Ser que as meninas continuam a jogar trs-marias, hoje? A Hope era imbat-vel. Tentou convencer-me a jogar, at prometeu dar-me vantagem. Coisa que, evidentemente, me insultou para alm de todos os limites. Acho que lhe disse que jogar trs-marias era para bebs e que eu tinha coisas mais importantes para fazer. O riso dela e o som da bola seguiram-me quando entrei em casa.
    Daria um ano da minha vida para voltar quele momento e sentar-me no alpendre enquanto ela me ganhava jogando trs-marias.
    O sero passou como de costume. A Lilah enxotou-me para cima, para eu tomar banho, porque cheirava a zorrilho do rio.
     
    A me estava na saleta da frente. Eu soube, porque a msica de que ela gostava estava tocando. No entrei, porque sabia, por experincia, que ela no gostava muito de rapazes malcheirosos e suados na saleta da frente.
     engraado, olhando para trs, vejo o quanto eu, o Wade e o Dwight ramos dominados pelas nossas mes. A do Wade, com as suas mos sempre em movimento e os seus olhos quentes, a do Dwight, com os seus sacos de bolachas e de doces, e a minha, com as suas idias rgidas sobre o que era tolervel e o que no era.
    Nunca tinha percebido isto antes, e acho que agora j no importa. Podia ter importado naquela altura, se nos tivssemos apercebido disso.
    Naquela noite, o que importava era evitar a desaprovao da minha me, por isso subi diretamente as escadas. A Faith estava no quarto dela, a vestir uma das Barbies com um vestido janota. Sei, porque me dei ao trabalho de parar  porta dela e espreitar.
    Tomei uma ducha, por ter decidido, pouco antes, que os banhos de imerso eram para as raparigas e para os homens velhos e cheios de rugas. Tenho a certeza de que pus as minhas roupas sujas no cesto, porque a Lilah me teria torcido a orelha se eu as tivesse posto noutro lado qualquer. Vesti roupa lavada, penteei-me, e devo ter demorado alguns minutos a treinar os meus bceps e a observar os resultados no espelho. Depois, fui para baixo.
    Tivemos galinha para o jantar. Galinha assada, com pur de batata e molho, e ervilhas vindas diretamente da horta. A Faith no gostava de ervilhas e recusou-se a comer as dela, o que at podia ter sido tolerado, mas ela resolveu armar uma cena por causa disso, como fazia frequentemente, e acabou por responder mal  me, que a mandou sair da mesa, de castigo.
    Acho que o Chauncy, o fiel co do pai que morreu no vero seguinte, comeu o resto do jantar dela.
    Depois do jantar, fui dar uma vista de olhos l fora, pensando numa maneira de convencer o pai a deixar-me construir um forte. At ao momento, os meus esforos nessa rea tinham sido um rotundo fracasso, mas pensei que se lhe dissesse exatamente o stio certo, de onde no se visse a estrutura, que o pai achava que ia ser uma monstruosidade, poderia ser bem-sucedido.
    Foi durante esse reconhecimento que encontrei a bicicleta da Hope, no stio onde ela a escondera, atrs das camlias.
    Nunca pensei em denunci-la. Era assim que funcionvamos enquanto irmos, a no ser que algum interesse particular falasse mais alto do que a lealdade. Nem sequer fiquei curioso, embora imaginasse que ela estivesse a planejar esgueirar-se para se encontrar com a Tory algures, naquela noite, porque andavam coladas uma  outra naquele vero. Sabia que j no era a primeira vez, e no a censurava por isso. A me era muito mais rigorosa com as filhas do que era com o filho. Por isso, no disse nada sobre a bicicleta e concentrei-me no forte.
    Uma palavra minha e os planos dela teriam ficado destrudos. Ela ter-me-ia lanado um dos seus olhares furiosos, e provavelmente ter-se-ia recusado a falar comigo durante um dia, dois, se conseguisse aguentar.
    E estaria viva.
    Em vez disso, voltei para casa quando comeou a escurecer e plantei-me diante da televiso, como era meu direito numa noite comprida de vero. Como tinha doze anos, tinha um apetite voraz e acabei por levantar-me do sof para ir arranjar qualquer coisa para comer. Comi batatas fritas e vi A Balada de Hill Street, e pensei em como seria a vida de um polcia.
    Quando me fui deitar, com o estmago cheio e os olhos cansados, a minha irm j estava morta.
    Pensava que conseguiria escrever mais, mas no foi capaz. Tinha a inteno de escrever o que sabia sobre o homicdio da sua irm, e sobre o homicdio de uma rapariga chamada Alice, mas os seus pensamentos tinham-se desviado dos fatos e da lgica e tinham-no deixado mergulhado em dor e recordaes.
    No percebera ainda como ela ficava viva, para ele, se ele escrevesse sobre ela. Como as imagens daquela noite, e as horrveis imagens da manh seguinte, corriam no seu pensamento como um filme.
    Seria assim tambm com Tory?, pensou. Como um filme projetado na mente e que no podia ser parado?
    No, era mais. Saberia ela que quando fora apanhada naquela viso, na noite anterior, falara com a rapariga e no sobre ela? Talvez a rapariga Alice tivesse falado atravs dela.
    Que tipo de fora era necessria para enfrentar isso, para sobreviver a isso e construir uma vida?
    Pegou no que escrevera e comeou a met-lo numa gaveta da velha escrivaninha, na inteno de a trancar em seguida. Mas, em vez disso, dobrou as pginas e fechou-as num envelope.
    Precisava de voltar a ver Tory. Precisava de voltar a falar com ela. Tinha toda a razo naquele primeiro dia em que a vira e lhe dissera que o fantasma da irm estava ali, no meio deles.
    No conseguiriam avanar nem recuar at cada um deles conseguir lidar com o que perdera.
    Ouviu o velho relgio do av dar as horas, com o ecoar das suas batidas secas. Apenas duas. Estaria a p dali a quatro horas, a vestir-se iluminado pela luz plida, a comer o pequeno-almoo que Lilah insistiria em preparar, e depois a ir de campo em campo, para observar as colheitas com toda a f e todo o fatalismo com que todos os agricultores nasciam,  procura de pragas, a observar o cu.
    Apesar, ou talvez por causa de toda a cincia que estudara e implementara, a Beaux Revs de Cade era mais uma plantao do que a fazenda que fora do pai. Cade contratava mais trabalhadores, envolvia mais mo-de-obra do que a gerao anterior. Investia mais esforos e mais lucro na colheita, na compresso, no armazenamento e no processamento do que o pai e o av tinham estado dispostos a fazer. Isso fizera de Beaux Revs uma plantao independente,  maneira antiga, e, ao mesmo tempo, uma espcie de fbrica ativa e diversificada.
    E, ainda assim, com os seus grficos e a sua cincia e os seus planos cuidadosos, observava o cu e esperava que a natureza colaborasse.
    No fim, pensou enquanto pegava no envelope, tudo se resumia ao destino.
    Apagou a luminria da escrivaninha e usou o luar que se entornava pelas janelas para se guiar enquanto descia a escada curvilnea e saa do escritrio. Precisava daquelas quatro horas de sono, disse a si prprio, porque depois de fazer as tarefas da manh tinha reunies na fbrica,  tarde. Lembrou-se que tinha de arranjar umas amostras para Tory e escrever uma proposta.
    Se conseguisse fazer tudo isso, podia ir ter com ela na noite seguinte. Quando entrou no quarto, sopesou o envelope que tinha na mo e depois acendeu a luz e meteu-o na pasta que estava junto s suas botas de trabalho.
    Estava a desabotoar a camisa quando uma brisa fraca com cheiro a fumo de cigarro o fez olhar na direo da porta que dava para a varanda. Deu um passo, notou que estavam entreabertas, e atravs do vidro viu o brilho vermelho de um cigarro aceso.
    - Estava pensando que nunca mais descias. - Faith virou-se. Tinha vestido o roupo que era o seu preferido ultimamente, e com os braos apoiados na pedra encontrava-se numa espcie de pose.
    - Porque no vais fumar na tua janela?
    - No tenho esta varanda bonita, como o dono da casa. - Aquele fora outro pomo de discrdia. E embora ele achasse que ela teria usado melhor a sute principal do que ele, no valera a pena tentar contrariar a insistncia da me em que fosse ele a ficar ali aps a morte do pai.
    Ela levantou o cigarro e aspirou-o lentamente.
    - Ainda ests zangado comigo. No te censuro. O que fiz foi indecente. Quando perco a cabea, no penso.
    - Se isso  um pedido de desculpa, est bem. Agora, vai-te embora e deixa-me deitar.
    - Ando dormindo com o Wade.
    - Meu Deus! - Cade pressionou os dedos contra os olhos e ficou admirado por eles no lhe entrarem pelo crebro dentro. - E achas que essa  uma coisa que eu preciso de saber?
    - Descobri um dos teus segredos, por isso estou a dizer-te um dos meus. Ficamos quites.
    - Vou ver se no me esqueo de pr um anncio no jornal. O Wade. - Deixou-se cair pesadamente na cadeira de ferro que havia na varanda. - Raios partam!
    - Ora, no fiques assim. Estamos a dar-nos muito bem.
    - At acabares de mastig-lo e o cuspires.
    - No tenciono fazer isso. - Depois, soltou uma gargalhada curta e forada. - Nunca tenciono. Acontece, simplesmente. - Mandou a chepa do cigarro pela grade da  varanda, sem pensar que a me ia encontr-la e ficar aborrecida. - Ele faz-me sentir bem. Porque tem de haver algum mal nisso?
    - No tem. O assunto s a ti diz respeito.
    - Assim como o teu e da Tory  vosso. - Aproximou-se dele e acocorou-se, para os olhos de ambos ficarem ao mesmo nvel. - Desculpa, Cade. Fui m e desprezvel por ter dito o que disse, e gostava de poder voltar atrs.
    - Gostavas sempre.
    - No, posso dizer sim, mas em metade das vezes no quero dizer nada disso. Mas desta vez  verdade, gostava mesmo. - Como havia mais cansao do que fria nos olhos dele, ela estendeu a mo para lhe passar os dedos pelo cabelo.
    - Mas no ds ouvidos  me. Ela no tem nada que dizer-te o que deves fazer. Mesmo que, provavelmente, tenha razo.
    Ele sentiu o cheiro ao jasmim da me, que enfeitava a noite.
    - Ela no tem razo.
    - Bem, eu sou a ltima pessoa que devia dar conselhos no que toca a relaes romnticas...
    - Exatamente.
    Ela ergueu o sobrolho.
    - Ai, essa foi certeira. Mas, como eu ia dizer antes de comear a sangrar, esta famlia j est estragada sem ser preciso acrescentar um elemento estranho como a Tory Bodeen  mistura.
    - Ela faz parte do que aconteceu naquela noite.
    - Por amor de Deus, esta famlia j era o que era antes de a Hope ter morrido.
    Ele ficou com um ar to frustrado e to cansado depois daquela afirmao, que ela quase recuou e quase disse uma patetice qualquer sobre aquilo tudo. Mas tinha pensado muito desde que Tory chegara  cidade. E estava na altura de diz-lo.
    - Pensa. - A raiva em relao a ele e a si prpria tornou a voz dela aguda como pontas afiadas. - Ficamos entalados no momento em que nascemos. Ns trs. E a me e o pai, antes de ns. Achas que o casamento deles era alguma histria de amor? Podes gostar de ver o lado bom das coisas, mas sabes isso perfeitamente.
    - Faith, eles tinham um bom casamento at...
    - Um bom casamento? - Com um som de averso, ps-se de p e tirou os cigarros do bolso do robe. - Que diabo significa isso? Um bom casamento? Que estavam destinados um ao outro, que era inteligente e conveniente para o herdeiro da plantao maior e mais rica da regio casar com a debutante bem de vida? Muito bem, foi um bom casamento. Talvez at sentissem alguma coisa um pelo outro, pelo menos por uns tempos. Cumpriram o seu dever - disse ela amargamente, pegando no isqueiro. - Fizeram-nos.
    - Fizeram o melhor que sabiam - disse Cade, exausto. - Tu nunca quiseste ver isso.
    - Talvez o melhor deles nunca fosse suficientemente bom, pelo menos para mim. E no vejo porque o foi para ti. Que escolha te deram, Cade? Durante toda a vida foste educado para ser o senhor de Beaux Revs, e era isso que se esperava de ti. E se tu quisesses ser encanador, por amor de Deus?
    - Essa foi sempre a ambio secreta da minha vida. Costumo consertar torneiras que pingam s pelo entusiasmo da coisa.
    Ela riu, e a aresta mais viva da sua fria suavizou-se.
    - Sabes muito bem o que quero dizer. Podias ter querido ser engenheiro, ou escritor, ou mdico, ou qualquer outra coisa, mas no te foi dada hiptese de escolha. Eras o filho mais velho, o nico filho, e o teu caminho estava traado.
    - Tens razo. E no sei o que podia ter acontecido se eu tivesse querido ser uma dessas coisas. Mas, Faith, a questo  que eu no quis.
    - Bem, como poderias ter querido, a crescer e a ouvir Quando o Cade estiver  frente de Beaux Revs e Quando for o Cade a mandar? Nunca tiveste hiptese de ser qualquer outra coisa, nunca disseste Vou tocar guitarra numa banda de rock-and-rolh.
    Desta vez ele riu e ela suspirou e voltou a encostar-se ao gradeamento. Percebeu porque vinha tantas vezes ao quarto dele, porque procurava tantas vezes a sua companhia. A Cade podia dizer aquilo que precisava de dizer. Ele deixava-a. Ele ouvia-a.
    - Cade, no vs? Eles fizeram de ns o que somos, e talvez tu tenhas conseguido ser o que querias, no meio de tudo isto. Ainda bem para ti, e digo isto com sinceridade.
    - Eu sei que sim.
    - Mas isso no significa que as coisas estejam certas. De ti esperava-se que fosses inteligente, soubesses coisas, descobrisses coisas. E enquanto tu andavas a aprender o teu ofcio, diziam-me para me comportar bem, para falar em tom baixo e para no correr pela casa.
    - Se te serve de consolo, bem podes dizer que raramente ouviste.
    - Talvez tenha ouvido - murmurou ela. - Talvez tivesse ouvido, se no tivesse percebido que esta casa era o lugar de treino para uma boa esposa, um bom casamento, tal como aconteceu com a me antes de mim. Nunca ningum me perguntou se eu queria mais alguma coisa, outra coisa, e quando eu questionava mandavam-me calar. Deixa o teu pai preocupar-se com isso, ou o teu irmo. Pratica piano, Faith. L um bom livro, para poderes discuti-lo de forma inteligente. Mas no demasiado inteligente. No v algum homem pensar que s mais inteligente do que ele. Quando casares,  teu dever construir um lar agradvel.
    Olhou fixamente para a ponta do cigarro.
    - Um lar agradvel. Isso era supostamente a soma de todas as minhas ambies, segundo as regras dos Lavelle. Por isso, claro que sendo como sou decidi fazer exatamente o contrrio. No ia me deixar descobrir aos trinta anos que era uma mulher seca e reprimida. Nem pensar! Quis ter a certeza de que isso no ia acontecer. Fugi com o primeiro rapaz de conversa mole e olhos vivos que me pediu, um que era tudo o que eu no devia querer. Casada e divorciada antes dos vinte anos.
    - Isso deu-lhes uma lio, no foi? - murmurou Cade.
    - Sim, deu. Assim como deu a minha investida seguinte no casamento e no divrcio. Afinal, fora exatamente para o casamento que me tinham educado. No o gnero de casamento da me. Recusei-me e paguei bem por isso. E aqui estou eu, vinte e seis anos e dois pontos contra mim. E nenhum outro lugar para ir, seno este.
    - Aqui ests tu - comentou Cade. - Vinte e seis anos, bonita, inteligente e com experincia suficiente para no repetir os mesmos erros. Nunca pediste nada da fazenda, nem da fbrica. Se quiseres aprender, se quiseres trabalhar...
    O olhar que ela lhe lanou deteve as palavras. Era to disfaradamente indulgente.
    - s realmente demasiado bom para ns. Sabe Deus como consegues isso.  demasiado tarde, Cade. Sou um produto da minha educao e da minha prpria rebeldia contra ela. Sou preguiosa e gosto. Um dia destes vou encontrar um velho rico e pateta e convenc-lo a casar comigo. Vou tratar bem dele, claro, e gastar-lhe o dinheiro como gua. Talvez at lhe seja fiel. Fui fiel aos outros, e v do que me valeu. Depois, com sorte e com o tempo, vou ser uma viva rica, o que vai assentar-me que nem uma luva, acho eu.
    Da mesma maneira que assenta  me, pensou amargamente. Amargamente.
    - s mais do que achas que s, Faith. Muito mais.
    - No, doce, parece-me  que sou muito menos. Talvez tivesse sido diferente, apenas um pouco diferente, se a Hope no tivesse morrido. Sabes, ela nem sequer teve oportunidade de viver.
    - Isso no  culpa de ningum, a no ser do filho da me que a matou.
    - Achas que no? - disse Faith calmamente. - Pergunto-me: teria ela sado naquela noite, escapado para ter a sua aventura com a Tory, se no se sentisse to sufocada aqui dentro como eu? Teria sado por aquela janela se soubesse que era livre de fazer o que entendesse, com quem entendesse, na manh seguinte? Eu conhecia-a, melhor do que qualquer outra pessoa nesta casa. As gmeas so assim. Ela teria feito qualquer coisa da vida dela, Cade, porque teria escapado lentamente s grades. Mas no chegou a ter hiptese. E quando morreu, a iluso de equilbrio nesta casa foi com ela. Ela era a mais amada, sabes disso.
    Faith pressionou os lbios um contra o outro e atirou o cigarro por cima do gradeamento.
    - Mais do que tu ou eu. No sei quantas vezes depois, quando um deles olhava para mim, para mim que tenho um rosto igual ao dela, eu vi nos olhos deles o que eles estavam a pensar. Porque no tinha sido eu a ir quele pntano em vez da Hope. 
    - No. - Ele levantou-se. - Isso no  verdade. Nunca ningum pensou isso.
    - Eu pensei. E foi isso que senti da parte deles. E eu recordava-Ihes constantemente que ela tinha morrido. E no devia ser perdoada por isso.
    - No. - Ele tocou-lhe no rosto e viu a mulher e a criana que ela fora. - Que ela era.
    - Mas eu no podia ser ela, Cade. - As lgrimas que lhe enchiam os olhos brilhavam  luz difusa, tornando-as, pensou ele, brutalmente vivas. - Ela era algo que eles partilhavam como no podiam partilhar mais nada nem mais ningum. Mas no conseguiram partilhar a perda.
    - No, no conseguiram.
    - Por isso, o pai construiu este altar para ela e encontrou alvio na cama de outra mulher. E a me tornou-se mais fria e mais dura. Tu e eu limitamo-nos a seguir os caminhos para os quais j estvamos direcionados. E aqui estamos, a meio da noite, sem ningum que nos pertena. E ainda no temos ningum que faa de ns os mais amados.
    Doa ouvir aquilo, e saber que era verdade.
    - No temos que ficar assim.
    - Cade, ns estamos assim. - Ela encostou-se a ele e pousou a cabea quando ele a rodeou com os braos. - Nenhum de ns amou ningum, pelo menos o suficiente para recuperar esse equilbrio. Talvez amssemos a Hope o suficiente, talvez mesmo nessa altura j soubssemos que era ela que mantinha a coeso.
    - No podemos mudar o que aconteceu, nada do que aconteceu. Apenas o que fazemos com isso, agora.
    - , no ? E eu no quero fazer nada sobre nada. Odeio a Tory Bodeen por ter voltado aqui, por me fazer lembrar da Hope, sentir saudades dela e voltar a sofrer por ela.
    - Ela no tem culpa, Faith.
    - Talvez no. - Fechou os olhos. - Mas eu tenho de culpar algum.
     
    
    O assunto tinha de ser resolvido, o mais rapidamente e o mais eficazmente possvel. O dinheiro, como Margaret sabia, apelava a um certo tipo de pessoas. Comprava o silncio delas, a sua lealdade e aquilo que passava por ser a sua honra.
    Vestiu-se cuidadosamente para o encontro, mas afinal vestia-se sempre cuidadosamente. Usava um traje azul-marinho, de corte impecvel, e ao pescoo o colar de prolas da av, de uma nica volta. Sentara-se ao seu toucador, como fazia todas as manhs, no tanto para disfarar os sinais da idade, pois considerava a idade uma vantagem, mas para us-los para mostrar o seu carter e o seu regulamento.
    Carter e regulamento eram a espada e o escudo.
    Saiu de casa s oito e cinquenta em ponto, dizendo a Lilah que tinha um encontro, cedo, e que depois ia almoar em Charleston. Estaria de volta s trs e meia.
    Chegaria  hora marcada,  claro.
    Margaret calculou que o assunto que tinha que tratar antes de se dirigir para sul no demoraria mais de trinta minutos, mas pensou em quarenta e cinco, o que ainda lhe daria tempo para tratar da sua curta lista de compras antes do almoo.
    Podia ter contratado um motorista, ou at mantido um no pessoal. Podia ter deixado as compras para uma empregada. Eram caprichos e, por conseguinte, fraquezas que no podia permitir.
    Na sua opinio, a dona de Beaux Revs devia ser vista na cidade, fazer as compras em determinadas lojas e manter uma relao adequada com os negociantes e os membros certos do poder local.
    Esta responsabilidade cvica nunca deveria ser descurada por convenincia.
    
    Margaret fazia mais do que passar cheques generosos s suas instituies de caridade selecionadas. Tinha posies em comits. O instituto de arte local e a sociedade histrica podiam ser interesses pessoais, mas essa tendncia no tornava menos vlidos o tempo, a energia e os fundos que canalizava para eles.
    Em mais de trinta e dois anos como dona de Beaux Revs, nunca faltara aos seus deveres. E no tencionava faltar hoje.
    No vacilou quando passou pelas rvores cobertas de musgo que marcavam a entrada do pntano, nem abrandou ou acelerou. No notou que as tbuas da pequena ponte tinham sido substitudas e que o sumagre estava cortado.
    Passou com firmeza pelo local da morte da filha. Se sentiu alguma coisa, o seu rosto no o revelou.
    Como no revelara no dia em que aquela criana fora sepultada, quando o seu corao estava dilacerado e a sangrar.
    O rosto manteve a compostura enquanto ela virava para o caminho estreito que conduzia  Casa do Pntano. Estacionou ao lado da station wagon de Tory e pegou na carteira. No deu um ltimo olhar a si prpria no retrovisor. Isso teria sido vaidade e teria sido fraqueza. Saiu do carro, fechou a porta e trancou-a.
    Havia dezesseis anos que no ia ao pntano. Sabia que tinham sido feitas mudanas, mudanas que Cade encomendara e pagara, ignorando o seu silncio de desaprovao. Em sua opinio, tinta fresca e arbustos floridos no mudavam o que estava feito.
    Uma cabana. Um pardieiro. Estaria melhor arrasado por um bulldozer do que habitado. A certa altura, no meio da sua dor, quisera queim-lo, deitar fogo ao pntano, ver arder tudo num inferno?
    Mas isso, claro, era uma loucura. E ela no era uma mulher dada a loucuras.
    Era propriedade dos Lavelle e, apesar de tudo, devia ser mantido e passado  gerao seguinte.
    Subiu os degraus, ignorando o encanto da floreira comprida, de barro, cheia de flores pendentes e de heras, e bateu bruscamente na madeira da porta de tela.
    L dentro, Tory interrompeu-se quando se preparava para pegar numa chvena. Estava atrasada, mas no estava muito preocupada com isso. Estava cansada at  medula, adormecera tarde e ainda tinha de se vestir. Estava a tentar compor para si prpria um sermo sobre responsabilidade, admoestar-se por ceder a pequenas veleidades. Esperava que o caf conseguisse faz-la regressar  vida, para poder entusiasmar-se para ir  loja e acabar os preparativos para a abertura.
    A interrupo no era apenas mal-vinda, era quase intolervel. No havia ningum que quisesse ver, nem quaisquer palavras que quisesse trocar. Queria, acima de tudo, voltar para a cama e conseguir o sono tranquilo e sem sonhos que lhe escapara durante a noite.
    Mas foi atender, porque ignorar que algum estava batendo  porta seria fraqueza. Pelo menos isso Margaret teria compreendido.
    Diante da me de Hope, Tory sentiu-se imediatamente culpada, exausta e embaraada.
    - Mistress Lavelle.
    - Victoria. - Margaret observou, com o seu olhar gelado, os ps descalos de Tory, o robe enrodilhado e o cabelo em desalinho. Esta preguiosa, disse a si prpria com uma satisfao glida, no era nem mais nem menos do que ela esperara de uma Bodeen. - Peo desculpa. Pensei que j estaria levantada s nove horas, se preparando para trabalhar.
    - Sim, sim, j devia estar. - Tristemente consciente do estado em que estava, Tory puxou pelo cinto do robe. - Eu estava... Desculpe, mas adormeci.
    - Preciso de uns momentos do seu tempo. Ser que posso entrar?
    - Sim. Claro. - Com toda a sua etiqueta, to cuidadosamente aprendida, absolutamente incapaz, Tory lutou desajeitadamente com a porta de tela. - Desculpe, a casa no est muito mais apresentvel do que eu.
    Havia encontrado uma cadeira de que gostara, um cadeiro estofado em azul desbotado. Isso e a mesinha que tinha pensado em restaurar constituam o total da sua moblia de sala.
    No havia tapete, nem cortinas, nem luminria. Tambm no havia sujidade, nem p, mas Tory recuou como se estivesse a convidar uma rainha para um abrigo.
    A sua voz ecoou, desconfortvel, na sala quase vazia, enquanto Margaret permanecia de p, fazendo uma avaliao silenciosa e arrasadora.
    - Tenho estado concentrada na preparao da minha loja e no...
    Tory deu por si a torcer as mos e, deliberadamente, desenlaou os dedos. Raios, j no tinha oito anos, no era uma criana mortificada e assustada diante da desaprovao rgia da me de uma amiga.
    - Acabei de fazer caf - disse ela, rigidamente delicada. - Quer?
    - H algum lugar onde possa sentar-me?
    - Sim. Parece que vivo sobretudo na cozinha e no quarto, e  assim que vai ser at ter o meu negcio montado e a correr bem. - Ests a dizer tolices, disse Tory a si prpria enquanto mostrava o caminho a Margaret. Pra de dizer tolices. No tens razes para te desculpares.
    Tinha todas as razes para se desculpar.
    - Por favor, sente-se.
    Pelo menos comprara uma mesa e cadeiras slidas para a cozinha, pensou. E a cozinha estava limpa, quase alegre com as pequenas ervas aromticas que tinha em vasos no parapeito e, em cima da mesa, a tigela escura e brilhante que trouxera da sua prpria loja.
    Sentiu-se melhor servindo o caf, tirando o aucareiro do armrio, mas quando abriu a geladeira a mortificao fez-lhe subir o rubor s faces.
    - Lamento, mas no tenho nata. Nem leite.
    - Assim serve. - Margaret afastou a chvena uns escassos centmetros. Uma bofetada sutil e intencional. - No se quer sentar, por favor? - Margaret deixou o silncio pairar por um momento. Conhecia o valor dos silncios e do tempo certo.
    Quando Tory se sentou, Margaret cruzou as mos na beira da mesa e, com um olhar suave e direto, comeou.
    - Chegou ao meu conhecimento que te envolveste com o meu filho. - Outro momento de silncio, enquanto via a surpresa aflorar o rosto de Tory. - Numa cidade pequena, os mexericos so to indesejveis como inevitveis.
    - Mistress Lavelle...                                                      
    - Por favor. - Margaret interrompeu-a, erguendo um dedo. - Estiveste fora durante vrios anos. Embora tenhas relaes familiares em Progress, s, virtualmente, uma estrangeira. Uma estranha. Virtualmente - repetiu Margaret. - Mas no inteiramente. Seja por que motivo, decidiste voltar, estabelecer aqui um negcio.
    - Est aqui para saber das minhas razes, Mistress Lavelle?
    - No tm qualquer interesse para mim. Vou ser franca e dizer-te que no concordei com o fato de o meu filho te ter alugado um espao para o negcio, nem esta casa. No entanto, o Cade  o chefe da famlia e, como tal, as decises de negcios cabem-lhe apenas a ele. Quando essas decises, e os resultados delas, afetam a posio da nossa famlia, o assunto  diferente.
    Quanto mais Margaret falava naquele tom suave e implacvel, mais fcil era para Tory acalmar-se. O seu estmago continuava aos saltos, mas quando falou a sua voz foi igualmente suave e igualmente implacvel.
    - E, Mistress Lavelle, ser que o meu negcio e o meu local de residncia afetam a posio da sua famlia?
    - S isso j teria sido difcil de tolerar. As circunstncias so inconvenientes, como tenho a certeza de que muito bem sabe. Mas este elemento pessoal no , de forma alguma, aceitvel.
    - Portanto, embora tolere, por agora, a minha associao com a sua famlia em termos de negcio, est a pedir-me que no veja o Cade de uma forma pessoal. Correto?
    - Sim. - Quem era esta mulher de olhos frios, que permanecia to calma, to controlada?, perguntou-se Margaret. Onde estava a criana esqueltica que aparecia e desaparecia repentinamente nas sombras?
    - Isso  problemtico, dado que ele  o senhorio, quer da minha casa, quer da minha loja, e parece levar as suas responsabilidades bastante a srio.
    - Estou preparada para compensar-te pelo tempo e pelo esforo que ters de investir para te mudares. Talvez voltares a Charleston, ou a Florence, onde tens famlia.
    - Compensar-me? Estou a ver. - Com uma calma de morte, Tory pegou na sua chvena de caf. - Seria indelicado da minha parte perguntar-lhe que tipo de compensao tem em mente? - Sorriu um pouco e viu o maxilar de Mafgaret retesar-se como as cordas de um arco. - Afinal, sou uma mulher de negcios.
    - Toda a situao  indelicada, e deplorvel para mim. No vejo alternativa seno descer ao teu nvel, para preservar a minha famlia e a nossa reputao. - Abriu a carteira que tinha no colo. - Estou disposta a passar-te um cheque de cinquenta mil dlares, se concordares em cortar relaes com o Cade e com Progress. Dou-te metade dessa quantia hoje, e o resto ser-te- enviado para o local onde te instalares. Dou-te duas semanas para sares daqui.
    Tory no disse nada. Tambm conhecia a arma do silncio.
    - Essa quantia - continuou Margaret, com uma voz mais cortante - vai permitir-te viver de forma bastante confortvel durante a tua transio.
    - Oh, sem dvida. - Tory bebeu mais um gole de caf e depois pousou cuidadosamente a chvena no pires. - Mas tenho uma pergunta. O que a leva a pensar, Mistress Lavelle, que eu possa estar de qualquer forma receptiva ao insulto de um suborno?
    - No finjas ter uma sensibilidade que no possuis. Eu te conheo - disse Margaret, inclinando-se para a frente. - Sei de onde vens e de quem vens. Podes pensar que consegues esconder-te atrs de uns modos calmos, atrs da mscara de uma falsa respeitabilidade. Mas eu te conheo.
    - Pensa que me conhece. Mas juro-lhe que no me sinto nada calma nem respeitvel, neste momento.
    Foi a compostura de Margaret que vacilou, que teve de ser recuperada, enrolada como um novelo de l.
    - Os teus pais no prestavam, e deixavam-te  solta como um gato, a cirandar na rua para desencaminhares a minha filha. Para a afastares da famlia dela e, finalmente, para a levares  morte. Custaste-me uma filha e no vais custar-me outro. Aceita o meu dinheiro, Victoria. Tal como fez o teu pai.
    Estava profundamente abalada, at ao corao, mas aguentou-se.
    - Que quer dizer, como fez o meu pai?
    - Para eles, s foram necessrios cinco mil. Cinco mil para te levarem da minha vista. O meu marido no quis mand-los embora, embora eu lhe implorasse que o fizesse.
    Os lbios tremiam-lhe, mas depois recuperaram a firmeza. Fora a primeira e a ltima vez em que lhe implorara alguma coisa. Em que implorara alguma coisa a algum.
    - Acabei por ter que ser eu a resolver o assunto. Como agora. Vai-te embora e leva a vida que devias ter perdido naquela noite em vez dela, e vai viv-la noutro lado qualquer. E afasta-te do meu filho.
    - Pagou-lhe para ele se ir embora. Cinco mil - disse Tory. - Devia ter sido muito dinheiro para ns. Porque ser que nunca o vimos? O que ter ele feito com ele? Bem, no interessa. Lamento desapont-la, Mistress Lavelle, mas no sou o meu pai. Nada do que ele me fez pode fazer-me gostar dele, e o seu dinheiro no vai mudar isso. Vou ficar, porque preciso ficar. Seria mais fcil no ficar. A senhora no compreende, mas seria mais fcil. Quanto a Cade...
    Recordou-se de como ele ficara distante, to longe, depois do episdio da noite anterior.
    - No h tanta coisa entre ns como parece pensar. Ele tem sido simptico para mim, nada mais, porque ele  um homem bom. No tenciono pagar essa simpatia quebrando uma amizade, ou contando-lhe esta conversa.
    - Se fores contra os meus desejos, dou cabo de ti. Vais perder tudo, como j perdeste antes. Quando mataste aquela criana em Nova Iorque.
    Tory ficou branca e, pela primeira vez, as mos tremeram-lhe.
    - Eu no matei Jonah Mansfield. - Sentiu dificuldade em respirar e soltou uma espcie de suspiro quebrado. - S no consegui salv-lo.
    Ali estava o ponto fraco. E Margaret mergulhou os dedos nele.
    - A famlia achou que eras responsvel, e a polcia. E a imprensa. Uma segunda criana morta por tua causa. Se ficares aqui, haver falatrio sobre isso. Sobre o papel que desempenhaste. No vai ser bom.
    Que louca fora, pensou Tory, ao achar que ningum a ligaria  mulher que ela fora em Nova Iorque.  vida que ela construra e destrura l.
    No era possvel fazer nada para mudar isso. A nica coisa a fazer era enfrent-lo.
    - Mistress Lavelle, vivi com coisas pouco boas a minha vida inteira. Mas aprendi que no tenho que tolerar o que no quero, na minha prpria casa. - Tory ps-se de p. - Vai ter que sair agora.
    - No vou voltar a fazer esta oferta.
    - No, acho que no. Acompanho-a  porta.
    De lbios apertados, Margaret levantou-se e pegou na carteira.
    - Eu sei o caminho.
    Tory esperou at que a distncia da sala as separasse.
    - Mistress Lavelle - disse, calmamente. - O Cade vale muito mais do que a senhora acha. E a Hope tambm valia.
    Rgida de dor e de fria, Margaret agarrou a maaneta da porta.
    - Atreves-te a falar comigo sobre os meus filhos?
    - Sim - murmurou Tory quando a porta bateu e ela ficou sozinha na casa. - Atrevo.
    
    Trancou a porta. O clique funcionou como um smbolo. Nada que ela no quisesse entraria. E nada do que j estava l dentro a magoaria, decidiu. Foi at ao banheiro e despiu-se, impaciente por ver-se livre das roupas com que dormira. Ps a gua quente a correr, quase demasiado quente para conseguir suport-la, e meteu-se naquele calor e naquele vapor imensos.
    Ali, permitiu-se chorar. No era pena de si prpria, pensou. S que enquanto a gua lhe batia na pele e a fazia sentir limpa outra vez, as lgrimas lavavam a amargura que tinha dentro de si.
    Recordaes de outra criana morta e da sua impotncia.
    Gritou at ficar vazia e a gua comear a correr fria. Em seguida, virou o rosto para cima, para o chuveiro gelado, e deixou-se acalmar.
    Depois de se ter secado, usou a toalha para limpar o vapor do espelho. Sem compaixo, sem desculpas, observou o seu rosto. Medo, negao, evaso. Estavam todos ali, admitiu. Sempre tinham estado ali. Regressara e depois se enterrara. Escondera-se no trabalho e na rotina e em pormenores.
    Nem uma nica vez se abrira a Hope. Nem uma nica vez fora para l das rvores, visitar o lugar que tinham construdo ali. No fora uma nica vez ao tmulo da sua nica amiga verdadeira.
    No enfrentara, uma nica vez, a verdadeira razo pela qual estava ali.
    Era diferente de uma fuga?, perguntou-se. Era diferente de aceitar o dinheiro que lhe tinha sido oferecido e fugir para qualquer lado que no fosse este?
    Covarde. Cade chamara-lhe covarde. E tinha razo.
    Voltou a vestir o robe e regressou  cozinha para procurar o nmero. Marcou e esperou.                                        
    - Bom dia. Biddle, Lawrence e Wheeler.
    - Fala Victoria Bodeen. Miss Lawrence est disponvel?
    -Um minuto, Miss Bodeen.
    No foi preciso mais para ouvir Abigail do outro lado da linha.
    - Tory, que bom ouvir-te. Como ests? Est tudo a correr bem?
    - Sim, obrigada. Vou abrir a loja no sbado.
    - J? Deves ter andado a trabalhar noite e dia. Bem, l vou ter que ir visitar-te um destes dias.
    - Espero que sim. Abigail, tenho um favor a pedir-te.   
    - Claro. Devo-te um e bem grande, por causa do anel da minha me.                                                                                                                          
    - O qu? Ah, j me tinha esquecido.
    - Duvido que tivesse dado com ele. Quase nunca mexo em papeladas antigas. O que posso fazer por ti, Tory?
    - Eu... Estava a pensar que talvez tenhas algum contacto com a polcia. Algum que pudesse dar-te informao sobre um caso antigo. Eu no... Acho que compreendes que eu no queira contactar a polcia diretamente.
    - Conheo umas pessoas. Vou fazer o que puder.
    - Foi um homicdio sexual. - Inconscientemente, Tory comeou a pressionar e a esfregar a tmpora direita. - Uma rapariga. Dezasseis anos. Chamava-se Alice. O apelido... - Pressionou com mais fora. - No tenho bem a certeza. Lowell ou Powell, acho. Estava de carona na... 513, em direo a este, a caminho de Myrtle Beach. Foi desviada da estrada, levada para as rvores, violada e estrangulada. Com as mos.
    Soltou um suspiro enorme, aliviando a presso no peito.
    - No ouvi nada sobre isso nas notcias.
    - No, no  recente. No sei exatamente quando aconteceu. Desculpa. H dez anos, talvez menos, talvez mais. No vero. Foi durante o vero. Estava muito calor. Mesmo  noite, estava muito calor. No estou a dar-te grande ajuda, eu sei.
    - No, j  qualquer coisa. Deixa-me ver o que consigo saber.
    - Obrigada. Muito obrigada. Vou estar em casa durante mais um bocado. Vou dar-te o nmero daqui e o da loja. Tudo o que possas dizer-me, qualquer coisa que seja, ajuda.
    Manteve-se ocupada durante quase cinco horas, ininterruptamente, e Abigail no voltara a telefonar.
    As pessoas paravam junto  vitrine da loja e admiravam o expositor que ela criara com caixas velhas de madeira, panos de limpeza e vistosas peas de cermica, vidro feito  mo e ferro. Encheu as prateleiras e os armrios, pendurou amuletos e aquarelas.
    Ps alguns artigos publicitrios em cima do balco, mas depois mudou de idias e escolheu outros. Desejando que o telefone tocasse, organizou caixas e sacos.
    Quando algum bateu vigorosamente  porta, quase ficou aliviada. At ter visto Faith do outro lado do vidro. Ser que os Lavelle no podiam deix-la em paz um nico dia?
    - Preciso de um presente - disse Faith, assim que Tory abriu a porta, e teria entrado de imediato se Tory no tivesse bloqueado a entrada.                                                                                 
    - No est aberta.
    - Ora, que diabo, tambm no estava aberta ontem, pois no? S preciso de uma coisa, e de dez minutos. Esqueci-me do aniversrio da minha tia Rosie, e ela acabou de telefonar dizendo que vem visitar-nos. No posso mago-la, pois no? - Faith tentou um sorriso de splica. - Ela  meio maluca, e isto pode deix-la fora de si.
    - Compra qualquer coisa no sbado.
    -Mas ela vem amanh. E se gostar do presente vir ela prpria aqui, no Sbado. A tia Rosie est cheia de dinheiro. Vou comprar uma coisa muito cara.
    - V l se compras mesmo. - Resmungando, Tory deixou-a entrar.                
    - Est bem, d-me uma ajuda. - Faith entrou de rompante e comeou a andar de um lado para o outro.
    - De que  que ela gosta?
    - Ora, gosta de tudo. Eu podia fazer-lhe um chapu de papel que ela ficava feliz que nem um passarinho. Deus do cu, tens muito mais coisas aqui do que eu imaginava. - Faith estendeu o brao, fazendo tocar um dos amuletos de metal. - Nada prtico. Isto , no quero dar-lhe um conjunto de taas para salada, ou esse tipo de coisa.
    - Tenho umas caixas de jias que so bonitas.           
    - Caixas de jias? So um dos apelidos da minha tia.
    - Ento, vai gostar da grande. - Interessada em despachar o assunto, Tory escolheu uma grande caixa de vidro biselado. Os painis estavam cortados em forma de diamante e pintados  mo com pequenas violetas e rosas cor-de-rosa.
    - Toca msica, ou qualquer coisa assim?
    - No.                                                                                                                            
    - No faz mal. Se tocasse, ela ia p-la a tocar o dia inteiro e metade da noite, e enlouquecer-nos a todos. Provavelmente, vai ench-la de botes velhos e parafusos ferrugentos, mas vai ador-la.
    Faith virou a etiqueta e assobiou.                               
    - Bem, vejo que vou cumprir a minha palavra.
    - Os painis so cortados e pintados  mo. No h duas iguais. - Satisfeita, Tory levou a caixa at ao balco. - Vou embrulh-la e pr-lhe um carto de presente e um lao.
    - Muito generosa. - Faith pegou no talo de cheques. - Parece-me que ests pronta para o negcio. Para qu esperar at sbado?
    - Ainda h uns pormenores a organizar. E sbado j  depois de amanh.
    - O tempo voa. - Olhou para o total que Tory registrara e passou o chque enquanto ela embrulhava o presente.
    - Escolhe um carto dali, e escreve o que quiseres. Depois, enfio-o neste cordo.
    - Hummm. - Faith escolheu um com uma pequena rosa no centro, rabiscou uns parabns e acrescentou beijinhos e abraos a seguir ao nome. - Perfeito. Agora, durante meses, vai me achar a maior.
    Viu Tory atar a caixa com uma fita branca e brilhante, enfiar nela o carto, depois torc-la e terminar tudo num elegante lao.
    - Espero que ela goste. - No momento em que lhe entregou a caixa, o telefone tocou. - D-me licena.
    - Claro. - Qualquer coisas nos olhos de Tory fez Faith ficar alerta. - Deixa-me s anotar o valor do cheque. Estou sempre a esquecer-me. - O telefone tocou uma segunda vez. - Podes atender. Saio daqui a um segundo.
    Encurralada, Tory pegou no telefone.
    - Boa-tarde, Conforto do Sul.
    - Tory. Desculpa ter demorado tanto tempo a telefonar-te.
    - No, no faz mal. Obrigada. Conseguiste a informao?
    - Sim, acho que tenho o que procuras.
    - Podes esperar um momento? Acompanho-te  porta, Faith. Com um ligeiro encolher de ombros, Faith pegou na caixa. Mas enquanto saa, perguntou-se quem estaria ao telefone e por que razo o telefonema fizera tremer as mos ligeiras e habilidosas de Tory.
    - Desculpa, tinha uma pessoa na loja.
    - No h problema. O nome da vtima  Alice Barbara Powell, sexo feminino, branca. Dezesseis anos. O corpo s foi descoberto cinco dias depois do homicdio. O desaparecimento s foi comunicado ao fim de trs dias, porque os pais pensavam que ela estava na praia com amigos. O que restava... bem, Tory, os animais j tinham devorado uma parte. Disseram-me que no foi bonito de se ver.
    - Apanharam-no? - J sabia a resposta, mas precisava de ouvi-la.
    - No. O caso continua por resolver, mas no est a ser investigado. J l vo dez anos.
    - Foi em que data? A data exata do homicdio.
    - Tenho-a aqui. S um minuto. Foi em vinte e trs de agosto de 1990.
    - Meu Deus! - Um arrepio percorreu-a, at aos ossos, at ao corao.
    - Tory? O que foi? Posso fazer alguma coisa?
    - Neste momento no posso explicar-te. Abigail, preciso perguntar-te se podes voltar a usar o teu contacto. Se h alguma forma de descobrir se houve mais algum crime do gnero nos oito anos anteriores e nos dez anos seguintes. Se consegues saber se houve outras vtimas desse tipo de homicdio nessa data. Ou prximo dessa data, em agosto.                     
    - Est bem, Tory. Vou perguntar. Mas quando eu souber a resposta, vou precisar que me digas porqu.
    - Preciso da resposta primeiro. Desculpa, Abigail, preciso da resposta. Tenho que ir. Desculpa.
    Desligou rapidamente e depois sentou-se no cho. A 23 de agosto de 1990, Hope estava morta havia exatamente oito anos. Teria dezesseis anos naquele vero.
    
    Os vivos traziam flores para os mortos, lrios elegantes ou simples margaridas. Mas as flores morriam rapidamente quando postas sobre a terra. Tory nunca entendera o simbolismo de deixar em cima da campa de algum que se amava uma coisa que iria murchar e morrer.
    Talvez trouxesse conforto aos que ficavam por c.
    No trouxe flores a Hope. Em vez disso, trouxe um dos poucos objectos de valor sentimental que guardava. Dentro do pequeno globo voava um cavalo alado, e quando era agitado brilhavam estrelas prateadas.
    Fora um presente, o ltimo presente de aniversrio dado por uma amiga perdida.
    Transportou-o ao longo do campo enorme e irregular onde geraes de Lavelle, geraes de pessoas de Progress, eram deixadas a descansar. Havia lpides, das mais simples, feitas com uma simples pedra, at s elaboradas, como a imagem de um cavalo e do seu cavaleiro em bronze.
    Hope chamava ao cavaleiro Tio Clyde, e era, de fato, a representao de um dos seus antepassados, um oficial de cavalaria que morrera na Guerra Civil, quando o Norte invadiu o Sul.
    Uma vez, Hope desafiara-a a montar atrs do Tio Clyde, no seu belo garanho. Tory recordava-se de ter subido e de se ter sentado no metal aquecido pelo sol que lhe deixou a pele vermelha, e de se ter perguntado se Deus a fulminaria com um raio para castig-la por blasfmia.           
    No a fulminara e, por um momento, agarrada ao bronze, com o mundo refletido em verdes e castanhos aos seus ps, o sol a bater-lhe na cabea como um martelo pesado, sentira-se invencvel. As torres de Beaux Revs tinham-lhe parecido mais prximas, tangveis. Gritara a Hope que ela e o cavalo iriam voar at l e aterrar no torreo mais alto.
    Quase partira o pescoo, ao descer, e tivera sorte por aterrar de bunda e no de cabea. Mas a ndoa negra com que ficara no fora nada, comparada com aquele momento to alto em cima do cavalo.
    No seu aniversrio seguinte, o oitavo, Hope dera-lhe o globo. Era a nica coisa que Tory guardava daquele ano da sua vida.
    Agora, tal como antes, carvalhos vigorosos e magnlias perfumadas guardavam as pedras e os ossos, e ofereciam sombra entrecortada pela luz. Separavam tambm aquela prova de mortalidade da casa monumental que sobrevivera a tantos donos e ocupantes.
    O caminho desde o cemitrio at  casa era agradvel. Ela e Hope tinham-no feito vezes sem conta, com bolhas nos ps no vero, e na chuva no inverno. Hope gostava de ver os nomes gravados na pedra, l-los em voz alta, para dar sorte, dizia.
    Tory aproximou-se da campa e do anjo de mrmore que tocava harpa. E disse o nome em voz alta. -Hope Anglica Lavelle. Ol, Hope.
    Ajoelhou-se na erva fofa e apoiou-se nos calcanhares. A brisa era suave e morna, e transportava o perfume doce das pequenas rosas cor-de-rosa que ladeavam o anjo.
    - Desculpa no ter vindo antes. Tenho adiado sempre, mas tenho pensado muito em ti ao longo destes anos. Nunca tive outra amiga como tu, algum a quem pudesse contar tudo. Tive tanta sorte em ter-te.
    
    Quando fechou os olhos e se abriu s recordaes, algum observava, abrigado pelas rvores. Algum com os punhos cerrados com fora. Algum que sabia o que era querer dizer o indizvel. Viver, ano aps ano, com aquele desejo escondido num corao que batia agora, descompassadamente, ao sabor desse desejo e das suas certezas.
    Dezesseis anos e ela estava de volta. Ele esperara e estivera atento, sabendo sempre que havia a hiptese de um dia, e apesar de tudo, ela fechar o crculo e regressar ao stio onde tudo comeara.
    Que belo quadro faziam. Hope e Tory, Tory e Hope. A escurido e a luz, a estragada com mimos e a vtima de maus tratos. Nada do que ele fizera antes, nada do que fizera depois daquela noite em agosto lhe tinha causado a mesma emoo. Tentara reviver essa emoo; quando a presso subia demasiado dentro dele, reconstrua essa noite e a sua glria perfeita e inexplicvel.
    Nada se lhe assemelhava.
    Agora, era Tory a ameaa. Podia tratar dela rapidamente, facilmente. Mas se o fizesse perderia esta sensao nica de viver no limite. Talvez, talvez fosse disto que ele estivera  espera todo este tempo. Que ela regressasse, que ele voltasse a t-la ali, outra vez.
    Teria de esperar at agosto, se conseguisse. Uma noite quente de agosto, quando tudo estivesse como estava dezoito anos antes.
    Podia ter tratado dela em qualquer altura, em todos estes anos. Acabado com ela. Mas era um homem que acreditava em smbolos, em imagens grandiosas. Tinha que ser aqui. Onde comeara, pensou, e observ-la, imagin-la, levou-o ao clmax, como noutras vezes em que observara Tory secretamente. Hope e Tory. Tory e Hope.
    Onde tudo comeara, voltou a pensar. Onde tudo terminaria.
    
    Um arrepio percorreu-a, um dedo gelado desde a nuca at  base da coluna. Olhou nervosamente por cima do ombro, mas achou que era produto da atmosfera e dos seus prprios pensamentos.
    Afinal, estava em propriedade alheia, uma intrusa entre os mortos e amados. A luz estava a desaparecer e grossas nuvens cinzentas rolavam, vindas de este, para cobrir o sol. Para contentamento dos agricultores, ia chover naquela noite.
    E ela no ia ficar ali por muito mais tempo.
    - Desculpa no ter aparecido, naquela noite. Devia ter ido, mesmo depois da surra. Ele nunca teria pensado que eu o desafiaria e sairia de casa. Ningum teria ido verificar se eu estava no quarto. Nunca consegui explicar-te como era quando ele me batia com o cinto. A forma como cada vergastada me tirava a coragem, me tirava o meu prprio ser, at no restar nada seno medo e humilhao. Se eu tivesse tido coragem e tivesse sado pela janela, naquela noite, talvez nos tivesse salvo s duas. Nunca vou saber.
    Os pssaros cantavam, trinados e coros. Era um som vivo e insistente que se pensaria estar no lugar errado, mas que, em vez disso, era perfeito. Os pssaros, o zumbido das abelhas esvoaando preguiosamente sobre as rosas, e o cheiro forte das prprias rosas.
    L em cima, o cu estava a preparar-se, trgido de nuvens tempestuosas empurradas pelo vento que soprava alto, demasiado alto para refrescar o ar onde ela estava ajoelhada.                              
    Quando respirava era como se respirasse gua. Parecia estar a afogar-se.
    Voltou a pegar o globo e fez tremeluzir as estrelas prateadas.
    - Mas voltei. D no que der, voltei. E vou fazer tudo o que puder para te compensar. Nunca te disse o que significavas para mim, que s por seres minha amiga despertaste qualquer coisa em mim, e que quando te perdi deixei que essa coisa voltasse a fechar-se. Durante demasiado tempo. Vou tentar libert-la, ser o que era quando estavas aqui.                                                
    Voltou a olhar para trs, na direo das rvores e das torres de Beaux Revs que se erguiam por detrs delas. Poderiam v-la dali, da torre de pedra? Estaria algum de p, atrs do vidro da janela, a observ-la?                               
    Sentia que sim, como se uns olhos e um pensamento e um corao se escondessem atrs de um vidro,  espreita.  espera.
    Deixa-os observar, pensou. Deixa-os esperar. Voltou a olhar para o anjo, e depois para a pedra.
    - Nunca o encontraram. O homem que te fez isto. Eu vou encontr-lo, se conseguir.
    Virou o globo e depois colocou-o aos ps do anjo, para o cavalo poder voar enquanto as estrelas brilhavam. E, deixando-o ali, afastou-se.
    
    A chuva caa forte e fresca quando Cade saiu da cidade e tomou o caminho para casa. Era boa aquela chuva, que iria ensopar a terra sem estragar as plantas jovens. Com sorte, a chuva cairia durante quase toda a noite e deixaria os campos molhados e satisfeitos.
    Queria recolher amostras do solo de vrios dos seus campos e comparar o sucesso das suas vrias plantas de cobertura. Semeara favas no ano anterior, pois forneciam o nitrognio de que o seu algodo estava to vido.
    Recolheria as amostras no dia seguinte, aps a chuva, e depois faria a comparao e o estudo dos registros dos ltimos quatro anos. As favas tinham-se desenvolvido razoavelmente bem, mas no tinham dado um lucro slido. Se resolvesse tentar outra vez, teria de ser capaz de justificar a escolha. 
    A si prprio, pensou Cade. Mais ningum prestava ateno aos seus registros. At Piney, que era leal ao ponto de, pelo menos, fingir interesse, olhara para o lado quando lhe tinham sido mostrados os grficos.                                                                                      
    No importava, decidiu Cade. Ningum tinha de entender os grficos seno ele prprio.
    E, para ser honesto, tinha de admitir que, de momento, nem ele estava muito interessado neles. Estava a us-los para manter o pensamento longe de Tory e do que acontecera na noite anterior.
    O melhor que tinha a fazer era lidar com ela e com toda a situao. Pr tudo em pratos limpos antes de ir para casa e tomar um banho para limpar o dia de trabalho que trazia colado ao corpo.
    As sobrancelhas de Cade uniram-se quando o Mustang vermelho conversvel que vinha  sua frente virou para o caminho de acesso  casa de Tory. Virou atrs dele e as sobrancelhas arquearam-se-lhe quando viu J.R sair dele.
    - Ento, o que achas? - Com um sorriso de orelha a orelha, J.R. passou a mo pelo para-lamas do carro, enquanto Cade se aproximava.                        
    -  seu?
    - Fui busc-lo esta manh. A Boots diz que estou na crise da meia-idade. C para mim, a mulher v talk-shows a mais. Acho que se nos d prazer e podemos pagar, qual  o problema?
    -  uma beleza, no h dvida. - Com a chuva a cair, ambos os homens se aproximaram do cap e J.R. abriu-o. Ficaram ali, de mos nos quadris, a admirar o motor.
    - Bem servido. - Cade fez um gesto de admirao com a cabea. - D quanto?
    - C entre ns, fui at aos cento e oitenta e ele continuou suave como vidro polido. E faz as curvas como um campeo. Fui ontem ao Broderick's. Estava na altura de trocar o meu sedan. Estava a pensar em comprar outro quando vi esta beleza. - J.R. sorriu e passou os dedos pelo bigode grosso e prateado. - Amor  primeira vista.
    - Quatro velocidades? - Cade deu a volta para espreitar l para dentro.
    - Claro! Em quarta, piso a fundo. J no fazia isto desde, bem, desde que era mais novo do que tu. S quando carreguei no pedal  que percebi o quanto tinha sentido a falta. No gostei nada de ter que pr a capota quando comeou a chover.
    - Se anda a carregar no acelerador assim, pode preparar-se para colecionar multas.
    - Vai valer a pena. - J.R. voltou a passar a mo afetuosamente pelo carro, e depois olhou na direo da casa. - Vens ver a Tory?
    - Pensei em vir.
    - Muito bem. Tenho umas novidades para contar, de que ela pode no gostar.  bom que ela tenha um amigo junto quando as contar.
    - Que se passa, que aconteceu?    
    - No  nada de terrvel, Cade, mas vai deix-la perturbada. Vamos l dizer tudo de uma vez. - Entrou no alpendre e bateu  porta. -  estranho bater  porta quando se trata de famlia, mas adquiri o hbito com a minha irm. No era de deixar a porta aberta,  espera de companhia. Aqui est a minha rapariga! - Soltou a exclamao sem reservas, quando Tory abriu a porta.
    - Tio Jimmy. Cade. - Embora sentisse o estmago embrulhar-se um pouco quando viu os dois no seu alpendre, afastou-se da porta para deix-los entrar. - Entrem, saiam da chuva.
    - Encontrei-me agora com o Cade, parece que nos lembramos os dois de passar por aqui. Eu s vim mostrar-te o meu carro novo.
    Como seria de esperar, Tory olhou l para fora.
    -  um belo... - Ia a dizer brinquedo, mas depois pensou que talvez isso magoasse os sentimentos do tio. - Uma bela mquina.
    - Ronrona como um gatarro. Levo-te a dar uma volta quando o tempo estiver bom.
    - Gostava muito. - Mas de momento tinha dois homens molhados na sala, uma cadeira e uma dor de cabea persistente. - Porque no vamos todos at  cozinha? H onde nos sentarmos e acabei de fazer ch quente, para afastar a umidade.
    - Soa bem, mas no quero molhar a casa toda.
    - No se preocupe. - Guiou-os at  cozinha, esperando que a aspirina que tomara fizesse efeito sem os dez minutos de sono com que planejara acompanh-la. A casa cheirava a chuva,  umidade e s profundezas do pntano. Noutra altura, teria gostado disso, mas agora fazia-a sentir sufocada.
    - Tenho umas bolachas. So compradas, mas melhores do que se fosse eu a faz-las.
    - No tenhas esse trabalho, minha querida. No posso demorar-me, tenho de ir para casa. - Mas como ela j estava pondo as bolachas num prato, tirou uma. - A Boots no compra coisas doces. Est de dieta e isso quer dizer que eu tambm estou.
    - A tia Boots est com um timo aspecto. - Tory tirou chvenas do armrio. - E o tio tambm.
     - isso mesmo que eu lhe digo, mas todas as benditas manhs amaldioa a balana. Parece que um quilo a mais aqui ou ali  o fim do mundo. At ela estar satisfeita, vou passar a comida de coelho. - Serviu-se de outra bolacha. - At estou admirado por o meu nariz no comear a tremer.
    Esperou at ela servir o ch e sentar-se.       
    - Ouvi dizer que a tua loja est ficando muito bem. Ainda no tive um minuto para passar l.
    -  Espero que consiga ir no sbado.      
    - No perdia isso por nada. - Bebeu um pouco de ch, mexeu-se na cadeira e suspirou. - Tory, no queria nada vir at aqui to tarde, falar numa coisa que deve te chatear, mas parece que deves saber quanto antes.
    -  mais fcil se me disser do que se trata.
    - No sei bem se sou capaz. Recebi um telefonema da tua me, h pouco. Quando a Boots e eu estvamos a acabar de jantar. Est com problemas ou no me teria telefonado, como acho que sabes. No nos falamos com regularidade.
    - Est doente?
    - No, no  bem isso. - Soltou um suspiro. - Tem a ver com o teu pai. Parece que se meteu num sarilho qualquer. Raios partam! - J.R. pousou a chvena no pires e depois olhou Tory nos olhos. - Parece que atacou uma mulher.
    Na sua cabea, Tory ouviu o tilintar de serpente do grosso cinto de cabedal. As trs vergastadas, com fora. Os dedos estremeceram-lhe e depois recuperaram a firmeza.
    - Atacou?
    - A tua me disse que no passou de um engano, e o que consegui arrancar-lhe foi  fora. O que ela me disse foi que uma mulher acusou o teu pai de, bem, de a ter agarrado  fora. Tentou, bem... molest-la.                                  
    - Tentou violar uma mulher?
    Infeliz, J.R. voltou a agitar-se na cadeira.
    - Bem, a Sari no tinha grandes pormenores. Mas seja o que for que tenha acontecido, o Han foi preso. Voltou a beber. A Sarabeth no queria dizer-me isso, mas eu obriguei-a. Ficou em liberdade condicional, obrigado a uma reabilitao. Acho que ele no gostou da idia, mas no teve escolha.
    Pegou no ch para molhar a garganta seca.      
    - Depois, h umas semanas, fugiu.                    
    - Fugiu?                                                                                                                         
    - No tem estado em casa. A Sarabeth diz que no o v h mais de duas semanas e que ele violou a liberdade condicional. Quando o apanharem, vai... vo met-lo na priso.
    - Sim, suponho que sim. - De certa forma sempre a surpreendera o fato de ele nunca ter estado atrs das grades.
    Deus sabia o que fazia, pensou.
    - A Sarabeth est desesperada. - Sem pensar, J.R. mergulhou a bolacha no ch, um hbito que a sua mulher detestava. - Est ficando sem dinheiro e est muito preocupada. Vou l v-la amanh e tentar entender as coisas com um pouco mais de clareza.
    - Acha que eu devia ir consigo.
    - No, querida, isso  contigo. No h motivo nenhum para eu no tratar disto sozinho.
    - E no h nenhuma razo para ter de tratar. Eu vou consigo.
    - Se  isso que queres, fico satisfeito com a companhia. Estava pensando partir logo de manh cedo. Ests pronta por volta das sete?
    - Sim, claro.
    - Muito bem. Muito bem. timo. - Um tanto embaraado agora, levantou-se. - Vamos resolver isto tudo, vais ver. Venho buscar-te de manh. No, fica a sentada a beber o teu ch. - Ps-lhe a mo na cabea antes de ela conseguir levantar-se. - Eu saio sozinho.
    - Est embaraado - murmurou Tory quando ouviu a porta da frente abrir-se. - Por ele, por mim, pela minha me. Disse-me enquanto estavas aqui porque deve ter ouvido as intrigas que a Lisy Frazier anda a fazer e pensou que eu estaria melhor contigo do que sozinha.
    Cade manteve o olhar fixo no rosto dela. Ela no mostrara qualquer reao. Achou espantoso o controle dela, embora isso o frustrasse.
    - E ele tem razo? 
    - No sei. Estou mais habituada a estar sozinha. Ests pensando porque no estou particularmente preocupada com o meu pai nem com a minha me?
    - No. Estou a pensar no que ter acontecido entre vocs para no estares particularmente preocupada. Ou para estares to determinada a no estares preocupada ou a no mostrares que ests preocupada pelo que o J.R. te contou.
    - De que vale ficar preocupada? O que est feito est feito. A minha me opta por acreditar que o meu pai no fez aquilo que o levou a ser preso. Mas claro que fez. Se tinha andado a beber, no seria to cuidadoso a manter a violncia dentro de portas.
    - Ele maltratava a tua me?
    Um canto da boca de Tory retorceu-se num esboo de sorriso.
    - Quando eu estava presente, no. No era preciso.
    Cade acenou com a cabea. Ele sabia. Uma parte dele sabia, desde aquela manh em que viera a casa dele contar-lhe tudo sobre Hope.
    - Porque tu eras o alvo mais fcil.
    - H muito tempo que no tem podido pr-me as mos em cima. Porque eu decidi que seria assim.
    - Porque ests a culpar-te?
    - No estou. - Como ele no desviou os olhos, ela fechou os dela. -  o hbito. Sei que ele a usa como saco de boxe desde que me fui embora. Nunca tentei fazer nada para mudar isso. No que algum deles me deixasse fazer fosse o que fosse, mas nunca tentei. S o vi duas vezes desde que fiz dezoito anos. Uma vez, quando vivia em Nova Iorque, quando era feliz, tive a sensao de que poderamos consertar as coisas que estavam mal, pelo menos algumas delas. Nessa altura, viviam num trailer, perto da fronteira da Gergia. Tm mudado muito de stio desde que samos de Progress.
    Ficou assim, sentada, com os olhos fechados, em silncio, enquanto a chuva caa no telhado.                                          
    - O pai no conseguia manter um trabalho por muito tempo. Algum lhe arranjava sempre uma chatice, pelo menos era o que ele dizia. Ou havia um emprego melhor noutro lugar. Perdi a conta a todos os lugares diferentes por onde passamos, escolas diferentes, quartos diferentes, rostos diferentes. Nunca fiz amigos a srio, por isso no importava. Estava s  espera de poder ir-me embora. Poupei dinheiro s escondidas e esperei que a lei dissesse que podia sair de casa. Se tivesse sado antes, ele tinha-me feito voltar e pagar por isso.
    - No podias ter pedido ajuda? A tua av.
    - Ele ter-lhe-ia feito mal. - Tory abriu os olhos e encontrou os de Cade. - Ele tinha medo dela, tal como tinha medo de mim, e ter-lhe-ia feito qualquer coisa. E a minha me teria ficado do lado dele. Sempre ficou. Por isso  que no fui ter com a minha av, quando me fui embora. Se ele descobrisse, no teria descansado. No consigo explicar-te, nunca consegui explicar a ningum como  que um medo consegue viver dentro de ns. A forma como nos diz como pensar e como agir, o que dizer, o que no nos atrevemos a dizer.
    - Acabaste de explicar-me.                                       
    Ela abriu a boca e depois voltou a fech-la, antes que lhe sasse alguma coisa em que no tivesse pensado bem.
    - Queres mais ch?                                        
    - Senta-te. Eu vou buscar. - Levantou-se antes de ela conseguir e voltou a pr a chaleira ao lume. - Conta-me. Conta-me o resto.
    - No lhes disse que ia sair de casa, embora tivesse tudo muito bem planejado sobre o que iria fazer e para onde iria. Fiz a mala e fugi no meio da noite, fui at  cidade,  estao de nibus, e comprei uma passagem para Nova Iorque. Quando o Sol nasceu, estava a quilmetros de distncia, sem inteno de voltar. Mas...
    Libertou os dedos enlaados e depois voltou a enla-los, como se rezasse.                                                        
    - Fui v-los, daquela vez - disse, cuidadosamente. - Tinha acabado de fazer vinte anos. Estava fora havia dois. Tinha um emprego, trabalhava numa loja, na baixa da cidade. Uma loja com coisas muito bonitas. Tinha um bom salrio e tinha a minha casa para morar. No era muito maior do que um armrio, mas era minha. Entrei de frias e apanhei o nibus at  fronteira da Gergia para os ver, bem, em parte talvez fosse para lhes mostrar que tinha feito qualquer coisa da minha pessoa. Tinha estado fora dois anos, e em dois minutos parecia que nunca me tinha ido embora.
    Ele acenou com a cabea. Ele fora para a universidade, e fizera-se homem nesses quatro anos. E quando regressara o ritmo era o mesmo.
    Mas para ele tinha sido o ritmo certo, apenas adiado. - Nada do que eu fazia - prosseguiu ela -, tivesse feito ou pudesse fazer estava certo. Olha a forma provocante como me vestia. Ele bem sabia o tipo de vida que eu levava no Norte. Achou que eu s tinha ido a casa porque estava grvida de um dos homens com quem andava. Eu ainda era virgem, mas para ele era uma devassa. Naqueles dois anos tinha-me fortalecido um pouco, o suficiente para lhe fazer frente. Pela primeira vez na minha vida ousei fazer-lhe frente. 0 resto da minha semana de frias foi para curar as ndoas negras com que fiquei na cara, pelo menos para poder cobri-las com maquiagem e voltar ao trabalho.                                               
    - Meu Deus, Tory.
    - S me bateu uma vez. Mas tinha as mos grandes. Mos grandes e duras, que se transformavam facilmente em punhos. - Distraidamente, levou a mo  cara e passou-a pela linha do nariz, ligeiramente adunco. - Bateu-me e fez-me cair contra o balco da cozinha minscula e suja. No percebi que tinha o nariz partido.  que a dor era-me to familiar...
    Sob a mesa, as mos de Cade fecharam-se em punhos, inteis e extemporneos.                                      
    - Quando avanou outra vez na minha direo, agarrei a faca que estava no lava-loua. Uma faca de cozinha grande e com o cabo preto. Nem sequer tinha pensado nisso - disse ela numa voz calma e cuidadosa. - Apareceu  na minha mo. Ele deve ter visto na minha cara que eu a usaria. Que teria adorado us-la. Saiu do trailer, com a minha me a correr atrs dele, a implorar-lhe que no fosse. Ele deu-lhe um safano como se ela fosse um inseto, atirou-a para a lama, mas mesmo assim ela continuou a cham-lo. Meu Deus, rastejou atrs dele de gatas. Nunca vou me esquecer disso. Nunca!
    Cade aproximou-se do fogo, da chaleira que estava a apitar, para dar tempo a que Tory se acalmasse. Em silncio, mediu o ch e deitou a gua quente. Voltou a sentar-se e esperou.
    - s bom ouvinte.
    - Termina de contar. Livra-te disso.
    - Est bem. - Calma agora, Tory abriu os olhos. Se nos dele houvesse piedade, talvez as palavras no tivessem sado. Mas o que ela viu foi pacincia.
    - Senti pena dela. Estava enojada com a atitude dela. E odiei-a. Naquele momento, acho que a odiei mais do que a ele. Pousei a faca e peguei na minha mala. Nem sequer a desfizera, ainda no tinha passado uma hora. Quando sa, ela ainda estava sentada na lama, a chorar. Mas olhou para mim, e havia tanta raiva nos olhos dela! - Porque  que tiveste de o fazer zangar? S arranjas problemas. - Estava sentada na lama, com o lbio a sangrar, ou de ele lhe ter batido, ou de o ter mordido quando caiu. Continuei a andar, sem lhe dizer uma palavra. A minha prpria me, e no falo com ela desde os meus vinte anos.
    - A culpa no  tua.
    - No, a culpa no  minha. Andei anos fazendo terapia para poder dizer isso com segurana. Nada foi culpa minha. Mas eu fui a causa. Acho que ele me castigava por eu ter nascido. Por ter nascido como era. At  altura em que mostrei que era diferente, ele deixava-me em paz. Eu era problema da minha me, e ele raramente tinha tempo para mais do que uma palmada distrada. Depois disso, acho que no houve uma semana em que eu no tivesse sofrido os abusos dele.
    - No sexualmente - disse ela quando viu a cara de Cade. - Nunca me ps as mos em cima dessa forma. Queria faz-lo. Meu Deus, ele queria, e isso assustava-o ainda mais, por isso batia-me mais. E sentia um prazer doentio com isso. O sexo e a violncia esto misturados dentro dele. Seja o que for que digam que ele fez quela mulher, ele fez. No foi violao, ou pelo menos isso no pde ser provado, ou no o teriam deixado sair em liberdade condicional to facilmente. Mas a violao  apenas uma forma de um homem magoar e humilhar uma mulher.
    - Eu sei. - Ps-se de p para ir buscar a chaleira e servir ch a Tory. - Disseste que os tinhas visto duas vezes.
    - A eles no, a ele. H trs anos ele veio a Charleston. Veio a minha casa. Seguiu-me quando sa do trabalho. Tinha descoberto onde eu trabalhava e seguiu-me at casa. Apanhou-me quando eu estava a sair do carro. Fiquei morta de medo. J no tinha grande coisa daquele ao que tinha conseguido forjar em Nova Iorque. Disse-me que a minha me estava doente e que precisavam de dinheiro. No acreditei. Ele tinha estado a beber. Pude perceber, pelo cheiro.
    Conseguia cheir-lo agora, se quisesse. O cheiro pestilento e quente, como um mau sabor no ar. Em vez disso, pegou na chvena e cheirou o ch.
    - Agarrou-me o brao com a mo. Percebi o que ele queria fazer. Torcer-me o brao, partir-me o osso, movido pelas imagens que tinha na cabea. Passei-lhe um cheque de quinhentos dlares, ali mesmo. No o deixei entrar em casa. No ia deix-lo entrar na minha casa. Disse-lhe que se me magoasse, ou tentasse entrar em casa, se fosse ao stio onde eu trabalhava, se fizesse qualquer dessas coisas, eu cancelava o cheque e nunca mais haveria dinheiro. Mas se ele pegasse no cheque e se fosse embora e nunca mais voltasse, eu mandava-lhe cem dlares por ms.
    Tory soltou uma pequena gargalhada.                            
    - Ficou to surpreendido com a idia que me largou. Sempre gostou de dinheiro. De ter dinheiro. Gostava de pregar sermes sobre os homens ricos de olhos aguados, mas gostava de ter dinheiro. Entrei em casa e fechei a porta  chave. Passei essa noite sentada ao telefone, com o atiador da lareira no colo. Mas ele no tentou entrar. Nem naquela altura, nem nunca. Cem dlares por ms compraram-me uma espcie de paz de esprito. No foi um mau preo a pagar.
    Bebeu um longo gole de ch, que estava demasiado quente e demasiado forte e que, apesar de tudo, lhe deu fora. Incapaz de ficar sentada, levantou-se para olhar pela janela, para a chuva que continuava a cair.
    - Pois aqui tens alguns dos segredos feios da famlia Bodeen.
    - Os Lavelle tambm tm segredos feios. - Levantou-se para ir ter com ela, e passou a mo pela trana cuidadosamente feita, que lhe caa pela costas. - Ainda tinhas a tua fora, Tory. Tinhas aquilo de que precisavas. Ele no conseguiu quebr-la. Nem sequer conseguiu verg-la.
    Pousou os lbios de leve no alto da cabea dela, e ficou contente por ela no se ter afastado como de costume.
    - J comeste?
    - O qu?                                     
    - Provavelmente no. Senta-te. Vou mexer uns ovos.
    - Do que  que ests a falar?
    - Tenho fome, e se tu no tens devias ter. Vamos comer uns ovos.
    Virou-se e estremeceu quando ele a abraou. Os olhos encheram-se rapidamente de lgrimas, e ela pestanejou para acabar com elas.
    - Cade, isto no vai a lado nenhum. Tu e eu.
    - Tory. - Ele afagou-lhe a nuca at a cabea dela pousar no seu ombro. - J foi a algum lado. Porque no ficamos um pouco onde estamos, a ver se nos agrada?
    Era uma sensao to boa, de segurana, ser abraada desta maneira, desta forma fcil e familiar.
    - No tenho ovos. - Recuou e olhou-o nos olhos. - Vou fazer sopa.                                                        
    s vezes, a comida era apenas um apoio. E ela estava a us-la agora, pensou Cade. Talvez ambos estivessem a us-la, enquanto ela mexia a sopa no fogo e ele reunia o necessrio para fazer sanduches de queijo quente. Uma refeio agradvel e caseira numa noite de chuva. Idntica  que um jovem casal pode partilhar acompanhada de uma conversa ligeira e, para animar, de uma boa garrafa de vinho.
    Apetecia-lhe uma noite como essa, pensou. Em vez disso, ali estava a espalhar manteiga no po, como Lilah lhe ensinara a fazer, e a tentar encontrar a maneira de penetrar no escudo espinhoso de Tory.
    - Podias comer bem mais do que uma sopa e um sanduche em Beaux Revs.
    - Podia. - Ps a frigideira ao lume e ficou prximo de Tory. Prximo, mas no o suficiente para tocar-lhe. - Mas gosto da companhia aqui.                       
    - Ento passa-se qualquer coisa contigo.
    Ela disse aquilo to secamente que ele demorou um minuto a reagir. Com uma gargalhada, colocou os dois sanduches na frigideira quente.
    - Provavelmente tens razo. Afinal de contas, sou um belo partido. Saudvel, no demasiado desagradvel  vista, tenho uma casa grande, boas terras e dinheiro suficiente para manter os lobos esfaimados  distncia. E, a acrescentar a tudo isto e aos meus encantos sutis, sei fazer uns sanduiches de queijo magnficos.
    - Sendo esse caso, porque  que ainda nenhuma mulher espertalhona te fisgou?
    - Milhares j tentaram.
    - Um bocado escorregadio, no s?
    - gil. - Virou os sanduches. - Gosto de pensar nisso como sendo gil. Estive noivo, uma vez.
    - Estiveste? - Disse-o distraidamente, enquanto tirava as tigelas do armrio, mas ficara de repente mais atenta.
    - Hum-hum. - Conhecia a natureza humana suficientemente bem para ter a certeza de que, se deixasse o assunto no ar por um instante, ela iria rebentar de curiosidade ou render-se.
    Ela aguentou at terem posto os pratos e as tigelas na mesa e se terem sentado.
    - Achas-te muito esperto, no achas?       
    - Querida, um homem na minha posio tem que ser. Estamos bem aqui, com a chuva l fora e tudo isso, no estamos?
    - Est bem, que diabo! O que aconteceu?
    - A qu? - A forma como os olhos dela se semicerraram deliciou-o. - Ah,  Deborah? A mulher a quem estive a ponto de prometer amar, honrar e acarinhar at  morte e por a adiante? A filha do juiz Purcell. Deves lembrar do juiz, s que acho que ele ainda no era juiz quando foste embora.                                        
    - No, no me lembro dele. Duvido que os Bodeen se movessem na esfera social dele.
    - Seja como for, ele tem uma filha adorvel, e ela amou-me durante uns tempos, mas depois decidiu que afinal no queria ser mulher de um agricultor. Pelo menos no de um agricultor que trabalhasse mesmo na terra.
    - Lamento.
    - No foi uma tragdia. Eu no a amava. Gostava bastante dela - disse Cade enquanto provava a sopa. - Era muito bonita, interessante, e... digamos que ramos compatveis em certas reas vitais. Exceto numa. No queramos a mesma coisa. Descobrimos isso, mutuamente embaraados, poucos meses depois de estarmos noivos. Rompemos o noivado amigavelmente, o que s mostra que houve um alvio considervel de ambos os lados, e ela foi viver em Londres durante uns meses.
    - Como conseguiste... - Interrompeu-se e encheu a boca de sanduche.
    - V l, podes perguntar.                                                          
    - Estava s a pensar como conseguiste pedir algum em casamento e depois deix-la ir sem nenhum remoque.
    Ele refletiu, mastigando o sanduche como se estivesse a mastigar tambm os seus pensamentos.
    - Acho que houve alguns pequenos remoques. Mas a verdade  que, visto  distncia, eu tinha vinte e cinco anos e havia um pouco de presso por parte da famlia. A minha me e o juiz so bons amigos, e ele era tambm amigo do meu pai. A idia era que estava na altura de eu assentar e arranjar um herdeiro ou dois.
    -  um plano muito frio.
    - No totalmente. Sentia-me atrado por ela, tnhamos muitos conhecimentos comuns. O pai dela foi advogado do meu durante muitos anos. Foi fcil pensar num acordo que agradasse a ambas as famlias. Depois,  medida que o tempo foi passando, comecei a sentir-me como quando a gravata est demasiado apertada. No se consegue respirar bem. Por isso, perguntei-me como seria a minha vida sem ela. E como seria com ela, dali a cinco anos.
    Deu mais uma dentada no sanduche e encolheu os ombros.
    - Acontece que gostei bastante mais da resposta  primeira parte do que  segunda. E, por sorte, ela tambm. Os nicos que ficaram verdadeiramente aborrecidos foram as nossas famlias. - Fez uma pausa, vendo-a comer. - Mas no podemos viver as nossas vidas de acordo com o que os nossos pais querem ou no querem para ns, no , Tory?
    - No. Mas, seja como for, vivemos as nossas vidas carregando conosco esse peso. A minha famlia nunca me aceitou como eu era. Durante muito tempo tentei ser algum e alguma coisa diferente. - Levantou o olhar. - No consigo.
    - Eu gosto de quem tu s.                                 .
    - A noite passada tiveste dificuldade.
    - Alguma - admitiu ele. - Preocupaste-me. Estavas frentica - acrescentou, pousando a mo sobre a dela antes de ela conseguir solt-la. - E depois frgil. Senti-me desajeitado. No sabia o que fazer, e estou habituado a saber.
    - No acreditaste em mim.
    - No duvido do que viste, ou do que sentiste. Mas no posso deixar de pensar que uma parte pode ter a ver com o teu regresso aqui, com a recordao do que aconteceu  Hope.
    Ela pensou no telefonema de Abigail, nas datas de ambos os homicdios. Mas conteve-se. J confiara antes, j partilhara antes. E perdera tudo.
    - Tem tudo a ver com o meu regresso aqui. E com a Hope. Se no fosse a Hope, no estavas sentado aqui.
    Voltando a pisar terreno mais seguro, ele recostou-se na cadeira e continuou a comer.
    - Se eu te tivesse visto pela primeira vez h quatro ou cinco semanas, se nunca nos tivssemos visto antes e no houvesse nada entre ns at ento, teria descoberto uma maneira de estar sentado aqui, agora. A verdade  que se tivssemos comeado h semanas e no h anos, acredito piamente que j te teria naquela cama interessante.
    Ele sorriu, calma e afavelmente, quando ela voltou a meter a colher na sopa, com um ligeiro plop.
    - Acho que est na altura de deixarmos o assunto em aberto, para poderes pensar nele.
    
    A viagem foi bastante agradvel e f-la lembrar-se de tudo o que perdera por no ter ficado com J.R. Havia nele uma tal grandeza, na voz, no riso, nos gestos! Por duas vezes teve de evitar o brao dele quando ele o atirou na sua direo para apontar qualquer coisa que se via da estrada.
    Parecia engolir-nos apenas com a simples alegria de existir.
    Ia sentado no pequeno carro, com os joelhos quase a tocarem-lhe no queixo, a mo grande e larga agarrando a alavanca das mudanas como Tory j vira alguns rapazes manusear um joystick num jogo de vdeo.
    Pelo divertimento e pela competio.
    Pela forma como mergulhava naquele dia, dir-se-ia que o objetivo da corrida era um piquenique louco qualquer e no o cumprimento de um dever junto a uma famlia em sofrimento.
    Viver o presente, pensou ela, era algo para que J.R. era dotado e uma capacidade que ela sempre lutara por conseguir, ao longo da sua vida.
    Ia satisfeitssimo no seu carro novo, cruzando a estrada a grande velocidade, com os seus CD de Clint Black e Garth Brooks a tocar bem alto, e um bon de xadrez, de corte impecvel, enterrado no tapete de l de ovelha com que se parecia o seu cabelo cor de gengibre.
    Perdeu o bon depois da sada para Summer, quando um sopro de vento fresco o arrancou, atirando-o para a estrada e para baixo das rodas de uma Dodge. J.R. nem sequer abrandou, e riu como um louco.
    Com a capota puxada para trs e a msica altssima, a conversa decorria aos gritos, mas, mesmo assim, J.R. conseguia mant-la, com os seus assuntos de interesse a saltitar como uma grande bola de borracha da loja de Tory: poltica, gelado baixo em calorias e o mercado de aes.
    Quando se aproximaram da sada para Florence, referiu a possibilidade de, se houvesse tempo, passarem pela casa da sua me para lhe fazerem uma visita. Era a primeira vez, desde que fora busc-la, que falava na famlia.
    Aos gritos, Tory disse que adoraria ver a av. Depois pensou em Cecil e perguntou-se se J.R. saberia da nova situao. Isso manteve-lhe o esprito ocupado e entretido at passarem Florence e seguirem para nordeste.
    Nunca fora  casa dos pais na sada de Hartsville. No fazia idia do que faziam na vida, nem como passavam o tempo juntos ou separados.
    Nunca perguntara  av e ris nunca falara no assunto.
    - Estamos quase l. - J.R. mexeu-se no assento. Tory sentiu que a disposio dele tambm mudara. - Da ltima vez que soube alguma coisa, o Han trabalhava numa fbrica. Tinham alugado um pedao de terra e criavam galinhas.
    - Estou a ver.
    J.R. pigarreou, como se fosse falar outra vez. Mas manteve-se em silncio at sarem da estrada principal e entrarem num caminho asfaltado e esburacado, sem acostamento.
    - Ainda no consegui ver a casa deles. Ah, a Sarabeth deu-me as direes quando eu lhe disse que vinha.
    - Tudo bem, Tio Jimmy, no se preocupe comigo. Ambos sabemos o que esperar.
    As casas que se avistavam eram pequenas e esquelticas, ossos amarelados metidos em quintais cobertos de vegetao mal cuidada ou de p. Uma pickup ferrugenta, com o pra-brisas quebrado como uma casca de ovo, jazia inclinada sobre blocos de construo. Um co preto, feio, puxava a corrente e ladrava, furioso, enquanto a menos de meio metro uma criana que vestia apenas uma camisola interior de algodo encardido e um emaranhado de cabelo escuro estava sentada numa velha mquina de lavar estragada, abandonada num quintal cheio de erva. Estava a chupar o dedo e olhou, com ar vazio, quando o conversvel elegante passou.
    Sim, pensou Tory. Sabiam exatamente o que esperar.
    A estrada virou, subiu um pouco e depois bifurcou-se repentinamente. J.R. desligou a msica e abrandou drasticamente para prosseguir pelo caminho de lama e cascalho.
    - Os nossos impostos so bem aplicados - disse ele, tentando fazer uma piada, e depois suspirou e fez avanar o carro pelo caminho de terra batida que conduzia  casa.
    No, uma casa no, corrigiu Tory. Um barraco. No se podia chamar quilo uma casa, e nunca um lar. O telhado estava cedendo e, como o sorriso de um velho, tinha buracos onde as telhas de ardsia tinham sido levadas pelo vento ou tinham cado. O velho tabuado cinzento estava carcomido e em pedaos. Uma das janelas estava tapada com carto. O quintal, se  que podia chamar-se-lhe assim, estava entupido de ervas. Dentes-de-leo e cardos cresciam em abundncia.  Uma velha bacia de ferro forjado estava virada ao contrrio, evidenciando um buraco do tamanho de uma mo fechada. Os lados e as traseiras da casa eram um edifcio de metal, encardido e com manchas de ferrugem cor de sangue. Uma rede de arame saa de um dos lados, encerrando cerca de uma dzia de galinhas escanzeladas que debicavam na terra, num permanente queixume. O cheiro delas ardia no ar.
    - Meu Deus - murmurou J.R. - No pensei que fosse to mau. Nunca se pensa que pode ser to mau. No h necessidade disto. No havia necessidade de chegar a uma coisa destas.
    - Ela sabe que chegamos - disse Tory sem deixar transparecer emoo, e abriu a porta do carro. - Tem estado  espera.
    J.R. bateu tambm a sua porta e depois, enquanto se encaminhavam para a casa, pousou a mo no ombro de Tory.
    Ela perguntou-se se ele estaria lhe dando apoio ou pedindo.
    A mulher que apareceu tinha cabeo grisalho. Cor de pedra, impiedosamente repuxado e afastado de um rosto magro. A pele tambm parecia repuxada, com os ossos salientes como ns. As linhas que lhe delimitavam a boca podiam ter sido gravadas com uma faca, e o seu entalhe profundo puxava-lhe os lbios para baixo, num ar de misria.
    Usava um vestido de algodo amarrotado, que lhe ficava demasiado grande, e uma pequena cruz de prata entre os seios sem vida.
    Os olhos, aureolados de vermelho como fogo, olharam para Tory e depois desviaram-se rapidamente, como se um olhar pudesse queimar.
    - No disseste que ela tambm vinha.
    - Ol, me.                                                                          
    - No disseste que ela tambm vinha - repetiu Sarabeth e depois abriu bruscamente a porta de tela. - No tenho j preocupaes que cheguem?                         
    
    J.R. apertou o ombro de Tory.
    - Estamos aqui para fazer o que pudermos para ajudar, - mantendo a mo no ombro de Tory, entrou.
    O ar cheirava a lixo antigo e a suor bafiento. A desespero.
    - No sei o que podem fazer, a no ser que consigam levar aquela mulher, aquela devassa mentirosa, a Hartsville e faz-la dizer a verdade. - Tirou um leno esfarrapado do bolso do vestido e assoou-se.
    - Estou a enlouquecer, J.R. Acho que aconteceu qualquer coisa horrvel ao meu Han. Ele nunca esteve fora tanto tempo como desta vez.
    - Porque no nos sentamos? - Transferiu para a irm a mo que tinha pousada em Tory e depois observou o espao.
    Sentiu uma cibra no estmago.
    Havia um sof arruinado, coberto com um pano amarelo sujo e desbotado, e um cadeiro nojento, atado com fita adesiva. As mesas estavam cheias de lixo: pratos de papel, copos de plstico e aquilo que ele sups serem os restos do jantar da noite anterior. Um fogo a lenha, coberto de fuligem, estava a um canto, amparado em trs pernas, com um pedao de madeira no lugar da quarta.
    Havia uma imagem de um Jesus magoado, exibindo o seu Sagrado Corao, numa moldura barata.
    Como o rosto da irm continuava enterrado no leno, J.R. conduziu-a at ao sof e lanou a Tory um olhar suplicante.
    - E se eu fosse fazer caf?
    - Sobrou algum, instantneo. - Sarabeth tirou o leno da cara e olhou para a parede, mas no para a filha. - No me tem apetecido muito ir  loja, no queria afastar-me de casa porque o Han...
    Sem dizer nada, Tory deu meia volta. A casa era desagradvel e intimidatria, por isso ela foi direta  cozinha. Havia pratos empilhados no lava-loua, e as manchas no fogo eram velhas e secas, os sapatos pegarem-se ao cho de linleo carcomido.
    Durante a infncia de Tory, Sarabeth limpava como um tornado, acabando com p e sujidade, girando entre eles como se fossem pecados contra a alma. Enquanto enchia a cafeteira, Tory perguntou-se quando teria a me desistido daquele hbito nervoso, quando teriam a pobreza e o desinteresse suplantado a iluso de que estava construindo um lar ou de que Deus entraria nele quando o cho estivesse varrido.
    Depois, parou de interrogar-se, parou de pensar e bloqueou tudo exceto o gesto mecnico de aquecer gua e deitar num pequeno jarro de vidro uma colher de gros de caf transformados em cimento castanho.
    O leite estava azedo e no encontrou acar. Levou para a sala duas canecas cheias de um lquido com mau aspecto. O seu estmago rejeit-lo-ia, desde logo, s pela aparncia.
    - Aquela mulher - estava Sarabeth a dizer. - Tentou provocar o meu Han. Atacou-o na sua fraqueza, tentou-o. Mas ele resistiu. Ele contou-me tudo. No sei onde foi que lhe bateram, provavelmente algum tarado a quem ela se vendeu, mas ela disse que foi o Han, como vingana por ele lhe ter resistido. Foi isso que aconteceu.
    - Pronto, Sari. - J.R. sentou-se no sof ao lado dela e fez-lhe uma festa na mo. - No vamos preocupar-nos com essa parte agora, est bem? Tens alguma idia de onde o Han possa ter ido?
    - No! - gritou a resposta, levantando-se de um salto e quase derrubando o caf que Tory pusera em cima da mesa. - Achas que eu no iria atrs dele, se soubesse? Uma mulher est sempre junto do marido. Disse a mesma coisa aos polcias. Disse-lhes exatamente o que vos estou a dizer. No espero que um punhado de polcias corruptos e banidos por Deus acreditem na minha palavra, mas espero que quem  da minha carne e do meu sangue acredite.
    - Eu acredito. Claro que sim. - Ele pegou numa caneca de caf e colocou-lha suavemente nas mos. - S pensei que podia ter-te ocorrido qualquer coisa, que talvez te lembrasses de alguns lugares para onde ele foi quando desapareceu, de outras vezes.
    - Ele no desaparece. - Os lbios de Sarabeth tremiam-lhe, enquanto ela bebia o caf. - S precisa de ir-se embora e pensar, mais nada. Os homens sofrem muita presso. E s vezes o Han s precisa de estar sozinho, para pensar nas coisas, para rezar. Mas desta vez j est fora h muito tempo. Acho que talvez esteja ferido.
    As lgrimas voltaram a assolar-lhe os olhos.
    - Aquela mulher mentindo, a met-lo naquela confuso toda, estava se tornando muito pesado para ele. Agora a polcia fala como se ele fosse um fugitivo. Eles no compreendem.
    - Ele ia ao programa de reabilitao, por causa do lcool?
    - Acho que sim. - Fungou. - Ele no precisava de programa nenhum. No era um bbado. S bebia de vez em quando, para acalmar. Jesus bebia vinho, no bebia?
    Jesus, pensou Tory, no tinha por hbito tragar quase uma garrafa de Wild Turkey e espancar mulheres para lhes tirar o diabo do corpo. Mas a me era incapaz de ver a diferena.
    - Esto sempre a chate-lo no trabalho, sabes, porque sabem que ele  mais esperto do que eles. E as galinhas do mais despesa do que tnhamos pensado. Aquele filho da me, da casa de sementes, aumentou os preos para poder dar perfumes caros  amante. O Han contou-me como era.
    - Querida, tens que enfrentar o fato de, ao desaparecer assim, o Han ter violado a liberdade condicional. Ele infringiu a lei.
    - Bem, a lei est errada. O que vou eu fazer, J.R.? Estou  beira de um ataque de nervos. E toda a gente quer dinheiro, e no entra nada exceto o que consigo com os ovos. Fui ao banco, mas aqueles ladres mentirosos roubaram-nos o que tnhamos l e disseram que o Han tinha esvaziado a conta. Esvaziado a conta, foi o que disseram, com aqueles sorrisos todos delicados.
    - Eu trato das contas. - J no era a primeira vez. - No te preocupes com isso. Ouve o que acho que devamos fazer. Acho que devias pegar algumas coisas e vir para casa comigo. Podes ficar comigo e com a Boots at as coisas estarem resolvidas.
    - No posso ir-me embora. O Han pode chegar a qualquer momento.
    - Podes deixar-lhe um recado.
    - Isso ia deix-lo furioso. - Os olhos dela comearam a olhar em volta, em todas as direes, como pssaros desnorteados procurando um lugar seguro, longe da fria legtima do marido. - Um homem tem o direito de esperar que a mulher esteja em casa quando ele chega. Que ela esteja  espera, debaixo do telhado que ele ps sobre as suas cabeas.                                                           
    - O seu telhado tem buracos, me - disse Tory calmamente, o que lhe valeu um olhar duro, como um chicote.
    - Nunca nada foi suficientemente bom para ti, pois no? Por mais que o teu pai trabalhasse e eu suasse, nunca era suficiente. Querias sempre mais.
    - Nunca pedi nada.
    - Eras suficientemente esperta para no dizeres nada. Mas eu via isso, via isso nos teus olhos. Eras uma fingida, uma manhosa - disse Sarabeth, retorcendo a boca com violncia. - E fugiste na primeira oportunidade e nunca olhaste para trs, nunca honraste o teu pai e a tua me. Tinhas a obrigao de retribuir os sacrifcios que fizemos por ti, mas foste demasiado egosta. Tnhamos uma vida decente em Progress, e ainda teramos se tu no a tivesses estragado.
    - Sarabeth! - Desamparado, J.R. bateu-lhe ao de leve na mo. - Isso no  justo e no  verdade.
    - Ela trouxe-nos a vergonha. Trouxe-nos a vergonha no minuto em que nasceu. ramos felizes antes de ela ter aparecido. - Recomeou a chorar, em soluos violentos que lhe sacudiam os ombros.
    Sem saber o que fazer, J.R. abraou-a, procurando sosseg-la. Com o rosto e a mente vazios, Tory baixou-se e comeou a tirar o lixo da mesa.
    Sarabeth levantou-se, veloz como um raio.      
    - O que pensas que ests a fazer?                                    
    - Como est decidida a ficar, pensei em limpar isto.
    - No preciso que me critiques. - Atirou os pratos para o cho. - No preciso que chegues aqui cheia de nove horas e as tuas roupas chiques, a tentar fazer-me parecer m. H anos que me viraste as costas, e pela parte que me toca podes continuar bem longe.
    - A me virou-me as suas a primeira vez que ficou calmamente sentada enquanto ele me espancava.
    - Deus fez o homem dono e senhor da sua casa. Tu nunca te vergaste, no merecias.
    Vergaste, pensou Tory. Palavra feita de terror.                  
    -  assim que consegue dormir  noite?
    - No sejas insolente comigo. No desrespeites o teu pai. Diz-me onde ele est, raios te partam! Tu sabes, consegues ver. Diz-me onde ele est para eu poder ir tratar dele.
    - No vou procur-lo. Se tropeasse nele a sangrar, numa vala, deixava-o l. - A cabea foi impelida para trs quando Sarabeth lhe deu uma bofetada, e a marca vermelha ficou na face. Mas ela no vacilou.                                          
    - Sarabeth! Deus Todo-Poderoso, Sari! - J.R. agarrou-a, imobilizou-lhe os braos enquanto ela se debatia, soluava e gritava.
    - Ia dizer que desejava que ele estivesse morto. - Tory falou calmamente. - Mas no desejo. Desejo que volte para si, me. Desejo, de todo o corao, que ele volte para si e lhe d a vida que a me merece.
    Abriu a carteira e tirou a nota de cem dlares que l metera, de manh.
    - Se ele voltar, quando ele voltar, diga-lhe que este  o ltimo pagamento que ter da minha parte. Diga-lhe que voltei a viver em Progress, que estou l a construir uma vida para mim. Se ele quiser vir ter comigo e voltar a levantar-me a mo, ento  melhor que consiga fazer com que seja a ltima,  melhor espancar-me at  morte, desta vez. Porque se ele no acabar comigo, acabo eu com ele.
    Fechou a carteira. 
    - Espero no carro - disse a J.R. e saiu.
    
    As pernas s comearam a tremer-lhe quando ela se sentou e fechou a porta. Depois, o tremor comeou-lhe nos joelhos e foi subindo, fazendo-a cruzar os braos sobre o peito e fazer presso com fora, de olhos fechados,  espera que passasse.
    Ouvia o choro vindo da casa, derramando-se como lava, e o cacarejar montono das galinhas  procura de comida. Mais perto soou o ladrar feroz de um co.
    E, contudo, os pssaros ouviam-se acima de tudo aquilo, em notas decididamente alegres.
    Concentrou-se naquele som, e procurou afastar dali o pensamento. Estranha e inesperadamente encontrou-se na sua cozinha, com a cabea no ombro de Cade, com os lbios dele pousados no seu cabelo.
    A descansar ali, s ouviu o tio quando ele se sentou ao lado dela e fechou a porta.
    No disse nada enquanto se afastava da casa, nada quando parou uns metros adiante e ficou sentado, com as mos no volante e os olhos a observar o vazio.
    - No devia ter-te deixado vir - disse por fim. - Pensei... No sei o que pensei, mas acho que me ocorreu que talvez ela quisesse ver-te, que as duas pudessem conseguir consertar as coisas, com o Han assim, desaparecido.
    - S fao parte da vida dela para ser acusada. Ele  a vida dela.  assim que ela quer.
    - Porqu? Por amor de Deus, Tory, porque quereria ela viver assim, viver com um homem que nunca lhe deu alegria?
    - Ela ama-o.
    - Isso no  amor. - Cuspiu as palavras, juntamente com a fria e a revolta. - Isso  doena. Ouviste-a a desculp-lo, a culpar toda a gente menos a ele. A mulher que ele atacou, a polcia, at o raio do banco.
    - Ela quer acreditar nisso. Precisa acreditar. - Vendo que ele estava mais perturbado do que ela pensara, Tory ps-lhe a mo no brao. - O tio fez tudo o que pde.
    - Tudo o que pude. Dei-lhe dinheiro e deixei-a ali, naquele barraco. E vou dizer-te a verdade, Tory: dou graas a Deus por ela no ter querido vir comigo, por eu no ter que levar aquela doena para minha casa. Tenho vergonha. - A voz quebrou-se-lhe e ele encostou a testa ao volante.                                                        
    Sentindo que ele precisava, Toiy desapertou o cinto de segurana e inclinou-se para ele, pousou-lhe a cabea no brao, desenhando crculos com a mo nas suas costas enormes.
    - No h vergonha nenhuma nisso, Tio Jimmy, no h vergonha nenhuma em querer proteger a sua casa e a Tia Boots, em querer manter tudo isto  distncia. Eu podia ter feito o que ela me pediu para fazer. Podia ter-lhe dado isso. Mas no dei, nem vou dar. E no vou ficar com vergonha por causa disso.             
    Ele acenou com a cabea e, tentando recuperar a compostura, voltou a endireitar-se.
    - Somos uma famlia e tanto, no somos, querida? - Suavemente, muito suavemente, tocou com as pontas dos dedos na marca que ela tinha na face. Depois, engatou a primeira e acelerou. - Tory, se no te importas, no tenho coragem para ir ver a tua av, agora.
    - Nem eu. Vamos para casa.
    Quando o tio a deixou, Tory no entrou em casa. Dirigiu-se antes ao carro e seguiu diretamente para a loja. Tinha horas de trabalho  sua frente e estava agradecida porque o trabalho e a azfama manteriam  distncia os seus pensamentos sobre aquela manh. 
    O seu primeiro telefonema foi para a florista, a dizer que j podiam entregar o ficus e o arranjo de flores que encomendara na semana anterior. O seguinte foi para a padaria, a confirmar se os bolinhos e os petitsfours que escolhera estariam prontos para ela ir buscar logo de manhzinha.                             
    J era tarde quando se deu por satisfeita com a disposio dos vrios artigos na loja. Para dar um ar festivo, comeou a entrelaar luzes por entre os ramos graciosos do ficus.
    
    A pequena campainha da porta soou, lembrando-lhe que se esquecera de tranc-la aps a ltima entrega.
    - Ia a passar e vi-te. - Dwight entrou, olhou em volta e depois soltou um ligeiro assobio. - Vinha ver se estava tudo a funcionar ou se precisavas de alguma ajuda de ltima hora. Mas parece que tens tudo controlado.
    - Acho que sim. - Endireitou-se, com a ponta do fio de luzes na mo. - A tua equipe fez um trabalho maravilhoso, Dwight, no podia ter ficado mais satisfeita com o trabalho.
    - No te esqueas de falar na Frazier's, se algum elogiar o trabalho de carpintaria.
    - Podes contar com isso.
    - Olha s, que belo trabalho. - Aproximou-se de uma tbua de cortar, enfeitada por vrias tiras de madeira de diferentes tons e maravilhosamente aparada, lisa como vidro. - Belo trabalho. Fao uns trabalhos com madeira, como passatempo, mas nada to bonito como isto.  quase demasiado bonito para usar.
    - Forma e funcionalidade.  essa a chave, aqui.
    - A Lissy est muito contente com aquela coisa com a vela que comprou aqui, e no perde uma oportunidade de exibir o espelho. Disse-me que no ia ficar nada chateada se eu viesse at c dar uma olhadela nas jias e encontrasse alguma coisa que a deixasse bem-disposta.                               
    - Ela no se sente bem?
    - Oh, est tima. - Dwight acenou com a mo, enquanto se movia pela loja. - Fica um bocado irritada, de vez em quando, por causa do beb, mais nada. - Meteu os polegares nos bolsos da frente das calas e sorriu mansamente. - J que aqui estou, acho que devo pedir desculpa.
    - Sim? - Como ele parecia tencionar demorar-se mais um pouco, Tory continuou a entralaar as luzes nos ramos. - Porqu?
    - Por ter deixado a Lissy pensar que tu e o Cade andavam a apreciar a companhia um do outro.          
    - Gosto da companhia do Cade.
    - No sei bem se ests a gozar comigo ou a deixar-me pendurado como ests a fazer a essas luzes. O que se passa  que, bem... a Lissy toma o freio nos dentes no que toca a certas coisas. No desiste de tentar arranjar algum para o Cade, e quando no  ele,  Wade. Tem uma pancada qualquer em casar os meus amigos. O Cade s queria livrar-se da ltima tentativa que ela fez e disse-me que lhe dissesse que estava...
    Corou, enquanto Tory o observava em silncio.         
    - Que estava, digamos, envolvido com algum. Disse-lhe que eras tu, pensando que, como chegaste  cidade h pouco tempo, ela acreditaria e deixaria as coisas sossegadas por algum tempo.
    - H-h. - Terminada a tarefa, Tory ligou as luzes  tomada e depois recuou um pouco, para avaliar os resultados.
    - Devia ter pensado melhor - continuou Dwight, nervosamente. - Deus sabe que no sou surdo e que sei que a Lissy tem tendncia para falar. Quando o Cade chegou ao p de mim para me esfolar vivo, eu j tinha ouvido de seis pessoas diferentes que vocs dois estavam quase noivos e a pensar ter um rancho de filhos.
    - Devia ter sido mais simples contar-lhe a verdade, que o Cade no estava interessado em ser agarrado.
    - Bem, eu no diria mais simples. - Os bonitos dentes dele voltaram a brilhar num sorriso rpido, encantador e masculino. - Se eu lhe disser isso, ela vai querer saber porqu. E eu digo-lhe que h homens que no andam  procura de casamento. Ela volta ao ataque e diz como tu, no ? Gostavas era de andar  solta como os teus melhores amigos. Eu digo no, queridinha, mas nessa altura j tenho um p na casota do co.
    Tentando fazer um ar digno de pena, coou a cabea.
    - Digo-te uma coisa, Tory: o casamento  uma caminhada numa corda ensebada, e qualquer homem que te diga que no sacrificaria um amigo para continuar a equilibrar-se  um grande mentiroso. Alm disso, ouvi dizer que tu e o Cade tm sado juntos algumas vezes.
    - Ests a afirmar ou a perguntar? Ele abanou a cabea.
    - Devia ter dito que lidar com uma mulher  como andar na corda bamba. O melhor  desistir enquanto ainda se consegue pr o p em terreno firme.
    - Boa idia.                                                    
    - Bem, a Lissy est a dar uma festa de galinhas, num encontro de mulheres - apressou-se a corrigir, ao ver as sobrancelhas de Tory arquearem-se. - Vou encontrar o Wade, ver se ele quer ir jantar e fazer-me companhia at ser seguro ir para casa. Passo por c amanh. Talvez queiras ajudar-me a escolher uns brincos, ou qualquer coisa.
    - Com muito prazer.
    Encaminhou-se para a porta, depois parou.
    - Isto est muito bonito, Tory. Elegante. Este lugar vai fazer bem  cidade.
    Ela assim o esperava, pensou, enquanto o seguia para trancar a porta. Mas, mais ainda, esperava que a cidade lhe fizesse bem.
    Dwight caminhou at  passadeira, para atravessar nos sinais. Como presidente da cmara, era importante dar o exemplo. Deixara de atravessar com o sinal vermelho, de beber mais de duas cervejas num bar e de ultrapassar o limite de velocidade. Pequenos sacrifcios, pensou, mas de vez em quando tinha vontade de quebrar as regras.
    Sups que devia ser por ter desabrochado tarde, pensou, enquanto respondia com um breve cumprimento  buzina do carro de Betsy Gluck, que ia passando. S no meio da adolescncia comeara a abrir caminho, depois ficara to admirado por as raparigas quererem falar com ele que se enrolara rapidamente com Lissy no assento de trs do seu primeiro carro - bem, com algumas outras e depois com Lissy -, e dera por si a sair com a rapariga mais bonita e mais popular do liceu. Antes de perceber, estava alugando o fraque para o casamento.
    No que o lamentasse. Nem por um instante. Lissy era exatamente o que ele queria. Continuava to bonita como no liceu. Talvez se queixasse e amuasse algumas vezes, mas qual a mulher que no o fazia?
    Tinham uma bela casa, um filho lindo e mais um beb a caminho. Uma boa vida, ele era o presidente da cmara da cidade onde, antes, era alvo de piadas.
    Tinha que apreciar a ironia disso.
    O fato de apreciar, de vez em quando, outras mulheres, era perfeitamente natural. Mas a verdade  que no queria estar casado com algum que no fosse a sua Lissy, no queria viver seno em Progress e queria que a sua vida continuasse exatamente como era.
    Abriu a porta da sala de espera do consultrio de Wade, bem a tempo de ser abalroado por um co pastor, muito nervoso, que se preparava para a fuga.
    - Desculpa. Oh, Mongo. - A loura que tentava segurar a trela era bonita e desconhecida. Com os seus olhos verdes e suaves lanou a Dwight um olhar de desculpa, enquanto os seus lbios de boneca se abriam num rpido sorriso. - Acabou de tomar as vacinas e sente-se trado.
    - No posso censur-lo. - Uma vez que um procedimento diferente comprometeria a sua masculinidade, Dwight estendeu os dedos e afagou o co atravs do tufo de plo cinzento e branco. - No me recordo de t-la visto, nem ao Mongo, na cidade.
    - S estamos aqui h umas semanas. Mudei-me de Dillon. Sou professora de Ingls no liceu. Bem, estou dando aulas nos cursos de vero e depois vou comear a tempo inteiro no outono. Sentado, Mongo - Atirando o cabelo um pouco para trs das costas, estendeu-lhe a mo. - Sherry Bellows, e pode me culpar por ter as calas cheias de plos do co.
    - Dwight Frazier, prazer em conhec-la. Sou o presidente da cmara, por isso  a mim que deve procurar se tiver alguma queixa.
    - Oh, est tudo muito bem. Mas no me esqueo. - Virou a cabea para a sala do consultrio. - Todos tm sido muito amveis e prestveis.  melhor levar o Mongo para o carro antes que ele parta a trela e tenha que passar-me uma multa.
    - Precisa de ajuda?
    - No, est seguro. - Riu quando ela e o co saram disparados pela porta. - Ou quase. Prazer em conhec-lo, Presidente Frazier. Tchau, Max.
    - Igualmente - murmurou ele, e depois olhou para Maxine, na recepo. - No tive professoras de Ingls como esta quando andava no liceu. Teria demorado mais uns anos a formar-me.
    - Homens! - Maxine riu, tirando a mala da ltima gaveta. - To previsveis. O Mongo foi o nosso ltimo paciente, Senhor Presidente. O doutor Wade est a lavar-se, l atrs. Importa-se de dizer-lhe que vou correndo para a aula da noite?
    - V l. Tenha uma boa noite.                   
    Entrou e foi encontrar Wade arrumando o armrio dos medicamentos.
    - Alguma coisa boa?
    - Tenho aqui uns esterides que fazem crescer plos no peito. No tens nenhum.
    - Porque os usaste todos no teu rabo - disse Dwight, prontamente. - E ento aquela loura?
    - H?                                                                                                        .       - Credo, Wade, tens andado a tomar remdios dos ces? A loura, com o cozarro que acabou de sair. Professora de Ingls.
    - Ah, o Mongo.
    - Bem, estou vendo que j  tarde demais. - Dwight abanou a cabea e deu balano para se sentar na marquesa. - Quando algum comea a no reparar em louras bonitas, que enchem as calas como aquela, e se lembram de um co grande e esgrouviado,  um caso perdido que nem a Lissy consegue resolver.
    - No vou a mais nenhum encontro s cegas. E reparei na loura.
    - Diria que ela tambm reparou em ti. Lanaste-lhe a escada?
    - Credo, Dwight, ela  uma paciente.
    - O co  que  o paciente. Ests a perder uma oportunidade de ouro, filho.
    - Esquece a minha vida sexual.
    - No tens. - Dwight apoiou-se nos cotovelos e sorriu. - Se eu fosse solteiro e semifeio como tu, teria trazido aquela loura para cima desta mesa, e no aquele co grande e peludo.
    - E quem te disse que no fiz isso?
    - S em sonhos.
    - Ah, mas os sonhos so meus, no so? Porque no ests em casa a lavar as mos para o jantar, como um menino bem-comportado?
    - A Lissy tem uma srie de mulheres l em casa, por causa de uns Tupperware, ou qualquer coisa assim. No posso ir para casa.
    -  maquiagem. - Wade fechou a porta do armrio. - A minha me tambm vai.
    - Seja que diabo for. Sabe Deus que aquela mulher no precisa de mais pinturas para a cara nem de mais tigelas de plstico, mas aborrece-se de morte quando est grvida. Por isso, que tal irmos beber uma cerveja e comer qualquer coisa? Como nos velhos tempos.
    - Tenho coisas para fazer aqui. - Faith podia aparecer, pensou.
    - V l, Wade. S umas horas.
    Comeou a recusar outra vez. Que diabo se passava com ele, a fechar-se neste apartamento,  espera que Faith telefonasse? Era to mau como uma adolescente a suspirar atrs de uma estrela de futebol. Pior.
    - Pagas tu.
    - Merda. - Animado, Dwight saltou da marquesa. - Vamos telefonar ao Cade, a dizer-lhe para ir ter conosco. Depois, fazemo-lo pagar o jantar.
    -  uma idia.
    
    No esperava sentir-se nervosa. Estava preparada. Verificara e voltara a verificar todos os pormenores, at a cor e o peso da fita para atar as caixas. Tinha experincia e conhecia cada objeto que tinha na loja quase to bem como os artistas que os tinham criado.
    Ultrapassara cada passo e cada fase da criao da sua loja com calma e, quase sempre, com olho clnico e mo firme. No havia erros, falhas ou imperfeies.
    A loja em si tinha um ar perfeito, calorosa, acolhedora e luminosa. Por sua vez, ela tinha um ar profissional e eficiente. Estranho seria se assim no fosse, pois passara a hora entre as trs e as quatro da manh numa agonia, a escolher a roupa, antes de se ter decidido pelas calas azul-marinho e pela camisa branca de linho.
    Agora estava preocupada, porque talvez se parecesse demasiado com um uniforme. Agora estava preocupada com tudo.
    A menos de uma hora da abertura, todos os nervos e dvidas e medos que conseguira ignorar durante meses caram-lhe em cima como pedaos de tijolos.
    Ficou sentada no escritrio,  escrivaninha, com a cabea entre os joelhos.
    A sensao de nusea e de fraqueza insultava-a, envergonhava-a. Quando estava prestes a desfalecer, ralhou consigo prpria. Era mais forte do que aquilo. Tinha que ser. No podia ter chegado to longe, trabalhado tanto, e depois cair a alguns centmetros da meta.
    As pessoas viriam. No estava preocupada com o nmero de pessoas. Elas viriam e ficariam de boca aberta, e lanar-lhe-iam olhares rpidos e curiosos, que ela j estava habituada a que lhe lanassem quando andava pela cidade.
    A mida Bodeen. Lembram-se dela. Uma coisinha pequena e estranha.
    No podia deixar que isso a afetasse. Mas, oh! Claro que afetava. Fora uma loucura voltar ali, ali onde toda a gente a conhecia, onde nenhum segredo ficava verdadeiramente guardado. Porque no ficara em Charleston, onde era seguro, onde a sua vida era tranquila e a sua privacidade completa?
    Ali sentada, com a pele mida e o estmago s voltas, sentiu desesperadamente a falta da sua casa bonita e acolhedora, do seu jardim bem cuidado, da rotina do seu trabalho, exigente mas impessoal, na loja de outra pessoa. Ali sentada, teve saudades do anonimato em que conseguira encerrar-se durante quatro anos sem sobressaltos.
    Nunca devia ter voltado. Nunca devia ter-se arriscado a si prpria, s suas economias,  sua paz de esprito. O que lhe teria passado pela cabea?
    Hope, admitiu, e levantou lentamente a cabea. O que lhe passara pela cabea fora Hope.
    Louca, inconsequente, pensou. Hope estava morta e partira, e ela no podia fazer nada para alterar isso. Agora, tudo aquilo por que trabalhara estava em risco. E para evitar o descalabro, teria de enfrentar os olhares e os falatrios.
    Quando ouviu bater  porta da loja, o seu primeiro instinto foi gatinhar e esconder-se atrs da escrivaninha, enrolada sobre si mesma, com as mos nos ouvidos. O fato de quase o ter feito, de conseguir ver-se ali encolhida, obrigou-a a pr-se de p.
    Tinha trinta minutos at  hora de abertura, trinta preciosos minutos para se recompor. Quem quer que estivesse a bater  porta teria que ir-se embora.
    Endireitou os ombros, passou a mo pelo cabelo, para alis-lo, e depois preparou-se para dizer a quem estava  porta e que chegara adiantado que teria que voltar s dez.
    Viu o rosto da av do outro lado do vidro e correu para a porta. - Av, oh, av! - Lanou os braos ao pescoo de ris e agarrou-se a ela como se estivesse suspensa de um rochedo. - Estou to contente por v-la. No pensei que viesse. Estou to contente por t-la aqui!
    - Achaste que eu no vinha? Para a tua grande inaugurao? Ora, estava ansiosa por chegar. - Empurrou Tory suavemente para dentro da loja. - Deixei o Cecil doido, a dizer-lhe constantemente que acelerasse mais. L est o Cecil, atrs do milho, e a Boots atrs da montanha que  o Cecil.                          
    Tory inspirou pesadamente e depois conseguiu soltar uma gargalhada quando Cecil espreitou por entre as folhas compridas como espadas.
    -  maravilhoso, e a av tambm. Vocs todos. Vamos p-lo... - Olhou em volta, avaliando espao e impacto. - Ali mesmo, no final daquele armrio envidraado. Era mesmo o que precisava.
    - A mim parece-me que no precisas de nada - comentou ris.
    - Tory, este lugar est to perfeito como uma noiva de junho. Tantas coisas bonitas. - Passou o brao pelos ombros de Tory, observando a loja, enquanto Cecil colocava a planta ornamental no seu lugar. - Sempre tiveste bom gosto.
    - Mal posso esperar para comprar alguma coisa. - Boots, resplandecente como uma moeda nova no seu vestido amarelo, bateu palmas como uma garota. - Quero ser a primeira a comprar-te qualquer coisa hoje, e avisei o J.R. de que ia ficar com o carto de crdito a arder.
    - Tenho um extintor. - Tory riu e virou-se, para abra-la.
    - E muitas coisas que se partem. - Acautelando-se, Cecil ps as mos nos bolsos. - Faz-me sentir desajeitado.
    - Quem parte, paga - disse ris com uma piscadela de olho. - Muito bem, pote de mel, o que podemos fazer?
    - Estarem aqui j  suficiente. - Tory soltou um longo suspiro. - No h mesmo nada para fazer. Mais pronta no podia estar.
    - Nervosa?
    - Aterrorizada. S preciso de arranjar o ch e as bolachas e manter as mos ocupadas durante os prximos minutos. Depois... - Virou-se quando ouviu o som metlico vindo da porta.
    - Entrega para si, Srta. Bodeen. - O rapaz da florista trazia uma caixa branca e brilhante.
    - Obrigada.
    - A minha me vem at aqui mais tarde. Disse que queria ver como ficavam os arranjos, mas eu espero que ela queira ver o que tem para vender.
    - Fico  espera dela.
    - Coisas aqui no faltam. - Esticou o pescoo para dar uma vista de olhos, enquanto Tory tirava um dlar da gaveta do dinheiro. - Acho que as pessoas devem estar chegando. No se fala noutra coisa.
    - Espero que sim.
    Meteu no bolso a nota que Tory lhe estendia.
    - Obrigado. 'T logo.
    
    Tory pousou a caixa em cima do balco e tirou o cordel. Estava cheia de gerbrias de cores vivas e de girassis grandes e refrescantes.
    - Que bonitas! - ris inclinou-se sobre o ombro de Tory, para ver melhor. - E ficam mesmo bem aqui. As rosas no condizem com a tua cermica, nem com a madeira. Algum teve sensibilidade para te mandar flores bonitas e adequadas.
    - Sim. J abrira o carto. - Algum que parece saber sempre qual  a coisa certa a fazer.
    - Ai, so to queridas, so to bonitas! - Boots passou as mos pelas flores. - Tory, querida, vais pr-me louca se no me disseres quem tas mandou.
    Boots pegou no carto que Tory lhe estendia.
    - Boa sorte no teu primeiro dia. Cade. Uau! 
    Inclinando a cabea, ris apertou os lbios.
    - Ser o Kincade Lavelle?
    - Sim, ser.                   .                                                       
    - Hummm.
    - Hummm porqu? Est apenas a ser atencioso.
    - Quando um homem manda flores a uma mulher, as flores certas,  porque tem essa mulher na cabea. No  verdade, Cecil?
    - Acho que sim. Quando se quer ser atencioso oferece-se uma planta. As flores significam romance.
    - Ora, a est. Vem porque  que eu amo este homem? - ris puxou-o pela camisa para o fazer baixar e dar-lhe um beijo, deixando Boots com um sorriso radioso.
    - As gerbrias e os girassis so apenas um gesto de amizade - corrigiu Tory, mas teve de resistir a suspirar por causa delas.
    - Flores so flores - disse Boots com firmeza. - Quando um homem as manda significa que est a pensar numa mulher. - E agradou-lhe sinceramente a idia de Cade Lavelle estar a pensar na sua sobrinha. - Agora, vai l arranj-las, que eu vou ps as bolachas num prato. No h nada que me agrade mais do que preparar as coisas para uma festa.
    - No se importa? Tenho uma das jarras raku no depsito.  perfeita para estas flores, e o conjunto vai acrescentar um belo efeito ao balco.
    - Vai l, ento. - ris apressou-a. - E d-nos instrues para as coisas que precisam de ser feitas. Vamos l pr isto em marcha.
    Os primeiros clientes entraram s dez e um quarto, com Lissy  frente. Tory decidiu guardar todos os pensamentos desagradveis sobre Lissy quando ela comeou a guiar as amigas pela loja e a soltar pequenas exclamaes de satisfao.
    Por volta das onze, tinha quinze clientes a cirandar pela loja e j fizera quatro vendas.
     hora do almoo estava demasiado ocupada para estar nervosa. Havia olhares e havia segredinhos. Aos seus olhos e aos seus ouvidos chegou mais do que um, mas ela envolveu em ao a sensao de desconforto e embrulhou os artigos escolhidos pelos curiosos.
    - Era amiga da garotinha Lavelle, no era?
    Tory continuou a embrulhar os candelabros de ferro em papel pardo.
    - Sim.                                                                                                                                          
    - Uma pena terrvel o que lhe aconteceu. - A mulher, com os seus olhos afiados de guia fixos no rosto de Tory, inclinou-se para a frente, ficando mais prxima. - Pouco mais do que um beb. Foi voc que a encontrou, no foi?                                              
    - Foi o pai dela que a encontrou. Quer uma caixa ou um saco?
    - Uma caixa. So para a filha da minha irm. Casa-se no ms que vem. Acho que andou na escola com ela. Kelly Anne Frisk.
    - No me lembro de muitas das pessoas com quem andei na escola. - Tory mentiu com um sorriso agradvel, enquanto metia os artigos na caixa. - Foi h tanto tempo. Quer que embrulhe para presente?
    - Eu fao isso, querida. Tens outros clientes - interrompeu ris. - Com que ento a Kelly Anne vai casar. Acho que me lembro muito bem dela.  a filha mais velha da Marsha, no ? Meu Deus, como o tempo passa!
    - A Kelly Anne teve pesadelos durante um ms depois daquilo da garota Lavelle. - A mulher disse aquilo com uma satisfao tranquila, que ressoou nos ouvidos de Tory quando ela saiu.
    Tory sentiu-se tentada a esgueirar-se at s traseiras, apenas para respirar at conseguir que o corao parasse de bater como louco. Mas optou por virar-se para uma mulher morena que se debatia com a escolha de uma tigela de servir.
    - Posso ajud-la?
    -  difcil decidir, com tantas opes bonitas. A JoBeth Hardy, a tia da Kelly Anne, ali?  uma mulher muito desagradvel. E  difcil responder quelas observaes dela. Voc sempre foi uma pessoa cuidadosa e reservada. No deve lembrar-se de mim.
    
    A mulher morena estendeu-lhe a mo.      
    - No, desculpe.
    - Bem, naquela altura eu era bastante mais nova, e voc no estava na minha turma. Eu era professora, e continuo a ser, do segundo ano da escola primria de Progress. Marietta Singleton.
    - Ah! Miss Singleton! Claro que me lembro. Desculpe. Prazer em voltar a v-la.
    - Tenho estado ansiosa pela abertura da loja. Pensei vrias vezes no que seria feito de si, ao longo destes anos todos. Talvez no saiba que fui amiga da sua me. Anos antes do seu nascimento, claro. O mundo  pequeno.
    - Pois .
    - s vezes, um pouco pequeno de mais. - Olhou na direo da porta quando Faith entrou. As duas cruzaram olhares e soltaram-se fascas antes de Marietta lhe virar as costas para voltar a observar as taas. - Mas temos que viver com isso. Acho que vou levar esta aqui, a azul e branca  muito bonita. No se importa de guard-la atrs do balco enquanto dou mais uma olhada?
    - Claro que no. Vou buscar-lhe uma, empacotada, no depsito.
    - Victoria. - Marietta baixou a voz e passou a mo pelas costas de Tory. - Teve muita coragem, para regressar aqui. Sempre teve muita coragem.
    Afastou-se enquanto Tory ficava parada, confusa e surpreendida pela onda de dor que se desprendera da mulher e pairava no ar.
    Foi at ao depsito para deixar assentar idias e para ir buscar a taa, e ficou aborrecida quando Faith entrou atrs dela.
    - O que  que aquela mulher queria?
    - Desculpa. Mas aqui  s para empregados.
    - O que  que ela queria?
    - A Marietta? - Friamente, Tory tirou a taa da prateleira. - Isto. Algumas pessoas que aqui vm querem comprar coisas. Por isso  que isto se chama uma loja.             .
    - O que  que ela te disse?
    - E porque  que isso seria da tua conta?
    Faith cerrou os dentes e tirou um mao de cigarros da bolsa.
    - No se pode fumar aqui.
    - Raios! - Voltou a meter os cigarros na bolsa e comeou a andar de um lado para o outro. - Aquela mulher no tem nada que andarilhar pela cidade.     
    - Aquela mulher pareceu-me perfeitamente simptica. E eu no tenho tempo para as tuas irritaes nem para as tuas bisbilhotices. - Embora no pudesse negar que a sua curiosidade estava a aumentar. - Agora, a no ser que me queiras ajudar a repor artigos ou voltar a encher o jarro do ch gelado, vais ter de sair.
    - No a considerarias to simptica se ela andasse enrolada com o teu pai. - Com aquela exploso de fria, Faith deu meia volta e preparou-se para abrir a porta. Tory lembrava-se muito bem do gnio de Faith e, colocando-se em antecipao, pousou a tigela e ps uma mo na porta antes de Faith conseguir abri-la.
    - No te atrevas a fazer uma cena. No te atrevas a trazer os teus problemas familiares para a minha loja. Se quiseres armar uma briga de gatos, vai para outro lugar.
    - No vou fazer uma cena. - Mas estava fora de si. - No tenho inteno de dar motivos para falatrios s pessoas que aqui esto. E esquece o que eu disse. No devia t-lo dito. Tivemos muito trabalho para abafar a relao do meu pai com aquela mulher. Por isso, se eu ouvir alguma coisa, vou saber que foste tu que comeaste.
    - No me ameaces. Os tempos em que me amedrontavas j l vo, por isso recolhe as garras, se no quiseres que eu te responda.
    Teria deixado as coisas por ali, estava suficientemente zangada para isso, mas viu o lbio de Faith tremer. Num pequeno laivo de emoo, Tory viu Hope.
    - Porque no te sentas e ficas aqui um minuto? V l, senta-te at te acalmares. Se sares daqui assim no vai ser preciso fazeres uma cena para as pessoas falarem. Alm disso, nesta altura esto se divertindo imenso a falar sobre mim.
    Abriu a porta e olhou para trs.
    - No se pode fumar - repetiu, e fechou a porta atrs de si. Faith deixou-se cair numa cadeira e, olhando para a porta, tirou os cigarros da bolsa. Voltou a guard-los de imediato, com ar culpado, quando a porta se abriu outra vez.
    Mas, em vez de Tory, foi Boots que entrou no quarto. L porque estava a divertir-se imenso s voltas pela loja, no queria dizer que estivesse cega a sutilezas. Vira o fogo da raiva no rosto de Faith, tal como via agora a infelicidade e o embarao.
    - Aquilo ali fora est de mais. - Falou animadamente, agitando a mo diante do rosto. - Preciso de um minuto longe da multido. - E pensou que era a oportunidade perfeita para encurralar a mulher que tinha Wade embrulhado em ns.
    - Porque no se senta, Miss Boots? - Faith apressou-se a levantar-se. - Eu estava mesmo de sada.
    - Oh, faz-me companhia por um instante, est bem, querida? Ests to bonita hoje. Pensando bem, ests sempre.
    - Obrigada. Posso dizer o mesmo de si. - Agora que estava de p, Faith desejou ter qualquer coisa que fazer com as mos. - E deve estar muito orgulhosa da Tory, hoje.
    - Sempre estive orgulhosa dela. E como vai a tua me?
    - Est bem.
    - H muito tempo que no est de outra maneira. No te esqueas de lhe dar os meus cumprimentos. - Sorrindo naturalmente, Boots aproximou-se da caixa da padaria e pegou num bolinho. - No viste o Wade hoje, pois no? Espero que ele consiga vir at c.
    - No, ainda no o vi hoje. - Ainda.
    - Aquele rapaz trabalha tanto. - Suspirou e mordiscou o bolinho coberto de acar. - Quem me dera que ele assentasse, encontrasse uma mulher que o ajudasse a construir um lar.
    - H-h.
    - Ora, no vale a pena ficares atrapalhada, querida. - Boots continuou a mordiscar o bolinho, e os seus olhos eram suficientemente perspicazes para apanhar at uma borboleta esperta como Eaith. - Ele  um homem feito e tu s uma mulher bonita. Porque no haviam de sentir-se atrados um pelo outro? Sei que o meu rapaz tem uma vida sexual.
    Bem, ali estava, pensou Eaith.
    - Mas preferia que no a tivesse comigo.
    - Ora, ora, eu no disse nada disso. - Pegou noutro bolinho e ofereceu-o a Faith. - Estamos as duas sozinhas, Faith, e as duas somos mulheres. Isso quer dizer que ambas sabemos como levar um homem a fazer uma coisa que queremos que ele faa, pelo menos quase sempre. Tu tens uma veia selvagem. No me importo. Talvez eu tenha pensado noutro tipo de mulher para o meu Wade, mas ele pensa em ti. Adoro-o, por isso quero para ele o que ele quer para si prprio. E parece que s tu.
    - O que h entre ns no  bem isso, Mistress Mooney.
    A formalidade divertiu Boots. Se no estava enganada, isso queria dizer que Eaith se sentia intimidade.
    - No? No paras de andar atrs dele, pois no? Alguma vez te perguntaste porqu? No - disse ela, erguendo um dedo rematado por uma unha envernizada de cor-de-rosa. - Talvez devesses pensar nisso. Quero que saibas que gosto de ti, sempre gostei. Isso te surpreende?
    Estupidificava-a.                  
    - Sim, acho que sim.
    - Pois no devia surpreender. s uma jovem esperta e inteligente, e no tens tido uma vida to fcil como h quem pense. Gosto bastante de ti, Faith. Mas se voltas a magoar o meu Wade, vou ter que abanar esse teu pescoo lindo, como se fosse um galho.
    - Bem. - Faith deu uma dentada no bolinho e semicerrou os olhos. - Isso deixa tudo claro.
    De sbito, o rosto de Boots voltou a suavizar-se e os seus olhos tornaram-se suaves e sonhadores como sempre. Soltou uma gargalhada leve e musical e, para confuso de Faith, envolveu-a num abrao e beijou-a na face.
    - Gosto mesmo de ti. - Com o polegar, limpou a marca de batom do rosto de Faith. - Agora senta-te e come o teu bolinho, at te sentires um pouco melhor. Como j me sinto bem, acho que vou l para fora, comprar qualquer coisa. No h nada melhor do que fazer compras, pois no? - acrescentou, enquanto abria a porta.
    - Credo! - Sem fala, Faith sentou-se. E comeu o bolinho.
    Tory estava ocupada, mas viu Faith sair dez minutos depois. Tal como viu chegar Cade, com a Tia Rosie a reboque, no momento da primeira calmaria da tarde.
    Era impossvel no reconhecer Rosie Sikes LaRue Decater Smith. Aos sessenta e quatro anos, a mulher passara to despercebida como no baile de debutantes, em que chocara a sociedade ao danar um jitterbug, descala, no campo de tnis do country club. Casara com Henry LaRue, dos Savannah LaRue, quando tinha dezessete anos, e perdera-o na Coreia, antes do primeiro aniversrio de casamento.
    Fizera um luto de seis meses, e depois optara pelo papel de viva alegre, ostentando um caso trrido com um artista em ascenso, e suspeito de ser comunista, com quem casara aos vinte anos. Tanto ela como o artista eram partidrios do amor livre, e organizavam o que muitos consideravam orgias, na sua propriedade de Jekyll Island.
    Enterrou o segundo marido aps dezanove anos tumultuosos, quando ele caiu da janela de um terceiro andar depois de ter passado a noite com uma garrafa de brandy Napoleo e uma modelo de vinte e trs anos.
    Houve quem dissesse que a histria envolveu crime, mas nunca se provou nada.
    
    Com a bela idade de cinquenta e oito anos, casou com um admirador de longa data, mais por pena do que por amor. Ele morreu dois anos depois, no segundo aniversrio de casamento, aps ter sido despedaado e meio devorado por um leo, durante a viagem que fizeram a frica, em segunda lua-de-mel.
    O fato de ter enterrado trs maridos e um nmero indizvel de amantes no ensombrara o estilo de Rosie. Usava uma peruca, pelo menos Tory achou que era uma peruca, de um louro-platinado, um vestido vaporoso, at aos ps, de riscas vermelhas e brancas como um toldo, e jias suficientes para fazer cair uma mulher menos bem constituda. Tory viu o brilho dos diamantes por entre as contas de plstico. - Brinquedos. - disse ela, numa espcie de guincho enferrujado, e esfregou as mos. - Afasta-te, rapaz, estou com vontade de fazer compras.
    Ziguezagueou at ao armrio envidraado onde estavam os pesos-de-papis de vidro soprado, e comeou a empilh-los na dobra do cotovelo. Meio divertida, meio alarmada, Tory apressou-se a ir ter com ela.
    - Posso ajud-la, Miss Rosie?                                   
    - Preciso de seis. Os seis mais bonitos.
    - Sim, claro. So presentes?
    - Presentes, uma ova. So para mim. - Sem qualquer cuidado, fez os objetos de vidro tilintar uns contra os outros e fez o corao de Tory parar.
    - Talvez seja melhor eu pr estes em cima do balco.
    - Muito bem, so pesados. - Os olhos de Rosie, sob o peso de umas pestanas postias que se assemelhavam desconcertantemente a aranhas, fixaram-se no rosto de Tory. - s a rapariga que costumava brincar com a pequena Hope.
    - Sim, minha senhora.
    - Lembro-me que gostava de ti. Uma vez, uma cigana leu-me a palma da mo, na Transilvnia. Disse que eu teria quatro maridos, mas diabos me levem se quero outro. - Rosie estendeu uma mo, coberta de anis e pulseiras. - Que me dizes?
    - Desculpe. - Em vez de se sentir perturbada, Tory estava maravilhosamente divertida. - No leio a palma da mo.
    - Ento, folhas de ch, ou qualquer coisa assim. Um dos meus amantes, um jovem de Boston, dizia que era a reencarnao de Lorde Byron. No  coisa que se espere ouvir da boca de um ianque, pois no? Cade, vem c e pega nestas coisas de vidro. De que serve ter um homem conosco se no pudermos us-lo como burro de carga? - disse ela a Tory, piscando o olho.
    - No fao idia. Quer ch gelado, Miss Rosie? Bolinhos?
    - Primeiro, vou ganhar apetite. Vejamos, que raio  esta coisa? - Pegou numa tbua de madeira polida, com um buraco.
    -  para segurar uma garrafa de vinho, deix-la repousar.
    - No  o mximo? O que levar algum a deixar uma garrafa de vinho repousar transcende-me. Embrulhe-me dois. Lucy Talbott! - Lanou um grito a outra cliente, do outro lado da loja. E partiu na direo dela como um foguete, com as riscas vermelhas e brancas a flutuar.
    - No se consegue mudar a Tia Rosie - disse Cade, com um sorriso. - E o teu dia, como est correndo?
    - Muito bem. Obrigada pelas flores. So lindas.
    - Ainda bem que gostaste. Espero que me deixes levar-te jantar fora, esta noite, para comemorar o teu primeiro dia.
    - Eu... - J tinha pedido para ser dispensada da noite em casa do tio, prometendo estar presente no almoo de famlia de domingo, o dia seguinte. Ia estar cansada e cheia de adrenalina. No ia ser uma boa companhia. - Gostaria muito.
    - Passo pela tua casa por volta das sete e meia. Est bom?
    - Sim, perfeito. Cade, a tua tia quer mesmo estas coisas todas? No sei o que pode algum querer fazer com seis pesos-de-papis de vidro.
    - Vai gostar deles e depois vai esquecer-se de onde os comprou e inventar uma histria qualquer sobre t-los encontrado numa loja cheia de p em Beirute. Ou dizqr que os roubou ao amante, o conde breto, quando o deixou. E depois vai d-los ao rapaz que distribui o jornal ou s prximas Testemunhas de Jeov que lhe baterem  porta.
    - Ah, bem...
    - No a percas de vista. Tem tendncia a meter coisas nos bolsos. Sem dar por isso - acrescentou, quando Tory abriu muito os olhos. - V bem o que ela mete ao bolso e depois pe na conta, no final.
    - Mas... - No preciso momento em que olhou para Rosie, viu-a meter um encosto para colher no bolso lateral do vestido. - Oh, por amor de Deus! - Tory apressou-se a ir ter com Rosie, deixando Cade a rir.
    - A Rosie no mudou nada - comentou ris.             
    - No senhora, nem um bocadinho. Abenoada. Como est, Miz Mooney?
    - Bastante bem. Tu tambm no pareces nada mal. Ests urn homem. Como est a tua famlia?
    - Est bem, obrigado.
    - Lamento, o teu pai. Era um bom homem, e interessante tambm. Nem sempre se consegue reunir ambas as caractersticas.
    - Suponho que no. Ele falava sempre muito bem da senhora.
    - Deu-me a oportunidade de ganhar a minha vida de forma decente depois de ter perdido o meu marido, a oportunidade de pr comida na mesa para os meus filhos. No me esqueo disso. Tens qualquer coisa dele nos olhos. s um homem justo como ele era, agora que cresceste, Kincade?
    - Tento ser. - Quando Rosie soltou um cacarejo e bateu nos amuletos para faz-los cantar, Cade olhou e viu os olhos desesperados de Tory. - A Tory no tem mos a medir.
    - Ela d conta do recado.  boa para dar conta do recado. s vezes, at um bocado boa de mais.
    - Vira-nos as costas quando queremos ajudar.
    -  verdade - concordou ris. - Mas quer-me parecer que queres mais da Tory do que ajud-la. Diria que h qualquer coisa mais bsica na tua idia, e tal como espero ter razo nesta suposio gostaria de dar-te uma coisa que toda a gente precisa de tempos a tempos e que ningum gosta de receber.
    Ele ajustou o peso dos pesos-de-papis que continuava a carregar.
    - Um conselho?
    Ela olhou para ele, com um grande sorriso.
    - s um rapaz esperto. Sempre achei isso. Pois , um conselho. Um pequenino. No arrastes os ps. Se h coisa que uma mulher merece, pelo menos uma vez na vida,  ser arrebatada e sentir os seus ps no ar. Agora, d c uma dessas coisas antes que se partam.
    - Ela ainda no tem a certeza. - Cade entregou a ris dois dos pesos-de-papis e levou os outros dois para o balco. - Precisa de tempo.
    - Ela te disse isso?
    - Mais ou menos.
    ris revirou os olhos.
    - Homens. Sabes? Uma mulher s diz isso por uma de trs coisas. Ou no est verdadeiramente interessada, ou  tmida, ou algum a magoou antes. A Tory dir-te-ia logo se no estivesse interessada, no tem um nico osso tmido no corpo, o que nos deixa a hiptese nmero trs. Vs aquele homem ali?
    Perplexo, Cade olhou para o stio onde Cecil dispunha bolinhos num prato, com as suas mos do tamanho de presuntos.
    - Sim, senhora.
    - Se fizeres mal  minha menina, mando aquele urso velho atrs de ti com uma chave-inglesa. Mas como acho que no vais fazer isso, sugiro que mostres  Tory que h homens em quem se pode confiar.
    - Estou tentando.
    - Como a minha menina est tentando convencer-se de que vocs dois no so mais do que amigos, aconselhava-te a trabalhar mais depressa.
    Ora fica l a remoer isso, pensou ris, e depois afastou-se para tentar vender mais alguma coisa.
    - Meteu cinco argolas para guardanapos no bolso. - s seis e dez, com a porta trancada e Cecil a dormitar no armazm, Tory deixou-se cair na cadeira, atrs do balco, e deitou as mos  cabea. - Cinco. Se fossem quatro ou seis, eu ainda podia tentar entender. Mas que tipo de pessoa leva cinco argolas para guardanapos?
    - No penses que ela estava a formar um conjunto.
    - Acrescenta dois encostos para colheres, trs tampas de garrafa e um par de talheres de salada. Meteu-os no bolso enquanto eu estava mesmo ali, a falar com ela. Meteu-os no bolso, sorriu, e depois tirou o colar de contas de plstico e deu-mo.
    Ainda divertida, Tory tocou no colar que tinha ao pescoo.
    - Ela gosta de ti. A Rosie est sempre a dar coisas s pessoas de quem gosta.                          
    - No acho certo cobrar-lhe aquelas coisas. Se calhar, ela nem as queria. Meu Deus, av, ela gastou mais de mil dlares! Mil - repetiu, levando a mo ao estmago. - Acho que vou vomitar.
    - No vais nada. Vais ficar toda contente assim que te acalmares. Agora, vou abanar o Cecil e lev-lo daqui, para poderes recuperar o flego. Aparece em casa do J.R. amanh, por volta da uma. H muito tempo que no temos a famlia reunida.
    - L estarei. V, no sei como lhe agradecer por ter ficado o dia todo. Deve estar cansada.
    - Os meus ps esto a comear a reclamar, e eu estou pronta a p-los em cima de uma almofada e deixar a Boots dar-me um copo de vinho. - Inclinou-se para beijar Tory na face. - Vai festejar, ouviste?
    Festejar, pensou Tory, depois de ter anotado e limpado tudo, e fechado a loja. Mal conseguia pensar, quanto mais festejar. Conseguira ultrapassar aquele dia. Mais, disse a si prpria, entorpecida, a caminho de casa. Provara que estava de volta, para ficar, para deixar uma marca.
    Desta vez no se tratava apenas de sobrevivncia, mas de sucesso. Alguns podiam olhar para ela e ver a rapariga franzina de olhos vazios e roupas em segunda mo. Mas no importava. Mais iriam olhar e ver apenas o que ela fizera de si prpria. O que queria ser.
    E ela faria com que o importante fosse isso.
    No ia falhar e no ia fugir. Desta vez, ia finalmente vencer.
    Aquela sensao boa comeou a instalar-se quando ela entrou no caminho de acesso  casa, quando viu a casa como fora e como era. Quando se viu a si prpria, como fora e como era.
    Incapaz de continuar a conter-se, encostou a cabea ao volante e deixou que as lgrimas rolassem.
    
    Estava sentada no cho, tentando no chorar. S os bebs choravam. E ela no era um beb choro. Mas as lgrimas corriam, sem que ela conseguisse cont-las.
    Esfolara os joelhos e o cotovelo e a palma da mo, quando cara da bicicleta. A pele arranhada ardia e sangrava. Quis ir ter com Lilah e ser abraada e mimada e acalmada. Lilah dar-lhe-ia uma bolacha e f-la-ia sentir-se melhor.
    Fosse como fosse, tambm no queria aprender a andar na estpida da bicicleta. Odiava aquela bicicleta estpida.
    Estava ao lado dela, um soldado derrubado, com uma roda ainda girando, troando dela, enquanto ela tinha a cabea apoiada nos braos e fungava.
    Tinha apenas seis anos.
    - Hope! Que diabo ests fazendo? - Cade correu pelo carreiro, com os tnis Nike a evidenciar-se no cascalho. O pai deixara-o  porta de Beaux Revs, dando-lhe liberdade para fazer o que quisesse durante o resto do dia. Todo o seu mundo parecia depender da rapidez com que ele conseguisse pegar na sua bicicleta e pedalar at ao pntano para se encontrar com Wade e com Dwight.
    E ali estava a sua linda e amada trs velocidades toda amassada, com a sua irmzinha estatelada ao lado dela.
    No estava certo do que queria mais: gritar com ela ou acalmar a sua bicicleta ferida.
    - Bolas, olha para isto! Estragaste a pintura! Raios partam! - Disse a ltima frase entre dentes. Estava comeando a experimentar praguejar, em segredo. - No tinhas nada que ir pegar a minha bicicleta. Tens a tua.
    -  de beb. - Ergueu o rosto e as lgrimas escorreram pela fina camada de sujeira que lhe cobria o rosto. - A mame no deixa o papai tirar as rodinhas.
    - Ora v l se sabes porqu. - Aborrecido, endireitou a bicicleta e lanou a Hope um ar superior. - Vai para dentro e diz  Lilah que te lave. E mantm os teus dedos pegajosos longe das minhas coisas.
    - S quero aprender. - Passou a mo pelo nariz e atravs das lgrimas brilhou uma luz de desafio. - Podia andar to bem como tu, se algum me ensinasse.
    - Pois, pois. - Riu com ar de troa e montou a bicicleta. - No passas de uma garotinha.                                                                :
    Nessa altura, ela ps-se de p de um salto, com o peito magro a arquejar de insulto.
    - Vou crescer - disse entre dentes. - Vou crescer e vou andar mais depressa do que tu e toda a gente. Depois, vais me pedir desculpas.
    - Oh, estou a tremer. - O divertimento voltou a surgir nos seus olhos azuis, enrugados nos cantos. Se um tipo tinha de aturar duas irms pequenas, o mnimo que podia fazer era arreli-las. - Vou ser sempre maior, vou ser sempre mais velho, vou ser sempre mais rpido.
    O lbio de baixo tremeu-lhe, num sinal inequvoco de que mais lgrimas queriam correr. Ele lanou-lhe um olhar trocista, encolheu os ombros e comeou a pedalar pelo carreiro acima, equilibrando-se momentaneamente numa s roda para provar os seus talentos superiores.                                                    Quando olhou para trs, de sorriso trocista, para ter a certeza de que ela vira as suas habilidades, viu que ela tinha a cabea cada, com o cabelo pendurado para a frente, como uma cortina. Um fio fino de sangue escorria pelo seu tornozelo.
    Parou, revirou os olhos e abanou a cabea. Os amigos estavam  espera. Havia um zilio de coisas para fazer. Metade do sbado j tinha ido ao ar. No tinha tempo para gastar com raparigas. Especialmente com irms.
    Mas soltou um suspiro pesado e voltou para trs. To chateado com ela como consigo prprio, desmontou.
    - Anda l. Raios partam!         
    Ela voltou a fungar, esfregou os olhos e olhou para ele.
    - Verdade?
    - Sim, sim, anda l. No tenho o dia todo.
    A alegria tomou conta dela, fazendo o corao bater mais depressa enquanto ela se sentava na bicicleta. Enquanto as suas mos agarravam as pegas de plstico e ela ria nervosamente.
    - Presta ateno. Isto  um assunto srio. - Olhou para trs, na direo da casa, esperando que a me no pudesse v-lo. Ia esfolar os dois no jantar.
    - No, tens que... bem, centrar o corpo. - Ficou embaraado ao dizer corpo, embora no soubesse bem porqu. - E olha sempre em frente.
    Ela olhou para ele, confiante, com um sorriso radioso como o sol que escorria por entre as folhas novas de primavera,     
    - Est bem.
    Ele lembrou-se de como o pai o ensinara a andar de bicicleta, e manteve a mo na parte de trs do assento, correndo um pouco quando ela comeou a pedalar.
    A bicicleta balanava de forma cmica. Conseguiram andar trs  metros antes de ela cair.
    No chorou, nem hesitou em levantar-se e em voltar a montar. Ele teve de reconhecer que ela tinha coragem. Pedalaram e correram juntos, carreiro acima e carreiro abaixo, passando pelos velhos carvalhos, pelos narcisos com cara de sol, pelas tulipas jovens, enquanto a manh dava lugar  tarde.
    A pele dela estava agora transpirada, e o corao continuava a bater, a bater, a bater. Mais de uma vez, mordeu o lbio inferior para no guinchar quando a bicicleta se inclinava. Ouvia a respirao dele perto do ouvido dela, sentia a mo dele segur-la. E sentiu-se cheia de amor por ele.
    Mais do que por ela, era agora por ele que estava decidida a conseguir.
    - Eu consigo. Eu consigo - murmurava para si prpria, enquanto a bicicleta se inclinava e era endireitada. Os olhos semicerravamm, na concentrao feroz de uma criana que tinha apenas um objetivo, um mundo, um caminho. As pernas tremiam-lhe e os msculos dos  braos estavam tensos como tambores.
    A bicicleta inclinava-se debaixo dela, mas no caa. E, de repente, Cade estava a correr ao lado dela, com um sorriso radioso na cara.
    - Ests conseguindo! Continua, ests conseguindo!
    - Estou andando! - Debaixo de si, a bicicleta transformou-se num cavalo majestoso. Com a cara levantada, pedalou veloz como o vento.
    Tory acordou no cho, ao lado do carro, com os msculos a tremer, a pulsao descompassada, com uma dor feita de alegria e perda no corao.
     
    S se lembrou do jantar alguns minutos antes de Cade bater  porta. Mal tivera tempo de lavar a cara e de disfarar os vestgios do choro e do que se lhe seguira, e no tivera tempo de pensar numa desculpa aceitvel para mand-lo embora.
    No conseguia deixar de pensar no assunto. As lgrimas tinham-na deixado vazia, a mente e o corpo. O regresso ao passado de Hope trouxera-lhe desconforto e dor.
    E emoo. Essa era a parte mais estranha, admitiu. A emoo da primeira vez em que andara de bicicleta, a felicidade pura de deslizar por aquele carreiro sombreado, com Cade a correr ao seu lado.
    A forma como os olhos dele, to azuis, riam nos dela.
    O amor que sentira por ele, o amor inocente de uma irm, ainda luzia dentro de si e misturava-se, perigosamente, como sabia, com as suas prprias emoes, que eram muito adultas e nada tinham a ver com laos de famlia.
    A mistura tornou-a vulnervel, a si prpria e a ele. Era melhor, mais sensato, estar sozinha at aquilo passar.
    Ia dizer-lhe que estava exausta, demasiado cansada para comer. Isso, pelo menos, seria verdade.
    Ele era um homem razovel. Quase demasiado razovel, disse a si prpria. Iria compreender e deix-la sossegada.
    Quando abriu a porta, ele estava ali, de caarola na mo. Os vizinhos, pensou ela, traziam comida quando algum morria. Bem, os seus ps estavam mortos, por isso pareceu-lhe razovel.
    - A Lilah mandou isto. - Entrou e entregou-lhe a caarola. - Disse que quem trabalha como tu trabalhaste no devia ter que fazer o jantar, ainda por cima. Tens instrues para pores isto no congelador e prepar-lo da prxima vez que chegares a casa e precisares de sentar-te com os ps numa almofada. O que - acrescentou ele, continuando a observar-lhe o rosto - parece ser esta noite. Sim, pensou ela, quase demasiado razovel.
    - Ainda no tinha percebido como estava cansada. Agora que acabou tudo, estou de rastros.
    - Estiveste chorando.
    - Reao a posteriori. Alvio. - Levou a caarola para a cozinha, para guard-la, e depois pensou no que iria fazer a seguir. - Sobre esta noite, desculpa. Foi uma boa idia, sair para festejar. Talvez daqui a uns dias possamos... - Virou-se e chocou contra ele, ficando encostada  bancada.
    Houve uma exploso de desejo. Dela, dele, no teve a certeza.
    - Tiveste muito que fazer, hoje. - No lhe deu espao. Achou que j lhe tinha dado o suficiente. Pousou as palmas das mos na bancada, uma de cada lado de Tory. Prendeu-a ali. Viu-lhe nos olhos que ela percebeu o movimento. Viu que ela ficou alerta. - Muitas pessoas, e as recordaes que trazem com elas.
    - Sim. - Comeou a mexer-se e percebeu que no podia ir para lado nenhum. O seu sangue estava quente, pensou com algum embarao. Quente, rpido e vido. - As recordaes pareciam seixos atirados com uma fisga.
    Que tinham acabado por derrub-la.
    - Todas dolorosas.
    - No. - Meu Deus, no me toques. Mas no momento em que ela pensou isto, as mos dele pousaram nos ombros dela e comearam a descer-lhe pelos braos. Tudo dentro dela comeou a pulsar. - Foi maravilhoso ver a Lilah... e o Will Hanson. Est muito parecido com o pai. Quando era pequena, Mister Hanson, o velho Mister Hanson, costumava fiar-me Grape Nehi quando eu no tinha dinheiro. Coisa que acontecia muitas vezes. Cade...
    O nome dele soou quase como uma splica. No saberia dizer porqu.
    Estava tremendo. Os pequenos calos que ele tinha nas palmas das mos eram maravilhosamente estimulantes.
    - Gostei de te ver, hoje. Toda arranjada. Calma e fresca. Fico sempre pensando no que se passa debaixo dessa capa.
    - Estava nervosa.
    - No se notava. Pelo menos da maneira como se nota agora. Baixa as defesas, Tory. Quero que baixes as defesas. Vou aproveitar-me disso.
    - Cade, no tenho nada para dar-te.     
    - Ento, porque ests a tremer? - Tirou-lhe a fita do cabelo e ouviu a ligeira alterao da respirao dela. Fixou os olhos nos dela, vendo as ris escurecerem enquanto ele lhe penteava o cabelo com os dedos e desfazia o apanhado. - Porque no me mandas parar?
    - Eu... - Estaria sentindo os joelhos fraquejarem? Esquecera-se de que isso podia ser uma sensao maravilhosa. Rendio nem sempre significava fraqueza. - Estou pensando nisso.
    Ele sorriu, um sorriso divertido e com um prenncio de fora.
    - Ento, vai pensando. Eu vou-me aproveitando. - Desapertou-lhe o primeiro boto da camisa, depois o segundo.
    Ele ensinara Hope a andar de bicicleta, pensou Tory. Tinha apenas dez anos e fora homem suficiente para se preocupar.
    Hoje tinha-lhe mandado flores. As flores certas, porque sabia que iriam agradar-lhe.
    Agora estava a tocar-lhe como ningum lhe tocava havia muito tempo.
    - Estou destreinada.               
    Ele desapertou o terceiro boto.                                 
    - De pensar?
    - No. - A respirao dela soltou-se num riso trmulo. - Penso quase sempre muito bem.                                   
    - Ento, pensa nisto. - Deu um pequeno puxo na camisa, para desprend-la do cinto das calas. - Quero tocar-te. Quero sentir a tua pele com as minhas mos. Assim. - Passou as mos nas costas dela, para cima e para baixo. O estmago dela tremeu quando ele lhe desapertou as calas. - No, fica com os olhos abertos.
    Curvou-se sobre ela e mordeu-lhe o queixo. Uma pequena mordidela que lhe enviou uma dor ao centro do corpo.
    - Como ests destreinada, vou guiar-te. E quero que olhes para mim enquanto estou a tocar-te.
    Olha sempre em frente, dissera ele a Hope. E segurara-a.
    - Quero olhar para ti - disse-lhe ela.
    Ele abriu o fecho, lentamente, com os ns dos dedos a roarem a pele dela. O leve gemido que ela soltou troou-lhe nos ouvidos.
    Passara tanto tempo desde a ltima vez que um homem a desejara. Desde que um homem a fizera desejar. Quis ficar tensa, rgida,  idia de invaso da privacidade, de invaso do seu ser. Mas o corpo dela o desejava.
    - Tira os ps - murmurou ele, quando as calas dela lhe caram aos ps. Quando ela pestanejou e abriu a boca para falar, ele cobriu-a com a dele. Suave e quente, tranquilizadora at, mesmo deixando transparecer a impacincia.
    Depois, os braos dele envolveram-na, deslizando-lhe pelas costas, enquanto ele a levava, numa valsa de seduo, at  porta. Os nervos seguiram o calor que lhe subiu  pele.
    - Cade.
    - Quero levar-te para a luz. - Ela j era dele. Nenhuma barreira, nenhuma dvida o deteria. - Para poder ver-te quando estiveres debaixo de mim. Quando estiver dentro de ti.
     porta do quarto, pegou-a no colo.
    - H uma srie de coisas que imaginei fazer-te nesta cama. Deixa-me experimentar.
    O sol brilhava, rico e dourado, na tarde de primavera. Derramava -se sobre a cama, derramou-se sobre o rosto dela quando ele a deitou. O colcho cedeu sob o peso dele, e ele entrelaou os dedos nos dela. E a olhar para ela, sempre a olhar para ela, tomou-lhe a boca.
    Lentamente, primeiro, e docemente, at as mos dela cederem sob as dele, at os lbios dela se tornarem suaves e se entreabrirem num convite. Ele sentiu o corao dela comear a bater mais devagar e de forma mais densa. E quando ela se abriu a ele, ele mudou de registro e deu incio ao ataque.
    A urgncia sbita apunhalou-a, chocando os sentidos, cortando os nervos. Ela arqueou o corpo quando o calor se enovelou no estmago e o gemido se estrangulou na sua garganta. Ele f-la tremer convulsivamente com a boca.
    No queria que ela se antecipasse. Queria todos os seus sentidos entorpecidos e a sua mente vazia de tudo, exceto de prazer. Pensaria nele, apenas nele. Ele faria com que assim fosse. Quando ela mergulhasse nele, ele t-la-ia, finalmente.
    O corpo dela era leve, os msculos surpreendentemente firmes, quase rijos, num contraste delicioso com a pele delicada. Ele saboreou-a, enquanto uma parte dele pensava em como afastar aqueles nervos e destruir todas as barreiras.
    Puxou-a para cima, com rudeza,  beira de lhe deixar ndoas negras, arrancando-lhe outro gemido enquanto a cabea lhe tombava para trs, com o cabelo solto. Depois, com as pontas dos dedos, fez passar as alas do suti pelos ombros. Os dedos dele danaram levemente sobre os seios, e com o polegar circundou-lhe os mamilos, sobre o algodo.
    -J te lembras agora?
    Ela sentia a cabea to pesada, a pele to quente.
    - O qu?
    - Muito bem.               
    Ele desapertou-lhe o suti e atirou-o para o lado. Mas quando ela quis toc-lo, ele segurou-lhe as mos  cama, empurrando-as para trs at ela ficar com os braos esticados.
    - Quero que aproveites. Que aproveites at no poderes mais. Depois, podes soltar-te e dar. Tudo.
    A boca dele apossou-se da dela, movendo-se violentamente, arrebatando-a.
    Ela quis resistir, empurr-lo antes que ele a arrastasse para l de uma linha que ela jurara no voltar a atravessar. Mas a boca dele j voltava a tomar conta da boca dela, arranhando-a com os dentes, despertando com a lngua pontos de prazer dentro dela. As costas dela arquearam-se, num convite, e os lbios dela comearam a sug-lo. Pequenos gritos e gemidos, ela j no conseguia cont-los. Os braos tremiam-lhe de esforo, enquanto o seu corpo rejubilava. Uma agitao descontrolada tomava conta dela, querendo libertar-se.
    Um orgasmo intenso e rpido f-la abrir muito os olhos, deixando-a entorpecida e embaraada. Depois, ele puxou-a para si, agarrando-a com fora. - Solta-te.
    Deitou-a de costas na cama, arrancando a camisa. Ela tinha o olhar enevoado, agora, a respirao to ofegante como a dele. Desta vez, quando ela quis tocar-lhe, ele entrou no abrao dela.
    A boca dele tinha pressa, as mos moviam-se com impacincia. Ela puxou-lhe as calas, desesperada, agora que os nervos tinham sido tragados pelo desejo. Ele atirou-as para o lado e depois f-la voar quando a puxou subitamente pelas ancas e a tomou com a boca.
    As mos dela agarraram com firmeza os ferros da cama, como ele imaginara. A cabea dela descaiu-lhe para o lado, enquanto as sensaes mais secretas a invadiam. O sabor dele, o cheiro dele inundavam-lhe os sentidos, extravasando-os at no existir mais nada. A respirao dela soltou-se, numa convulso momentnea, antes do seu grito longo e inesperado de libertao.
    Ela sentiu as mos liquefazerem-se e ele prendeu-as com as suas. Tinha o corao a bater descompassadamente, numa fria de sangue. A derradeira luz do dia e a brisa da noite roavam o rosto dela. O cabelo dela era uma massa solta sobre as almofadas, emoldurando-lhe o rosto afogueado.
    
    Ele nunca se esqueceria disto. E ela tambm no, prometeu a si prprio.
    - Abre os olhos. Tory, olha para mim. - Quando as plpebras dela se abriram rapidamente, ele agarrou-se  ltima rstia de controle, inclinou a cabea e beijou-a longamente, profundamente. - Diz o meu nome.
    A presso voltara, o calor terrvel e glorioso da presso.
    - Cade.
    - Diz outra vez.
    Os dedos dela dobraram-se sob os dele. Teve vontade de chorar. Ou de gritar.                                                                      
    - Cade.        
    - Outra vez. - E mergulhou nela.
    A mente dela iluminou-se. Moveu-se com ele, ao encontro de cada impulso lento e suave. Absorvendo-o, alimentando-se de cada sensao, at ambos se transformarem numa celebrao gloriosa.
    Cade, quente e firme dentro dela, o seu peso slido, forte. A colcha macia nas costas dela, a barra de ferro contra as suas mos. E os ltimos raios de luz, acinzentando-se com o crepsculo.
    Quando o ritmo aumentou, ela estava pronta, ansiosa e enlevada pela forma como os olhos dele, o seu azul espantoso, se mantinham fixos nos dela.
    - Fica comigo. - Ele estava perdido dentro dela, agora. A afogar-se nela, agora. O corao dele batia brutalmente contra o de Tory quando ele enterrou a cara nos cabelos dela.
    Com as mos ainda entrelaadas, deixaram-se ir.        
    Nunca tinha sido tomada to completamente. Por ningum. Nem pelo homem que amara. Tory achou que devia estar preocupada com isso, mas naquele momento no conseguia reunir energia para preocupaes e anlises.
    Ficou deitada debaixo dele enquanto o ar no quarto adquiria a suavidade do crepsculo. Pela primeira vez em muito, muito tempo, sentia-se completamente descontrada, corpo e esprito.
    Tinha uma mo emaranhada no cabelo dele. Parecia certo deix-la ali.
    Quando ele virou a cabea e os seus lbios lhe roaram o seio, sorriu, sentindo o prazer lnguido do gesto.
    - Parece que, afinal, comemoramos - murmurou ela, e pensou se seria m educao deixar-se adormecer, assim mesmo.
    - Vamos ter muito mais ocasies para celebrar, daqui em diante. Desde que te ajudei a carregar esta cama at aqui que queria meter-te nela.
    - Eu sei. - Tinha os olhos quase fechados, mas sentiu-o mexer a cabea outra vez, sentiu-o a olhar para ela. - No foste muito sutil sobre o assunto.
    - Fui bem mais sutil do que queria. - Pensou em como pensara em ornamentar a primeira vez com msica e luz de velas.
    - Samo-nos bem sem elas - disse ela, sonolenta.
    - Sem o qu?
    - Sem a msica e... - Abriu os olhos de repente, horrorizada, e fixou os dele, que a observavam. - Desculpa. Desculpa. - Tentou empurr-lo. Libertar-se, mas o peso dele reteve-a.
    - Desculpa, porqu?
    - Eu no queria. - Pressionou as mos contra a cama, agarrou a colcha, quase comeando a tremer. - No vai acontecer outra vez. Desculpa. Eu no queria.                                                  
    - Ler-me o pensamento? - Ele mexeu-se, de modo a poder apoiar-se nos cotovelos e pegar-lhe no rosto com as mos. - Pra com isso.
    - Vou parar. Desculpa. Lamento imenso.               
    - No, raios. Pra de desculpar-te. Pra de antecipar as minhas reaes. E, raios partam, pra de pensar se e quando irei chatear-me contigo.
    Sentou-se e puxou-a para cima, para que ela pudesse olhar de frente para ele. O rosto dela perdera aquele brilho de cor e de felicidade e estava plido, os olhos estavam aflitos, quase aterrorizados.
    Ele detestou isso.
    - Alguma vez te ocorreu que talvez haja alturas em que um homem no se importa que uma mulher lhe leia o pensamento?
    -  uma invaso de privacidade indesculpvel.
    - Pois sim. - Para surpresa dela, ele rolou para o outro lado e f-la rolar com ele, pelo que ela ficou deitada em cima do seu peito. - Parece-me que h uns minutos atrs invadimos a privacidade um do outro de uma forma bastante eficaz. Vai-me roubando um pensamento ou outro, que eu logo te digo se ficar chateado.
    - No te entendo.
    - Devias ter uma boa pista, j que estou aqui deitado, nu, na tua cama. - Manteve um tom de voz propositadamente despreocupado.
    - Se isso no te serve, volta a observar bem e logo vs o que encontras.
    Ela no sabia se havia de sentir-se insultada ou horrorizada.
    - No  assim.
    - No? Ento diz-me como . - Quando ela abanou a cabea, ele segurou-a pela nuca e comeou a afag-la. - Diz-me como .
    - Eu no leio pensamentos. No acontece por acaso, pelo menos quase nunca acontece. S que estvamos muito prximos fisicamente.
    - No consigo contra-argumentar.
    - E eu estava quase a dormir. s vezes, pode aparecer quando me deixo ir, assim. Tu tinhas uma imagem na cabea. Era uma idia muito clara, muito distinta, e aconteceu. Luz de velas, a msica a tocar, ns dois de p, junto  cama. Vi-a na minha cabea.
    - E o que tinhas vestido? - Quando ela abanou a cabea, ele encolheu os ombros. - Deixa l. Posso guardar esse para mim. Tu recebes imagens, imagens de pensamentos.
    - s vezes. - Ele parecia to descontrado, to a vontade. Onde estava a fria dele? - Meu Deus, tu me confundes.
    - Ainda bem, assim vais querer saber mais sobre mim. E isso funciona sempre assim?
    - No, no. Porque quando se tem alguma decncia, no se anda a espreitar os pensamentos privados dos outros. Consigo bloque-los.  simples, porque de qualquer forma eles s vm ter comigo com esforo, ou se houver muita emoo de ambos os lados. Ou se eu estiver muito cansada.
    - Est bem. Ento, da prxima vez que fizermos amor e tu estiveres a deixar-te dormir, o melhor  eu tirar da cabea as mjnhas fantasias sobre a Meg Ryan.
    - Meg... - Perplexa, Tory voltou a sentar-se, cruzando automaticamente um brao sobre os seios. - Meg Ryan.
    - Perfeita, atraente, inteligente. - Cade abriu os olhos. - Parece ser o meu tipo. - Inclinou a cabea e observou-a. - Estou tentando imaginar-te loura. Podia dar certo.
    - No vou fazer parte de uma fantasia doentia que cozinhaste sobre uma atriz de Hollywood. - Impaciente, fez meno de sair da cama e voltou a achar-se deitada de costas, debaixo dele.
    - V l, querida, s desta vez.                  
    - No.
    - Meu Deus, tu riste. A Meg tem um riso sensual, assim. - Mordeu o ombro de Tory. - Agora estou excitado.            
    - Larga-me, seu idiota.
    - No posso. - Cobriu-lhe o rosto de beijos, loucos e doces como os de um cachorro. - Sou vtima das minhas fantasias, no posso fazer nada. Ri outra vez. Estou a implorar-te.
    - No! - Mas riu. - No! Nem sequer penses em... Credo! - As gargalhadas e as tentativas de libertao pararam quando ele deslizou suavemente para dentro dela. Os lbios entreabriram-se-lhe e as mos dela agarraram os quadris dele. - No te atrevas a chamar-me Meg.
    Ele baixou a cabea, contendo o riso enquanto voltava a faz-la sua.
    Comeram a refeio que Lilah mandara e acompanharam-na com vinho. E voltaram para a cama, com a avidez e a energia que alimenta os novos amantes. Fizeram amor ao luar, com os raios prateados sobre os seus corpos juntos. Depois, dormiram com as janelas abertas para deixar entrar a brisa suave e os cheiros verdes do pntano.
    
    - Ele vem a outra vez.
    Hope estava sentada, de pernas cruzadas, no alpendre da Casa do Pntano. O alpendre que no existia quando ela estava viva. Tinha a mo cheia de peas de metal do jogo das trs-marias e comeou a jogar.
    - Ele est vendo.
    - Quem? Quem est ele vendo? - Tory voltara a ter oito anos, o rosto magro desconfiado, as pernas cheias de ndoas negras.
    - Gosta de fazer mal s meninas. - Lanou a ltima pea e voltou a apanh-la. - Sente-se grande, importante. Dois a dois. - Mantendo o ritmo, comeou a fazer pares.
    - Ele tambm fez mal a outras meninas. No foi s a ti.
    - No foi s a mim - concordou Hope. - Tu j sabes. Trs a trs. - As peas batiam umas nas outras e a bola batia metodicamente na madeira. Uma ligeira brisa volteava, misturada com o aroma das rosas e das madressilvas. - Tu j sabes, como quando viste a fotografia do rapazinho, daquela vez. Tu soubeste.
    -J no consigo fazer isso. - Dentro do peito da criana, o corao de Tory comeou a aumentar de tamanho e a bater com fora. - J no quero fazer isso.
    - Vieste - disse Hope, simplesmente, e comeou a apanhar as peas quatro a quatro. - Tens de ter cuidado para no ires demasiado depressa, nem demasiado devagar - prosseguiu ela, continuando a jogar. - Ou perdes a vez.
    - Diz-me quem ele , Hope. Diz-me onde ele est.
    - No posso. - Apanhou outro conjunto, mas depois uma das peas escapou-lhe. - Ups. - Olhou para Tory, com olhos lmpidos. -  a tua vez, agora. Tem cuidado.
    
    Tory abriu os olhos de repente. Tinha o corao a bater contra as costelas e a mo fechada num punho apertado. To apertado que quase ficou surpreendida por no rolar l de dentro uma pequena bola vermelha quando abriu os dedos doridos.
    Estava completamente escuro. A lua desaparecera e deixara o mundo na perfeita escurido. A brisa suave desaparecera com ela, por isso o ar estava quieto. Silencioso.
    Ouviu um mocho e o som estridente das rs. Ouviu a respirao regular de Cade, a seu lado, no escuro, e percebeu que se chegara para a beira da cama, afastando-se dele o mais possvel.
    Nenhum contacto durante o sono. A mente estava demasiado vulnervel para dar-se ao luxo de um abrao casual.
    Esgueirou-se da cama e foi at  cozinha, em bicos de ps. No lava-loua, abriu a torneira e deixou correr a gua at esfriar, e depois encheu um copo.
    O sonho dera-lhe uma sede desesperada, e recordara-lhe porque no devia estar a dormir com Kincade Lavelle.
    A irm dele estava morta, e se ela no era a responsvel sentia-se como tal. J se sentira assim antes e avanara. O caminho que tomara trouxera-lhe grandes alegrias e uma dor enorme. Nessa altura, dormira com outro homem e entregara-se sem reservas e com um amor inocente.
    Quando o perdera, perdera tudo, e prometera a si prpria nunca mais voltar a fazer aquele tipo de escolha, a cometer aquele tipo de erro.
    No entanto, ali estava ela, aberta a toda aquela dor pela segunda vez.
    Cade era o tipo de homem por quem as mulheres se apaixonavam. O tipo de homem por quem ela podia apaixonar-se. Depois de dado esse passo, coloria todos os pensamentos, todas as aes e sentimentos. No espectro da felicidade. No cinzento profundo do desespero.
    Por isso, no podia dar este passo. Outra vez, no. Teria de ser suficientemente sensvel para aceitar a atrao fsica, apreciar os resultados dessa atrao e manter as emoes  parte e controladas. Que outra coisa tinha ela feito ao longo de quase toda a sua vida?                                                                                                        
    O amor era uma coisa temerria e perigosa. Havia sempre qualquer coisa  espreita na sombra, vida e maliciosa,  espera.
    Levou o copo aos lbios e viu. Do outro lado da janela, do outro lado do escuro. Nas sombras, pensou, lentamente.  espera. E o copo escorregou-lhe das mos e espatifou-se no lava-loua.
    - Tory? - Cade acordou de repente e chamou-a, saltou da cama e caminhou na escurido, aos tropees. Praguejando, correu na direo da cozinha.
    Ela estava ali, sob a luz, com as mos no pescoo, a olhar fixamente para a janela.
    - Est algum no escuro.                           
    - Tory. - Viu o brilho do pedao de vidro que saltara do lava-loua para o cho. Pegou-lhe nas mos. - Ests ferida?
    - Est algum no escuro - repetiu ela, numa voz muito parecida com a de uma criana. -  espreita. No escuro. J esteve aqui antes. E vai voltar. - Os olhos dela fixaram os de Cade, viram atravs deles, e tudo o que ela viu foi sombras, silhuetas. E sentiu frio. Muito frio.
    - Ele vai ter de matar-me. No sou eu, mas ele vai ter de matar-me, porque eu estou aqui. A culpa  minha. Toda a gente consegue ver isso. Se eu tivesse ido com ela naquela noite, ele s teria ficado  espreita. Como j tinha feito. S teria ficado  espreita, a imaginar-se a fazer aquilo. A imaginar e a usar a mo, para poder sentir-se um homem.
    Os joelhos vacilaram-lhe, mas protestou quando Cade a agarrou.
    - Estou bem. S preciso de me sentar.
    - Deitar - corrigiu ele. Quando voltou a lev-la para a cama, vestiu as calas. - No saias daqui.
    - Onde vais? - O terror sbito de ficar sozinha devolveu-lhe a fora nos joelhos. Ps-se de p de um salto.
    - Disseste que estava qualquer coisa l fora. Vou ver.
    - No. - Agora, todo o medo era por ele. - No  a tua vez.
    - O qu?
    Ela juntou as duas mos e afundou-se no colcho.
    - Desculpa. A minha cabea est confusa. Ele foi-se embora, Cade. No est l fora agora. Esteve a espreitar, antes, acho que era antes. Quando ns... - Sentiu-se enjoada. - Quando estivemos a fazer amor, ele esteve a espreitar.
    Com um sorriso estranho, Cade acenou com a cabea.
    - Seja como for, vou ver.
    - No vais encontr-lo - murmurou ela, enquanto Cade saa.
    
    Mas ele queria encontr-lo. Queria encontrar algum e usar os seus punhos, usar a sua fria. Acendeu as luzes do exterior e observou a rea varrida pela luz amarela e plida. Foi at  sua camioneta, tirou uma lanterna da caixa de ferramentas e a faca que guardava ali.
    Armado, deu a volta  casa, apontando a luz para o cho e para as sombras. Perto da janela do quarto, onde a erva precisava de ser aparada, acocorou-se junto a uma rea pisada, onde podia ter estado um homem.
    - Filho da me. - Soltou a frase entre dentes e a mo apertou mais o cabo da faca. Endireitou-se e virou-se, pronto a encaminhar-se na direo do pntano.
    Ficou ali, a lutar contra a impotncia. Podia ir, dar uma vista de olhos, despejar alguma da sua ira. E deixar Tory sozinha.
    Optou por voltar para dentro e deixou a faca e a lanterna em cima da mesa da cozinha.
    Ela continuava ali sentada, com as mos fechadas sobre os joelhos. Levantou a cabea quando ele entrou, mas no disse nada. No foi preciso.
    - O que fizemos juntos ali dentro foi nosso - disse Cade. - Ele no muda isso. - Sentou-se ao lado dela e pegou-lhe na mo. - No consegue, se no o deixarmos.                
    - Ele tornou tudo uma coisa suja.
    - Para ele, para ns no. Para ns no, Tory - murmurou, virando o rosto dela para si.
    Ela suspirou e tocou-lhe com os dedos nas costas da mo.
    - Ests to zangado. Como consegues controlar-te assim?
    - Dei uns pontaps na minha camioneta. - Deu-lhe um beijo no cabelo. - Queres dizer-me o que viste?
    - A raiva dele. Mais negra do que a tua poderia ser alguma vez, mas no... No sei como explicar, no era substancial, no era real. E uma espcie de orgulho. No sei. Talvez seja mais uma satisfao. No consigo ver isso, ver a ele. No sou eu quem ele quer, mas ele no pode deixar-me ficar, no pode confiar em mim por eu ser to prxima de Hope.
    - No sei se so os meus pensamentos ou os dele. - Ela fechou os olhos, com fora, e abanou a cabea. - No consigo v-lo claramente.  como se faltasse alguma coisa. Nele ou em mim, no sei. Mas no consigo v-lo.                                                        
    - No foi um estranho que a matou. Como pensamos todos estes anos.
    - No. - Ela voltou a abrir os olhos e afastou-se do seu sofrimento, concentrando-se no dele. - Foi algum que a conhecia, que a observava. Que nos observava. Acho que eu sempre soube disso, mesmo naquela altura, mas tinha tanto medo que no disse. Se tivesse voltado l naquela manh, se tivesse tido coragem de ir l contigo e com o teu pai em vez de vos ter dito onde ela estava, talvez tivesse visto. No tenho a certeza, mas talvez tivesse. E teria acabado tudo.
    - No sabemos. Mas podemos comear a pr um fim a tudo, agora. Vamos chamar a polcia.
    - Cade, a polcia... - Sentiu sua garganta se fechar. -  muito raro que a polcia me oua, mesmo os polcias de mente mais aberta. No espero encontrar algum dessa raa aqui, em Progress.
    - O chefe Russ pode levar algum tempo a se convencer, mas vai ouvir-te. - Cade assegurar-se-ia disso. - Porque no vais vestir-te?
    - Vais telefonar-lhe agora? s quatro da manh?
    - Sim. - Cade pegou no telefone que estava em cima da mesa-de-cabeceira. -  para isso que lhe pagam.
     
    O chefe da polcia, Cari D. Russ, no era um homem grande. Aos dezesseis anos atingira a altura de um metro e sessenta e cinco e por a ficara.                
    No era um homem bonito. Tinha o rosto largo e picado de bexigas, com as orelhas presas de cada lado como asas de chvena gigantes. O cabelo era grisalho como uma almofada gasta.
    Tinha uma constituio bastante magra. Bem vestido e ensopado at aos ossos.
    Os seus antepassados tinham sido escravos, trabalhado nos campos. Mais tarde, tinham sido rendeiros nuns parcos metros de terra, de onde retiravam apenas o suficiente para o sustento familiar.
    A me ambicionara mais para ele, e forara, insistira, dera sermes e ameaara at que, sobretudo por autodefesa, ele se dispusera a querer mais.
    A me de Cari D. gostava do fato de o seu rapaz ser chefe da polcia, quase tanto como ele prprio.
    No era um homem brilhante. A informao se cruzava no seu crebro, percorria os seus meandros, enveredava por caminhos e desvios at assentar em pensamentos. Tinha tendncia para trabalhar muito e ser muito lento.
    Tinha tambm tendncia para ser exaustivo.
    Mas, acima de tudo, Cari D. era afvel.
    No praguejou nem resmungou por ser acordado s quatro da manh. Limitou-se a vestir, s escuras para no incomodar a mulher. Deixou-lhe um bilhete na cozinha e meteu no bolso a ltima lista de coisas que ela anotara para ele fazer.
    
    -Isso foi a pior coisa que aconteceu por estes lados. O chefe Tate achou que tinha sido um vagabundo a fazer aquilo  menina. Nunca encontrou qualquer prova em contrrio.
    - Nunca encontrou nada - corrigiu Tory. - Quem a matou conhecia-a. Tal como me conhece, e a si, e ao Cade. Conhece Progress. Conhece o pntano. E esta noite veio  janela da minha casa.
    - Mas no o viu?
    - No da maneira que est a dizer.
    Cari D. recostou-se na cadeira e franziu os lbios. Pensou um pouco.
    - A av da minha mulher, do lado da me, tem longas conversas com parentes que j morreram. No vou dizer que isso  verdade ou que no , porque no sou eu que tenho essas conversas. Mas no meu trabalho, Miz Bodeen, tudo se resume a fatos.
    - O fato  que eu soube o que tinha acontecido  Hope, e onde ela estava. O homem que a matou sabe isso. O chefe Tate no acreditou em mim. Concluiu que eu tinha estado ali, com ela, e que tinha fugido com medo. Que a tinha deixado ali. Ou que a tinha encontrado depois de ela estar morta e tinha ido para casa, esconder-me at de manh.
    Havia bondade nos olhos de Cari D. Criara duas filhas.
    - A menina pouco mais era do que um beb.
    - Mas agora sou adulta, e estou lhe dizendo que o homem que matou a Hope esteve ali fora, esta noite. J matou outras moas, pelo menos mais uma. Uma moa a quem deu carona na estrada para Myrtle Beach. E j tem mais algum em mira. Mas no sou eu. No  a mim que ele quer.
    - Consegue  dizer-me  tudo  isto,  mas  no  consegue  dizer-me quem ele .
    - No, no consigo. Mas posso dizer-lhe o que ele . Um psicopata, que acha que tem o direito de fazer o que faz. Porque ele precisa disso. Precisa da excitao e do poder que isso lhe d. Um misgino, que acredita que as mulheres existem para serem usadas pelos homens. Um assassino em srie, que no tem qualquer inteno de parar ou de ser parado. Tem dezoito anos disto - disse ela, calmamente. - Porque haveria de parar?
    - No lidei muito bem com o assunto.
    Cade fechou a porta de trs e voltou a sentar-se  mesa. Ele e Cari D. tinham percorrido a propriedade e vasculhado as orlas do pntano. No tinham encontrado nada, nenhuma pegada, nenhum pedao de tecido preso num ramo.
    - Disseste-lhe o que sabes.                                 
    - Ele no acredita em mim.                                                      
    - Quer acredite, quer no, vai fazer o que tem a fazer.
    - Pois, como fizeram h dezoito anos.
    Por um momento ele no disse nada. A recordao daquela manh significava sempre um murro sbito e forte no estmago.
    - Quem ests a culpar, Tory? A polcia ou tu prpria?
    - Ambas. Ningum acreditou em mim e eu no consegui explicar-me. Sabia que ia ser castigada, e que quanto mais dissesse pior seria o castigo. Acabei por fazer o que pude para me preservar.
    - No foi o que fizemos todos? - Ele afastou-se da mesa e aproximou-se do fogo para servir-se de uma chvena de caf que no queria. - Eu sabia que ela tinha sado de casa naquela noite. Sabia que ela estava planejando esgueirar-se. No disse nada, nem naquela altura, nem no dia seguinte, nem nunca, sobre ter visto a bicicleta dela escondida. Naquela noite considerei isso uma espcie de cdigo de honra. No se faz uma denncia, a no ser que se consiga alguma coisa em troca. Que mal tinha ela querer pegar a bicicleta e ficar fora de casa algumas horas?                                                   
    Virou-se, e viu Tory a olhar para ele.
    - No dia seguinte, quando a encontramos, no disse nada. Isso tambm foi autopreservao. Haviam de culpar-me, tanto como eu me culpava a mim prprio. E passado algum tempo, parecia j no valer a pena. Faltava-nos um pedao a todos, e nunca poderamos recuper-lo. Mas consigo voltar quela noite, rev-la na minha cabea. S que desta vez conto ao meu pai que ela tem a bicicleta escondida, e ele vai busc-la e d um grande sermo  Hope. Na manh seguinte, ela acorda na cama dela, sem lhe ter acontecido nada.
    -  Lamento.                                                                                                                             
    - Oh, Tory. Tambm eu. H dezoito anos que lamento. E durante esse tempo tenho visto a irm que me resta fazer tudo o que pode para estragar a vida. Vi o meu pai afastar-se de todos ns, como se estar conosco o magoasse mais do que ele podia suportar. E a minha me fechar-se atrs de camadas e camadas de amargura e de modos requintados. Tudo porque eu estava mais interessado nas minhas coisas do que em saber se a Hope estava deitada na cama dela, onde devia estar.
    - Cade. teria acontecido noutra noite.
    
    - Negcios?
    - Tenho as tais amostras l fora, na camioneta. Vou busc-las e depois fazemos negcio.
    Tory olhou para o relgio. Ainda mal eram sete horas.
    - Porque no? Desta vez, fazes tu o caf.
    Faith esperou at s dez e meia, quando teve a certeza de que a me e Lilah tinham sado para a missa. H muito que a me deixara de esperar que Faith fosse  missa ao domingo, mas Lilah tinha a cabea dura quanto a estas questes de Deus, e considerava-se muitas vezes o Seu sargento mandatrio, arrancando as tropas da cama e mandando-as para a igreja sob ameaas de condenao eterna.
    Sempre que ela estava em casa, Faith tinha o cuidado de se esconder e de se esconder bem, aos domingos de manh. Compensava-a ocasionalmente, usando um vestido modesto e apresentando-se na cozinha para que Lilah pudesse arrast-la em direo  redeno.
    Mas naquele domingo no estava com disposio para fazer favores a ningum, nem para se sentar num banco duro, a ouvir um sermo. S queria afogar as mgoas numa tigela de sorvete de chocolate ao pequeno-almoo, e no se esquecer de que os homens eram uns grandes filhos da me.                                          
    Quando pensava em todo o trabalho a que se dera por causa de Wade Mooney, tinha vontade de vomitar. Tinha espalhado creme perfumado por todo o corpo, vestido a lingerie mais sexy que o dinheiro podia comprar, e estava disposta a deix-lo arrancar aqueles pedaos de cetim e de renda. Calara uns sapatos com um salto de dez centmetros e metera-se num vestido preto e minsculo que gritava Quero pecar.
    Vasculhara a adega,  procura de duas garrafas que custavam mais do que um curso universitrio e que iam fazer com que o Cade a esfolasse viva, se descobrisse.
    E quando chegara a casa de Wade, toda aprumada, resplandecente e perfumada, ele no tivera a decncia de estar em casa.
    Filho da me.
    Pior, esperara por ele. Arrumara-lhe o quarto como uma empregada, acendera velas, pusera msica. Depois, quase adormecera durante a espera.
    Esperara mais uma hora, at quase  uma da manh, j movida por um objectivo diferente. Como desejara que ele entrasse por aquela porta para ela poder dar-lhe uns bons pontaps no rabo e atir-lo das escadas abaixo. 
    Por culpa dele ficara meia bbeda com o vinho, e por culpa dele, devido ao lcool que tinha no sangue, calculara mal a distncia entre os portes e riscara o carro.
    Por isso, era dele a culpa por ela estar ali sentada num domingo de manh, com uma ressaca miservel, a empanturrar-se de sorvete.
    Nunca mais queria v-lo.
    Na verdade, pensou em desistir dos homens definitivamente. No valiam o tempo nem o trabalho a que se dava uma mulher. Ia expuls-los da vida dela e encontrar outras reas de interesse.
    Cade entrou no momento em que Faith voltava a meter a colher na embalagem de quase dois litros de sorvete, e como sabia o tipo de disposio que conduzia quele tipo de comportamento tentou esgueirar-se.
    Mas no foi suficientemente rpido.
    - Senta-te. No vou morder-te. - Acendeu um cigarro e depois continuou, fumando com uma mo enquanto comia com a outra. - Foram todos  igreja, salvar as suas almas imortais. A Tia Rosie foi com a Lilah, acho eu. Gosta mais de ir  igreja da Lilah do que  da me. Vi-as sair. A Tia Rosie tinha um chapu grande como um prato para servir um peru e uns tnis verde-lima, por isso no pode ter ido com a me.
    - Foi uma pena eu ter perdido isso. - Pegou numa colher, sentou-se e tirou um pouco de sorvete. - Ento, que se passa?
    - Porque havia de passar-se alguma coisa? Estou contente como um ganso com um ninho de ovos de ouro. - Soprou o fumo, semi-cerrou os olhos e olhou-o fixamente.                               
    Tinha o cabelo um pouco mido, por isso as pontas douradas estavam viradas para fora. Isso significava uma ducha tomada h pouco tempo, j que Cade nunca se dava ao trabalho de fazer mais do que esfreg-lo numa toalha para sec-lo.
    Os olhos, azuis como os dela, estavam preguiosamente satisfeitos, e os lbios se curvavam num sorriso meio trocista.
    Ela conhecia o tipo de atividade que punha aquele olhar no rosto de um homem.
    - Trazes a mesma roupa de ontem. No vieste a casa, pois no? Ora, ora, ora. Acho que algum teve sorte, ontem  noite.
    Cade lambeu a colher e observou-a.
    - E eu acho que algum no teve. No vou ficar aqui a discutir a minha vida sexual enquanto comes o teu sorvete ao pequeno-almoo.
    - Tu e a Tory Bodeen. No  uma perfeio?    
    - Eu gosto. - Cade tirou mais uma colher de sorvete. - No te metas, Faith.
    - Porque havia de meter-me? Que me importa isso? S no entendo o que vs nela, s isso.  bonita, mas h uma espcie de frieza  volta dela. Mais cedo ou mais tarde, vai congelar-te. Ela no  como ns.
    - Terias uma opinio diferente, se te desses ao trabalho de conhec-la. Ela precisa de uma amiga, Faith.
    - Bem, no olhes para mim. Sou uma amiga reles. Podes pedir a outra pessoa. E nem sequer gosto muito dela. Se queres enrolar-te com ela umas quantas vezes, o problema  teu. - Ei! - Olhou para cima, insultada e surpreendida quando ele lhe agarrou o pulso e lhe prendeu bruscamente ambas as mos  mesa.
    - No  nada disso. - A voz dele era suave como seda, e nos seus olhos havia uma luz ameaadora. - O sexo no  um passatempo para toda a gente.
    - Ests me magoando.
    - No, tu  que ests te magoar. - Soltou-a e depois levantou-se e atirou a colher para o lava-loua.
    Faith esfregou o pulso cuidadosamente.
    - O que estou a fazer  a certificar-me de que no sou magoada. Se tu queres entregar o teu corao para algum poder pis-lo,  contigo. Mas de uma coisa eu tenho a certeza: no queres apaixonar-te pela Tory.  uma coisa que nunca vai dar certo.
    - No sei se quero ou no. No sei se vai dar certo ou no. - Virou-se. - O que pareces no saber, Faith,  como s parecida com ela. As duas empenhadas em conter os vossos sentimentos, para no correrem o risco de qualquer coisa poder magoar-vos. Ela faz isso fechando-se nela prpria, e tu fazendo um espalhafato. Mas no fundo  a mesma coisa!
    - Eu no sou como ela! - Faith gritou a frase enquanto ele saa da cozinha. - No sou como ningum, sou como eu e mais nada!
    Furiosa, atirou a colher para o cho, e deixando o sorvete derreter em cima da mesa subiu as escadas, pisando os degraus com fora, para ir vestir-se.                                 
    Tinha de descarregar em algum, e por isso, apesar de o pensamento dela continuar fixo em Wade, ele foi o eleito. Vestiu-se tambm para esta ocasio. Tinha o seu orgulho, e queria ter um ar deslumbrante quando lhe trespassasse o corao, o rasgasse em mil pedaos e depois o deitasse para o lixo e se afastasse, a danar e a cantar de felicidade.
    Vestiu-se de seda azul-profundo, para realar os olhos e faz-lo lembrar-se deles. Preparou-se para abrir de par em par a porta do apartamento dele, mas deteve-se e bateu formalmente.
    Ouviu uivos e latidos do outro lado e revirou os olhos. Levara um dos seus rafeiros nojentos l para cima. Como se tinha deixado chegar a este ponto com um homem que pensava mais num co vadio do que numa mulher que queria saltar-lhe para os ossos?
    Graas a Deus que ela tivera juzo.
    Ele abriu a porta, em desalinho, com olhos sonolentos, usando apenas um par de calas de brim cujo boto no se dera ao trabalho de apertar. E ela lembrou-se como chegara quele ponto com aquele homem.
    Sentiu-se agitada mas ignorou a sensao e meteu-lhe a chave na mo.                                                                        
    - Que foi?
    - Isto  s para comear. Tenho umas coisas para te dizer e depois vou-me embora. - Deu-lhe um empurro e entrou. Usava saltos altos, o que lhe realava as pernas sob o vestido curto. Apenas para atorment-lo.                      
    - Que horas so?
    Cerrou os dentes. Ele estava a destruir o timing que ela programara.                                                                              
    -  quase meio-dia.                                                                       
    - Meu Deus, no pode ser. Tenho que estar em casa da minha me daqui a uma hora. - Deixou-se cair numa cadeira e enterrou a cabea nas mos. - Devo estar morto daqui a uma hora.
    - Vais estar, se eu tiver uma palavra a dizer sobre o assunto. - Baixou-se, cheirou e recuou. - Cheiras ao fundo de uma garrafa de bourbon barato.
    - Foi uma garrafa cara, e eu no estou dentro dela. Ela  que est dentro de mim. - Sentiu o estmago perigosamente revolto. - Por enquanto.
    - Muito bem. - Ps as mos nas ancas. - Andaste metade da noite s gatas e a beber. Espero que te tenhas divertido.
    - No tenho bem a certeza. Acho que quando comecei diverti-me.
    - Porque - continuou ela, furiosa com a interrupo -, daqui em diante, por mim podes passar todas as noites de sbado assim.
    O cime atacou subitamente, cortando o orgulho  sua passagem.
    - Quem diabo foi ela?
    - Quem? - Decidiu arriscar e deixou de apoiar a cabea. Ficou vagamente desiludido por ela no lhe ter rolado dos ombros. - Quem foi quem?
    - A pegazita com quem pensas que podes andar a trair-me. - Pegou na coisa que tinha mais  mo, uma pequena luminria, puxou o fio que a ligava  corrente e arrancou-o. O resultado despoletou latidos no quarto e levou Wade a pr-se de p, ainda que pouco firme.
    -  Seu filho da me. Ela ainda est aqui?
    - Quem? Que diabo se passa contigo? Partiste a minha luminria.
    - E vou partir-te o pescoo. - Redemoinhou e correu para o quarto, tencionando arrancar os olhos  mulher que lhe usurpara o lugar.                                    
    Na cama estava um cachorro pequeno e preto, que ladrava furiosamente, tentando proteger-se contra as almofadas.
    - Onde est ela?
    - Quem? - Wade lanou as mos  cabea. Tinha o cabelo espetado e parecia ter sido esmurrado em ambos os olhos. - Onde est quem? De que raio ests tu a falar, Faith?
    - Da devassa com quem andas a dormir.
    - A nica devassa com quem tenho andado a dormir, alm de ti,  aquela. - Apontou para a cama. - E ela s est aqui h umas horas.  verdade, no significa nada para mim.
    - Pensas que podes fazer piadas acerca disto? Onde estiveste, a noite passada?                          
    - Sa. Raios partam! - Entrou no banheiro, revolvendo frascos e caixas enquanto procurava uma aspirina no armrio dos medicamentos.
    - Saste, muito bem. Cheguei aqui s nove e fiquei at quase  uma... - Bolas, no queria dizer-lhe que tinha esperado tanto tempo.
    -  E tu no apareceste.
     beira do descontrole, engoliu quatro comprimidos com gua morna, diretamente da torneira.
    - No me lembro de termos combinado nada para a noite passada. Tu no gostas de fazer planos. Amarra-te, tira a animao s coisas. - Encostou-se ao lavatrio e olhou para ela de uma forma ameaadora. - Pois bem, isto  animado.                             
    - Era sbado  noite. Devias saber que eu vinha.
    - No, Faith, eu no tenho de saber nada. Tu no queres que eu saiba nada!
    Ela inclinou a cabea. Estavam a desviar-se do assunto.
    - Quero saber onde estiveste e com quem estiveste.
    - So muitas exigncias por parte de algum que no quer amarras. - Os olhos dele pareciam pulsar como tambores, mas podiam ficar ainda pior. - Sexo hetero, divertimento e jogos. No so estas as regras bsicas?
    - Eu no engano ningum - disse ela, com alguma dignidade. - Quando estou com um homem, no ando a sair com outro. E espero o mesmo tipo de considerao.
    - Eu no estive com outra mulher. Estive com o Dwight.
    - Ora, isso  uma mentira da treta. O Dwight Frazier  um homem casado e no passou metade da noite a beber e na orgia contigo.
    - No sei onde ele esteve depois das dez. Metido com a Lissy, em casa, acho eu. Foram ao cinema e eu tambm fui. - A voz tornara-se inexpressiva, os olhos frios e baos. - Eles foram para casa. Eu comprei uma garrafa e fui dar uma volta de carro. Embebedei-me e voltei para casa. E se tivesse feito qualquer outra coisa com qualquer outra pessoa, seria livre de o fazer. Tal como tu s. Foste tu que quiseste assim.                              - Eu nunca disse isso.                    
    - Nunca disseste outra coisa.      
    - Estou a dizer outra coisa agora.
    - No pode ser tudo como tu queres, Faith. Se quiseres mudar as coisas, se quiseres que sejamos tu e eu, ento vamos comear a juntar algumas das minhas regras.
    - Eu no disse nada sobre regras. - Ele estava a retorcer as coisas. Exatamente como os homens costumavam fazer. - Estou a falar de respeito mtuo.
    - E isso significa que tenho que ficar aqui sentado  espera que te apetea companhia? No acho. Cada um de ns anda por onde quer quando no queremos estar juntos. Ou ento fazemos disto uma relao. Nada de escapadelas at aqui ou at algum hotel de estrada. Vamos deixar de fingir que no estamos envolvidos. Ou somos um casal ou no somos.
    - Ests a fazer ultimatos? - A voz adquiriu um tom brusco, vergastada pelo choque. - Ests a fazer-me ultimatos depois de me teres deixado aqui uma srie de horas  espera?
    - Frustrante, no ? A espera. Faz-te sentir chateada. - Desencostou-se do lavatrio e aproximou-se dela. - Faz-te sentir usada e arrependida e magoada. Eu sei.
    Encurralada, passou a mo pelo cabelo.                   
    - Nunca disseste nada sobre isso.
    - Terias sado disparada como um raio.  esse o teu estilo, Faith. Esta noite, quando estava sentado junto ao rio, com uma garrafa por companhia, ocorreu-me que no gostava disso em ti, como tambm no gostava de te deixar ser assim comigo. Por isso, estou a dizer-te. Ou tentamos que isto d certo, como duas pessoas que se importam uma com a outra, ou vai cada um para seu lado.
    - Sabes que gosto de ti, Wade. O que achas tu que eu sou? Era mais do que isso, pensou ele, tratava-se do que ela achava que ela prpria era.
    - Houve uma altura em que teria ficado contigo a qualquer preo. Esse tempo j l vai. Agora quero mais, Faith. Se no me podes ou no me queres dar mais, vou  viver com isso. Mas no quero continuar a aceitar migalhas.                                           
    - No compreendo isto. - A tremer, sentou-se na beira da cama. O cachorro rastejou at junto dela, para cheir-la. - No percebo como podes fazer-me isto.
    - A ti no, Faith. A ns. Quero que seja a ns, Faith. Estou apaixonado por ti.
    - O qu? Ests doido? - Voltou a levantar-se, com o pnico a sair-lhe por todos os poros. - No digas isso.
    -J o disse antes, mas tu nunca ouviste. No era suficientemente importante. Desta vez vai ter de ser, ou no vou voltar a diz-lo. Estou apaixonado por ti. - Agarrou-a pelos ombros. -  assim, faas o que fizeres.         
    - E o que queres tu que eu faa? - Sentiu o corao a pulsar-lhe no estmago, reconhecendo nisso uma sensao de puro pnico. - Ai, isto  uma trapalhada.
    - A resposta que costumas dar-me quando te digo que te amo  fugir e casar com outra pessoa. - Ele ergueu o sobrolho, enquanto ela ficava de boca aberta.
    - Isso no... Eu no... - Santo Deus, ele tinha razo. Era essa a resposta que costumava dar-lhe.              
    - Desta vez podamos tentar outra coisa. Podamos tentar lidar com isto como pessoas normais, e ver no que d. Podamos passar tempo um com o outro e fazer mais coisas juntos do que saltar para a cama. H mais entre ns do que sexo.                                            
    Ela fungou.
    Ele soltou um pequeno riso e fez-lhe uma festa no cabelo.
    - Est bem, digamos que quero descobrir se h mais entre ns, alm do sexo.
    - E se no houver?
    - E se houver?
    - E se no houver? Ele suspirou.
    - Ento, acho que vamos acabar por passar muito tempo na cama. Se sobrar alguma coisa - acrescentou, e deu um passo em frente para afastar a almofada que o cachorro estava a tentar desfazer.
    Ele era slido, to inteligente e amvel e bonito. E amava-a. Mas nunca ningum a amara por muito tempo. Tem calma, ordenou Faith a si prpria, pelo menos at o corao deixar de saltar.
    - Tenho dvidas sobre uma relao em que um homem dorme com cachorros rafeiros.
    -  da Miss Dottie. Deixou-a aqui esta manh, antes de ir para a igreja. Eu estava demasiado ressacado para fazer qualquer coisa, exceto enfiar-me na cama com ela.
    - O que se passa com ela?
    - Com quem? Ah, a cadela. Nada. - Inclinou-se, esfregou-lhe o plo e coou-lhe as orelhas. - Tem os olhos brilhantes e  saudvel. Tem as vacinas em dia e quando as levou portou-se como uma campe.
    - E o que vais fazer com ela?
    - Dar-te.
    - A mim? - Faith deu um passo atrs. - Eu no quero um co.
    - Claro que queres. - Tirou a cadela da cama e depositou-a nos braos de Faith. - Olha, ela gosta de ti.
    - Os cachorros gostam de toda a gente - protestou Faith, enquanto torcia a cabea para tentar evitar a lngua animada do co.
    - Precisamente. - Com as covinhas marcadas nas bochechas, Wade passou os braos pela cintura de Faith, ensanduichando o cachorro entre ambos. - E toda a gente gosta de cachorros. Ela vai depender de ti, animar-te, fazer-te companhia, e amar-te incondicionalmente.
    - Vai fazer xixi no tapete. Vai roer os meus sapatos.
    - Alguns. Precisa de disciplina e de treino e pacincia. Precisa de ti.                                                                                                                
    Conheciam-se quase desde sempre. O fato de, quando estavam juntos, passarem praticamente o tempo todo entre os lenis no significava que ela no tivesse uma idia de como funcionava a mente dele.
    - Ests a dar-me um co ou uma lio de vida?
    - As duas coisas. - Inclinou-se para beijar Faith na face. - Experimenta. Se no der certo, aceito-a de volta.
    O cachorro estava quente e tentava desesperadamente enrolar-se na curva do pescoo e do ombro de Faith. O que se passava? Parecia que toda a gente estava a pression-la ao mesmo tempo. Primeiro Boots, depois Cade e agora Wade.
    - Puseste-me a cabea  roda. Hoje no se pode falar contigo, e essa  a nica razo para eu concordar com isto.
    - Referes-te a ns ou ao cachorro?
    - A um bocadinho de ambas as coisas.
    - Para mim,  um bom comeo. H comida de cachorro na cozinha. Porque no vais dar-lhe de comer enquanto eu tomo uma ducha? Vou chegar atrasado a casa dos meus pais. Porque no vens comigo?
    - Obrigada, mas ainda no estou preparada para almoos de famlia. - Ainda se lembrava, demasiado bem, do reflexo frio e transparente nos olhos da me dele. - Vai l tomar ducha. Cheiras pior do que uma ninhada de cachorros. - Franziu as sobrancelhas enquanto levava o co para a cozinha. No tinha a certeza se estava preparada para aquele tipo de coisas. Para qualquer das duas.
     
    Tory acabara de destrancar a porta, na segunda-feira de manh, quando a pequena campainha tocou, sinal de que algum a abria.
    - Bom-dia. O meu nome  Sherry Bellows. Atei o meu co ao seu banco, l fora. Espero que no haja problema.
    Tory olhou para a entrada e viu uma montanha de plo docilmente sentada no passeio.
    - Tudo bem.  grande, no ? E lindo.
    -  um amor. Estamos de regresso de uma corrida matinal no parque e pensei em passar por aqui. Estive c no sbado, s um bocadinho. Tinha aqui uma multido.
    - Sim, estive ocupada. H alguma coisa que possa mostrar-lhe, ou gostaria apenas de dar uma vista de olhos?
    - Para dizer a verdade, pensei se teria pensado na hiptese de contratar algum para ajud-la. - Sherry levantou os braos para ajeitar o rabo-de-cavalo. - No estou propriamente vestida para andar  procura de emprego - disse ela com um sorriso, puxando a T-shirt mida para baixo, cobrindo mais os cales. - Mas foi um impulso. Sou professora no liceu. Vou ser. Os cursos de vero comeam a meio de junho e as aulas a tempo inteiro s no outono.
    - No me parece que precise de um emprego.
    - Tenho as prximas semanas, e depois os sbados e metade dos dias durante o ms de setembro. Gostaria de trabalhar numa loja como a sua, e o dinheiro extra me faria bem. Sou professora contratada, por isso no  fcil. Posso dar-lhe referncias, e no tenho qualquer problema em aceitar o salrio mnimo.
    - Para lhe dizer a verdade, Sherry, no tinha pensado em contratar ningum, pelo menos at ver como corre o negcio nas primeiras semanas.
    - Gerir um stio destes sozinha no pode ser fcil. - Se havia alguma coisa que Sherry aprendera como professora fora a usar a persistncia. - No h tempo para pausas, nem para despachar papelada ou para fazer inventrios, nem para encomendas. Como est aberta seis dias por semana, isso no lhe deixa muito tempo para tratar dos seus afazeres. Ir ao banco, fazer as suas compras. Suponho que faz encomendas por correio, no faz?
    - Bem, sim?..
    - Tem de fechar a loja sempre que precisa de ir a correr ao posto de correios, ou esperar pela manh seguinte, antes de abrir a loja. Isso significa horas extras para si. E toda a gente que consegue organizar um negcio como este, sabe que tempo  dinheiro.
    Tory observou melhor. Sherry era jovem, bonita, e estava toda transpirada por causa do jogging. E era muito direta. E tinha razo. Tory estava na loja desde as oito horas, a preparar encomendas, a despachar papelada, a correr para o banco e para os correios.
    No que no gostasse. Ficava agradavelmente corada de satisfao. Mas as coisas tornar-se-iam cada vez mais exigentes.
    Ao mesmo tempo, no tinha a certeza se queria partilhar a sua loja com algum, mesmo a tempo parcial. Sentia um profundo prazer em t-la toda s para si. E isso, admitiu, era muito agradvel e impossvel de manter.
    - Apanhou-me desprevenida. Porque no me deixa a sua morada e o seu nmero de telefone, e as tais referncias? - Tory foi atrs do balco buscar o seu bloco. - D-me algum tempo para pensar no assunto.
    - timo. - Sherry pegou na caneta que Tory lhe oferecia e escreveu as informaes no bloco. - E trago uma ajuda,  um dois pelo preo de um. - Fez um gesto na direo da janela, ao ver duas mulheres que tinham parado para admirar Mongo. - Ele  to bonito que as pessoas no conseguem resistir a fazer-lhe festas. E j que esto ali, no vo deixar de olhar para a sua vitrine. Aposto que vo entrar.
    - Inteligente. - Tory ergueu uma sobrancelha. - Talvez eu deva simplesmente comprar um co.          
    Sherry riu e comeou a escrever.
    - Ora, nunca encontrar nenhum como o meu Mongo. E por melhor que ele seja, no consegue mexer na mquina registradora.
    - Bem visto. E bom palpite - acrescentou, em voz baixa, quando as duas mulheres entraram na loja
    - O co  seu?                                                                         
    -  meu. - Sherry virou-se, orgulhosa. - Espero que no vos tenha incomodado.
    - No,  um amor.  uma grande bola de plo.     
    - Manso como um cordeiro - assegurou-lhes Sherry. - Mas no resistimos a entrar para ver todas as coisas bonitas que h aqui. Mas que lugar agradvel, no ?
    - Muito agradvel. No tinha dado por ele.
    - S abrimos no sbado - disse-lhe Tory.
    - H muito tempo que no venho para esta zona da cidade. - A mulher olhou em volta. A amiga dela j estava a ver alguns objetos. - Gosto muito daqueles candelabros que esto na vitrine. Mudei de casa h pouco tempo e estou fazendo a decorao.
    - Vou busc-los. - Tory olhou para Sherry. - Com licena.
    - No h problema, esteja  vontade.
    Sherry observou a forma como Tory atendia as clientes. Sutilmente. Bem, ela tambm conseguiria fazer isso, deixar que o artigo se vendesse por si prprio. Mas achou que no faria mal se conversasse um pouco. Era-lhe difcil estar calada e pensou que seria uma forma de contrabalanar a classe e o silncio de Tory.
    Ia conseguir aquele emprego, decidiu Sherry enquanto continuava a escrever e a manter-se atenta  forma como Tory agia. Tinha jeito para convencer as pessoas e o dinheiro extra realmente lhe fazia falta.
    Para adornar mais o ramalhete, elogiou as escolhas das clientes e envolveu-as numa conversa agradvel, enquanto Tory metia as peas em caixas e as embrulhava. Saram felizes e carregadas.
    - Foi bom. Mas acho que podia ter convencido a Sally a comprar aquelas placas decorativas para jardim.
    - Se ela as quiser, vai voltar. - Divertida, Tory juntou os recibos de carto de crdito. - E aposto que a amiga vai convenc-la  hora do almoo. Tem jeito para lidar com as pessoas. Sabe alguma coisa sobre artes e ofcios?
    - Aprendo depressa. E como admiro o seu gosto no que toca a estes artigos a lio vai ser fcil. Posso comear imediatamente.
    Tory estava quase a concordar. Sherry causava-lhe boa impresso.
    
    Nesse momento a porta abriu-se e tudo se esvaiu da sua mente, exceto o choque e o terror.
    - Ora viva, Tory. - Hannibal abria os lbios num enorme sorriso. - J l vai um tempo. - Depois, olhou para Sherry com o mesmo ar radiante. - Aquele co l fora  seu, miss.
    - Sim,  o Mongo. Espero que no o tenha importunado.
    - Oh, no, nada. Parece to pacato como um convvio de domingo.  um grande co para algum to pequeno como voc. Vi-a a correr com ele, no parque, ainda h pouco. No se sabia bem quem ia puxando quem.
    Sherry teve uma sensao de desconforto, mas conseguiu soltar uma gargalhada.
    - Bem, ele me deixa pensar que sou eu que mando.
    - Um bom co  um amigo fiel. Mais do que a maioria das pessoas. Tory, no vais apresentar-me aqui  tua amiga? - disse ele antes de Tory conseguir falar, e estendeu a grande mo que tantas vezes usara para cal-la. - Sou o pai da Victoria.
    - Prazer em conhec-lo. - Outra vez  vontade, Sherry apertou-lhe calorosamente a mo. - Deve estar muito orgulhoso da sua filha e do que ela fez aqui.
    - No passa um s dia sem que eu pense nisso. - Os olhos dele voltaram a fixar Tory. - E nela.
    Tory tentou controlar a sensao de choque. Se ele estava ali, ela tinha de lidar com ele. E tinha de lidar com ele sozinha.
    - Sherry, obrigada por ter vindo. Vou estudar isto e depois telefono-lhe.
    - Est bem, agradeo. Estou tentando convencer a sua filha a contratar-me. Talvez possa interceder por mim. Gostei de conhec-lo, Mister Bodeen. Fico  espera de notcias, Tory.
    Saiu e acocorou-se junto do co. Pela porta fechada, Tory ouviu o riso encantado em resposta aos latidos de satisfao do cio.
    - Ora muito bem. - Apoiou as mos nos quadris e virou-se, para observar a loja. - Mas que belo lugar tens aqui. Parece que ests te saindo muito bem.
    Ele no mudara. Porque no mudara? Tinha um ar mais velho? No parecia. No engordara, no perdera cabelo nem o brilho escuro dos olhos. O tempo no parecia afet-lo. E quando ele se virou para ela outra vez, ela sentiu-se encolher, sentiu que lhe fugiam os anos e todo o esforo que pusera na reconstruo de si prpria.
    - O que quer?
    - Muito bem, at. - Aproximou-se do balco, diminuindo a distncia entre eles. E ela viu que estava enganada, pelo menos parcialmente. O rosto estava mais envelhecido, marcado por linhas profundas junto  boca, pela magreza, pelos sulcos na testa, que faziam lembrar marcas de vergastadas. - Voltaste aqui para te exibires na tua velha terra natal. O orgulho  o caminho para a perdio, Victoria.
    - Como soube que eu estava aqui? A me contou-lhe?
    - Pai  pai para toda a vida. Tenho andado de olho em ti. Voltaste aqui para te gabares e para me envergonhares?
    - Voltei aqui por mim. No tem nada a ver consigo. - Mentiras, mentiras, mentiras.
    - Foi aqui que deste azo a falatrios, que puseste as pessoas a apontarem dedos. Foi aqui que me desafiaste e ao Senhor, pela primeira vez. A vergonha pelo que fizeste e pelo que eras fez-me ir embora daqui.
    - O dinheiro da Margaret Lavelle no seu bolso  que o fez ir embora daqui.
    Um msculo tremeu-lhe na face. Um aviso.
    - Com que ento as pessoas j andam a falar. No me importo. Os mentirosos s do ouvidos aos da sua laia.                
    - E vo falar mais, se ficar por aqui. E quem anda  sua procura est decidido a encontr-lo. Fui ver a me. Est preocupada consigo.
    - No tem razes para isso. Na minha casa quem manda sou eu. Um homem entra e sai quando lhe apetece.
    - Foge. Fugiu depois de ter sido apanhado, preso e condenado por atacar aquela mulher. Ps-se ao fresco e deixou a me sozinha. E desta vez, quando o apanharem, no vo deix-lo em liberdade condicional. Vo p-lo atrs das grades.
    - Cuidado com a lngua. - A mo dele avanou, disparada. Ela estava preparada para uma bofetada, preparada para apar-la, mas ele agarrou-a pela camisa e puxou-a sobre o balco. - V l se mostras algum respeito. Deves-me a tua vida. Foi a minha semente que te trouxe a este mundo.
    - Para minha mgoa eterna. - Pensou na tesoura que tinha no interior do balco. Imaginou-a na sua mo, se ele a arrastasse mais um centmetro. E, enquanto olhava para a ira terrvel e to familiar no rosto dele, perguntou-se se seria capaz de us-la. - Se me puser a mo em cima, juro que vou diretamente  polcia. Se me bater, eu conto-lhes todas as vezes que me espancou e me deixou cheia de ndoas negras. E depois...
    Faltou-lhe o ar e tentou no gritar quando ele lhe puxou o cabelo para trs, com a mo que tinha livre, e a ponta spera dos seus dedos lhe roou a garganta, queimando-a como fogo. Lgrimas de dor saltaram-lhe dos olhos e tornaram-lhe a voz spera.
    - Depois, vo pr mais grades  sua volta. Juro. Agora, solte-me e v-se embora daqui. E eu esqueo-me de que o vi
    - Atreves a ameaar-me?                                            
    - No  uma ameaa.  um fato. - A fria e o dio que transbordavam dele quase a asfixiavam. Sentia a garganta a fechar-se, a presso no peito. No iria ser capaz de aguentar muito mais tempo.
    - Solte-me. - Manteve os olhos fixos nos dele enquanto tateava o interior do balco, procurando a tesoura. - Solte-me antes que algum entre e o veja.                     
    As emoes incendiavam-lhe o rosto. O medo misturou-se com a violncia que emanava dele. Os dedos dela roaram as pegas de metal, e ele atirou-a para o lado, fazendo-a cair sobre a caixa registradora.
    - Preciso de dinheiro. D-me o que tens a. Ests em dvida para comigo por cada milmetro de ar que respiras.
    - No  muito. No vai longe. - Abriu a gaveta da caixa registradora e tirou o dinheiro com ambas as mos. Tudo para faz-lo sair dali para fora, tudo para faz-lo ir-se embora.
    - Aquela devassa que est em Hartsville vai arder no inferno. - Manteve a mo no cabelo dela, enquanto metia o dinheiro no bolso. -  E tu tambm.
    - Nessa altura, voc j estar l. - No saberia explicar porque o fez. No conseguia prever acontecimentos futuros. Pelo menos fora-lhe concedida essa bno. Mas manteve os olhos fixos nos dele e falou como se estivesse tomada por vises. - Vai morrer antes do fim do ano, e vai morrer na dor, no medo e pelo fogo. Vai morrer a gritar por misericrdia. A misericrdia que nunca me deu.
    Ele ficou branco e empurrou-a para afast-la, fazendo tremer os artigos que estavam sobre a prateleira. Levantou o brao, apontando para ela.
    - No permitirs que uma bruxa viva. Lembra-te disso. Se dizes a algum que me viste aqui hoje, virei  tua procura para fazer o que devia ter feito assim que nasceste. Nasceste com um saco enfiado na cabea. A marca do demnio. J estavas condenada.
    Abriu a porta de rompante, baixou a cabea e saiu. Tory deixou-se escorregar at ao cho. J condenada? Olhou para a tesoura, com ar vazio, balanando-se. Quase a tivera na mo, quase...
    Um deles estaria no inferno, se ela a tivesse agarrado. No tinha a certeza se era importante qual deles. Pelo menos, teria acabado.
    Juntou os joelhos e encostou a cara, enrolando-se sobre si prpria como fizera tantas vezes quando era criana.
    
    Foi assim que Faith a encontrou quando entrou, com um cachorro se contorcendo debaixo do brao
    - Meu Deus, Tory! - Um olhar rpido foi suficiente para ver a caixa registradora aberta e vazia, os artigos espalhados, e a mulher que tremia no cho. - Meu Deus, ests ferida?
    Pousou o cachorro, e enquanto ele se afastava rpida e alegremente, acorreu  zona interior do balco.
    - Deixa-me ver, deixa-me olhar para ti.       
    - Eu estou bem. No  nada.
    - Ser assaltada em plena luz do dia nesta cidade  qualquer coisa. Ests toda a tremer. Tinham alguma arma, uma faca?
    - No, no. Est tudo bem.
    - No vejo sangue. Bem, ests um pouco magoada aqui atrs, no pescoo. Vou chamar a polcia. Queres um mdico?
    - No! Nada de polcia, nem de mdico.
    - Nada de polcia? Acabo de ver um brutamontes a sair daqui, entro e vejo a tua caixa registradora aberta, vazia, e tu no meio do cho atrs do balco, e nada de polcia? O que se faz nas cidades grandes quando se  roubado? Bolinhos?
    - No fui roubada. - Exausta, deixou que a cabea pendesse para trs e se encostasse  parede. - Eu dei-lhe o dinheiro. Menos de cem dlares. O dinheiro no importa.
    - Ento o melhor  dares-me algum enquanto tens, porque se  assim que planejas gerir o negcio, no vais estar aqui muito tempo.
    - Vou estar aqui. Vou ficar aqui. Nada vai fazer-me voltar a fugir. Nada! Ningum! Nunca mais!
    Faith no tinha muita experincia em histeria, a no ser a prpria, mas pensou reconhec-la no aumento do tom de voz de Tory e nos seus olhos subitamente muito abertos.
    - Assim  que . Porque no nos levantamos do cho e vamos l para trs um minuto?                                             
    - J disse que estou bem.
    - Ento, ou s estpida ou mentirosa. Seja como for, vamos l.
    Tory tentou empurr-la, tentou pr-se de p sozinha, mas as pernas no lhe obedeceram. Dobraram-se quando Faith a puxou para cima e no lhe deixou alternativa seno encostar-se a ela.
    - Vamos l para trs. Vou deixar a cadelinha aqui.
    - O qu?
    - No te preocupes com ela. J est meio treinada. Tens alguma coisa que possas beber e te ajude a retemperar foras?
    - No
    - Era de esperar. A irrepreensvel Tory. No iria ter uma garrafa de Jim Beam na gaveta. Agora senta-te, recupera o flego e diz-me porque no queres que chame a polcia.
    - S iria piorar as coisas.
    - Porque...
    - Porque foi o meu pai que viste a sair da loja. Dei-lhe o dinheiro para ele se ir embora.
    - Foi ele que te fez isso. - Tory manteve o olhar fixo, enquanto Faith inspirava e expirava profundamente. - E acho que no foi a primeira vez. A Hope no me disse. Imagino que a tenhas obrigado a prometer guardar segredo, mas eu tinha olhos para ver. E vi-te com ndoas negras e verges, muitas vezes. Tinhas sempre uma histria sobre teres cado ou ido contra alguma coisa, mas o engraado  que nunca achei que fosses desastrada. Lembro-me que tinhas muitas dessas ndoas negras e verges na manh em que vieste nos contar sobre a Hope.
    Faith aproximou-se da pequena geladeira, encontrou uma garrafa de gua e abriu-a.
    - Foi por isso que no foste ter com ela naquela noite? Porque ele te deu uma surra? - Ofereceu a gua a Tory, enquanto media o seu silncio. - Acho que tenho andado a botar culpa pelo que aconteceu naquela noite na pessoa errada.
    Tory pegou na gua e acalmou a garganta.
    - A pessoa que tem a culpa  a pessoa que a matou.
    - No sabemos quem foi.  mais reconfortante culpar um rosto e um nome. Podes pegar nesse telefone, chamar a polcia e apresentar queixa. O chefe Russ vai atrs dele.                                     
    - S o quero longe daqui. No espero que compreendas.
    - As pessoas nunca esperam que eu as compreenda. Mas pode haver surpresas. - Observando Tory, Faith sentou-se na borda da escrivaninha. - O meu pai raramente me levantou a mo. Acho que apanhei uma palmada na bunda muito de vez em quando e, valha a verdade, mais raramente do que merecia. Mas ele sabia gritar e aterrorizar o corao de uma menininha.
    Cus, como sentia a falta dele. Foi assolada repentinamente por aquele sentimento. Saudades do pai.
    - No porque eu achasse que ele fosse bater-me - disse ela, com suavidade. - Mas porque ele me fazia sentir se eu o desapontava. E eu tinha medo de desapont-lo. No  a mesma coisa do que isto, eu sei. Mas pergunto a mim prpria, se ele tivesse sido um pai diferente, um homem diferente, e eu passasse a minha vida a ter medo, o que eu faria?
    - Chamavas a polcia e fazias com que ele fosse para a cadeia. 
    - Podes ter a certeza. Mas isso no significa que no compreenda porque no o fazes. Quando o pai andava com aquela mulher, eu nunca disse  minha me. Durante algum tempo, cheguei mesmo a acreditar que ela no sabia, mas no lhe disse. Pensei que talvez tudo desaparecesse. Estava enganada, mas pensar aquilo deu-me alguma paz de esprito.
    Mais firme, Tory pousou a garrafa de gua na escrivaninha.
    - Porque ests a ser simptica comigo?
    - No fao idia. Na verdade, nunca gostei muito de ti, mas isso era sobretudo porque a Hope gostava de ti e eu no queria. Neste momento, andas a dormir com o meu irmo e eu percebo que ele significa mais para mim do que eu pensava. Faz sentido querer conhecer-te para ver como me sinto em relao a tudo isso.
    - Ento ests sendo simptica comigo porque eu ando dormindo com o Cade.
    A forma seca como a frase foi dita mexeu com Faith.
    - De uma forma indireta. E vou dizer-te uma coisa porque sei que vai chatear-te. Tenho pena de ti.
    - Tens razo. - Tory ps-se de p, grata por os tremores terem parado. - Chateou-me.
    - Achei que sim. No gostas de comiserao. Mas a verdade  que ningum devia ter medo do prprio pai. E, com laos de sangue ou no, homem nenhum tem o direito de deixar ndoas negras e cicatrizes numa criana. Agora,  melhor ir ver as confuses em que aquela cadelinha se meteu ali fora.
    - Cadelinha? - Tory abriu muito os olhos. - Que cadelinha?
    - A minha cadelinha. Ainda no lhe dei um nome. - Faith saiu e soltou uma gargalhada sonora. - No  uma coisa fofa?  mesmo querida.
    A querida tinha encontrado o papel de seda e estava naquele momento em guerra com ele. As baixas eram muitas e estavam espalhadas pelo cho como flocos de neve. Conseguira tambm encontrar um rolo de fita, que estava quase toda enrolada  volta do seu tronco rolio.
    - Oh, por amor de Deus!
    - No fiques to chateada. No  nada que cinco dlares no possam pagar. Eu pago. Aqui est a minha beb.
    A cadelinha ladrou alegremente, tropeou num pedao da fita e deitou-se aos ps de Faith, com ar de adorao.
    -Juro, nunca pensei que uma coisinha como esta conseguisse fazer-me rir tanto. Olha para ti, bonequinha da mame, toda embrulhada como um presente de Natal.
    Pegou na cadelinha e fez uns rudos infantis, como se falasse com um beb.
    - Ests a agir como uma idiota.
    - Eu sei. Mas no  querida? E tambm me adora completamente. Agora, a mam vai limpar esta porcaria toda, seno a senhora mzona castiga o meu beb.
    J de gatas, Tory olhou para cima.
    - Se voltas a trazer aqui esse destruidor de lojas, mordo-te o tornozelo.
    - Tenho andado ensinando-a a sentar-se.  esperta como tudo. Ora v. - Apesar da ameaa, Faith ps a cadelinha no cho, mantendo uma mo sobre ela. - Sentada. V, s uma boa menina, faz o que a mame te diz. Senta.
    A cadelinha deu um salto em frente, lambeu o rosto de Tory e depois ps-se a correr  volta, tentando apanhar a sua prpria cauda.
    - Mais um disparate.
    - No  uma querida?
    - Perfeitamente adorvel. Mas no pertence aqui. - Pegando no monte de papel e de fita estragados, Tory levantou-se. - Vai lev-la a dar um passeio, ou qualquer coisa assim.
    - Vamos comprar um belo conjunto de taas para a comida e a gua dela.
    - As minhas taas no. No vais comprar taas de cermica feita  mo, concebidas por artesos, para o co comer nelas.
    - Que te importa o uso que lhes dou, desde que pague o preo que pedes? - Mais determinada ainda, Faith foi buscar a cadelinha, pegou nela e em duas taas azuis com espirais em esmeralda. - Gostamos destas. No gostamos, querida? No gostamos, docinho?
    - Esta  a coisa mais ridcula que eu j ouvi.
    - Uma venda  uma venda, no ? - Faith aproximou-se do balco e pousou as taas. - Faz a conta e no te esqueas de juntar o custo do papel e da fita que ela estragou.
    - Esquece isso. - Atrs do balco, Tory meteu o papel estragado no caixote do lixo, e depois tratou da venda. - So cinquenta e trs dlares e vinte e seis cntimos. Por taas para cachorros.
    - Muito bem. Pago em dinheiro. Toma, segura-a um bocadinho.
    Faith entregou a cadelinha a Tory, para tirar a carteira da mala. Encantada, apesar de no querer demonstr-lo, Tory encostou o nariz ao da cadelinha.
    - Vais comer como uma rainha, no vais? Uma abelha rainha.
    - Abelha rainha.  perfeito! - Faith ps o dinheiro em cima do balco e voltou a pegar na cadela. -  isso que tu s, Abelha Rainha. Vou comprar-te uma coleira que brilhe.
    Tory abanou a cabea enquanto fazia o troco.                         
    - Estou a descobrir uma nova faceta tua, Faith.
    - Eu tambm. E acho que gosto. Vamos, Abelha, temos stios onde ir e pessoas para visitar. - Pegou no saco com as compras. - Acho que no consigo abrir a porta.       
    - Eu abro. - Tory abriu a porta e, depois de hesitar um momento, tocou no brao de Faith. - Faith, obrigada.
    - De nada. A tua maquiagem est precisando ser retocada - acrescentou, e saiu.                                                         
    No tencionara envolver-se. Faith achava que a vida pessoal de cada um era fascinante como motivo de especulao, de mexerico, mas tudo a uma distncia segura e satisfatria.
    Mas no conseguia esquecer a imagem de Tory enrolada sobre si prpria atrs do balco, com laos e fita-cola e cordes prateados espalhados  sua volta.
    No conseguia deixar de ver aquela marca feia e vermelha no pescoo de Tory.
    Hope tambm tinha marcas no corpo. Ela no as vira, ningum a tinha deixado v-las. Mas ela sabia.
    E no tolerava que um homem batesse numa mulher, ponto final. Se fosse um familiar, no se ia correndo fazer queixa na polcia. Mas havia outras maneiras de endireitar as coisas.
    Inclinou-se e beijou a Abelha na cabea, e depois dirigiu-se ao banco, para contar a J.R. o que acontecera  sobrinha.
    Ele no perdeu tempo. J.R. cancelou a reunio que tinha a seguir, disse  secretria que tinha de sair para tratar de um assunto pessoal, e encaminhou-se para a loja de Tory com um passo to apressado que, quando l chegou, tinha a camisa transpirada.
    Ela tinha clientes, um casal jovem que conversava sobre a hiptese de comprar um prato de servio azul e branco. Tory os estava deixando  vontade, mantendo-se do outro lado da loja, substituindo as velas que vendera naquela manh.
    - Tio Jimmy. Est calor l fora? Est afogueado. Quer beber alguma coisa fresca?
    - No... sim - decidiu. Isso iria dar-lhe tempo para se recompor. - O que tiveres  mo, querida.
     
    Acreditou que sim ao longo do resto do dia. Durante toda a tarde protegeu-se com a armadura frgil e maltratada daquela convico. E embora soubesse que era uma tolice, abriu uma das velas embrulhadas e atadas com um lao que tinha na vitrine e colocou-a em cima do balco.
    Esperava que a luz e o aroma ajudassem a dispersar aquela espcie de pelcula horrvel que a visita do pai deixara no ar.
    s seis fechou a loja, e deu por si a observar a rua,  procura, como fizera semanas a fio quando fugira para Nova Iorque. Sentia-se furiosa por ele conseguir voltar a pr aquela ansiedade cautelosa no seu caminho, aquela inquietao no seu corao.      
    Teria estado realmente na casa miservel da sua me, a afirmar que conseguiria e iria enfrentar o pai e todo aquele medo, se ele se atrevesse a invadir a sua vida outra vez?
    Onde estava a sua coragem, agora?
    Tudo o que conseguiu foi prometer a si prpria que voltaria a encontr-la.
    Mas trancou as portas assim que entrou no carro, e sentia o corao bater acelerado enquanto olhava constantemente para a estrada  sua frente e para o espelho retrovisor, no caminho de regresso a casa.
    Cruzou-se com carros, at acenou a Piney quando a pickup dele passou por ela e a cumprimentou com um breve toque da buzina. O trabalho nos campos tinha terminado. Os pees iam agora para casa. E o patro tambm.
    Por isso, foi com um baque irritante de decepo que entrou no caminho de acesso  sua casa e o encontrou vazio. No se apercebera que tinha estado  espera que Cade estivesse ali. Era verdade que  no aceitara com grande entusiasmo a inteno dele de mudar-se para ali. Mas quanto mais pensara nisso, mais fcil fora aceit-lo. E, depois de t-la aceitado, passara a gostar da idia.
    Havia tanto tempo que queria companhia. Algum com quem partilhar o dia, com quem falar de coisas triviais, com quem rir a propsito de pequenas coisas, com quem desabafar.
    Ter algum quando a noite parecia demasiado cheia de rudo, de movimento e de memrias.
    E o que dava ela em troca? Resistncia, discusso, aceitao irritada e apenas implcita.
    - Pura maldade, apenas - murmurou, enquanto saa do carro. Pelo menos a isso ela podia pr fim. Podia fazer o que as mulheres faziam tradicionalmente para resolver crimes menores. Podia fazer-lhe um belo jantar e seduzi-lo.
    A idia deixou-a com melhor disposio. Iria ele ficar surpreendido se fosse ela a tomar a iniciativa, para variar? Esperou lembrar-se de como se fazia, porque estava na hora de voltar a controlar este tipo de coisas. E assim tiraria dos ombros dele alguma da responsabilidade pelo que se passava entre eles, fosse o que fosse. Tentara agradar a Jack dessa forma e depois... No. Afastou com firmeza a seqncia de pensamentos, enquanto destrancava a porta de casa. Cade no era Jack e ela no era a mesma mulher que fora em Nova Iorque. O passado e o presente no tinham de se tocar.
    Quando entrou, soube que isso era apenas mais uma iluso. Soube que ele tinha estado ali, dentro daquilo que tentara transformar na sua casa. Ele, o seu pai.
    Havia pouca coisa para ele destruir, e ela no pensara que ele se desse a tanto trabalho. No entrara para lhe partir o pouco mobilirio que tinha, ou para fazer buracos nas paredes. Embora tivesse feito ambas as coisas.
    A cadeira estava virada de pernas para o ar, e ele espetara no fundo qualquer coisa aguada. A luminria que ela comprara apenas alguns dias antes estava partida, a mesa que queria restaurar estava atirada para um canto, com uma das pernas partidas como se fosse um ramo.
    Reconheceu o tamanho e a forma das marcas deixadas no estuque. Era a assinatura que deixava quando, por qualquer motivo, optava por usar os punhos em objectos inanimados e no na sua filha. Deixou a porta aberta, um caminho de fuga para o caso de os seus instintos no estarem alerta e ele se encontrar ainda dentro de casa.
    
    Mas o quarto estava vazio. Ele arrancara a roupa da cama e rasgara o colcho. Sups que a estrutura da cama de ferro lhe dera demasiado trabalho, j que a deixara intacta.
    As gavetas estavam tiradas, as roupas amontoadas. No, ele no quisera realmente destruir as coisas dela, pensou, ou teria usado o mesmo instrumento afiado tambm nas roupas. J o fizera antes, para lhe ensinar uma lio quanto a vestir-se de forma decente.
    Andara  procura de dinheiro ou de coisas que pudesse vender facilmente para obter dinheiro. Se tivesse estado bebendo, teria sido pior. Se tivesse estado bebendo, teria esperado por ela. Assim... Baixou-se para apanhar uma blusa amarrotada e soltou um grito de desespero ao ver a caixinha de madeira gravada que usava para guardar as jias.
    Pegou nela precipitadamente e o corao afundou-se-lhe quando viu que estava vazia. Na verdade, a maioria das coisas que tinha eram bijuterias. Boas, cuidadosamente selecionadas, mas facilmente substituveis.
    Mas entre elas estavam a granada e os brincos de ouro que a av lhe dera quando ela fizera vinte e um anos. Os brincos tinham pertencido  bisav. A sua nica herana. Sem preo. Insubstituvel. Perdida.
    -  Tory!                                                 
    O alarme na voz de Cade e os passos apressados fizeram-na levantar rapidamente.
    - Estou bem. Estou aqui.,
    Ele entrou no quarto, de rompante, e apertou-a contra si antes de ela conseguir dizer mais alguma coisa. Ondas de medo confundidas com ondas de alvio emanavam dele para ela, envolvendo-a, entrando nela.
    - Estou bem - repetiu. - Acabei de chegar. H minutos. Ele j se tinha ido embora.
    - Vi o teu carro, a sala. Pensei... - Apertou mais o abrao e encostou o rosto ao cabelo dela. - Espera um segundo.
    Sabia o que era sentir o terror cravar-lhe as garras na garganta. Nunca pensara voltar a senti-lo.
    - Graas a Deus ests bem. Tencionava chegar aqui antes de ti, mas atrasei-me. Vamos chamar a polcia e depois vais para Beaux Revs. Devia ter-te levado para l esta manh. 
    - Cade, no vale a pena tudo isso. Foi o meu pai. - Afastou-se e pousou a caixa sobre a cmoda. - Foi  loja, esta manh. Tivemos uma discusso. Isto  apenas a maneira de ele me dizer que ainda pode castigar-me.
    - Mogoou-te?                                                         
    - No. - A negao foi rpida e automtica, mas o olhar dele j pousara no pescoo dela.
    Cade no disse nada. No foi preciso. Os seus olhos escureceram, semicerraram-se at se transformarem em duas fendas,  medida que a violncia - e ela sabia como reconhecer a violncia - se apoderava deles. Depois, virou-se e pegou no telefone.
    - Cade, espera. Por favor. No quero chamar a polcia.
    Ele levantou a cabea abruptamente, e a raiva semicerrada atingiu-a tambm a ela.
    - Nem sempre se tem o que se quer.
    
    Sherry Bellows decidiu festejar o seu emprego potencial abrindo uma garrafa de vinho, pondo um CD da Sheryl Crow a tocar o mais alto que os vizinhos poderiam tolerar, e danando pelo apartamento. Tudo estava a correr na perfeio.
    Adorava Progress. Era exatamente o tipo de cidadezinha de que queria fazer parte: pequena e onde toda a gente se conhecia. As estrelas estavam na posio certa quando seguira o seu instinto e se candidatara ao lugar no liceu de Progress, pensou.
    Gostava dos outros professores. Embora Sherry ainda no conhecesse bem todos os seus colegas, tudo isso mudaria no outono, quando tivesse um horrio de tempo integral.
    Ia ser uma professora maravilhosa, algum a quem os alunos pudessem falar dos seus problemas e das suas dvidas. As suas aulas iam ser divertidas, e ela motivaria os alunos para a leitura, para o gosto pelas coisas, para o contacto com os livros por puro prazer, lanaria as sementes para um amor eterno pela literatura.
    Claro que iria faz-los trabalhar, e muito, mas tinha tantas idias, tantas estratgias novas e maravilhosas para tomar o trabalho interessante e divertido.
    Dali a uns anos, quando os seus alunos olhassem para trs, haviam de record-la com carinho. Miss Bellows, diriam, foi importante nas nossas vidas.                                                
    Fora isso que sempre quisera.
    O suficiente para estudar diabolicamente, pensava agora, para trabalhar arduamente e durante muitas horas para poder pagar os estudos. E o esforo valera a pena, at ao ltimo cntimo.   
    Tinha as contas para prov-lo.       
    Mas isso era apenas dinheiro, e ela encontrara uma maneira de fazer face a isso.
    Trabalhar na Conforto do Sul ia ser um encanto. Ajud-la-ia a aliviar o fardo dos emprstimos que contrara para pagar os estudos, trazer-lhe uma lufada de ar fresco em termos financeiros. Mais: abrir-lhe-ia mais uma porta de acesso  comunidade. Conheceria pessoas, faria amigos, e em breve seria um rosto familiar em Progress.
    J estava a alargar o seu crculo de conhecimentos. Os vizinhos no prdio, Maxine no veterinrio. E tinha a inteno de cimentar esses conhecimentos dando uma festa, uma reunio animada, em junho, em que cada pessoa traria qualquer coisa para comer ou para beber. Um pontap de sada para o vero, pensou, que no colidiria com os planos de ningum.
    Convidaria tambm Tory, claro. E o Dr. Hunk, o veterinrio de covinhas no rosto e ar sonhador. Decididamente, gostaria de conhec-lo melhor, pensou, enquanto se servia de um segundo copo de vinho.
    Convidaria os Mooney. Mister Mooney, do banco, fora muito prestativo quando ela abrira as novas contas. E depois havia Lissy, da agncia imobiliria. Uma lngua viperina, admitiu Sherry, mas era sempre bom ter a mexeriqueira da cidade do nosso lado. Descobriam-se coisas to interessantes. E era casada com o presidente da cmara.                                      
    Outra pessoa interessante, lembrou-se Sherry, com um grande sorriso e um trejeito superior. Uns certos olhares. Ainda bem que descobrira que ele era casado.
    Pensou se seria presuno da sua parte convidar os Lavelle. Afinal, eram os VIP de Progress. E Kncade Lavelle era muito simptico, muito agradvel quando esbarravam um com o outro pela cidade. J para no dizer que era lindo.
    Podia fazer o convite, de uma forma muito simples. No havia mal nenhum. Queria muita gente na festa. Deixaria abertas as portas para o terrao, como estavam sempre, para que os convidados pudessem ir at l fora.                                 
    Adorava o seu pequeno apartamento com jardim, e ia comprar outra espreguiadeira para pr l fora. S tinha uma, com um ar muito sozinho, e ela no tencionava ficar sozinha.
    Um dia encontraria o homem certo, e a sua paixo cresceria com as noites quentes e casariam na primavera. Comeariam uma vida juntos.
    No fora feita para ficar solteira. Queria uma famlia. No que estivesse nos seus planos desistir de ensinar, claro. Era professora, mas no havia motivo para no poder ser tambm esposa e me.
    Queria tudo isso, e quanto mais depressa melhor.
    Trauteando a msica que tinha a tocar, saiu para o terrao, onde Mongo estava a dormitar. Bateu com a cauda no cho e rebolou, para o caso de a dona querer esfregar-lhe a barriga.
    Correspondendo s expectativas de Mongo, Sherry baixou-se e fez-lhe festas enquanto bebia o vinho e olhava descontraidamente em volta. O terrao dava para uma bonita zona verde, bordejada pelas rvores do parque, de um lado, e por uma sossegada avenida residencial, do outro.
    Escolhera o apartamento sobretudo porque permitiam a presena de animais domsticos. Onde ela ia, Mongo ia tambm. E, alm disso, tinha a vantagem de ser conveniente para as corridas matinais no parque.
    O apartamento era pequeno, mas ela no precisava de muito espao, desde que Mongo tivesse um stio para fazer exerccio. E numa cidadezinha como Progress, uma casa no custava um brao e as duas pernas como em Charleston ou em Columbia.
    - Este  o lugar certo para ns, Mongo. Esta  a nossa casa.
    Endireitou-se e voltou a entrar em casa, na pequena kitchenette, enquanto cantava com Sheryl sobre o seu erro favorito. Ia continuar a festejar preparando uma enorme salada para o jantar.
    A vida, pensou enquanto cortava os ingredientes, era bela.
    Quando terminou, o crepsculo instalava-se. Fiz outra vez demasiada salada, pensou. Era um dos problemas de viver sozinha. Mas Mongo gostava das cenouras, e do aipo tambm, por isso ela os juntara  refeio que lhe preparara. Iam comer no terrao, e ela ia beber mais um copo de vinho e ficar um pouco tonta. Depois, iam dar um belo passeio, decidiu ela enquanto se acocorava para tirar o granulado de Mongo do saco de plstico. Talvez comer um sorvete.
    Pegou na tigela. Um movimento pelo canto do olho fez o corao pular-lhe na garganta. A tigela voou-lhe das mos e ela conseguiu soltar um pequeno grito.
    Nessa altura, uma mo tapou-lhe a boca com fora. A faca que usara para fazer o jantar roava-lhe agora a garganta.
    - Calada. Muito, muito calada, e eu no te corto. Entendido? Os olhos dela, muito abertos, giravam-lhe nas rbitas. Ondas de pavor revolviam-lhe o estmago e tornavam-lhe a pele quente e mida. Mas estava confusa. No conseguia ver-lhe o rosto, mas pensou reconhecer a voz. No fazia sentido. No fazia sentido nenhum.
    A mo dele soltou-lhe lentamente a boca e agarrou-lhe o queixo.
    - No me faa mal, por favor, no me faa mal.
    - Ora, porque havia eu de fazer-te mal? - O cabelo dela tinha um cheiro doce. O cabelo louro de uma puta. - Vamos para o quarto, onde podemos ficar confortveis.
    - No. - Parou, ao sentir o gume da faca na garganta, at ao queixo. O grito estava dentro dela, desesperado por soltar-se, mas a faca transformou-o em lgrimas silenciosas enquanto ele a arrastava para fora da cozinha.
    As portas que davam para o terrao estavam fechadas agora, as persianas corridas.                                                                          
    - Mongo. O que fez ao Mongo?
    - No achas que eu ia fazer mal a um co to bonito e to meigo como o Mongo, pois no? - O poder que tinha naquele momento tomou conta dele, alastrou-se por ele, tornando-o duro, quente e invencvel. - Est s a dormir uma soneca. No te preocupes com o teu co, querida. No te preocupes com nada. Vai ser bom. Vai ser exatamente o que tu queres.                                                      
    Empurrou-a para cima da cama, de barriga para baixo, e ps o joelho sobre as costas dela, mantendo-a presa sob o seu peso. Trouxera precaues. Um homem tinha de estar preparado, mesmo para uma puta. Especialmente para uma puta.
    Costumavam gritar. E ele no queria usar a faca. Tinha mos to jeitosas. Tirou o leno do bolso e amordaou-a.
    Quando ela comeou a mexer-se, quando ela comeou a debater-se, ele sentiu-se no cu.                                                                
    No era fraca. Mantinha em boa forma o corpo com que gostava de provocar e de seduzir os homens. O fato de ela se debater excitava-o. A primeira vez que lhe bateu, a excitao atingiu-o como se fosse sexo. Voltou a bater-lhe para que ambos percebessem quem mandava ali.
    Atou-lhe as mos atrs das costas. No podia correr o risco de aquelas unhas com o seu verniz cor-de-rosa, de ordinria, arranharem a sua pele.
    Calmamente, foi at  janela correr a cortina e encerr-los no escuro.                                                                                                          
    Ela gemia atravs da mordaa, entontecida pelos golpes. O som f-lo tremer e cortar-lhe ligeiramente a pele com a faca que estava a usar para lhe cortar as roupas. Ela tentou rebolar, tentou resistir, mas quando ele lhe ps a ponta da lmina sob o olho, exercendo alguma presso, ficou muito quieta.                                                    
    -  isto que tu queres. - Abriu o fecho das calas e depois caiu sobre as costas dela e abriu-lhe as pernas. -  isto que andas a pedir. Que todas vocs andam a pedir.
    Quando acabou, chorou. Lgrimas de autocomiserao correram-lhe pelo rosto. No era aquela, mas que podia ele fazer? Ela metera-se no seu caminho, no lhe deixara alternativa.
    No era perfeito! Fizera tudo o que quisera e, ainda assim, no era perfeito.
    Os olhos dela estavam fixos e vazios quando ele lhe tirou a mordaa e a beijou na face. Cortou a corda que lhe prendia os pulsos e voltou a met-la no bolso. Desligou a msica e saiu por onde entrara.
    - No posso ir para Beaux Revs.
    Tory estava sentada no alpendre da entrada, a apanhar o ar suave da noite. Ainda no conseguia voltar a entrar, ainda no estava preparada para lidar com a confuso deixada pelo pai e aumentada pela polcia.
    Cade contemplava o cigarro que acendera para acalmar os nervos, desejando, por um breve segundo, ter um usque para acompanh-lo.
    - Vais ter de dizer-me porqu. Ficar aqui, como as coisas esto, no faz sentido, e tu s uma mulher sensata.
    - Quase sempre - concordou ela. - Ser sensata diminui as complicaes e poupa energia. Percebo agora que tinhas razo quanto a chamar a polcia. Eu no estava sendo sensata. Agi levada simplesmente pela emoo. Ele me assusta e me envergonha. Ao tentar manter o assunto em segredo, como sempre, pensei que limitaria o medo e a humilhao.  horrvel ser vtima, Cade. Sinto-me exposta e zangada, e de certa forma culpada tambm.
    - No vou discutir isso, embora sejas suficientemente inteligente para saberes que no tem sentido a culpa fazer parte do que ests a sentir.
    - Suficientemente inteligente para saber isso, mas no suficientemente inteligente para descobrir como no sentir. Vai ser mais fcil depois de voltar a pr a casa em ordem e de me livrar daquilo que ele deixou nela. Mas vou continuar a lembrar-me da forma como o chefe Russ se sentou e escreveu no livrinho dele, a olhar para a minha cara, de como meu pai me intimidou, hoje, de como tem feito toda a minha vida.
    - No h razo para o teu orgulho ficar ferido com isto, Tory.
    - O orgulho  o caminho para a perdio. O meu pai recordou-me isso, esta manh. No h dvida de que adora usar a Bblia para levar a gua ao seu moinho.                             
    - Vo encontr-lo. A polcia anda  procura dele em duas regies.
    - O mundo  muito maior do que duas regies. E, que diabo, a Carolina do Sul  muito maior do que duas regies. Pntanos e montanhas e clareiras. Tantos stios para ele se esconder. - Balanava-se incansavelmente para a frente e para trs, numa urgncia de movimento. - Se encontrar uma maneira de contactar a minha me, ela vai ajud-lo. Por amor e por dever.
    - Sendo assim, isso s vem dar-me razo quanto  tua ida para Beaux Revs.
    - No posso fazer isso.
    - Porqu?
    - Por muitas razes. Em primeiro lugar, a tua me opor-se-ia.
    - A minha me no tem nada a ver com o assunto.
    - Ora, no digas isso, Cade. - Lavantou-se abruptamente e foi at ao outro extremo do alpendre. Estaria ali?, perguntou-se.  espreita?  espera? - No queres dizer isso, ou no devias dizer. A casa  dela, e ela tem o direito de dizer quem pode entrar nela e quem no pode.                                      
    - Porque haveria ela de se opor? Especialmente depois de eu lhe explicar o que aconteceu.
    - Explicar o qu? - Virou-se. - Que vais instalar a tua amante em casa dela, porque o pai da tua amante  louco?
    Ele aspirou o cigarro e deteve-se longamente.
    - No escolheria essas palavras, mas sim,  mais ou menos isso.
    - E eu tenho a certeza de que ela vai receber-me com flores e uma caixa do melhor chocolate. Ora, no sejas to homem nestas coisas - disse ela, erguendo a mo antes de ele poder falar. - Seja o que for que diga a porcaria da escritura, a casa pertence  mulher que mora nela, e eu no vou intrometer-me na casa da tua me.
    - Ela  uma mulher difcil, s vezes... quase sempre - admitiu ele. - Mas tem corao.
    - No, e o corao dela no vai aceitar a mulher que ela considera responsvel pela morte da sua filha querida. No discutas comigo sobre isso. - A voz de Tory tremeu, quase falhou. - Magoa-me.
    - Est bem. - Deitou fora o cigarro, com um gesto violento, mas as suas mos eram meigas quando as pousou nos ombros de Tory. - Se no queres ou no podes vir comigo, ento vou levar-te a casa do teu tio.
    - E assim chegamos  segunda parte do problema. - As mos dela foram ao encontro das dele. - Irracional, cabea dura, ilgica. Admito isso tudo desde j, para no te sentires obrigado a dizer-mo. Tenho de construir aqui a minha defesa, Cade.
    - Isto no  um ponto estratgico num campo de batalha.
    - Para mim, parece-se muito com isso. Nunca pensei muito nisto dessa maneira - disse ela, com uma ligeira gargalhada. - Mas sim, isto parece-se muito com o meu ponto estratgico no meu campo de batalha pessoal. Recuei tantas vezes. Uma vez, chamaste-me covarde para me fazeres reagir, mas a verdade  que, ao longo da minha vida, tenho sido quase sempre covarde. Tenho tido pequenos rasgos de coragem, e isso s piora as coisas quando me vejo voltar a cair. Desta vez, no posso deixar que isso acontea.
    - E como  que ficar aqui te torna corajosa em vez de estpida?
    - No me torna corajosa, e sim, talvez me torne estpida. Mas torna-me inteira. E quero tanto voltar a sentir-me inteira. Acho que arriscaria qualquer coisa para no ter este lugar vazio dentro de mim. No posso deixar que ele me expulse.
    Observou o pntano que se tornava mais frondoso, mais profundo, mais verde, com o avano do vero. Os mosquitos zumbiam, alimentando-se na gua escura. Os aligtores deslizavam nela, a morte silenciosa. Era um lugar onde as cobras podiam surgir inadvertidamente e as areias movedias podiam sugar-nos os sapatos dos ps. E era um lugar, pensou ela, que se tornava luminoso e lindo com o reluzir dos pirilampos, onde as flores silvestres cresciam na sombra e na escassez de luz. Onde uma guia podia voar como um rei. No havia beleza sem risco. Vida sem risco. - Quando era criana, vivi amedrontada nesta casa. Era uma forma de vida - disse ela -, e habituei-me a ela como as pessoas se habituam a certos cheiros, acho eu. Quando voltei, fiz dela a minha casa, sacudindo todas essas ms recordaes como p de um tapete. Arejando esse cheiro, Cade. Agora, ele est a tentar trazer o medo de volta. No posso deixar. No vou deixar - acrescentou, virando-se at os seus olhos voltarem a encontrar os dele. - Foi isso que fiz esta manh. No dizer a ningum, manter o assunto em segredo. Mais um segredo, pequeno e sujo. Se no me tivesses obrigado, era isso que eu tinha feito aqui tambm. Vou ficar. Vou limp-lo deste lugar e vou ficar. Espero que ele saiba isso.
    - Quem me dera no te admirar por fazeres isto. - Passou a mo pela parte solta do cabelo dela. - Era mais fcil obrigar-te a fazer as coisas  minha maneira.
    - No costumas obrigar as pessoas a fazer as coisas. - Talvez por alvio, talvez por outra coisa, passou-lhe a mo pelo rosto. - Tu manobras, no obrigas.
    - Bem,  um ponto a favor do futuro da nossa relao, teres percebido isso e conseguires viver com isso. - Abraou-a e pousou os lbios na cabea dela. - s importante para mim. No, no comeces a defender-te. Depois, vou ter de manobrar-te. s importante para mim, Tory, mais do que eu tencionava que fosses.
    Ela manteve o silncio e ele deixou-se dominar pela frustrao. s vezes, era o mais honesto.
    - D-me qualquer coisa como resposta, raios partam! Ele empurrou-a para trs, depois puxou-a para cima e esmagou a boca contra a dela.
    Ela sentiu o sabor da urgncia, o calor, os pequenos laivos de raiva que ele escondia to bem. E foi aquela dose de emoo pura, no filtrada, vinda dele que fez disparar mais um raio dentro dela.
    Cus, ela no queria ser amada, nem que algum precisasse dela, no queria que aqueles sentimentos voltassem  vida dentro de si, outra vez.
    - J te dei mais do que pensei que tinha. No sei o que tenho mais. - Agarrou-se a ele, enterrou-se nele. - H tanta coisa a acontecer dentro de mim, que eu no consigo lidar com isso. Anda tudo em crculos. No chega?
    - Sim. - Ele afastou-a um pouco para voltar a beij-la, desta vez suavemente. - Sim, por agora chega. Desde que abras espao para mais. - Passou os polegares pelas faces dela. - Tiveste um dia dos demnios, no foi?
    - No posso dizer que tenha sido um dos melhores.
    - Ento, vamos acab-lo bem. Vamos comear.
    - A qu?                                                      
     Ele abriu a porta de tela.
    - Querias limp-lo daqui. Vamos a isso.
    Trabalharam juntos durante duas horas. Ele ps msica. Ela no teria pensado nisso, ter-se-ia concentrado nos pormenores, mantido a mente rigorosamente canalizada para as tarefas. Mas a msica percorria a casa, a cabea dela, distraindo-a o suficiente para impedi-la de ficar a matutar no mesmo.
    Apetecia-lhe queimar as roupas em que ele tocara, viu-se a lev-las l para fora, a disp-las numa pilha e a acender um fsforo. Mas no podia dar-se a esse luxo. Por isso, lavou-as, dobrou-as e guardou-as.
    Viraram o colcho cortado. Teria de ser substitudo, mas por agora ficava assim. E com lenis lavados, mal se dava por isso.
    Cade falou do seu trabalho, e a sua voz invadiu agradavelmente a mente de Tory, em harmonia com a msica. Limparam a cozinha, comeram sanduches e ela disse-lhe que estava pensando em contratar algum para ajud-la na loja.                                        
    -  uma boa idia. - Ele serviu-se de uma cerveja, satisfeito por ela ter pensado em ter cerveja para ele. - Vais apreciar melhor o teu negcio se no te sentires estrangulada por ele. Sherry Bellows,  a nova professora do liceu, no ? Vi-a e ao co, h umas semanas, no minimercado. Parece um feixe de energia.
    - Foi essa a minha impresso.                                   
    - Numa embalagem muito atraente. - Ele sorriu e bebeu um pouco mais da cerveja quando Tory ergueu as sobrancelhas. - Estava a pensar em ti, querida. Uma empregada atraente  uma mais-valia para o negcio. Achas que ela ir trabalhar com aqueles cales curtos?
    - No - disse Tory com firmeza. - No acho.
    - Aposto que atrai uma srie de clientes masculinos se deixares que os cales faam parte da indumentria dela. Aquela rapariga tem uns belos postes.
    - Postes. Hummm. Bem, ela e os postes dependem das referncias que me derem sobre ela. Mas acho que vo ser boas. - Tory varreu o ltimo lixo e despejou-o no caixote. - Parece ser o melhor que pode ser feito.
    - Sentes-te melhor?
    - Sim. - Atravessou a cozinha para guardar a vassoura e o pano do p. - Consideravelmente. E estou muito agradecida pela ajuda.
    - Estou sempre aberto  gratido.
    Ela tirou o jarro da geladeira e serviu-se de um copo de ch gelado.
    - O roupeiro do quarto no  muito grande, mas arranjei espao. E h uma gaveta vazia na cmoda.    .
    Ele no disse nada, limitando-se a beber a cerveja. Ficou  espera.
    - Querias trazer para c algumas das tuas coisas, no querias?
    - Sim.
    - Ento...    
    - Ento?                       
    - No vamos viver juntos. - Ela pousou o copo. - Nunca vivi com ningum, e isto tambm no  viver contigo.
    - Est bem.
    - Mas se vais passar tanto tempo aqui, deves querer ter um espao para guardares as tuas coisas.                                           
    - Muito prtico.
    - Olha, vai para o inferno! - Mas no havia qualquer raiva na resposta.
    - No  hbito dizer essas coisas a rir. - Ele pousou a cerveja e ps os braos  volta dela.
    - Que pensas tu que ests fazendo?       
    - Danar. Nunca te levei a danar.  uma coisa que as pessoas que no vivem juntas devem fazer de vez em quando.
    Era a velha imagem, de um rapaz a pedir a uma moa que ficasse com ele depois de escurecer.         
    - Ests tentando ser simptico?
    - No tenho de tentar. Faz parte da minha maquiagem. - Ele f-la dobrar-se para trs e ela riu.
    - Muito leve e habilidoso.
    - Todas aquelas miserveis horas de danas de salo haviam de dar algum resultado.
    - Pobre rapazinho rico. - Pousou a cabea no ombro dele e deixou-se ir, desfrutando a dana, o corpo dele junto ao dela, o cheiro dele. - Obrigada.
    - De nada.
    - Quando vinha para casa, esta noite, vinha pensando em ti.
    - Soa bem.
    - E vinha a pensar: at agora ele tem tomado todas as iniciativas. E eu deixei, porque no tinha a certeza se eu queria tomar alguma ou contrariar alguma das dele. Era como se fosse fcil ser...
    - Manobrada?
    - Acho que sim. E vinha a pensar: como reagiria o Kincade La-velle se eu chegasse a casa e fizesse um belo jantar para ns dois.
    - Acho que ele gostava muito.
    - Sim, bem, fica para outra vez. Essa parte do plano no deu em nada. Mas havia uma segunda parte.
    - Que era...                
    Ela levantou a cabea do ombro dele e olhou-o nos olhos.
    - Como reagiria o Kincade Lavelle se depois disso, quando estivssemos calmos e descontrados... o que faria ele se eu o seduzisse?
    - Bem... - Foi tudo o que conseguiu dizer quando ela pressionou o corpo contra o dele e comeou a passar-lhe as mos pelos quadris. O sangue ferveu-lhe deliciosamente. - Acho que o mnimo que posso fazer, como cavalheiro,  deixar-te descobrir.
    Desta vez foi ela que desapertou os botes, a camisa dele e depois a dela. Pousou os lbios no corao dele, na pele quente e vibrante.
    - Tenho o teu sabor em mim desde a primeira vez que me beijaste. - Percorrendo-o com os lbios, despiu-lhe a camisa. - Consigo reviver os sabores, e fiz isso com o teu, muitas vezes.
    Passou as mos pelo peito dele, pela barriga - ele estremeceu -, e depois at aos ombros. Ombros largos e fortes.
    - Gosto de sentir-te. Msculos longos e fortes. Excitam-me. E as tuas mos, speras do trabalho, a percorrer-me. - Abriu a blusa e deixou-a escorregar at ao cho, onde foi juntar-se  dele. Sem deixar de olhar para ele, desapertou o suti e deixou-o cair.
    - Toca-me.
    Ele tomou-lhe os seios nas mos, o seu peso quente e suave, e tateou-lhe os mamilos com as pontas dos polegares.
    - Sim, gosto disso. - Deixou cair a cabea para trs, enquanto o calor lhe girava na barriga. - Assim mesmo. Derreto por dentro quando me tocas. Vs? - Os olhos dela, lnguidos e escuros, fixaram os dele. - Quero...
    - Diz-me.
    Umedeceu os lbios e desapertou-lhe o boto das calas. As mos dele percorriam-na, numa carcia forte.
    - Quero sentir o que sentes. Quero o que tens dentro de ti dentro de mim. Nunca experimentei isso com ningum. Nunca quis. Deixas-me?
    Ele inclinou a cabea e roou os lbios nos dela.
    - Leva o que quiseres.
    Era um risco. Ela estaria aberta, exposta, muito mais indefesa do que ele. Mas ela queria isso, tudo isso, e aquele lao intenso de confiana.
    Ela voltou a pousar os lbios nele e abriu-lhe a mente, o corao, o corpo
    Foi como um raio, um relmpago, a fora daqueles desejos, daquelas imagens entrelaadas. O desejo dele, misturado com o dela, dentro dela. Invadia-a, profundo, luminoso, uma massa de energia. Era to forte que a cabea lhe pendeu para trs e ela atingiu o clmax num longo jorro ertico.
    - Cus, cus. Espera.
    - No. - Ele nunca sentira nada assim. Os laos daquela unio apertaram-se mais, numa maravilhosa mistura. - Mais. - Cravou-lhe os dentes no ombro, saboreando a carne. - Outra vez. Agora.
    Ela no conseguiu parar, varrida como que por uma tempestade cheia de fria e esplendor. Foi ela que o arrastou para o cho, ela que, com a respirao entrecortada, implorou, exigiu, ameaou, enquanto rasgavam as roupas um ao outro.
    Unida a ele, como se tivesse garras, beliscou-o enquanto rolavam pelo cho. O bater do corao dele estava dentro dela, selvagem, esmagando-se contra o dela. O sabor dele, o sabor dela prpria, misturados, a satur-la.
    Quando ele mergulhou dentro dela, ela sentiu o latejar urgente do sangue dele, o labirinto desesperado dos pensamentos dele. Perdidos. Ela gritou, uma, duas vezes. Estavam ambos perdidos.
    Ela ouviu o nome dela, a voz dele a cham-lo dentro da mente dela, segundos antes de os lbios dele o pronunciarem. Quando ele se esvaiu dentro dela e a arrastou com ele, todo aquele esplendor f-la chorar.
    
    Wade no tinha mos a medir, ou pelo menos o que restava delas, depois de uma caprichosa gata, ironicamente chamada Fofinha, as ter maltratado bastante enquanto levava as vacinas. Maxine estava atulhada em exames finais e ele dera-lhe o dia de folga, o que significava que tinha apenas duas mos para lutar contra quatro garras e alguns dentes bem afiados.
    Havia uma hora que conclura que cometera um erro de terrveis propores ao dispensar Maxine. Comeara o dia com uma emergncia que exigiu um telefonema e o atrasou consideravelmente. Se acrescentasse a guerra na sala de espera, motivada por um choque de personalidade entre um setter e um bichon, a cabra beb dos Olson, que conseguira comer a maior parte da Barbie Malibu at ficar com o brao atravessado na garganta, e o temperamento da Fofinha, diria que tivera uma manh para esquecer.
    Estava a praguejar, a transpirar e a sangrar quando Faith entrou apressadamente por trs.
    - Wade, querido, podes ver a Abelha? Acho que ela no se sente bem.
    - Tira uma senha.
    - S demora um minuto.
    - Eu no tenho um minuto.
    - Ora... Meu Deus, o que te aconteceu s mos? - Faith observou Wade enquanto ele evitava por pouco nova arranhadela e segurava firmemente o gato debaixo do brao. - A gatinha arranhou-te, querido?                         
    - Vai catar pulgas - foi a melhor resposta que lhe ocorreu. 
    - Porqu? Ela tambm tem disso? - gritou Faith enquanto se dirigia para a sala de espera. - Est tudo bem, beb. - Tocou com o nariz no da cadelinha. - O papai vai j tratar de ti.
    Wade voltou a entrar para lavar as mos e pr anti-sptico.
    - Ela tem estado a uivar e a soltar uma espcie de gemidos toda a manh. E tem o nariz um bocadinho quente. No quer brincar. S quer estar deitada. Vs?
    Faith pousou a Abelha e a cadelinha sentou-se aos ps de Wade, olhou para ele com ar infeliz e depois vomitou-lhe em cima dos sapatos.
    - Oh, meu Deus. Deve ter sido qualquer coisa que comeu. A Lilah disse que eu no devia dar-lhe aqueles bolos todos. - Faith mordeu o lbio mas no conseguiu evitar uma gargalhada nervosa. Wade estava ali, a olhar para ela, com o anti-sptico numa mo, um fio de sangue a escorrer da outra e vomitado de co nos sapatos. - Pedimos muita desculpa. Abelha, no comas isso.  porcaria. - Pegou na cadelinha. - Aposto que te sentes muito melhor agora, no sentes, docinha? Vs, Wade? J voltou a abanar a cauda. Eu sabia que se a trouxesse c, ficaria tudo bem.
    -  isso que te parece? Que est tudo bem?
    - Ora, a Abelha j se livrou do que a preocupava e acho que no deve ser a primeira vez que ficas com um bocadinho de vmito de co nos sapatos.
    - Tenho uma sala de espera cheia, as minhas mos esto arranhadas e doem que se farta, e agora os meus sapatos vo deitar um fedor durante o resto do dia.                                              
    - Vai l acima e muda de sapatos. - Ela recuou quando ele transformou uma das mos numa garra. Faith adorava a luz que assomava aos olhos dele quando ficava furioso. - Vai l, Wade.
    A garra transformou-se num punho que a atingiu de leve, entre os olhos.                                                                   
    - Vou descalar estes sapatos, met-los no lixo, e quando voltar quero que tenhas isto tudo limpo.
    - Limpar isto? Eu?
    - Sim. Pe o co no consultrio, pega um balde e um esfrego, e trata do assunto. No tenho tempo para isto. - Descalou os sapatos,  pegando-os pelos calcanhares. - E despacha-te. Estou atrasado.
    - O papai est um bocadinho atravessado, esta manh - murmurou para a Abelha, enquanto Wade se afastava em direo ao caixote do lixo. Olhou para o cho e sorriu. - Bem, pelo menos vomitaste a maior parte nos sapatos. No foi mau.
    
    Quando ele voltou ela estava a limpar o cho com a esfregona, afanosamente, embora sem experincia. Havia restos a deslizar pelo linleo, em pequenas ondas de gua. Quase lhe pareceu que iam na corrente. Mas no teve coragem para queixar-se.
    - Estou quase acabando. A Abelha est l atrs, brincando com o osso que chia. Tem outra vez os olhos brilhantes e vivos. - Faith meteu o esfrego no balde, espalhando mais gua. - Acho que isto agora precisa secar.
    Em alternativa aos gritos que lhe apetecia dar, Wade passou as mos pelo rosto e riu.
    - Faith, no h ningum como tu.
    - Claro que no.
    Ela afastou-se um pouco enquanto ele pegava no balde, o despejava, lavava o esfrego e depois comeava a apanhar os restos espalhados e a gua.
    - Bem, acho que assim tambm d.  
    - Faz-me um favor. Vai l fora e diz a Mister Jenkins que traga o Mitch.  o beagle que est a uivar h meia hora. E, se puderes, encontra maneira de manter alguma ordem l fora durante os prximos vinte minutos. Pago-te um belo jantar e quem escolhe o restaurante s tu.
    - Champanhe?
    - Uma garrafa grande.
    - Vamos l ver o que consigo fazer.
    Ainda no usufrura os seus vinte minutos quando ouviu o grito urgente.
    - Wade! Wade, vem c depressa!                      
    Wade precipitou-se para a sada e viu Piney Cob a vacilar sob o peso de Mongo.
    - Meteu-se  estrada, a correr, mesmo  minha frente. Deus todo-poderoso. Est sangrando muito.                                          
    - Tr-lo c.
    Moveu-se rapidamente. O co respirava com dificuldade, tinha as pupilas fixas e dilatadas. O plo espesso estava manchado de sangue, que pingava tambm no cho.                         
    - Aqui, em cima da marquesa.
    - Eu freei - murmurou Piney, afastando-se. - Freei, mas apanhei-o do mesmo modo. Ia ao armazm comprar umas coisas, e ele apareceu correndo, vindo do parque.
    - Sabes se lhe passaste com a roda por cima?
    - Acho que no. - Com as mos tremendo, tirou do bolso um leno vermelho, desbotado, e limpou o rosto transpirado. - Acho que s lhe bati, mas foi tudo muito rpido.
    - Muito bem. - Wade pegou em toalhas, e como Faith estava ao seu lado, pegou-lhe as mos e pousou-as sobre as toalhas. - Faz presso, com fora. Quero essa hemorragia controlada. Ele est em estado de choque.
    Abriu o armrio dos medicamentos e pegou num frasco para preparar uma injeo.
    - Aguenta-te, rapaz, aguenta-te - murmurou, quando o co comeou a mexer-se e a gemer. - Mantm a presso - ordenou a Faith. - Estou a dar-lhe um sedativo. Preciso de ver se h ferimentos internos.
    As mos dela tremeram quando ele as pressionou contra a ferida. Pensou ter visto o osso exposto, a espreitar na pata de trs do co. E sentiu o estmago s voltas.
    Queria tirar as mos de todo aquele sangue, correr para fora da sala. Porque no era Piney a fazer aquilo? Porque no estava mais ningum ali? Comeou a dizer isso mesmo, com as palavras a saltar-lhe na garganta. Sentia o cheiro a sangue, a anti-sptico, e o odor acre do suor de Piney, em pnico.
    Mas o seu olhar pousou no rosto de Wade.
    Firme, concentrado, forte. Tinha os olhos fixos e concentrados, a boca firme, numa linha determinada. Observou-o, respirando por entre os dentes cerrados. V-lo trabalhar, com rapidez, eficcia e concentrao, acalmou-a, no preciso momento em que o co se aquietava sob as suas mos.
    - No tem costelas partidas. Acho que a roda no lhe passou por cima. Talvez tenha um rim magoado. Tratamos disso mais tarde. A ferida na cabea  superficial. No tem sangue nos ouvidos. O pior de tudo  a pata.
    O que j era suficientemente mau, pensou ele. Salv-la, e ao co, ia ser complicado.
    - Preciso lev-lo para a cirurgia. - Olhou para trs e viu que Piney se deixara cair numa cadeira e tinha a cabea entre os joelhos. - Preciso das tuas mos, Faith. Vou pegar nele e lev-lo, tens que ficar comigo. Mantm a presso, com fora. Ele j perdeu muito sangue. Pronta?
    - Mas Wade, eu...                                                            
    - Vamos.
    Ela fez o que ele lhe disse, porque ele no lhe deixou alternativa. Correu ao lado dele, abrindo a porta com a mo que tinha livre. A Abelha soltou um latido de alegria e correu entre os ps de Faith.
    - Sentada! - disse Wade com tanta veemncia que o rabo da cadelinha se sentou obedientemente no cho. Assim que pousou o co, que estava sob o efeito de sedativos, pegou num avental grosso e atirou-o a Faith. - Pe isso. Tenho que tirar fotografias.
    - Fotografias?
    - Raios X. Vem para este lado. Segura-o o melhor que puderes. O avental pesava como chumbo, mas ela o ps, fez o que ele lhe mandou. Mongo tinha os olhos semicerrados, mas pareceu-lhe que ele estava a observ-la, a implorar-lhe ajuda.
    - Vai tudo correr bem, meu querido. O Wade vai pr-te bom. Vais ver.
    O som da voz de Faith fez a cadelinha latir e vir deitar-se aos ps dela.
    - Livra-te do avental agora. - Enquanto esperava pelas imagens, Wade ia gritando ordens. - Anda aqui e volta a pressionar. Continua a falar com ele. Deixa que ele oua a tua voz.
    - Est bem. Hummm... - Engolindo o que lhe soube a blis, pressionou o volume de toalhas sobre o ferimento. - O Wade vai tratar de ti e vais ficar bom. Tens... Tens de olhar para os dois lados antes de atravessares a rua. Da prxima vez no te esqueas disto. Oh, Wade, ele vai morrer?
    - No, se eu puder evit-lo. - Ps as imagens de raios X num painel iluminado e acenou com a cabea. - No, se eu puder evit-lo - repetiu, e comeou a reunir instrumentos.
    Os instrumentos afiados e prateados brilhavam sob a luz forte que tinham por cima das cabeas. A cabea dela parecia rodopiar em sincronia com o estmago.
    - Vais operar? Agora? Assim?
    - Tenho de tentar salvar a pata.
    - Salvar? Queres dizer...
    Quando ele afastou a compressa, o estmago dela deu uma volta sbita, mas ele no lhe deu tempo para ficar enjoada.
    - Segura nisto e aperta este boto quando eu disser que preciso de suco. Podes fazer isso com uma mo. Quando precisar de um instrumento, descrevo-o. Entrega-me, com a pega virada para mim. Agora, vou anestesi-lo.
    
    Baixou a luz e limpou a ferida. Tudo o que Faith ouvia agora eram os rudos do tubo, quando ele pedia suco, e o tilintar dos instrumentos. Desviou os olhos, e queria deix-los assim, mas ele continuava a dar-lhe ordens que faziam com que ela precisasse olhar.
    Dali a pouco parecia um filme.
     cabea de Wade estava inclinada, os olhos frios e calmos, embora ela visse gotas de suor a pingar-lhe da testa. Parecia-lhe que as mos dele eram mgicas, movendo-se delicadamente entre sangue, carne e osso.
    Ela nem pestanejou quando ele recolocou o osso partido no lugar. Nada daquilo era real.
    Viu-o suturar com pontos impossivelmente pequenos dentro do ferimento. O amarelo do lquido desinfetante que ele usara manchava-lhe as mos, misturado com o sangue, at tudo ter a cor de uma ndoa negra antiga.
    - Preciso que verifiques os batimentos cardacos dele, manualmente. Usa a tua mo e sente o corao dele.
    - Est um bocado lento - disse ela, quando fez presso com a mo. - Mas parece regular. Assim bum, bum, bum.
    - Muito bem, v-lhe os olhos.
    - As pupilas esto enormes.
    - H sangue na parte branca?      
    - No, acho que no.
    - Est bem, ele precisa de uns parafusos nesta pata. O osso estilhaou um bocado. Depois disso, vou fech-lo. Em seguida, engessamos a pata.
    - Ele vai ficar bem?
    -  saudvel. - Wade limpou a testa ao brao. - E  novo. Tem boas chances de ficar com a pata.
    Estava preocupado com os fragmentos do osso. T-los-ia tirado a todos? O msculo estava danificado. Havia uns tendes rasgados, mas estava confiante em ter reparado o pior.
    Tudo isto percorria uma parte da sua mente, enquanto a outra parte estava concentrada em segurar osso e ao.
    - Daqui a um dia ou dois j sei. Preciso de gaze e fita. Aquele armrio, ali.
    Depois de ter fechado a ferida, Wade envolveu a pata com gaze, engessou-a, e depois verificou os sinais vitais do co. Tratou o arranho na cabea, atrs da orelha esquerda.
    - Aguentou-se - murmurou Wade, e depois, pela primeira vez em mais de uma hora, olhou diretamente para Faith. - E tu tambm.
    - Sim, bem, a princpio estava um bocado atrapalhada com as mos, mas depois... - Levantou as mos e comeou a gesticular. Estavam manchadas de sangue, e a blusa tambm. - Oh, meu Deus, meu Deus... - Foi tudo o que conseguiu dizer antes de revirar os olhos.                                                
    
    Ele apanhou-a e deitou-a no cho. Ela j estava a recuperar a conscincia quando ele lhe levantou a cabea e lhe levou aos lbios um copo de papel com gua.
    - Que aconteceu?                                                    
    - Desmaiaste, com graciosidade e num momento conveniente. - Pousou-lhe os lbios na face. - Vou levar-te l para cima. Podes limpar-te e ficar deitada por um bocado.
    - Eu estou bem. - Mas quando ele a ajudou a pr-se de p, as pernas fraquejaram-lhe. - Pronto, talvez no esteja.  melhor ficar um bocadinho deitada.
    Deitou a cabea no ombro dele, sentindo-se meio a flutuar quando ele a levou para o andar de cima.                                 
    - Acho que no fui feita para ser enfermeira.
    - Portaste-te muito bem.
    - No, tu  que te portaste bem. Nunca pensei, nunca entendi porque fazes o que fazes. Sempre pensei que isto fosse dar vacinas e limpar caca de co.
    -  muito isso.
    Levou-a para a casa de banho, onde a apoiou no lavatrio e ps a gua quente a correr.                
    - Pe as mos aqui. Vais sentir-te melhor quando estiverem limpas.
    - H muito mais naquilo que fazes, Wade. E h muito mais em ti.
    - Os olhos dela encontraram os dele no espelho. - No tenho prestado ateno, no me dei ao trabalho de ver de perto. Hoje, salvaste uma vida. s um heri.
    - Fiz aquilo que me ensinaram a fazer.
    - Eu sei o que vi, e o que vi foi herico. - Virou-se e beijou-o.
    - Agora, se no te importas, vou despir-me toda e meter-me na ducha.                            - Ests suficientemente firme?                                                 
    - Sim, estou bem. Vai ver o teu doente.
    - Amo-te, Faith.
    - Acho que amas mesmo - disse ela, suavemente. - E  mais agradvel do que eu esperava. Vai l, a minha cabea ainda est suficientemente tonta para eu dizer alguma coisa de que virei a arrepender-me depois.
    - Venho c acima quando puder.
    Primeiro, foi ver Mongo, e depois lavou-se antes de voltar  sala de observao. Piney continuava na cadeira, e tinha agora a cadelinha enrolada no colo, a dormir.
    Wade esquecera-se completamente de ambos.
    - O co vai safar-se?
    - Parece que sirn.                                               
    - Jesus Cristo, Wade. At me sinto doente. Tenho estado a dar voltas  cabea, e se eu tivesse prestado mais ateno... Ia dirigindo, sem pensar em nada de especial, e de repente vi o co saltar para a estrada. Podia ter sido um garoto.
    -A culpa no foi tua.
    -J bati num veado, uma vez ou duas. No sei porque no me afetou como isto. Com os veados, fiquei chateado. Os veados podem causar grandes estragos num carro. Um garoto vai chegar em casa e andar  procura desse co.
    - Conheo a dona. Vou telefonar-lhe. Foi muito importante que o tivesses trazido para aqui rapidamente.  s disso que deves lembrar-
    - Bem, sim. - Soltou um enorme suspiro. - Esta pequena  muito gira - disse ele, afagando a cabea da cadelinha. - Veio aqui armar confuso, roeu meus atacadores das botas durante um bocado e depois aconchegou-se.
    - Obrigado por teres tomado conta dela. - Wade baixou-se e pegou na cadelinha. A Abelha bocejou e depois lambeu os arranhados de gato que ele tinha na mo. - Vais ficar bem?
    - Sim, para dizer a verdade, vou beber qualquer coisa. Provavelmente, o Cade j ps a tropa  minha procura, mas isso vai ter de esperar. - Ps-se de p. - No te esqueas de me dar notcias desse co, ests ouvindo?
    - Claro. - Deu uma palmada no ombro de Piney, antes de ele sair.                                                                
    A sala de espera estava vazia. Wade imaginou que a maioria dos seus pacientes se tivesse cansado de esperar. Estava grato pelo sossego.
    Deu  cadelinha um dos mimos para co que Maxine tinha na gaveta da escrivaninha, e depois procurou nas fichas o nmero de Sherry Bellow.
    Respondeu o atendedor de chamadas, por isso deixou mensagem. Devia andar  procura do co, pensou. O mais provvel era dar com algum que tivesse visto o acidente.
    Deixou o assunto e voltou l para dentro, para ver Mongo.     
    Minutos depois de Wade ter falado com o atendedor de chamadas de Sherry, Tory ouviu a mesma voz animada anunciar que ela no podia atender.
    - Sherry, fala Tory Bodeen, da Conforto do Sul. Gostaria que me telefonasse ou que aparecesse na loja, quando puder. Se ainda estiver interessada, o emprego  seu.
    Tory sentiu-se bem com a deciso, enquanto pousava o auscultador. No era apenas por as referncias de Sherry serem espetaculares; podia ser divertido ter um rosto alegre e mos dispostas trabalhando na loja durante umas horas por semana.
    O negcio estava um tanto parado, hoje, mas ela no se sentiu desanimada. Ia levar algum tempo a tornar-se parte da rotina das pessoas. E tinha um monte de afazeres naquela manh.
    Usou o intervalo do almoo para fazer um horrio para a nova empregada. Pegou nos formulrios que iria precisar preencher para os impostos e acrescentou a lista de regras que definiam a poltica da loja e que acabara de escrever no computador.
    Brincou com as palavras, tentando criar um anncio para sair no jornal de domingo, que incluiria a roupa de cama e atoalhados com que iria comear a trabalhar.
    Quando a sineta da porta tocou, levantou apressadamente os olhos do papel, com o mesmo baque no corao que sentira durante todo o dia, sempre que a sineta tocava.
    Mas ao ver Abigail Lawrence acalmou-se, pousou a caneta e sorriu.
    - Mas que bela surpresa.
    - Disse-te que havia de vir at aqui. Tory, isto est mesmo bonito. Tens aqui coisas lindas.
    - Temos artistas muito talentosos.
    - E tu sabes bem como mostrar o trabalho deles. - Abigail estendeu a mo quando Tory saiu de trs do balco. - Vou divertir-me imenso a gastar dinheiro aqui.
    - No serei eu a impedir-te. Posso oferecer-te alguma coisa? Uma bebida fresca, um ch?
    -  No, no, obrigada. Isto  batik.
    Abigail admirou o retraio emoldurado de uma jovem de p, num caminho de jardim.
    - Ela faz um belo trabalho. Tenho em estoque mais lenos feitos por ela.
    - Tenho de v-los. Quero ver tudo. Mas digo-te j que quero este batik.  perfeito para o meu marido me dar no nosso aniversrio de    casamento.                                                                                             
    Divertida, Tory virou-se para tir-lo da parede.
    - E ele quer o leno embrulhado para presente?
    - Claro.
    - H quanto tempo esto casados?
    Abigail inclinou a cabea enquanto Tory levava o batik at ao balco. Em todos os anos em que fora advogada de Tory no se recordava de ela lhe ter feito uma pergunta pessoal.
    - H vinte e seis.
    - Ento, casou aos dez?
    Abigail sorriu e examinou uma caixa de madeira polida.
    - Este tipo de atividade condiz contigo. - Pegou a caixa e pousou-a em cima do balco. - E acho que esta cidade tambm. Aqui ests em casa.
    - Sim. Esta  a minha casa. Abigail, vieste realmente de Charleston at aqui para fazeres compras?
    - Para isso e para te ver. E para falar contigo.
    Tory acenou com a cabea.
    - Se descobriste mais alguma coisa sobre a rapariga que foi assassinada, no precisas de estar com rodeios.
    - No descobri mais nada sobre ela. Mas pedi ao meu amigo que verificasse a existncia de crimes parecidos, crimes que tivessem tido lugar durante as duas ltimas semanas de agosto.
    - H mais.
    - Tu j sabias.
    - No, sentia. Temia. Quantos mais?
    - Trs que encaixam no perfil e no tempo. Uma rapariga de doze anos, que desapareceu durante uma viagem com a famlia a Hilton Head, em agosto de 1986. Uma estudante de dezenove anos, que estava fazendo um curso de vero na Universidade de Charleston, em Agosto de 1993, e uma mulher de vinte e cinco anos, que foi acampar com amigos na Floresta Nacional de Sumter. Em agosto de 1999-
    - Tantas - murmurou Tory.
    - Tratou-se sempre de homicdios de carter sexual. Violadas e estranguladas. No havia semen. Havia sinais de alguma violncia fsica, em especial na zona do rosto. Esta violncia vai aumentando a cada vtima.
    - Porque elas no tm o rosto que deviam ter. O rosto delas no  o dela. O de Hope.
    - No compreendo.
    Tory desejou no compreender tambm. Desejou que a morbidez de tudo aquilo no fosse to terrivelmente clara.
    - Eram todas louras, no eram? Bonitas e elegantes?
    - Sim.
    - Ele continua a mat-la. Uma vez no foi suficiente.
    Abigail abanou a cabea, um pouco preocupada pela forma como os olhos de Tory estavam a tornar-se vagos e escuros.
    -  possvel que tenham sido mortas pelo mesmo homem, mas...
    - Foram mortas pelo mesmo homem.
    - O tempo decorrido entre os homicdios desvia-se do perfil de um serial-killer tpico. Tantos anos de intervalo. No sou especialista em assuntos criminais, e no sou psicloga, mas andei a estudar umas coisas sobre este assunto nas ltimas duas semanas. As idades das vtimas no encaixam no perfil standard.
    - Isto no  standard, Abigail. - Tory abriu a caixa de madeira e voltou a fech-la. - No  tpico.
    - Tem de haver uma base. A tua amiga e a rapariga de doze anos apontam para um pedfilo. Parece-me que um homem que escolhe crianas como vtimas no muda de repente para mulheres jovens.
    - Mas ele no est a mudar nada. As idades tm tudo a ver. Todas tinham a idade que a Hope teria nessa altura, se fosse viva.  este o padro.
    - Sim, concordo contigo, embora nenhuma de ns seja especialista nesta rea. Acho que me senti no dever de salientar possveis incongruncias.
    - Pode haver mais. 
    - Isso est tambm a ser investigado, embora at agora, segundo o que me foi assegurado pelo meu contacto, no se tenha descoberto nada. O FBI est investigando. - A boca bonita de Abigail endureceu. - Tory, o meu contacto quis saber a razo do meu interesse e como eu tinha ficado ao corrente do que se passou com a moa da carona. Eu no lhe disse.
    - Obrigada.
    - Podias ajudar.                                          
    - No sei se posso. Mesmo que me deixassem, no sei se sou capaz. Fico gelada por dentro. Nunca foi fcil. Foi sempre devastador. E agora no quero voltar a enfrentar isso, voltar a sujeitar-me a isso. No posso ajud-los. Isso  assunto para a polcia.
    - Se  isso mesmo que sentes, porque me pediste que descobrisse o que pudesse?
    - Eu tinha de saber.          
    - Tory...
    - Por favor, no. No quero voltar l. No tenho a certeza se sairia de l inteira, desta vez. - Para manter as mos ocupadas, comeou a reorganizar coisas numa prateleira. - A polcia, o FBI, so eles os especialistas. Isto  trabalho para eles, no para mim. No quero os rostos de todas aquelas pessoas na minha cabea, o que lhes aconteceu, dentro da minha cabea. J tenho a Hope.
    Covarde. A voz murmurou-lhe a acusao ao ouvido durante o resto do dia. No a ignorou, aceitou-a. E iria aprender a viver com ela.
    Sabia o que queria saber. Quem quer que tivesse morto Hope continuava a matar, de forma seletiva. De forma eficaz. E cabia  polcia, ou ao FBI, ou a uma qualquer fora especial, persegui-lo e det-lo.                                                                                    
    No era trabalho dela. E se os seus receios pessoais mais profundos viessem a revelar-se verdade e aquele assassino tivesse o rosto do seu pai, conseguiria ela viver com isso?
    No demoraria muito at encontrarem Hannibal Bodaen. Nessa altura, ela decidiria.
    Quando fechou a loja, ao fim do dia, pensou que talvez lhe fizesse bem dar uma volta a p pela cidade, pelo parque. Podia passar pela casa de Sherry e falar com ela, em vez de com o atendedor de chamadas. Cuidar do negcio, lembrou a si prpria. Cuidar de si.
    No havia muito trnsito. A maioria das pessoas j devia estar em casa, depois do dia de trabalho, sentada  mesa, jantando. As criana j tinham sido chamadas para lavar as mos, e o sero, longo e bem-disposto, decorreria frente  televiso ou no alpendre, entre trabalhos de casa e pratos sujos.
    Normal. Todos os dias. Maravilhoso pela sua monotonia simples. E era isso que ela queria para si, num desespero mudo.
    Atravessou o parque. As rosas estavam em flor e manchas de begnias enceradas, carmim e brancas, espalhavam-se por toda a parte. As rvores estendiam sombras compridas e acolhedoras e algumas pessoas estavam sentadas ou deitadas debaixo delas. Jovens, notou Tory, ainda no empedernidas na tradio do jantar s cinco e meia. Iriam comer uma pizza, mais tarde, ou um hambrguer, e depois juntar-se a outras como elas, para ouvir msica ou as suas prprias vozes.
    Ela tambm fizera isso, uma vez, por pouco tempo. Mas pareciam ter passado dcadas. Parecia uma mulher completamente diferente, aquela que abrira caminho num clube apinhado de gente, para danar, para rir. Para ser jovem.
    J perdera tudo isso uma vez. No ia perder a nova vida que comeara a construir.
    Absorta nos seus pensamentos, saiu da linha de rvores e comeou a atravessar a pequena elevao verde que ia ter ao bloco de apartamentos.
    A Abelha correu disparada pelo relvado como uma bala, aos saltos como se tivesse enlouquecido.
    - Gostas mesmo de andar aqui fora, no gostas? - Encantada, Tory acocorou-se e deixou-se atacar pela cadelinha.
    - Passou praticamente o dia todo dentro de casa. - Faith aproximou-se, satisfeita quando a sua cadelinha abandonou Tory para saltar na direo dela. - Tem uma energia incrvel.
    - Estou vendo. - Tory o|hou para cima e franziu os lbios enquanto se endireitava. - Esse no  o teu look habitual - comentou, observando a T-shirt muito larga que Faith trazia por cima das calas de linho.
    - Fica-me bem, no fica? Entornei uma coisa na minha blusa. Isto  do Wade.         
    - Estou vendo.                                                              
    - Sim, acho que ests. Tens algum problema com isso?
    - Porque haveria de ter? O Wade  um rapaz crescido.
    - Podia dar-te uma resposta torta, mas fica para outra vez. - Faith prendeu o cabelo solto atrs da orelha e sorriu abertamente. - Cansada da solido do pntano? Andas  procura de apartamento?
    - No. Gosto da minha casa. S vim aqui visitar uma potencial empregada. Sherry Bellows.
    - Ora, mas que coincidncia. Eu tambm vim v-la. O Wade ainda est preso no consultrio, e no tem conseguido contact-la durante todo o dia. O co dela foi atropelado ao fim da manh.
    - Oh, no! - A reserva desapareceu instantaneamente. - Ela vai ficar destroada.
    - Ele est a recuperar. O Wade tratou-o imediatamente. Salvou-lhe a vida. - Faith disse aquilo com um orgulho tal que Tory no conseguiu deixar de olhar para ela. - No sabe bem se a pata do co vai ficar boa, mas eu aposto que vai ficar como nova.
    - Fico contente por ouvir isso.  um co lindo, e ela parece gostar tanto dele. Nem posso acreditar que ela tenha sado e o tenha deixado sozinho e  solta.
    - Nunca se conhece bem as pessoas. O apartamento dela  ali. - Faith apontou. - Fui tocar na porta da frente, mas ela no respondeu, por isso achei melhor vir dar uma espreitadela aqui atrs. O vizinho disse que ela usa mais esta porta do que a da frente.
    - Os estores esto corridos.
    - Talvez a porta esteja aberta. Podemos entrar e deixar-lhe um bilhete. O Wade quer mesmo contactar com ela. - Atravessou o terrao e preparou-se para abrir a porta de correr.
    - No! - Tory segurou-a pelo ombro e puxou-a para trs.
    - Que diabo se passa contigo? No estou a arrombar a casa de ningum, por amor de Deus. S vou espreitar.
    - No entres ali. No entres. - Os dedos de Tory cravaram-se no ombro de Faith.
    Ela j vira. Surgira-lhe diante do rosto, saltara diante dela quase animadamente, e o sabor metlico do sangue e do medo instalara-se-lhe na boca.
     - demasiado tarde. Ele esteve aqui.     
    - De que ests falando? - Faith sacudiu o brao com impacincia. - Importas-te de me largar?
    - Ela est morta - disse Tory, inexpressivamente. - Temos de chamar a polcia.
    
    No conseguiu entrar. Nem conseguia sair dali.
    O guarda que atendera o telefonema mostrara-se cptico e aborrecido, mas no conseguira calar o que considerou serem duas mulheres descontroladas.
    Apertara o cinto, pusera o bon e depois batera com fora no painel de vidro da porta. Tory podia ter-lhe dito que Sherry no conseguia responder-lhe, mas ele no teria ouvido nem compreendido.
    Mas apenas dois minutos depois de ter entrado voltou a sair. E o trejeito de irritao desaparecera-lhe do rosto.
    No foi preciso muito tempo para pr o processo em marcha. Quando o chefe Russ chegou, a cena do crime estava fechada, delimitada pela fita amarela da polida, e as pessoas que entravam e saam levavam as ferramentas do respectivo ofcio e estavam devidamente identificadas.
    Tory sentou-se no cho e esperou.
    - Telefonei ao Wade. - Como no havia mais nada para fazer, Faith sentou-se ao lado de Tory. - Disse que ia esperar at a Maxine chegar para tomar conta do Mongo, mas vem para c.
    - Ele no pode fazer nada.
    - Nenhum de ns pode fazer nada. - Faith observou a fita, a porta, as sombras dos homens que se movimentavam para l dos estores. - Como soubeste que ela estava morta?                
    - A Sherry? Ou a Hope?
    Faith apertou a cadelinha contra o peito e encostou a cara ao plo dela, em busca de conforto.
    - Nunca vi nada assim. No me deixaram aproximar do stio onde estava a Hope. Era demasiado nova. Mas tu viste.
    - Sim.
    - Viste tudo.
    - Tudo, no. - Juntou as palmas das mos e apertou-as entre os joelhos, como se estivessem geladas. - Soube quando chegamos  porta. H uma escurido na morte. Em especial numa morte violenta. E ele deixou ficar uma parte dele. Talvez apenas a loucura.  o mesmo que j aconteceu antes. Ele  o mesmo. - Fechou os olhos. - Pensei que ele viria  minha procura. Nunca pensei... nunca imaginei isto.
    E ali estava a culpa com que ela iria viver agora.
    - Ests a dizer que quem quer que fez isto  Sherry matou a Hope? Depois de todos estes anos?
    Tory comeou a falar, e depois abanou a cabea.
    - No posso ter a certeza. H muito tempo que no tenho a certeza de nada. - Olhou para cima quando ouviu algum chamar Faith pelo nome. Wade vinha a correr pelo relvado, na direo delas.
    Ficou surpreendida quando Faith se ps de p, de um salto. Era raro ver Faith dar-se ao trabalho de se mexer rapidamente. Depois, viu-os carem nos braos um do outro. Um abrao longo e apertado.
    Ele ama-a, percebeu Tory.  o centro de tudo para ele. Que estranho.
    - Ests bem? - Ps as mos no rosto de Faith e manteve-o assim, aninhado.
    - No sei como estou. - Estivera bem, at ali. Tudo lhe parecia distante, o suficiente para no lhe tocar. Agora, as mos tremiam-lhe e sentia o estmago s voltas. Acontecera-lhe o mesmo depois da cirurgia, quando vira o sangue nas mos. - Acho que preciso voltar a sentar-me.
    - Venha aqui. - Quando ela se sentou na erva, ele ajoelhou-se, com a mo ainda no rosto de Faith, enquanto observava o de Tory. Demasiado calma, concluiu. Demasiado controlada. Isso significava que quando perdesse o controlo iria desfazer-se em pedaos. - E se vocs viessem comigo? Precisam de sair daqui.
    - Eu no posso, mas devias levar a Faith.            
    - Para poderes ver tudo e eu no? Nem pensar - disse Faith.
    - Isto no  uma competio.
    - Entre ns as duas? Sempre foi. L est o Dwight.
    As pessoas tinham comeado a juntar-se em pequenos grupos de murmrios e curiosidade. As notcias corriam  velocidade da luz em Progress, pensou Tory com ar aptico. Viu Dwight abrir caminho por entre as pessoas reunidas e dirigir-se para a porta de Sherry.
    - Talvez consigas falar com ele, Wade. - Faith fez um gesto na direo de Dwight. - Talvez ele possa dizer-nos alguma coisa.
    - Vou ver. - Tocou no joelho de Tory antes de levantar-se. - O Cade vem a caminho.                                       
    - Porqu?                                                      
    - Porque eu lhe telefonei. Espera aqui.
    - No era preciso - disse Tory, franzindo o sobrolho nas costas de Wade, enquanto este abria passagem por entre a pequena multido de curiosos.
    - Fica calada. - Aborrecida, Faith procurou na mala um osso para a Abelha roer e ficar ocupada. - No s nenhuma mulher de ferro, e eu tambm no. No somos menos mulheres por nos apoiarmos num homem.
    - No tenciono apoiar-me no Cade.
    - Pelo amor de Deus, se  suficientemente bom para dormires com ele,  suficientemente bom para te amparar numa altura como esta. Acho que no vale a pena armares uma confuso por causa disso.                              
    - Porque no vamos sair os quatro logo? Podemos ir danar.
    O sorriso de Faith era afiado como uma lmina.
    - s uma chata, Tory. E estou comeando a gostar disso em ti. Merda, est ali o Billy Clampett e j me viu. Era mesmo disso que eu estava a precisar. H uns mil anos chateei-me o suficiente e bebi o suficiente para ir para a cama com ele. Felizmente, recuperei o juzo a tempo, mas ele nunca deixou de tentar levar-me  certa.
    Tory observou Billy, que caminhava na direco dela, com os polegares metidos nos bolsos da frente e os restantes dedos a tamborilar no fecho.
    - Nem com todo o lcool que h na regio.
    - Finalmente estamos de acordo. Billy.
    - Minhas senhoras. - Acocorou-se. - Ouvi dizer que havia animao por aqui. Uma moa qualquer foi morta.
    - V l, que descuidada. - Faith no se afastou, no ia dar-lhe essa satisfao, embora conseguisse cheirar no hlito dele a cerveja da noite anterior.
    - Ouvi dizer que foi a Sherry Bellows.  aquela que corre pela cidade com um co grande e peludo. Usa cales curtos e tops reduzidos. Fazendo publicidade da mercadoria.
    Tirou um cigarro do mao que tinha entalado na manga enrolada da T-shirt. Pensava que isso o fazia parecer com o James Dean.
    - Vendi-lhe umas plantas h umas semanas. Foi muito simptica, se esto me entendendo.                         
    - Ouve l, Billy, treinas muito ou s nojento por natureza?
    Levou um minuto a reagir, mas o seu sorriso tornou-se azedo como leite estragado enquanto acendia um fsforo e dava vida ao cigarro.
    - De repente tornaste-te a Dona Forte e Poderosa?
    - No foi de repente. Sempre fui forte e poderosa. No  verdade, Tory?
    - Nunca te conheci de outra maneira.  como se fosse uma marca de nascena.
    - Exatamente. - Divertida, Faith bateu com a mo na coxa de Tory. Pegou num cigarro. - Ns, os Lavelle - comeou ela, acendendo-o e soprando o fumo, calmamente, para a cara de Billy -, estamos destinados a ser superiores. Est no nosso ADN.
    - No foste to superior naquela noite, atrs do Grogan's, quando te apalpei as mamas.
    - Ah. - Faith sorriu e soprou mais fumo. - Foste tu?
    - Desde que tens mamas que s uma devassa.  melhor teres cuidado. - Olhou deliberadamente para a porta de Sherry. - As devassas acabam por ter aquilo que andam a pedir.
    - Agora j me lembro de ti - disse Tory, calmamente. - Costumavas atar foguetes aos rabos dos gatos e acend-los e depois ias para casa masturbar-te.  assim que continuas a passar os tempos livres?
    Ele deu um passo atrs. No havia qualquer sorriso no rosto dele, agora, e o medo substitura o desprezo nos olhos.
    - No precisamos de ti aqui. No precisamos de gente da tua laia.
    Podia ter-se ficado por ali, estava suficientemente assustado para isso, mas a Abelha decidiu que a perna das calas dele era mais interessante do que o osso. Billy f-la voar com o safano que lhe deu com as costas da mo.
    Com um grito de raiva, Faith ps-se de p e pegou na cadelinha, que gania.
    - Seu filho da me barrigudo, ensopado em cerveja, minipnis. No admira que a tua mulher ande  procura de outro homem. No consegues p-lo de p.
    Ele avanou ameaadoramente para Faith. Tory no soube como aconteceu, e parecia estar acontecendo a outra pessoa. Mas o seu punho cerrado saltou-lhe do colo e atingiu-o em cheio no olho. A fora e o choque do golpe fizeram-no cair no cho. Com a cabea um tanto enevoada, ouviu gritos e guinchos e passos a correr, mas quando Billy se ps de p, ela tambm o fez.
    Toda a sua raiva formou uma bola quente dentro de si. Sentia j o sabor a sangue.
    - Devassa de merda!
    Quando ele investiu, ela fincou os ps no cho. Queria violncia. Era bem-vinda. Mas o corpo de Billy arqueou-se-lhe para trs e ele deu por si estatelado no cho.
    - Venha c - sugeriu Cade, puxando-o para cima e forando-o a pr-se de p. - No se metam - disse ele, abruptamente, quando as pessoas acorreram para interferir. - V l, Billy. Vamos ver como lidas comigo em vez de com uma mulher que tem metade do teu tamanho.                                                                                                                                   
    - H anos que andas a pedir isto. - O esgar regressou. Acocorou-se, ardendo na necessidade de restaurar a sua imagem perante a cidade, desesperado por descarregar os punhos no rosto arrogante de um dos Lavelle. - Quando acabar contigo, vou divertir-me com a puta da tua irm e com a devassa da tua amante.
    Investiu com fora. Cade desviou-se. Foram apenas necessrios dois golpes, um gancho impeliu a cabea de Billy para trs e um murro rpido e certeiro no estmago.
    Cade baixou-se e, fazendo presso com o polegar na traqueia de Billy, segredou-lhe ao ouvido?
    - Se tocares na minha irm ou na minha mulher, se falares com elas, se olhares para elas, enrolo-te as bolas  garganta e esgano-te com elas.
    Deixou cair a cabea de Billy no cho e aproximou-se de Tory sem olhar para trs.
    - Isto no  lugar para estares neste momento.
    Tory estava sem palavras. Nunca vira tamanha fria explodir e depois desvanecer-se to rapidamente. Quase com elegncia, pensou. Deitara um homem ao cho sem apelo nem agravo e agora falava suavemente com ela. E tinha os olhos frios como um dia de inverno.
    - Anda, vem comigo.                 
    - Tenho de ficar.
    - No, no tens.
    - Lamento, mas tem. - Cari D. aproximou-se e ao ver Billy no cho coou o queixo, pensativamente. - H problemas por aqui? 
    - O Billy Clampett fez observaes insultuosas. - As lgrimas inundaram suavemente os olhos de Faith, conferindo-lhes a cor de campainhas azuis orvalhadas. - Ele foi... bem, nem sei como comear, mas ofendeu-me, a mim e  Tory, e depois... - Fungou delicadamente. - Depois, bateu aqui na minha pobre cadelinha, e quando a Tory tentou det-lo ele... Se no fosse o Cade, no sei o que poderia ter acontecido.
    Virou-se para Tory, soluando baixinho.
    - Ainda lhe davas uma surra - murmurou. - Cara de cu. Cari D. entalou a lngua na bochecha. Depois do que vira l dentro, esta pequena comdia era um alvio.
    - Foi assim que aconteceu? - perguntou a Cade.
    - Mais ou menos.
    - Vou deix-lo atrs das grades para ver se ele acalma. - Olhou em volta, fixando os olhos nos rostos da multido, enquanto mascava calmamente a sua pastilha elstica. - Acho que ningum vai querer apresentar queixa.
    - No, vamos deixar as coisas como esto.
    - Muito bem. Vou precisar de falar aqui com a Tory, e com a Faith tambm. Temos um pouco mais de privacidade na delegacia.
    - Chefe. - Wade juntou-se-lhes, passando to naturalmente por cima de Billy, semiconsciente, que Faith teve de disfarar uma gargalhada com uma fungadela. - A minha casa fica mais perto. Acho que seria mais confortvel para as senhoras.
    - Podemos fazer isso, pelo menos para j. Vou mandar um dos meus guardas levar-vos. Eu vou l ter.
    - Eu as levo - disse "Wade.                                        
    - Tu e o Cade conhecem quase todas estas pessoas. Ficava-vos agradecido se me ajudassem a convenc-las a voltar para casa. Um dos meus homens trata das senhoras. Preciso dos depoimentos delas - disse ele, antes de Cade conseguir objetar. - E isso  assunto para a polcia.
    - Podemos ir pelos nossos prprios meios.
    - Oua, Miss Faith, vou mandar um dos meus homens acompanhar-vos. Faz parte dos procedimentos. - A um sinal dele, o processo foi posto em movimento.
    
    - Meu Deus, como  que uma coisa destas acontece no meio da cidade? - Dwight esfregou a nuca para aliviar a tenso.
    Tinham conseguido afastar do edifcio a maioria dos curiosos. O que se abatia agora era a escurido, sobre ele e os seus dois amigos mais antigos, sentados no relvado junto ao apartamento onde a morte usava como smbolo a fita amarela da polcia.
    - O que sabes sobre o assunto? - perguntou-lhe Wade.  
    - Acho que o mesmo que toda a gente. O Cari D. no me deixou passar, e mesmo assim s cheguei onde cheguei por ser o Presidente da Cmara. Parece que algum entrou em casa dela ontem. Talvez fosse um assalto. - Beliscou a cana do nariz e abanou a cabea. -  pouco provvel. No me parece que ela tivesse muito dinheiro.
    - Como tero passado pelo co? - inquiriu Wade.
    - Co? - Dwight ficou um momento sem perceber e depois acenou com a cabea. - Ah, sim. No sei. Talvez fosse algum conhecido. Faz mais sentido, no faz? Talvez fosse algum conhecido e tenham discutido e a coisa tenha sado do controle. Ela estava no quarto - acrescentou ele, com um suspiro. -  tudo o que sei. Bem, pelo que ouvi aqui e ali, foi violada.                     
    - Como foi morta? - perguntou-lhe Cade.
    - No sei. O Cari D. deixou passar pouca informao. Credo, Wade, ainda uma noite destas estivemos a falar dela, lembras-te? Choquei com ela quando ela vinha saindo do teu consultrio.
    - Sim, lembro. - Recordou a imagem dela, a tagarelar, a namorisc-lo enquanto ele examinava Mongo.
    - Ouvi umas coisas ali dentro. - Dwight indicou, com um movimento da cabea, a porta selada. - Sobre a Tory Bodeen. Uma conversa tensa - acrescentou. - Acho que gostavam de saber. - Voltou a suspirar. - Uma coisa destas no devia acontecer no meio do raio da cidade. As pessoas deviam estar seguras nas suas casas. Isto vai deixar a Lissy doente.      
    - Amanh vai haver uma corrida ao armazm de ferramentas e  loja de armas - previu Cade. - Fechaduras e munies.
    - Meu Deus!  melhor eu convocar uma sesso pblica da Cmara, para ver se consigo acalmar as pessoas. Espero que o Cari D. tenha alguma coisa sobre o assunto amanh. Tenho de ir ter com a Lissy. Deve estar preocupada. - Lanou um ltimo olhar  porta. - Isto no devia ter acontecido aqui - repetiu, afastando-se.
    
    - S me encontrei com ela uma vez. Ontem.           
    Tory estava sentada no sof de Wade, com as mos cuidadosamente cruzadas no colo. Sabia que era importante estar calma e com as idias no lugar quando falasse com a polcia. A polcia apontava s emoes, usava as fraquezas como alavancas para extrair mais do que queramos dizer.                                      
    Depois ridicularizava-nos.
    Depois traa-nos.
    - S esteve com ela dessa vez. - Cari D. acenou com a cabea e tomou notas. Pedira a Faith que esperasse l em baixo. Queria as conversas, e os fatos que obtivesse com elas, registrados em separado. - Porque decidiu passar por casa dela, hoje?
    - Ela foi  loja pedir-me emprego.                               
    - Ah sim? - Ergueu uma sobrancelha. - Pensei que ela tinha emprego. Era professora no liceu.
    - Sim, ela disse-me. - Responde s perguntas com preciso, recordou a si prpria. No acrescentes nada nem ds respostas muito elaboradas. - Mas s ia comear a ter um horrio a tempo integral a partir do outono, e queria arranjar qualquer coisa temporria que a ajudasse nas despesas. E para se manter ocupada, acho eu. Pareceu-me uma pessoa cheia de energia.
    - H-h. Por isso, contratou-a.
    - No. Pelo menos no imediatamente. Ela deu-me referncias. - Deixou-as escritas numa folha de papel, lembrou-se ela, juntamente com a morada. A folha que ela deixara em cima do balco quando o seu pai entrara. Meu Deus, meu Deus!
    - Foi uma coisa sensata. No sabia que andava pensando em contratar algum.
    - Na verdade, no tinha pensado nisso at ela entrar. Foi convincente. Fiz as minhas contas e decidi que podia pagar a algum que me ajudasse a tempo parcial. Verifiquei as referncias dela, esta manh, e depois telefonei-lhe. Respondeu o atendedor e deixei mensagem,                                                                                 
    - H-h. - J ouvira a mensagem dela e as que Wade deixara quando lhe telefonara do consultrio. E a da vizinha do andar de cima, e a de Lissy Frazier. Sherry Bellows era popular. - E ento decidiu ir ter com ela pessoalmente.
    - Depois de fechar a loja, apeteceu-me dar um passeio. Decidi ir at ao parque e passar pelo apartamento dela. Se ela estivesse em casa, podia falar com ela sobre o emprego.
    - Foi at l com Faith Lavelle?
    - No, fui sozinha. Dei com a Faith na zona junto ao edifcio, nas traseiras. Disse que o co da Sherry tinha sido ferido de manh. Tinha sido atropelado por um carro e o Wade tinha tratado dele. E ela tinha vindo at ali para fazer um favor ao Wade, porque ele no conseguia contactar com ela telefonicamente.
    - Portanto, chegaram ao mesmo tempo.        
    - Sim, mais ou menos. Deviam ser cerca de seis e meia, porque fechei a loja por volta das seis e dez, seis e um quarto.
    - E quando Miss Bellow no respondeu, entraram para procur-la.
    - No. Nenhuma de ns entrou em casa.
    - Mas viram qualquer coisa que vos preocupou. - Levantou os olhos do bloco de apontamentos. Ela deixou-se ficar sentada, perfeitamente imvel, com os olhos fixos nos dele, e no disse nada. - Ficaram suficientemente preocupadas para chamar a polcia.
    - Ela no respondeu ao meu telefonema, embora parecesse muito ansiosa por conseguir o emprego. No respondeu aos telefonemas do Wade, embora tivesse ficado perfeitamente claro e evidente, pelo nico encontro que tive com ela, que adorava o co. Os estores estavam corridos, a porta estava fechada. Chamei a polcia. Nem eu nem a Faith entramos. Nenhuma de ns viu nada. Por isso, no tenho nada para lhe dizer.
    Ele recostou-se e mordiscou o lpis.
    - Tentou abrir a porta?
    - No.
    - No estava fechada. - Deixou que o silncio ficasse no ar, e preencheu o tempo tirando do bolso a caixa de pastilhas, que ofereceu a Tory. Quando ela abanou a cabea, tirou uma pastilha da caixa, desembrulhou-a e dobrou meticulosamente o papel.
    O corao de Tory comeou a danar-lhe no peito.
    - Ora, muito bem... - Cari D. dobrou a pastilha to cuidadosamente como fizera ao papel e meteu-a na boca. - Chegaram as duas  porta. Conhecendo a Faith Lavelle, diria que ela no resistiu a espreitar. Por curiosidade, pelo menos. Para saber o que esta nova professora tinha em casa, esse tipo de coisa.
    - Mas no espreitou.
    - Bateram  porta? Chamaram-na?
    - No, ns... - Interrompeu-se, ficando em silncio.
    - Portanto chegaram  porta e decidiram chamar a polcia. - Soltou um suspiro. - No me parece que esteja a haver aqui grande cooperao. Sou um homem simples, de modos simples. E sou polcia h mais de vinte anos. Os polcias tm instintos, impresses no estmago. Nem sempre conseguem explic-las. Existem apenas. Talvez a Miss tenha tido uma impresso qualquer  porta do apartamento da Sherry Bellow, hoje.                                               
    -  possvel.
    - H pessoas que tm tendncia para sentir impresses. Pode dizer que teve uma h dezoito anos, quando nos levou at ao stio onde estava a Hope Lavelle. E teve mais, em Nova Iorque. Muitas pessoas ficaram gratas por t-las tido.
    A voz dele era simptica, um desenrolar de palavras suaves, mas os olhos no paravam de observ-la.
    - O que aconteceu em Nova Iorque no tem nada que ver com isto.
    - Tem a ver consigo. Seis garotos voltaram para casa porque a Miss teve umas impresses.
    - E um no voltou.                       
    - Seis voltaram - repetiu Cari D.
    - No tenho mais nada a acrescentar para alm do que j lhe disse.
    - Talvez no tenha. A mim parece-me mais que no quer ter. Eu estive l, h dezoito anos, quando nos levou at quela menina. Sou um homem simples, de modos simples, mas estive l. E estive l hoje, a olhar para aquela jovem e para o que lhe fizeram. Fui transportado ao cenrio de h dezoito anos. Estive nos dois locais, vi as duas coisas. E a Miss tambm.       
    - No entrei.                                                                      :
    - Mas viu.
    - No! - Ps-se de p, de um salto. - No vi. Senti. No vi, nem espreitei. No havia nada que eu pudesse fazer. Ela estava morta, e eu no podia fazer nada por ela. Nem pela Hope. Nem por nenhuma das outras. No quero isso dentro de mim outra vez. J lhe disse tudo o que sei, exatamente como aconteceu. Porque  que isso no chega?
    - Est bem. Pronto, est bem, Miss Tory. Porque no se senta ali e tenta acalmar-se, enquanto eu vou l abaixo falar com a Faith?
    - Gostaria de ir para casa.
    - Sente-se e recupere o flego. Vou mandar algum lev-la a casa.
    Remoeu os pensamentos sobre ela e a reao dela s suas perguntas, enquanto descia as escadas. Aquela rapariga, concluiu, era um cesto de problemas. Podia lament-lo, mas isso no iria impedi-lo de us-la se isso servisse os seus propsitos. Tinha um homicdio na sua cidade. No era o primeiro, mas era o pior em muitos, muitos anos.
    E ele era um homem que tinha impresses, palpites. E eles diziam-lhe que Tory Bodeen era a chave.
    
    Encontrou Cade a andar de c para l, ao fundo das escadas.
    - Podes subir e ir ter com ela. Acho que ela precisa de um ombro amigo. A tua irm est por aqui?
    - Est l atrs, com o Wade. Ele est vendo o co.
    -  uma pena o co no poder falar. Foi o Piney que o apanhou, no foi?                                      
    - Disseram-me que sim.
    - Pois, pena o co no poder falar. - Meteu o bloco no bolso e dirigiu-se  sala do fundo.
    Cade encontrou Tory ainda sentada no sof.
    - Devia ter-me ido embora e pronto. Ou melhor, devia ter sido mais esperta e ter deixado a Faith entrar, como ela queria. A Faith t-la-ia encontrado, teramos chamado a polcia e no haveria perguntas.                                                                                                 
    Ele aproximou-se e sentou-se ao lado dela.
    - E porque no fizeste isso?
    - No quis que ela visse o que estava l dentro. E eu tambm no quis ver. E agora o chefe Russ espera que eu entre em transe e lhe d o nome do assassino. Foi o professor Plum, na estufa, com um candelabro. No sou um tabuleiro de jogo, raios partam!
    Ele pegou-lhe na mo.
    - Tens todo o direito a sentir-te zangada. Com ele, com a situao. Mas porque ests zangada contigo prpria?
    - No estou. Porque estaria? - Olhou para as mos de ambos, enlaadas. - Magoaste os ns dos dedos.
    - Di como o raio.
    - Verdade? No pareceu nada, quando lhe deste. Parecia que no estavas a sentir nada, exceto uma ira controlada. Como se pensasses: tenho de livrar-me desta mosca irritante e depois voltar ao meu livro.
    Ele sorriu e levou a mo dela aos lbios.
    - Um Lavelle tem de manter a dignidade.
    - Tretas. Eu disse que parecia, mas a realidade foi diferente. A raiva e a revolta foram a realidade, e eu sei bem que gostaste de deix-lo estendido no meio do cho - disse ela com um suspiro. - Porque foi isso que senti. Ele  um homem horrvel e agora vai tentar encontrar outra maneira de te magoar. Mas vai atacar-te pelas costas, porque tem medo de ti. E isto  apenas bom senso e uma compreenso razovel da natureza humana, no tem nada que ver com os meus fabulosos poderes psquicos.
    - O Clampett no me preocupa. - Passou os ns dos dedos magoados pelo rosto dela. - No deixes que te preocupe.
    - Quem me dera conseguir. - Ps-se de p. - Quem me dera conseguir preocupar-me com ele, para que ele me ocupasse o pensamento. Porque hei-de sentir-me culpada?
    - No sei, Tory. Porqu?
    - Mal conhecia a Sherry Bellows. Passei menos de uma hora com ela, apenas aflorou a minha vida. Lamento o que lhe aconteceu, mas isso significa que tenho de envolver-me?
    - No.
    - No vai mudar o que lhe aconteceu. Nada que eu faa pode mudar o que aconteceu. Por isso, para qu? Mesmo que o chefe Russ parea aberto ao que eu eventualmente possa fazer, vai acabar por ser como todos os outros. Porque hei-de meter-me no meio, apenas para se rirem  minha custa e me mandarem embora?
    Deu alguns passos  volta dele.
    - No tens nada para dizer?      
    - Estou  espera que mudes de opinio.
    - Achas-te muito esperto, no achas? Achas que me conheces to bem. Mas no conheces de todo. No voltei aqui para consertar nada, nem para vingar nenhuma amiga morta. Voltei aqui para viver a minha vida e tratar do meu negcio.
    - Est bem.
    - No me digas Est bem nesse tom paciente, quando os teus olhos me dizem que sou uma mentirosa.
    Como a respirao dela estava a comear a tornar-se ofegante, ele levantou-se e aproximou-se dela.
    - Eu vou contigo.
    Ela olhou para ele por mais um instante e depois caiu nos braos dele.
    - Meu Deus, meu Deus!
    - Vamos l abaixo dizer ao chefe. Eu fico contigo.
    Ela acenou com a cabea e manteve o abrao dele durante mais um minuto. E aceitou que depois de terminar o que ia fazer no apartamento de Sherry talvez ele no quisesse voltar a abra-la, nunca mais.
    - Precisa de alguma coisa antes de entrarmos?
    Tory continuava a tentar acalmar-se, mas enfrentou o olhar de Cari D.                                                                         
    - O qu? Uma bola de cristal? Um tar?
    Ele foi  frente, como ela pedira, e destrancou a porta que dava para o terrao, a partir do interior, cortou o selo e saiu ao encontro dela e de Cade.               
    Havia menos hipteses de ser vista se entrasse pelas traseiras. O assassino tambm sabia isso.
    Cari D. empurrou o bon para trs, para coar a sua ampla testa.
    - Acho que est um bocado zangada comigo.
    - O senhor pressionou-me at onde no gosto de ser pressionada. Isto no vai ser agradvel para mim e pode ser perfeitamente intil para si.
    - Miss Tory, tenho uma jovem mais ou menos da sua idade deitada numa mesa,  espera do funeral. O mdico legista est fazendo a autpsia. A famlia chega amanh de manh. No consideraria isto agradvel para ningum.
    Queria que ela entendesse isso. Tory concordou, com um aceno de cabea.                                                                                 
    - O senhor  um homem mais duro do que eu pensava.
    - E voc  uma mulher mais dura. Acho que ambos temos as nossas razes.
    - No fale comigo. - Foi ela prpria que abriu a porta, entrando em seguida.
    Cruzou os braos sobre si prpria e comeou por concentrar-se na luz. Na luz que invadiu o quarto quando ele apertou o interruptor. A luz que Sherry atravessara.
    Passou muito tempo at ela falar. Muito tempo, enquanto aquilo que ficara no quarto deslizava para dentro dela.
    - Ela gostava de msica. Gostava de barulho. Estar sozinha no era uma coisa natural para ela. Gostava de ter pessoas  volta. Vozes, movimento. So to fascinantes para ela. Adorava conversar.
    Havia p no telefone, usado para tirar impresses digitais. No notou que o p lhe manchou os dedos quando ela os passou por cima dele.
    Quem era Sherry Bellows? Era por a que tinha de comear.
    - As conversas eram como um alimento para ela. Sem elas, morreria  fome. Gostava de saber coisas sobre as pessoas, de ouvi-las falar sobre elas prprias. Era muito feliz aqui.
    Fez uma pausa, deixando que os seus dedos deslizassem por molduras, pelo brao de uma cadeira.
    - A maioria das pessoas no quer realmente ouvir o que os outros dizem, mas ela queria. As perguntas dela no eram um pretexto para falar de si prpria. Tinha tantos planos. Ensinar era uma aventura para ela. Tantos espritos para alimentar.
    Passou por Cade e por Cari D. Embora tivesse conscincia da presena deles, estavam se tornando menos importantes para ela, a sua presena era cada vez menos real.
    - Adorava ler. - Tory falou calmamente enquanto se aproximava de uma estante barata, com prateleiras de metal, cheias de livros.
    Na sua cabea flutuaram imagens de uma mulher bonita a arrumar livros na estante, a tir-los, enrolada com eles na cadeira do terrao, com um co grande e peludo a ressonar aos seus ps.        
    Era fcil misturar-se com estas imagens, abrir-se a elas, tornar-se parte delas. Sentiu o sabor do sal - batatas fritas - na lngua, e sentiu uma agradvel onda de contentamento.
    - Mas essa  apenas outra forma de estar com as pessoas. Metes-te no livro. Tornas-te uma personagem, a tua personagem favorita. Vives experincias.
    O co deita-se contigo no sof, ou na cama. Deixa plo por toda a parte. Juras que podias fazer um casaco com o plo que ele larga, mas  to amoroso. Por isso, usas o aspirador quase todos os dias. Pes a msica mais alta para no ser abafada pelo rudo do motor.
    A msica vibrou dentro da cabea dela. Alta, animadamente alta. Bateu o p seguindo o ritmo.
    - Mister Rice, o vizinho, queixou-se por causa disso. Mas tu fazes-lhe uns bolinhos e tudo fica bem. As pessoas so to simpticas nesta cidade.  exatamente neste lugar que gostas de estar.
    Virou-se. Tinha os olhos desfocados, vazios, mas estava a sorrir. O  corao  de  Cade  parou  momentaneamente  quando  aquele olhar esfumado o fixou. O atravessou.
    - O Jerry, o rapazinho que vive aqui por cima,  louco pelo Mongo. O Jerry  to engraado como um inseto e duas vezes mais incomodativo. Um dia, vais querer um rapazinho exatamente como ele, com aqueles olhos, aqueles sorrisos e aqueles dedos pegajosos.
    Descreveu um crculo, os lbios curvados, os olhos vazios.
    - s vezes,  tarde, depois da escola, saem e vo correr juntos, ou ele atira bolas de tnis ao Mongo. Bolas amarelas, que ficam todas molhadas e estragadas.  engraado ficar sentada no terrao, a v-los. O Jerry tem de ir para dentro, a me chamou-o para fazer os trabalhos antes do jantar. O Mongo est completamente estafado, por isso adormece no terrao. Queres a msica alta, o mais alto que puderes sem aborreceres Mister Rice, porque te sentes muito feliz. To cheia de planos e de esperana. Um copo de vinho. Vinho branco. No  um vinho muito bom, mas no podes comprar um melhor. Mas  agradvel e vais bebendo pequenos goles enquanto ouves a msica e fazes planos.
    Aproximou-se das portas que davam para o terrao e espreitou l para fora. Em vez da escurido, viu o crepsculo. O co grande estava estendido no cimento como um tapete felpudo e ressonava ligeiramente.
    - Tanto em que pensar, tantos planos. Tanto para fazer. Sentes-te to bem e mal podes esperar por comear. Queres dar uma festa, ter a casa cheia de gente e namorar aquele veterinrio lindo, e aquele Cade Lavelle, que tem um ar to refinado. Ai, no h dvida de que os homens so lindos em Progress. Mas agora tens de preparar uma refeio. Tens de dar comida ao co. Talvez mais um copo de vinho enquanto preparas tudo.
    Foi at  cozinha, com passo decidido, trauteando a msica que ouvia na cabea. Sheryl Crow.
    - Uma salada. Uma bela salada, com muitas cenouras, porque o Mongo gosta. Vais mistur-las com o granulado. - Baixou-se e passou os dedos pela pega da porta do armrio, e depois soltou uma exclamao e recuou.
    Instintivamente, Cade deu um passo na direo dela, mas Cari D. segurou-o pelo brao.
    - No. - Falou num murmrio, como se estivesse na igreja. - Deixa-a.
    - Ele estava ali. Ali mesmo. - A respirao de Tory era agora entrecortada, ofegante. Tinha ambas as mos a apertar o pescoo. - No o ouviste. No consegues v-lo. H uma faca. Ele tem uma faca. Meu Deus, meu Deus, meu Deus. Ele tapou-te a boca com as mos, com fora. A faca est na tua garganta. Tens tanto medo. Tanto medo. No vais gritar. No vais. Fazes tudo para ele no te magoar. A voz dele est no teu ouvido, suave, calma. Que fez ele ao Mongo. Fez-lhe mal? Est tudo confuso na tua cabea. No  real. No pode ser real. Mas a faca  to afiada. Ele empurra-te e tens medo de cair e de a faca...
    Saiu a correr da cozinha e apoiou uma mo na parede quando se sentiu desequilibrar.
    - Os estores esto corridos. Ningum consegue ver. Ningum pode ajudar. Ele quer-te no quarto, e tu sabes o que ele vai fazer. Se ao menos conseguisses fugir, ficar longe da faca.
    Tory estacou  porta do quarto. A nusea tomou conta dela, em ondas pequenas e encrespadas.
    - No consigo. No consigo. - Virou a cara para a parede, tentando encontrar-se a si prpria no meio do medo e da violncia. - No quero ver isto. Ele matou-a aqui, porque tenho de ver?
    - J chega. - Cade empurrou a mo de Cari D., que lhe barrava o caminho. - J chega, raios!
    Mas quando se aproximou de Tory, ela afastou-se, bamboleante.
    - Est na minha cabea. Nunca hei-de conseguir tirar isto da minha cabea. No fales comigo. No me toques.
    Pressionou as mos contra o rosto, aprisionando a sua prpria respirao e fazendo-a voltar a entrar dentro dela.
    - Ele empurra-te para cima da cama,  de barriga para baixo. E pe-se em cima de ti. J est pronto e quando o sentes, quando sentes a presso dele em ti, debates-te. O medo toma conta de ti.  enorme, sufoca-te. Sentes calor. O medo queima.
    Gemeu e caiu de joelhos junto da cama.
    - Ele bate-te. Com fora. A nuca. A dor  to forte, percorre-te toda, entontece-te. Ele volta a bater-te e a tua face explode. Sentes o sabor do sangue. Do teu sangue. O sangue tem o mesmo sabor que o terror. O mesmo. Ele ata-te os braos atrs das costas, e esta dor junta-se  outra.                                      
    Os tentculos daquela dor trepavam por ela, s cegas, dentro dela, com um horror tamanho que parecia querer fazer-lhe explodir o crebro. Pressionou a cara contra o colcho e cravou os dedos nele.
    - Est escuro. O quarto est escuro e a msica est a tocar e tu no consegues deixar de sentir a dor. Ests a chorar. Tentas implorar, mas ele amordaou-te com um pano. Volta a bater-te e tu comeas a esvair-te. Semiconsciente, mal sentes quando ele te corta as roupas. A faca corta-te tambm a pele, mas  pior, muito pior quando ele usa as mos.
    Tory dobrou-se para a frente, com os braos em volta da barriga, e comeou a balanar-se.     
    - Di. Di. Nem sequer podes gritar quando ele est a violar-te. Queres que acabe, mas ele continua, continua, e tu tens de partir. Tens de ir para outro lado. Tens de ir-te embora.
    Exausta, Tory encostou a cabea  cama e fechou os olhos. Era como ser asfixiada, pensou vagamente. Como ser enterrada viva, e o sangue tilinta-te nos ouvidos como mil sinos e o suor que cobre o teu corpo est frio. To desagradavelmente frio.
    Teve de fazer um esforo para voltar a respirar.
    Para voltar a si.
    - Quando terminou, estrangulou-a com as mos. Ela j no conseguia lutar. Chorou. Ou foi ele que chorou. No sei bem. Mas cortou a corda que lhe prendia os pulsos. Levou-a com ele. No queria deixar nada de seu para trs, mas deixou. Como cristais de gelo no vidro. No consigo ficar aqui. Por favor, levem-me daqui. Por favor, tirem-me daqui.
    - Est tudo bem. - Cade baixou-se para abra-la. A pele dela estava fria, molhada de suor. - Est tudo bem, querida.
    - Sinto-me mal. No consigo respirar aqui dentro. - Encostou a cabea ao ombro dele e deixou-se levar dali.
    Ele levou-a a casa. Ela no falou nem se mexeu durante toda a viagem. Ficou sentada como um fantasma, plida e silenciosa, enquanto o vento que entrava pelas janelas abertas da camioneta lhe soprava na cara e no cabelo.
    Cade sentia uma fria, que disparara contra Cari D. quando o chefe dissera que ia segui-los at casa. Mas ela disse-lhe que o deixasse vir. Foi a ltima coisa que ela disse. Por isso, a fria que ele sentia ficou sem alvo e no pde ser descarregada, e foi-se acumulando, profunda e cheia de violncia.
    Estacionou junto  Casa do Pntano e ela saiu da camioneta antes de ele conseguir chegar junto dela para ajud-la.
    - No s obrigada a falar com ele. - Falou em tom seco, os olhos brutalmente frios.
    - Sou, sim. Tu no consegues ver o que eu vejo, por isso no podes ajudar-me. - Volveu os olhos exaustos na direo do carro da polcia. - Ele sabia isso, e usou-o. No precisas de ficar.
    - No sejas estpida - deixou Cade escapar, e virou-se para esperar por Cari D. enquanto ela se encaminhava na direo da porta.
    - Veja l o que faz. - Cade enfrentou o chefe assim que este saiu do carro da polcia. - Tenha muito, muito cuidado com ela, ou vou usar o que tiver  mo para faz-lo pagar por isso.
    - Espero que estejas transtornado.
    - Transtornado? - Cade agarrou a camisa de Cari D. Sentia-se capaz de rachar o homem ao meio. De um s golpe. - Sujeitou-a quilo. E eu tambm - disse ele, soltando a camisa, revoltado. - E para qu?
    - No sei. Ainda no sei. A verdade  que estou um pouco abalado com isto. Mas tambm tenho que usar aquilo que tenho  mo. E neste momento, o que tenho  mo  a Tory. Estou a tentar avanar, Cade.
    Havia uma certa tristeza na voz dele, nos olhos, que se sobrepunha ao dever.
    - No quero fazer mal quela rapariga. Se isso te faz sentir melhor, vou ter muito cuidado. O mximo que conseguir. E vou recordar-me, provavelmente para o resto da minha vida, do que ela passou naquela casa.
    - Tambm eu - disse Cade, dando meia volta.
    Ela estava a preparar um ch, uma mistura de ervas que esperava que conseguisse acalmar-lhe o estmago e fazer com que as mos deixassem de tremer-lhe. No disse nada quando os dois homens entraram, mas tirou do armrio uma garrafa de usque e colocou-a em cima da bancada e sentou-se.
    - Acho que preciso de um copo disso. No devia beber enquanto estou de servio, mas vamos atender s circunstncias.
    Cade tirou dois copos do armrio e serviu dois usques duplos.
    - Ele entrou pelas traseiras - comeou Tory. - Sabem isso. J sabem muitas das coisas que tenho para vos dizer.
    - Agradeo a sua disponibilidade. - Cari D. puxou uma cadeira, fazendo-a arrastar no cho. - Diga-me como entender, e no tenha pressa.
    - Ela estava sozinha no apartamento. Bebeu um ou dois copos de vinho. Sentia-se bem, animada, cheia de esperana. Tinha a msica a tocar. Estava na cozinha quando ele entrou. A preparar uma salada para o jantar, a preparar a comida para dar ao co. Ele atacou-a pelas costas e usou a faca que ela tinha pousado em cima do balco enquanto tirava a comida do co do armrio.
    A voz de Tory era monocrdica, sem vida, o rosto inexpressivo. Pegou no ch, bebeu um pouco e pousou-o.
    - Ela no o viu. Ele manteve-se atrs dela, e encostou-lhe a faca  garganta. Fechou os estores das janelas que davam para o terrao. Acho que fechou a porta  chave, mas no importa. Ela no tentou fugir, tinha demasiado medo da faca.
    Distraidamente, levou a mo ao pescoo e passou os dedos pela traqueia, como se tivesse sentido uma picada de inseto.
    - No sei o que ele lhe disse. Tudo o que ela sentiu foi muito mais forte do que o que ele sentiu. Ele no a desejava particularmente. Naquilo que deixou na casa havia raiva e confuso e uma espcie de orgulho horrvel. Ela foi uma substituta, algum que estava  mo para... satisfazer uma necessidade que nem ele prprio compreende. Levou-a para o quarto e atirou-a para cima da cama, com a cara para baixo. Bateu-lhe vrias vezes, na nuca, na cara. Atou-lhe as mos atrs das costas, com uma corda forte. Correu as cortinas, para ningum poder v-lo, para estar escuro. No queria que ela lhe visse a cara mas, mais do que isso, acho que, mais do que isso, no queria ver a dela. Ele v outro rosto enquanto a viola. Usa a faca para cortar as roupas, tem muito cuidado mas acaba por cortar-lhe ligeiramente a pele, nas costas e junto ao ombro.
    Cari D. acenou com a cabea e tomou um longo trago da sua bebida.
    -  verdade. Ela tinha dois cortes superficiais, e tinha marcas nos pulsos, mas no encontramos corda nenhuma.
    - Ele levou-a. Nunca tinha feito isto num espao fechado. Sempre o fez em campo aberto, e h qualquer coisa de excitante em fazer-lhe este tipo de coisas na cama. Quando lhe bate, sente prazer. Gosta de magoar mulheres. Mas, mais do que dar-lhe prazer, proporciona-lhe uma espcie de alvio para esta voracidade que tem dentro dele. Esta necessidade de provar a ele prprio que  homem.  homem quando faz uma mulher vergar-se  sua vontade. Enquanto a viola sente-se mais feliz, mais forte dentro dele mesmo, do que em qualquer outro momento.  assim que celebra a sua masculinidade, e no consegue faz-lo de nenhum outro modo.                 
    A tentativa de v-lo, de entrar nele, fazia-lhe doer a cabea. Esfregou a tmpora e esforou-se mais.
    - Para ele,  uma questo sexual, e acredita que ela estava a pedir para ser dominada. Convenceu-se disso e, no entanto, tem cuidado. Usa um preservativo. Sabe l com quem ela tem andado.  uma puta, como todas as outras. E um homem tem de cuidar de si prprio.
    - Disse que ele no queria deixar nada seu para trs.
    - Sim. No deixa o seu semen dentro dela. Ela no merece. Eu... isto no  o que eu sinto dele, no sinto quase nada dele. - Tamborilou de leve com os dedos na tmpora, que latejava. - H vazios e becos sem sada. Ele no  sempre a mesma coisa. No sei como hei-de explicar-lhe.
    - No faz mal - disse-lhe Cari D. - Continue.
    - Isto no  um acto de procriao, mas sim de castigo, para ela, e de exaltao do ego, para ele. Durante o processo, ela deixa de existir para ele. Ela no  nada, por isso  fcil mat-la. Quando termina, fica orgulhoso, mas tambm fica zangado. Nunca  exatamente o que ele esperava, nunca o purifica completamente. A culpa  dela, claro. Da prxima vez ser melhor. Corta a corda, apaga a msica e deixa-a na escurido.
    - Quem  ele?                                                                          
    - No lhe vejo o rosto. Consigo ver alguns dos pensamentos dele, algumas das suas emoes mais desesperadas, mas no o vejo.
    - Ele conhecia-a.
    -J a tinha visto, acho que tinha falado com ela. Conhecia-a o suficiente para saber da existncia do co. - Tory fechou os olhos por um momento, tentou concentrar-se. - Drogou o co. Acho que ele drogou o co. Um hambrguer misturado com qualquer coisa. Foi arriscado. Tudo isto foi muito arriscado, o que veio aumentar a excitao. Algum podia t-lo visto. Das outras vezes, no havia ningum para ver.
    - Que outras vezes?                                             
    - A primeira foi Hope. - A voz quebrou-se-lhe. Voltou a pegar no ch, acalmou-se. - H mais quatro, que eu saiba. Pedi a uma amiga que investigasse. Ela descobriu que houve cinco nos ltimos dezoito anos. Todas mortas no final de agosto, todas jovens e louras. Cada uma delas tinha a idade que a Hope teria, se estivesse viva. Acho que a Sherry era mais nova, mas no era a ela que ele queria.
    - Um serial killer. Durante mais de dezoito anos.
    - Pode confirmar o que eu lhe disse, com o FBI. - Nessa altura olhou para Cade, pela primeira vez desde que se tinham sentado. - Ele continua a matar a Hope. Lamento. Lamento tanto.
    Levantou-se, e a chvena tremeu sobre o pires quando ela os levou at  bancada.
    - Acho que pode ser o meu pai.
    - Porqu? - Cade manteve os olhos fixos no rosto dela. - Porque hs-de pensar uma coisa dessas?
    - Ele... quando me batia ficava excitado. - A vergonha trespassou-a, estilhaos de vidro cortaram-na com um calor amargo. - Nunca me tocou sexualmente, mas ficava excitado quando me batia. Olhando para trs, no posso ter a certeza que ele no soubesse dos meus planos para encontrar-me com a Hope naquela noite. Quando chegou para jantar estava bem-disposto, o que raramente acontecia. Foi como se estivesse  espera que eu cometesse um erro, que lhe abrisse a porta para ele investir. E quando abri essa porta, quando disse  minha me que o frasco da cera estava no armrio, um erro to estpido, ele apanhou-me. Nem sempre me batia tanto, mas naquela noite... Quando acabou, teve a certeza de que eu no iria a lugar nenhum.
    Voltou a aproximar-se da mesa.          
    - A Sherry estava na loja quando ele apareceu, ontem. Fez-lhe perguntas sobre o co, e ela tinha acabado de preencher um formulrio, para um emprego. Tinha o papel em cima do balco. O nome, a morada, o nmero de telefone. Ele estava seguro quanto a mim, seguro de que eu tinha demasiado medo para contar a algum que o tinha visto. Ele nunca esperaria que eu fosse  polcia. Mas no podia ter a certeza quanto a ela.
    - Acha que Hannibal Bodeen matou Sherry Bellows porque ela o viu?
    - Pode ter sido a desculpa dele, a justificao para o que queria fazer. S sei que ele  capaz disso. No posso dizer-lhe mais nada. Desculpe. No estou me sentindo bem.
    Afastou-se da mesa e fechou-se no banheiro.
    J no conseguia combater a sensao de nusea, por isso deixou que ela a dominasse. A esvaziasse. Depois, deitou-se no cho, nos mosaicos frios, e esperou que a fraqueza se abatesse sobre si. O silncio parecia ecoar-lhe nos ouvidos, juntamente com o bater do seu corao.
    Quando conseguiu, ps-se de p e abriu a torneira, deixando correr a gua muito quente, quase a ferver. Estava gelada at aos ossos. Parecia que nada conseguia aquec-la, mas a gua f-la imaginar que todo o horror era lavado da sua pele, seno mesmo da sua mente.
    Mais firme, embrulhou-se numa toalha, tomou trs aspirinas e saiu da casa de banho, preparada para enrolar-se na cama e abandonar-se ao sono.                                            
    
    Cade estava junto  janela, a olhar para a escurido lavada pela lua. Apagara as luzes, por isso aquele brilho prateado recortava-lhe a silhueta. Tory ouviu o ritmo da noite, do outro lado da porta, as asas e os lamentos que compunham a msica do pntano.
    O corao doa-lhe por tudo o que no conseguia deixar de amar.
    - Pensei que te tinhas ido embora. - Foi ao armrio buscar o roupo.
    Ele no se virou.
    - Sentes-te melhor?
    - Sim, estou bem.
    - No  isso. S quero saber se te sentes melhor.
    - Sim. - Determinada, atou o cinto do roupo. - Sinto-me melhor, obrigada. No tens qualquer obrigao de ficar aqui, Cade. Sei o que posso fazer por mim.
    - Ainda bem. - Virou-se, mas o rosto continuou envolto pelas sombras. Ela no conseguia v-lo, recusava-se a ver o que quer que fosse. - Diz-me o que posso fazer por ti.
    - Nada. Estou agradecida por teres ido comigo, e por me teres trazido a casa. Fizeste mais do que tinhas de fazer, mais do que seria de esperar que algum fizesse.
    - Agora vai-te embora? Ou  disso mesmo que ests  espera? Que eu me v embora, que te deixe sozinha, que me mantenha a uma distncia confortvel. Confortvel para quem? Para ti, ou para mim?
    - Para ambos, imagino.
    -  isso que pensas de mim? De ns?
    - Estou terrivelmente cansada. - A voz tremeu-lhe, envergonhando-a. - Tenho a certeza de que tambm ests. No deve ter sido nada agradvel para ti.
    Ele avanou na direo dela e ela viu o que sabia que ia ver. Raiva, em ondas negras. Por isso, fechou os olhos.
    - Por amor de Deus, Tory. - A mo dele tocou-lhe na face e no cabelo molhado. - Toda a gente te desiludiu?
    Ela no falou. No conseguiu falar. Uma lgrima correu-lhe pelo rosto e ficou a brilhar no polegar dele. Deixou-se ir, dcil como uma criana, quando ele a levou at  cama e lhe pegou ao colo.
    - Descansa - murmurou. - Eu no vou a lado nenhum.
    Ela pressionou o rosto no ombro dele. Sentiu o conforto, a fora e, acima de tudo, a solidez que nunca ningum lhe oferecera. Ele no fez perguntas, por isso ela tambm no. Em vez disso, aninhou-se nele e ofereceu-lhe a sua boca.
    - Toca-me. Por favor, preciso sentir.
    Suavemente, to suavemente, ele passou as mos pelo corpo dela. Podia dar-lhe o conforto do seu corpo, prend-lo no dela. A tremer, puxou-o para si e os seus lbios abriram-se aos dele, quentes.
    Devagar, to devagar, ele desatou-lhe o lao do roupo e despiu-a. Ps-lhe a mo no corao. Batia freneticamente, e a respirao dela continuava a ser entrecortada por soluos, que ela procurava controlar.
    - Pensa em mim - murmurou ele, e deitou-a na cama. - Olha para mim.
    Ele tocou-lhe com os lbios na garganta, nos ombros, passou-lhe as mos pelos cabelos, enquanto ela se erguia um pouco para lhe desabotoar a camisa.
    - Preciso sentir - repetiu ela. - Preciso sentir-te. - Apoiou as palmas das mos no peito dele. - Tu s quente. s real. Torna-me real, Cade.
    Afundou-se nele quando a boca dele voltou a tomar a dela, mergulhou profundamente na ternura, na suavidade que apagava o horror que ela vira. A calma instalou-se, compreendeu que este roar de pele, este encontro dos corpos, nada tinha que ver com dor ou medo.
    A boca dele nos seios dela, alimentando-a, excitando-a, aceleraram-lhe o bater do corao. As mos, fortes, pacientes, esvaziaram-lhe o pensamento de tudo, exceto daquela necessidade de unio.
    Ela suspirou o nome dele, quando ele tocou no sexo dela.
    Ela tornou-se fluida, abrindo-se a ele, procurando-o, deslizando contra ele. Quando ela rolou para cima dele, ele voltou a encontrar-lhe a boca, e depois deixou que fosse ela a liderar. Ergueu-se em cima dele, com o cabelo como cordas molhadas a brilhar sobre os ombros. Tinha o rosto afogueado de vida e molhado pelas lgrimas.
    Guiou-o at dentro dela, arqueando as costas para trs, respirando fundo, libertando-se, fechando os dedos nos dele enquanto comeava a mexer-se.
    Naquele momento, no havia mais nada no mundo seno ela, o calor dela a envolv-lo, o movimento firme das suas ancas para cima e para baixo. O fumo escuro dos olhos dela manteve-se fixo nos dele quando a respirao se tornou arquejante.
    Ele viu-a atingir o clmax, viu a fora desse clmax percorr-la.
    - Meu Deus. - Levou aos seios as mos de ambos, entrelaadas. - Mais. Outra vez. Toca-me, toca-me, toca-me.
    Ele tomou-lhe os seios nas mos, ergueu-se e apoderou-se deles com a boca, para que ela arqueasse o corpo para trs. Quando ela lhe agarrou o cabelo, ele entrou mais fundo nela. Enchendo-a, arrebatando-a. E a si prprio.
    Deixaram-se ficar assim, abraados. Mesmo quando ele mudou de posio e se deitou ao lado dela, continuaram misturados um no outro. Como se ela o respirasse.
    - Agora, devias dormir - murmurou ele.
    - Tenho medo de dormir.
    - Eu estou aqui.
    - Pensei que te ias embora.
    - Eu sei.
    - Estavas to zangado. Pensei... - No, precisava de mais um minuto, a coragem requeria esforo. - Trazes-me gua?
    - Est bem. - Levantou-se e vestiu as calas de brim antes de ir  cozinha.
    Ela ouviu-o abrir um armrio para tirar um copo, e voltar a fech-lo. E quando ele regressou ao quarto, ela estava sentada na borda da cama, com o roupo vestido.
    - Obrigada.                                                              
    - Tory, ficas sempre com nuseas, a seguir?
    - No. - Apertou o copo com fora. - Nunca fiz nada como... Ainda no consigo falar disso. Mas preciso falar. Preciso falar contigo sobre outra coisa. Sobre quando estive em Nova Iorque.
    - Sei o que aconteceu. A culpa no foi tua.              
    - S conheces partes, pedaos. O que ouviste nas notcias. Preciso explicar-te.                                                                 
    Como ela voltara a ficar tensa, ele penteou-lhe o cabelo com os dedos.
    - Usavas o cabelo diferente, quando estavas l. Era mais claro e mais curto.
    Ela conseguiu soltar uma gargalhada.
    - A minha tentativa de conseguir um novo eu.
    - Gosto mais assim.
    - Mudei muito mais do que o meu cabelo, quando fui para l. Quando fugi para l. S tinha dezoito anos. Aterrorizada mas feliz. No podiam obrigar-me a voltar, e mesmo que ele viesse atrs de mim, no podia obrigar-me a voltar. Eu era livre. Tinha poupado algum dinheiro. Sempre poupei dinheiro, e a av deu-me dois mil dlares. Acho que isso me salvou a vida. Consegui arranjar um pequeno apartamento. Bem, um quarto. Ficava no West Side, aquele espao bem apertado. Eu adorava-o. Era s meu.
    Conseguia lembrar-se, conseguia reviv-lo dentro de si, a alegria pura e simples de ficar naquele quarto parecido com uma caixa vazia, de apertar os braos  volta de si prpria quando olhava pela janela e observava a impressionante fachada de tijolo do prdio do lado. Conseguia ouvir o barulho vindo da rua, l em baixo, onde Nova Iorque abria caminho em direco s tarefas do quotidiano.
    Conseguia lembrar-se da bno absoluta que era ser livre.
    - Trabalhava numa loja de souvenirs, vendia muitos pesos-de-papis e muitas T-shirts do Empire State Building. Uns meses depois, encontrei um emprego melhor, numa loja de artigos para presentes e decorao, que tinha um certo requinte. Ficava mais longe de casa, mas o salrio era um pouco melhor e era to bom estar no meio de todas aquelas coisas bonitas. E eu tinha jeito.
    - No duvido.
    - No primeiro ano senti-me to feliz. Fui promovida a assistente de vendas e fiz alguns amigos. Namorei. Era to abenoadamente normal. Vivia longos perodos sem me lembrar de que nem sempre tinha morado ali, at que algum fazia uma observao qualquer sobre o meu sotaque e me fazia voltar aqui. Mas no fazia mal. Eu j no estava aqui. Estava exatamente onde queria estar, era exatamente quem queria ser.                      
    Olhou para ele.                        
    - No pensava na Hope. No permitia a mim prpria pensar nela.
    - Tinhas direito  tua prpria vida, Tory.
    - Era isso que dizia a mim mesma. Deus sabe que era isso que eu queria, mais do que qualquer outra coisa no mundo. Algo de meu. Durante esse perodo fui visitar os meus pais, em parte por obrigao, em parte tambm porque as coisas nunca parecem to ms quando se est longe delas. Acho que comecei a pensar que, como me sentia to... normal, conseguia ter uma relao normal com eles.
    Fez uma pausa, fechou os olhos.
    - Mas fui sobretudo porque queria mostrar-lhes o que tinha conseguido para mim, apesar do que eles me tinham feito. Olhem para mim: tenho roupas bonitas, um bom emprego, uma vida feliz. A tm. - Soltou uma gargalhada fraca. - Falhei, a qualquer dos trs nveis.
    - No, eles  que falharam.
    - No importa. Acho que perdi um pouco o equilbrio por causa da visita, mesmo depois de ter regressado a Nova Iorque. Ento, um dia, depois do trabalho, pouco depois de ter ido visit-los, fui ao mercado. Comprei umas coisas. J nem me lembro bem o qu. Mas levei o meu saco para casa e comecei a arrumar tudo.
    Olhou para a gua, gua limpa num copo limpo.
    - E ali estava eu, naquela cozinha minscula, com o frigorfico aberto e um pacote de leite na mo. Um pacote de leite - repetiu, num tom que pouco mais era do que um murmrio. - Com a fotografia de uma menina, num dos lados. Karen Anne Wilcox, quatro anos. Desaparecida. Mas eu no estava a ver a fotografia, estava vendo a ela. A pequena Karen, s que no tinha cabelo louro, como na fotografia. Era castanho, e quase to curto como o de um rapaz. Estava sentada num quarto, sozinha, a brincar com bonecas. Era fevereiro, mas eu conseguia ver o cu pela janela dela. Um cu azul, bonito, e conseguia ouvir a gua. O mar. A Karen Ann est na Florida, pensei. Est na praia. E quando voltei a mim, o pacote de leite estava no cho e o leite todo entornado.
    Bebeu mais gua e depois pousou o copo.        
    - Fiquei to zangada. Que tinha eu a ver com aquilo? No conhecia a menina, nem os pais. No queria conhec-los. Como se atreviam a interferir na minha vida? Porque havia de envolver-me? Nessa altura, pensei na Hope.                                                 
    Levantou-se e foi at  janela.
    - No conseguia deixar de pensar nela, na menina. Fui  polcia. Pensaram que eu era apenas mais uma louca, ignoraram-me, reviraram os olhos enquanto falavam muito devagar, como se eu fosse estpida, alm de maluca. Fiquei envergonhada e zangada, mas no conseguia tirar a criana da cabea. Enquanto dois dos detetives estavam a interrogar-me, perdi a pacincia. Disse qualquer coisa a um deles, como: se ele no fosse to tacanho, dava-me ouvidos em vez de se preocupar com o que o mecnico ia cobrar-lhe por causa da transmisso. Isso foi o suficiente para me dar ateno. Acontece que o mais velho, o detetive Michaels, tinha o carro na oficina. Continuavam a no acreditar em mim, mas comearam a ficar preocupados. A conversa transformou-se mais num interrogatrio. No paravam de pressionar-me, e os meus nervos comearam a acusar isso. O mais novo, acho que estava a fazer o papel de bonzinho, saiu e foi buscar-me uma Coca-Cola. E regressou com um saco de plstico. Com uma prova l dentro. Luvas. Luvas vefmelho-vivas. Tinham-nas encontrado no cho do Macy's, onde ela tinha sido raptada enquanto a me fazia compras. No Natal. Estava desaparecida desde dezembro. Atirou-as para cima da mesa, como se me desafiasse.
    Lembrava-se dos olhos dele. Dos olhos de Jack. Da dureza no lindo brilho verde dos olhos de Jack.
    - Decidi que no ia tocar-lhes. Estava to zangada e envergonhada. Mas no consegui evitar. Peguei no saco e vi-a claramente, com o seu casaquinho vermelho. Todas aquelas pessoas que tentavam comprar presentes. O barulho. A me dela estava junto ao balco, a escolher uma camisola. Mas no prestou ateno e a menina afastou-se. No muito. E a mulher veio e levou-a. Agarrou-a com fora e levou-a assim, bem segura, enquanto abria caminho por entre as pessoas e saa da loja. Ningum prestou ateno. Disse  Karen que ficasse muito caladinha, porque ela ia lev-la ao Pai Natal, e caminhou pela avenida muito depressa, to depressa, e havia um carro  espera. Um Chevrolet branco, com o guarda-lama direito amolgado e matrcula de Nova Iorque.
    Soltou um suspiro e abanou a cabea.
    - At soube o nmero da matrcula. Meu Deus, estava tudo to claro. Conseguia sentir o vento agreste que soprava na rua. Disse-lhes isso tudo, disse-lhe como era a mulher sem a peruca preta. Tinha cabelo castanho-claro e olhos azul-plidos, e era magra. Usava um casaco grande, acolchoado, com um forro quente.
    Tory olhou para trs, por cima do ombro. Cade estava sentado na cama, a observar, a ouvir.
    - Planejou o rapto durante semanas. Queria uma menina, uma menina bonita, e escolheu a Karen quando viu a me lev-la para o infantrio. E depois roubou-a, pronto. E ela e o marido partiram imediatamente para a Florida. Cortaram o cabelo da menina e pintaram-no, e no a deixavam sair de casa. Disseram que ela era um menino chamado Robbie.
    Pestanejou e virou-se. Hope                                                 
    - Encontraram-na. Demorou algum tempo, porque eu no conseguia ver exatamente o local onde ela estava. Mas trabalharam com a polcia da Florida, e dali a umas semanas encontraram-na num parque para trailers, em Fort Lauderdale. As pessoas com quem estava no lhe tinham feito mal. Tinham-lhe comprado brinquedos e tinham-na alimentado. Estavam certos de que ela acabaria por esquecer. As pessoas pensam que as crianas se esquecem, mas no esquecem.
    Soltou um suspiro. L fora, um mocho comeou a piar, soltando notas longas e graves que ecoaram pelo pntano e entraram no quarto onde ela estava.
    - E assim a Karen foi a primeira. Os pais dela vieram ter comigo, para me agradecerem. Choraram. Os dois. Pensei: talvez isto seja um dom. Talvez eu esteja destinada a ajudar pessoas assim. Comecei a disponibilizar-me para isso, a explorar isso, at a ficar contente com isso. Li tudo o que consegui, submeti-me a testes. E comecei a sair com o Jack, o detective Jack Krentz, o mais novo dos dois detetives que investigaram o rapto. Apaixonei-me por ele.
    Voltou a pegar no copo de gua e esvaziou-o.
    - Houve outras crianas, depois da Karen. Pensei que tinha encontrado a razo de ser o que era. Pensei que tinha tudo. Estava loucamente apaixonada por um homem que eu achava que me amava e me considerava uma espcie de parceira. De vez em quando, ele trazia qualquer coisa para casa e pedia-me para lhe pegar. E eu estava encantada por poder ajud-lo neste tipo de trabalho. Fazamos as coisas discretamente. Eu no queria reconhecimento nem notoriedade. Mas algum acabou por falar do meu trabalho com crianas desaparecidas, por isso comecei a ter ambas as coisas. E, com elas, as cartas, os telefonemas, os pedidos que me atormentavam noite e dia. Mas eu queria tanto ajudar.
    Pousou o copo vazio e voltou a aproximar-se da janela.
    - No reparei na maneira como o Jack comeou a olhar para mim. Naquele olhar fixo e frio. Pensei que ele era assim e pronto. Foi o primeiro homem com quem estive, e ficamos juntos, fomos amantes, durante mais de um ano, at que tudo comeou a desmoronar-se. Ele andava com outra pessoa. Ela estava na cabea dele, e o cheiro dela dominava-lhe os sentidos quando ele me procurava. Senti-me trada e furiosa, e confrontei-o com a situao. Bem, ele sentiu-se mais trado e mais furioso ainda. Tinha andado a espiar-lhe os pensamentos. Era pior do que uma tarada. Como podia ter uma relao com uma mulher que no respeitava a privacidade dele, que lhe invadia o pensamento?
    - Conseguiu virar a situao contra ti. Ele engana-te e tu  que ests errada. - Cade abanou a cabea. - No foste nessa, pois no?
    - Ainda nem tinha vinte e dois anos. Ele era o meu primeiro e nico amante. Mais: eu amava-o. E tinha, ainda que sem inteno, espiado os pensamentos dele. Por isso, assumi a culpa, mas isso no foi suficiente. Comeou a censurar-me, a acusar-me de tentar ficar com os louros que lhe pertenciam, pelo trabalho todo que tinha a resolver os casos. Fosse o que fosse que ele tivesse sentido por mim, a princpio, tinha-se transformado numa coisa diferente e estava a magoar-nos aos dois. E quando as coisas estavam a acabar entre ns, apareceu o Jonah. Jonah Mansfield.
    Levou a mo ao peito e fechou os olhos, com fora, por um minuto.
    - Ai, continua a doer-me tanto. Tinha oito anos e foi raptado pela antiga governanta dos pais. A polcia sabia isso, havia um pedido de resgate de dois milhes de dlares. O Jack foi designado para fazer parte da equipe a quem foi entregue o caso. No me disse nada. Os Mansfield  que foram ter comigo. Pediram-me ajuda e eu disse-lhes o que pude. O menino estava preso numa espcie de cave. No sabia se era uma vivenda ou um prdio, mas era do outro lado do rio. O Jack ficou furioso por eu o ter ultrapassado, por ter agido nas costas dele. No quis ouvir-me. Os raptores no tinham feito mal ao menino, e estavam prontos a devolv-lo se o resgate fosse pago e entregue exatamente como eles pediam. E eu estava a querer arriscar a vida de uma criana s para poder provar a maravilha que era? Foi isso que ele me perguntou, e j tinha minado a minha confiana de tal maneira que eu no tive a certeza.
    A respirao de Tory era agora trmula.
    - Ainda hoje no tenho bem a certeza de qual  a resposta a esta pergunta. Mas conseguia ver o menino e conseguia ver a mulher. Ela ia libert-lo. Para ela, era s uma questo de dinheiro e de vingana contra os Mansfield, por a terem despedido. Eu disse-lhes que ele estava a ser bem tratado. Estava assustado, mas estava bem. Disse-lhes para pagarem o resgate, para fazerem o que ela dizia, e teriam o filho de volta. Juro: nem mais nem menos do que a polcia lhe disse que fizessem. Mas o que eu no vi, o que eu no vi, porque estava to devastada pelo Jack, foi que os homens que estavam com ela no tinham a cabea to fria.
    A voz quebrou-se-lhe. Sim, continua a doer, pensou.
    - Disse ao Jack que havia dois homens, mas a investigao indicava apenas um. A mulher e um cmplice. Eu estava a enlamear as guas, a meter-me no caminho. Quando o dinheiro foi pago, eles fizeram exatamente o que tinham planejado fazer, o que eu no vi, durante todo aquele tempo. Mataram o Jonah e a mulher.
    Respirou fundo.
    - S soube quando ouvi nas notcias, quando os reprteres comearam a telefonar-me. Eu tinha-me distrado, metida no meu pequeno casulo de infelicidade porque o Jack j no me queria. No sei como planejavam fugir. Tinham um carro, e parece que tinham pensado em us-lo. Mas no tinham realmente delineado um plano. Era a mulher que decidia tudo, que calculava os passos. Mas eles acabaram por no querer dividir o dinheiro com ela. Decidiram seguir para oeste, mas a polcia seguiu o rasto do dinheiro e apanhou-os. Morreram dois agentes da polcia e um dos raptores foi ferido e acabou por morrer tambm. E eu no vi nada. E o que disse aos pais que fizessem resultou na morte do seu filho.
    - No, o rapto  que resultou na morte do filho deles. As circunstncias, a ganncia, o medo.
    - Eu no podia t-lo salvo. Aprendi a viver com isso. Da mesma maneira que me habituei a viver com o fato de no ter salvo a Hope. Mas fiquei arrasada. Passei semanas no hospital, anos em terapia, mas nunca consegui recuperar completamente. Parte da culpa foi minha, Cade, porque eu estava to distrada, to agitada por causa do Jack que no me concentrei, no prestei ateno suficiente. A minha vida estava a desfazer-se e eu estava desesperada, a tentar que ele continuasse a fazer parte dela. Parte de mim. Mesmo quando ele me denunciou, ajudou a manchar o meu nome na imprensa, no o culpei. Durante muito, muito tempo, no o culpei. Uma parte de mim continua a no o culpar.
    - Ele estava mais preocupado com o ego dele do que contigo. Mais preocupado com o ego dele do que com aquela criana.
    - No sei. Foi uma altura difcil. Ele estava infeliz na nossa relao e farto de mim.
    - E por isso deixou-te a balanar na ponta de uma corda que ele ajudou a tecer.  isso que esperas que eu faa, Tory?
    - Foi isso que esperei que fizesses - disse ela, calmamente. - Neste momento, no sei o que hei-de esperar de ti. S quero que saibas que compreendo o que isto te faz.
    - No, acho que no compreendes nada. Ele no te amava. Eu amo-te.
    Ela soltou um som, parte respirao, parte soluo, mas ficou exatamente onde estava.
    - Portanto... - Ps-se de p. - O que vais fazer sobre isto?
    - Eu... - A garganta fechou-se-lhe. No era medo, como compreendeu ao olhar para ele. No era medo o que a enchia. Era esperana. E foi levada pelas asas dessa esperana que se lanou nos braos dele.
    
    Por muito horrvel que fosse um homicdio, era tambm interessante.  distncia de uma noite parecia mais um filme do que realidade. Faith no ia ficar enclausurada em Beaux Revs, quando podia cirandar pela cidade e estar no centro da aco.
    Lilah adivinhara, claro, e encheu-a de coisas para tratar. Se ia bisbilhotar, disse-lhe Lilah quando lhe entregou a lista, ao mesmo tempo podia ser produtiva.                                           
    E no devia esquecer-se de contar todos os pormenores quando chegasse a casa.
    Bisbilhotice era o que no faltava.                   
    Na drogaria, apostava-se num antigo namorado que viera  cidade para convencer Sherry a compor as coisas, e que enlouquecera quando ela recusara. Bem vistas as coisas, ela estava na cidade havia apenas algumas semanas. Uma rapariga jovem e bonita como aquela tinha de ter deixado um ou dois namorados no stio de onde viera.
    Nos correios havia poucas dvidas de que o assassino era o amante secreto de Sherry, e que o sexo sara do controle. Ningum adiantou nomes de candidatos provveis ao lugar de amante secreto, mas entre a compra de selos e o envio de cartas registadas havia o consenso de que ela tinha um. Uma mulher com aquele aspecto havia de ter um amante. E de certeza que ele era casado, seno porque  que ningum ouvira falar dele?
    Isto levou  teoria de que Sherry ameaara contar  mulher dele e que a discusso que se seguira terminara em violncia.
    No banco, pegou-se nesta teoria e foi-se mais longe, colocando na lista de suspeitos todos os homens casados da zona, com idades entre os vinte e os sessenta anos, sendo a grande aposta um professor ou um diretor do liceu de Progress.              
     
    Mas Faith lembrou-se do que Tory dissera quando estavam sentadas na erva,  porta do apartamento de Sherry. E lembrou-se de Hope.
    No faria mal passar pela Conforto do Sul, para ver o que tinha Tory a dizer sobre as coisas, hoje.
    Primeiro passou pelo supermercado e, com ar srio, contemplou as bananas. A curta distncia, Maxine enchia um saco de mas e fungava. Faith aproximou-se um pouco mais e pegou num cacho de bananas, ao acaso.
    - Ol, Maxine, por aqui? Ests bem, querida?
    Maxine abanou a cabea, tentando conter as lgrimas que lhe inundavam os olhos.
    - Parece que no consigo funcionar. O Wade deu-me o dia de folga por eu estar a sentir-me to triste, mas no consegui ficar em casa.                                                                                                                               
    - Maxine, minha querida.
    Faith amaldioou o seu radar interno defeituoso quando viu Boots Mooney empurrar o carrinho das compras at  zona da fruta e dos vegetais. No estava com disposio para voltar a conversar com a me de Wade.
    Os trs carrinhos ficaram frente a frente. Boots soltou uns sons arrulhantes e ofereceu um leno a Maxine.
    - No consigo esquecer-me. - Maxine limpou os olhos. - Disse  minha me que fazia as compras, mas no consigo pensar.
    Boots concordou, com um aceno de cabea.
    - Acho que estamos todos transtornados por causa da pobre Sherry Bellows.
    - No sei como pde acontecer uma coisa destas. No compreendo. No  coisa que devesse acontecer aqui.
    - Eu sei. No devamos ter medo. - Com simpatia, Faith passou a mo pelo ombro de Maxine. - A maioria das pessoas acha que foi um namorado que enlouqueceu.
    - Ela no tinha namorado. - Maxine remexeu no bolso e tirou de l um leno amarrotado. - No andava com ningum, mas tinha um fraco pelo Wade.
    - Pelo Wade? - A mo de Faith gelou, tal como a expresso de simpatia que tinha no rosto. Sobre a cabea dobrada de Maxine, os seus olhos encontraram os de Boots.
    - Gostava de ir at l namorisc-lo. Comeou a fazer-me perguntas sobre ele. No eram perguntas reprovveis - acrescentou Maxine, com outra fungadela. - Eram feitas de forma simptica. Interessada. Sabes, se ele era casado, se andava com algum, coisas desse gnero. Faith afastou a mo que reconfortara Maxine.
    -  que ele  to bonito. Eu prpria tive um fraquinho por ele, aqui h uns tempos, por isso no a censuro. - Subitamente Maxine corou e espreitou por cima do leno, na direco de Boots. - Desculpe, Miss Boots. O Wade nunca...
    - Claro que no. - Boots tocou suavemente em Maxine. - E, na minha opinio, mulher jovem que no sinta um fraco pelo meu Wade tem um problema qualquer. - O olhar de Boots voltou a dirigir-se para Faith, intencionalmente. - Ele  um homem maravilhoso.
    -  sim, senhora, por isso no podemos culpar a Sherry por andar de olho nele.
    Ai no? Francamente, pensou Faith.
    - E tornamo-nos amigas, eu e a Sherry - continuou Maxine, reconfortada pelos dois pares de ouvidos, to simpticos, que a escutavam. - Ajudou-me a estudar, algumas vezes, e tnhamos combinado sair para comemorar quando o meu semestre terminasse. Pensamos ir at Charleston, a uns clubes. Disse-me que no andava com ningum. No se tinha importado muito durante a licenciatura e o incio da carreira, mas agora andava outra vez  procura de algum. - Maxine voltou a limpar os olhos. - Queria casar e ter uma famlia. Falamos sobre isso.
    - Lamento - respondeu Boots. - No sabia que vocs eram chegadas.
    - Ela era to simptica. E era inteligente e tnhamos muitas coisas em comum. Tinha andado na faculdade, como eu ando agora. Falvamos sobre roupas e rapazes, sobre tudo. Ambas adorvamos ces. No sei o que vai acontecer ao pobre co dela. Eu ficaria com ele, mas no posso.
    Nessa altura comeou a chorar, no s pelo co, mas tambm pela amiga que perdera.
    - No fiques assim, Maxine. - O radar de Faith estava a trabalhar suficientemente bem para sentir que os outros clientes se aproximavam cada vez mais, na tentativa de conseguirem ouvir alguma coisa da conversa. - Vamos encontrar-lhe uma boa casa. E o chefe da polcia vai descobrir tudo.
    - Sinto-me to mal por dentro. Ainda ontem estava a rir, e toda animada. Almoamos juntas no parque. A trabalhar para a Tory Bodeen, na loja dela. Pelo menos, tinha esperana disso. Estava fazendo tantos planos.  que estava to viva e de repente... Estou to triste e to confusa com isto tudo.
    - Compreendo. - Faith sabia muito bem o que era ficar sozinha, depois da morte. - Querida, devias ir para casa. Queres que te leve?
    - No, obrigada, no. Acho que vou a p. Estou sempre  espera de v-la, a descer a rua com o Mongo. Estou sempre  espera disso - murmurou Maxine e, limpando as lgrimas, encaminhou-se para a sada.
    - Toma. - Boots tirou um segundo leno.
    - Vem preparada. - Aborrecida consigo prpria, Faith usou o leno demoradamente, para impedir qualquer estrago da maquiagem.
    - Estou destroada por causa daquela rapariga, e mal a conheci. - Para dar a Faith um momento para se recompor, Boots comeou a escolher mas. - Eu prpria sa de casa porque no conseguia pensar noutra coisa. Pobre Maxine. Ainda deve ser mais difcil para ela. Foi simptico da tua parte teres-te oferecido para lev-la a casa.
    -  que se a levasse para casa livrava-me das compras.
    Boots pousou a mo no brao de Faith, e deixou-a l at Faith olhar para ela.
    - Foi simptico da tua parte - repetiu. -  reconfortante para mim ver bondade na mulher que o meu filho ama. Tal como foi reconfortante ver esse pequeno laivo de cime. Afinal, ainda bem que decidi fazer uma pausa na minha dieta e na do J.R. e fiz uma sobremesa de ma para logo  noite. D os meus cumprimentos  tua me e  Lilah, est bem?
    Boots afastou-se, com as suas mas, deixando Faith a olhar para ela, de sobrolho franzido.
    - Muito perspicaz para quem parece andar sempre a esvoaar, no , Miss Boots? - resmungou Faith. - Muito perspicaz, raios a partam.
    Irritada, Faith continuou a empurrar o carrinho, tirando das prateleiras as coisas que Lilah lhe pedira para comprar e desejando sair da porcaria do supermercado.
    Tivera cimes. Bolas. Teria Wade correspondido ao namorico? Olhou com desagrado para os pacotes de manteiga, na seo de refrigerao. Claro que tinha correspondido. Era homem. Muito provavelmente, devia ter pensado em mais do que namoriscar. O estupor. Quantas vezes teria imaginado Sherry nua, fantasiado sobre ela, e depois...
    Cristo, que estava a fazer? A enfurecer-se com Wade por causa de uma mulher que estava morta? At que ponto conseguia ser mesquinha, superficial, horrvel?
    - Faith?
    - O que foi? - Deixou escapar as palavras e virou-se, com um pacote de Land O Lakes na mo e um olhar mortfero no rosto.
    Dwight levantou a mo, como que a pedir paz.
    - Uau! Desculpa.
    - No, eu  que peo desculpa. Estava a pensar noutra coisa. - Fez um esforo, ps um sorriso luminoso na cara e baixou-se para falar com o pequeno que ia no assento do carrinho. - Mas que lindo que s. Andas s compras com o papai, hoje?
    Luke mostrou-lhe uma caixa de Oreos, aberta.
    - Comprei bolachas - anunciou, e como a cara do filho j estava toda suja de chocolate, era evidente que tinha estado a apreci-los.
    - Estou vendo.
    - A me vai esfolar-me vivo, se eu no o limpar antes de ela o ver.
    - As caras lavam-se. - Mas Faith afastou-se estrategicamente do alcance dos dedos cheios de chocolate. - A Lissy mandou-te s compras, hoje?
    - No est a sentir-se bem. Ficou muito transtornada por causa do que aconteceu ontem. Diz que tem medo de pr o p fora de casa, e a noite passada fez-me verificar as fechaduras seis vezes.
    Era mesmo da Lissy Frazler, centrar as coisas em si prpria, pensou Faith, mas abanou a cabea com simpatia.
    - Acho que ficamos todos um bocado suscetveis.
    - Est uma pilha de nervos. Estou to preocupado com ela, Faith, ainda falta um ms para o beb nascer. A me est c, para ficar com ela durante algum tempo. Acho que aqui o Campeo e eu... - Fez uma pausa para despentear o cabelo de Luke. - Resolvemos sair um bocado. Para a deixarmos sossegada.
    - Isso  que  um pai. Soubeste mais sobre o p em que as coisas esto?
    - O Cari D. est a investigar, e no quer dizer grande coisa. Acho que  demasiado cedo. J no deve faltar muito para terem os resultados da autpsia. O Cari D.  um bom homem, no quero dizer outra coisa. Mas este tipo de coisa... - Interrompeu-se, abanando a cabea. - No  com isto que ele est habituado a lidar. Nenhum de ns est.                                                              
    
    - No foi a primeira vez que aconteceu.
    Ele olhou para trs, sem perceber, mas passado um momento os olhos ensombraram-se-lhe.
    - Desculpa, Faith, foi sem inteno. Isto deve trazer-te recordaes desagradveis.
    - As recordaes esto sempre presentes. S espero que desta vez apanhem quem fez isto, que o apanhem e o pendurem pelos ps e lhe cortem o...
    - Ateno... - Com os lbios contorcidos num sorriso forado, Dwight apertou-lhe o brao e olhou de soslaio na direo do filho. - H aqui ouvidos pequeninos.                           
    - Desculpa - disse ela, enquanto Luke decorava o seu tufo de cabelo com a melhor parte de uma Oreo. - Meu caro, a Lissy vai espezinhar-te at sangrares das orelhas se apareceres l em casa com o pequeno assim.                                                                    
    - Talvez no seja to mau, se eu fizer as compras.
    - Tambm no deve ser muito bom. Tenta outro tipo de coisa. Jias.
    - Bem, se tu achas... - Dwight coou a cabea. - Na verdade estava a pensar comprar-lhe um presente, para distra-la das preocupaes. Tinha pensado em passar pela perfumaria e comprar-lhe um perfume.                                                        
    - L no h nada de especial. S perfumes para velhotas. Passa pela loja da Tory e vais achar aquilo que procuras. A Lissy vai voltar a sorrir.
    Dwight olhou para Luke, que estava agora a cobrir a pega de plstico vermelho do carrinho do supermercado com uma papa escura de Oreos.
    - Achas que eu vou levar este vitelo para uma loja de louas?
    - A, tens razo. - O plano que se gizou na mente dela deixou-a satisfeita. - J sei o que vamos fazer, Dwight. Ds-me o dinheiro e eu vou l e compro qualquer coisa que faa de ti um heri. Quando acabares as compras e raspares umas camadas de bolacha de cima do teu Luke, passas por l e eu passo-te o que tiver comprado.
    - A srio? No te importas?
    - Eu ia at l, de qualquer forma. Alm disso, para que servem os amigos? - Estendeu a mo, com a palma para cima.
    - Ainda bem que acabei de ir ao banco. Tenho dinheiro. - Encantado, tirou a carteira do bolso e foi-lhe pondo algumas notas na mo. Quando parou, ela olhou-o com ar incrdulo.
    - V l, Dwight. No podes ser um heri por menos de duzentos.
    - Duzentos? Credo, Faith, levas tudo o que tenho aqui, s fico com um dlar.
    - Parece que vais ter que passar pelo banco outra vez. - Arrancou-lhe as notas da carteira, enquanto ele dava um passo atrs, com uma expresso de desagrado no rosto. - Isso vai dar-me mais tempo para fazer uma escolha acertada.
    - E as tuas compras aqui? - perguntou-lhe ele.
    - Deixa. - Acenou com a mo, como se o assunto no tivesse qualquer importncia. - Fao-as mais logo.
    Dwight soltou um suspiro e voltou a meter no bolso a carteira quase vazia.
    - Acho que fomos levados - disse ele ao filho.                    
    Era perfeito, decidiu Faith. Podia entrar, sondar Tory e fazer uma boa ao. Depois, era apenas um pulinho at ao consultrio de Wade. Teria tempo de decidir se o castigaria por ele a ter feito imagin-lo a imaginar uma cena de sexo com Sherry Bellows.
    No podia ter corrido melhor.                                    
    Desta vez, tirou a sua Abelha do carro, abraando-a e falando meigamente com ela.
    - Agora, vais ser uma linda menina, no vais? Para a mzona da Tory no se queixar. Vais sentar-te como uma querida e eu dou-te um belo osso suculento. No , beb da mam?
    - No voltes a trazer esse co aqui para dentro. - Tory saiu abruptamente de trs do balco, pronta a barrar o caminho a Faith quando ela entrou.
    - Ora, pra de ser chata. Ela vai ficar aqui sentada como uma bonequinha, no vais, Abelhinha querida? - Levantou uma das patas da cadelinha e acenou com ela, enquanto ambas olhavam para Tory com expresses igualmente inocentes.                                                          
    - Raios partam, Faith.
    - Ela vai portar-se impecavelmente. Ora v. - Pegou no osso e depois fez a cadelinha sentar-se, fazendo uma ligeira presso nas patas traseiras. - Alm disso, que tipo de boas-vindas so estas, quando eu tenho uma misso e dinheiro? - disse ela, puxando do mao de notas.
    - Se aquele co faz xixi no meu cho...
    - Ela tem demasiada dignidade para isso. Estou a fazer um pequeno favor ao Dwight. A Lissy no se sente bem e ele quer anim-la com um bonito presente.
    
    Tory suspirou, mas calculou o nmero de notas que Faith agitava alegremente.
    - Decorao para a casa ou ornamentos para o corpo?
    - Corpo.
    - Vamos dar uma vista de olhos.                                      
    - Ainda bem que o Dwight me encontrou. Os homens raramente tm boas idias neste campo e o sentido do gosto da Lissy  apenas o que tem na boca. E, mesmo assim... - Faith calou-se, observou o expositor e franziu o sobrolho.
    - Ests a gozar comigo?       
    - Tenho demasiada dignidade para isso.
    - Se queres saber, acho que tens demasiada dignidade para o teu prprio bem. Vamos ver aquele colar ali, aquele que tem o topzio cor-de-rosa e os feldspatos.
    - Conheces bem as pedras.                                          .
    - Podes apostar. Uma mulher tem de saber se um homem est a fazer passar um peridoto por uma esmeralda. Este  bonito. - Levantou-o e deixou que a luz brincasse com as pedras. - Mas acho que tem muito metal para ela. Faz mais o meu estilo.
    -  assim que cumpres uma misso?
    - Posso fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo. Vamos deixar este aqui de lado, para eu pensar. - Remexeu no estojo. - E tu, ests bem?                                                              
    - Sim.
    -Bem, escusas de tentar ter uma conversa, no te maces.
    Tory abriu a boca, mas voltou a fech-la e soltou um suspiro.
    - Estou bem, um pouco abalada, acho, mas estou bem. E tu?
    Faith olhou para cima e sorriu um pouco.
    - Vs? A tua lngua no ficou preta, nem caiu, nem nada disso. Estou bem. Andei pela cidade, a ouvir as bisbilhotces. E escusas de empinar o nariz. Ests to interessada no que as pessoas andam a dizer como eu.
    - J sei o que andam a dizer. Tive um movimento considervel aqui na loja, hoje. As pessoas adoram entrar e olhar para mim, e depois cirandar de um lado para o outro. Para ti  diferente, Faith, tu pertences aqui. Eu no. No sei porque pensei que alguma vez pertenceria.
    - No consigo compreender porque queres isso, mas se queres mesmo no podes desistir. As pessoas vo habituar-se a ti. At se habituavam a um ano coxo e s com um olho, se ele ficasse por c durante algum tempo.
    - Isso  tranquilizador.
    - Vamos ver esta pulseira. O Cade parece ter-se habituado a ti bastante depressa.
    - Topzio rosa e azul, incrustado em prata. Fecho de pina.
    - Muito bonita, muito Lissy. E aqueles brincos, ali. Ela havia de gostar deles, combinam com a pulseira. No tem imaginao para mais.                                                                             
    -  estranho que percas tempo a escolher presentes para ela, quando parece que nem gostas dela.
    - Ora, no desgosto. - Faith franziu os lbios e observou os brincos. -  demasiado tonta para me fazer gastar a energia suficiente para no gostar dela. Sempre foi. Faz o Dwight feliz, e eu gosto dele. Mete estes numa caixa e faz um embrulho bonito. O Dwight vai ficar-me agradecido. Acho que vou levar este colar para mim. Para ficar mais animada.                                                                                                                                   
    - Ests a tornar-te a minha melhor cliente. - Tory levou as jias at ao balco. - Quem diria.
    - Tens aqui coisas de que eu gosto muito. - A cadelinha adormecera com o osso na boca. Faith ficou largos minutos a olhar para ela, em adorao. - Alm disso, pareces fazer o Cade feliz e eu gosto ainda mais dele do que do Dwight. - Ficou encostada ao balco enquanto Tory embrulhava os presentes de Lssy. - A verdade  que andas a dormir com o meu irmo. E eu ando a dormir com o teu primo.                                        
    - Isso torna-nos praticamente amantes.         
     Faith pestanejou, soltou um som de descontentamento e depois atirou a cabea para trs e riu.
    - Credo,  uma idia assustadora. E eu que estava para aqui a pensar se devia considerar-nos amigas.
    - Mais uma idia assustadora.
    - , no ? No entanto, - ontem, quando estvamos sentadas  porta do apartamento da Sherry, ocorreu-me que provavelmente estvamos a sentir a mesma coisa. A recordar a mesma coisa. E essa  uma ligao forte.
    Tory atou o cordo com muito cuidado, com muita preciso.
    - Foste muito amvel em teres ficado comigo. Digo a mim prpria, muitas vezes, que  melhor estar sozinha. Mas  difcil. s vezes,  muito difcil.
    - Detesto estar sozinha. Mais do que tudo neste mundo. E fico muitas vezes irritada com a minha prpria companhia. - Interrompeu-se e riu. - Olha para ns, a ter uma conversa quase ntima. Vou dar-te o dinheiro fresquinho do Dwight para pagar o presente da Lissy, mas vou pagar o meu, do meu bolso.
    Antes de ela ter tempo de pegar na carteira, Tory estendeu o brao e pousou a mo na dela. Estranho como se tornara mais fcil tocar, ser tocada, desde que voltara a Progress.
    - Em toda a minha vida, nunca tive outra amiga como a Hope. No sei se algum consegue ter amigos como os que temos quando somos crianas. Mas eu gostava de ter uma amiga.
    Confusa, Faith olhou para ela:
    - No sei se serei uma boa amiga.      
    - Eu sei que no tenho sido uma boa amiga, desde que a Hope partiu, portanto isso coloca-nos no mesmo ponto de partida. Acho que estou apaixonada pelo teu irmo. - Soltou um suspiro longo e trmulo, e mexeu a mo, para mant-la ocupada. - Se estiver mesmo, acho que seria bom, para todos, que eu e tu consegussemos ser amigas.
    - Sei que adoro o meu irmo, embora ele seja um chato. A vida tem umas arestas bem difceis de limar. - Faith pousou o dinheiro de Dwight no balco e pegou no carto de crdito. - Fechas s seis, no fechas?
    - Sim.
    - Porque no nos encontramos a seguir? Podemos tomar qualquer coisa.
    - Est bem. Onde?                        
    Os olhos de Faith brilharam.                                       
    - Acho que o monumento funerrio da Hope  um local adequado.
    - O qu?
    - No pntano, tu sabes.
    - Por amor de Deus, Faith.
    - Ainda l no foste, pois no? Pois bem, acho que est na hora, e parece-me um bom lugar para vermos se eu e tu conseguimos ultrapassar algumas questes. Tens estmago para isso?
    Tory pegou no carto de crdito.
    - Se tu tens, eu tambm tenho.

    Levou as compras para casa e enfrentou as queixas de Lilah por ter chegado tarde com atrevimento suficiente para lhe dizer que a sua ida  cidade fora conveniente para ambas.           
    - E no comeces a gritar que os tomates esto muito moles ou que as bananas esto muito verdes, seno na prxima no fao de moa de recados.
    - A Miss come, no come? No faz mais nada que se veja, por isso pode trazer comida para casa uma vez quando o rei faz anos.
    - O rei est a fazer anos mais vezes do que dantes. - Faith pegou no ch gelado, em dois copos, e depois sentou-se e preparou-se para partilhar as bisbilhotices.
    - E ento? - Lilah sentou-se e instalou-se confortavelmente. - O que dizem as pessoas?
    - Todo o tipo de coisas, a maioria das quais to inverosmil como um republicano liberal. Muitas pessoas dizem que deve ter sido um antigo namorado ou amante. Um amante novo e casado. Mas encontrei a Maxine no supermercado, e acontece que ela era amiga da Sherry e diz que a Sherry no tinha namorado, neste momento.
    - O que no significa que algum idiota no pensasse que devia ser ele o candidato. - Lilah pegou no baton e rodou-o para cima e para baixo. - Ouvi dizer que ela o deixou entrar, porque o co no fez barulho e no havia sinais de arrombamento, como se pensou a princpio.
    - Deixar um homem entrar em casa no significa querer que ele nos viole.
    - Eu no disse isso. - Lilah pintou os lbios e pressionou-os um contra o outro. - Estou apenas a dizer que uma mulher tem de ter cuidado. Quando abre a porta a um homem  melhor estar preparada para o correr a pontap.                   
    - s to romntica, Lilah.
    - Tenho muito romance dentro de mim, Miss Faith. Mas o equilibro com bom senso. Uma coisa que lhe falta quando se trata de homens. Talvez faltasse tambm quela pobre rapariga.
    - Tenho tido bom senso suficiente para correr muitos homens a pontap.
    - Mas primeiro teve de casar com dois, no foi?
    Faith tirou um cigarro do mao e desenhou um sorriso forado.
    - Podia ter casado com mais de dois. Pelo menos no fiquei para tia.
    Lilah devolveu-lhe o sorriso.
    - Se o casamento fosse tudo o que  suposto ser, durava mais. Aquela moa no tinha um ex-marido, tinha?
    - No, acho que no.
    - Faith? - Margaret estava  entrada da cozinha, o rosto rgido. - Preciso de falar contigo. Na saleta.
    - Est bem. - Faith olhou para Lilah e revirou os olhos, e depois apagou o cigarro. - Devia ter tido mais coisas para fazer na cidade.
    - Mostre algum respeito para com a sua me.
    - E certamente seria um choque para o sistema se ela fizesse o mesmo em relao a mim.

    Encaminhou-se para a saleta, sem pressas. Parou para verificar a maquiagem, e outra vez para ajeitar o cabelo, ao espelho do hall. Quando entrou, a me estava sentada, rgida como estuque seco.
    - No aprovo a tua bisbilhotice com os criados.
    - No estava a fazer isso. Estava a conversar com a Lilah.
    - No fales nesse tom comigo. A Lilah pode ser um membro valioso desta casa, mas no  prprio sentares na cozinha a bisbilhotar. 
    - E  prprio a me escutar s portas? - Faith deixou-se cair numa cadeira. - Tenho vinte e seis anos, me. H muito tempo que as suas prelees sobre bom comportamento deixaram de fazer efeito.
    - Nunca serviram de nada. Disseram-me que estiveste com a Victoria Bodeen, ontem. Que estiveram juntas e que foram responsveis pelo contacto estabelecido com a polcia.
    -  verdade.                                                                
    -  suficientemente desagradvel que tenhas qualquer ligao com uma situao to inacreditvel como esta, mas  intolervel que agora te tenhas ligado a essa mulher.                                 
    - Refere-se  Tory ou  mulher que foi violada e assassinada? - Faith endureceu o tom, embora continuasse preguiosamente refastelada na cadeira.
    - No vou tolerar uma coisa destas. No vou tolerar que te associes  Victoria Bodeen.
    - Seno...? - Faith esperou um momento. - Est a ver, nesta altura das nossas vidas no h seno, me. Entro e saio quando quero e com quem quero. Sempre fiz isso, mas agora no tem realmente nada que dizer sobre isso.                                        
    - Pensei que, por respeito  tua irm, estaria fora de causa qualquer ligao, por mais tnue que fosse, com a pessoa que considero responsvel pela morte dela.
    - Talvez seja por respeito  minha irm que estabeleci esta ligao. A me nunca a suportou - disse Faith. - E acho que a lhe tomei a dianteira. Teria proibido a Hope de se dar com ela, mas nunca conseguiu proibir realmente a Hope de fazer o que quer que fosse. E quando conseguia, ela dava-lhe a volta. Nesse aspecto, era muito mais esperta do que eu.                   
    - No fales da minha filha dessa maneira.
    - Sim, da sua filha. - Agora o tom spero refletia-se-lhe nos olhos. - Coisa que eu nunca consegui ser. E h uma coisa em que a me talvez nunca tenha pensado: a Tory no  responsvel pelo que aconteceu  Hope, mas pode muito bem ser a chave para descobrir quem . Talvez lhe traga conforto recordar a Hope como uma luz brilhante, como uma vida decepada antes de ter realmente vivido. A mim, trar-me-ia mais conforto saber finalmente porqu. E saber quem. 
    - No vais encontrar o teu conforto nem as tuas respostas com essa mulher. Vais apenas encontrar mentiras. Toda a vida dela  uma mentira.                                                    
    - Ora a est. - Com um grande sorriso, Faith ps-se de p. - Isso  s mais uma coisa que eu e ela temos em comum, no ?
    Saiu da saleta, caminhando com arrogncia.

    Margaret levantou-se de imediato, apressou-se a sair da saleta e a entrar na biblioteca, com as suas torres de livros e o seu teto com adornos de estuque. Comeou por dar um telefonema, puxando os cordis da amizade para pedir a Gerald Purcell que fosse a casa dela o mais rapidamente possvel.
    Certa de que ele chegaria em menos de uma hora, dirigiu-se ao cofre escondido atrs de um quadro a leo que representava Beaux Revs, e tirou de l duas pastas.
    Iria aproveitar aquela hora para estudar os papis e para se preparar.
    Pediu que o ch fosse servido no terrao do lado sul, com scones e com os bolos cobertos que sabia que Gerald apreciava particularmente. Gostava daquele ritual  tarde, quando estava em casa, a porcelana, a prata, as rodelas de limo irrepreensivelmente cortadas, a mistura de cubos de acar escuro e branco no aucareiro.
    Enquanto fosse a dona daquela casa, pensou, aquele era um ritual que seria preservado. Beaux Revs, e tudo o que representava, seria preservado.
    Estava calor para um ch ao ar livre, mas o chapu de sol branco oferecia sombra e os jardins proporcionavam o que Margaret considerava o cenrio adequado. As roseiras que ladeavam o tijolo, dentro dos seus vasos gigantes, estavam abundantemente floridas, e os hibiscos acrescentavam um toque extico, com as suas trombetas carmim.    
    Sentou-se  mesa de vidro irregular, com as mos cruzadas, a observar a propriedade que era dela. Trabalhara para ela, alimentara-a, e agora, como sempre, iria proteg-la.
    Olhou para cima quando Gerald assomou s portas do terrao. Iria assar de terno e gravata, pensou ela, enquanto lhe estendia a mo.
    - Agradeo-lhe ter vindo to depressa. Quer ch?
    - Sim, obrigado. Pareceu-me preocupada, Margaret.
    - Estou preocupada. - Mas a mo manteve-se firme quando levantou o bule Wedgwood e serviu o ch. - Diz respeito aos meus filhos e a Beaux Revs. O Gerald era advogado do Jasper, por isso conhece as caractersticas da fazenda, as propriedades, os interesses desta famlia, to bem como qualquer de ns. Talvez at melhor.
    - Claro. - Sentou-se ao lado dela, satisfeito por ela se lembrar que ele preferia limo a leite.
    - O controle dos interesses da fazenda passou para o Kincade. Setenta por cento. Isso  vlido tambm para as fbricas e o moinho. Eu tenho vinte por cento e a Faith dez.
    - Correto. Os lucros so divididos e distribudos anualmente.
    - Sei disso. As propriedades, bem como os edifcios de apartamentos, as casas que esto arrendadas, incluindo a Casa do Pntano, esto tambm todos nos nomes deles, no  assim?
    - .
    - E, na sua opinio, qual seria o impacto nas mudanas que o Cade introduziu na fazenda, no seu novo sistema de funcionamento, se eu retirasse o meu apoio e usasse os vinte por cento e a minha influncia junto do conselho de administrao para serem usados mtodos mais tradicionais?
    - Causar-lhe-ia dificuldades considerveis, Margaret. Mas o peso dele  maior do que o seu, e os lucros pesam mais no prato da balana que  dele. E, seja como for, o conselho de administrao no tem competncia para interferir na fazenda, s no moinho e nas fbricas.
    Ela acenou com a cabea.
    - E o moinho e as fbricas ajudam-no a manter a fazenda. E se eu conseguir convencer a Faith a juntar a parte dela  minha?
    - Isso dar-lhe-ia mais munies, claro. - Bebeu pequenos goles de ch, refletindo. - Posso perguntar-lhe, como seu amigo e seu advogado, se est descontente com o que Cade tem feito em Beaux Revs?
    - Estou descontente com o meu filho, e acho que ele precisa de voltar a investir as idias e as energias na herana que recebeu, sem se dispersar por outros caminhos. Tudo o que quero - disse ela, pondo manteiga num scone -  a Victoria Bodeen fora da Casa do Pntano, fora de Progress. Neste momento, a Faith est a levantar-me dificuldades, mas vai concordar com o que eu digo. Sempre foi uma criatura que vive ao sabor do momento. Acho que consigo convenc-la a vender-me a parte que tem nas propriedades. Isso dar-me-ia um controle de dois teros. Presumo que a rapariga Bodeen tenha um contrato de arrendamento de um ano para a casa e para a loja. Quero esses contratos denunciados.
    - Margaret. - Ele ps a mo sobre a dela. - Seria mais sensato deixar as coisas como esto.
    - No vou tolerar a ligao dela com o meu filho. E vou fazer tudo o que for necessrio para acabar com ela. Quero que me redija um novo testamento e que deixe o Cade e a Faith fora dele.
    Ele pensou no escndalo, na confuso legal, na imensa quantidade de trabalho.
    - Margaret, por favor no aja precipitadamente.
    - S validarei o testamento se no tiver outra opo, mas vou us-lo para mostrar  Faith que estou a falar a srio. - A boca de Margaret tornou-se mais fina. - No tenho qualquer dvida de que, quando ela perceber que vai perder uma quantia to grande, vai se tornar muito cooperante. Quero repor a ordem na minha casa, Gerald. Far-me-ia um grande favor se pegasse nestes contratos de arrendamento e encontrasse a melhor maneira de denunci-los.
    - Arrisca-se a virar o seu filho contra si.
    -  melhor do que v-lo arrastar o nome de toda a famlia pela lama.

    Desde a minha infncia que no tenho um dirio nem registro os meus pensamentos secretos. J que a minha infncia est na minha cabea, parece fazer sentido fazer isso agora. E fazer isso aqui, onde Hope perdeu a vida. A infncia. 
    O meu pai, o nosso pai, construiu este lugar para ela, com esta pequena esttua e as suas flores de aroma doce.  mais dela do que o tmulo onde a enterrou, naquela manh quente e mida de vero. Nunca partilhei este lugar com ela. Escolhi no o fazer, por maldade, certamente, mas na altura essa escolha deu-me uma enorme satisfao.
    Para que queria eu os jogos idiotas dela e a amiga estranha e desgrenhada que ela tinha?                                                    
    Queria-os to desesperadamente que os recusava quando me eram oferecidos. Sou uma pessoa difcil. s vezes gosto de mim assim. Seja como for, contrariar faz parte da minha natureza, por isso tenho de viver com isso.
    Podia ter sido diferente para mim, para todos ns, se aquela noite nunca tivesse acontecido. Se quando acordei, na manh seguinte, a Hope estivesse no quarto ao lado. Eu ainda estaria amuada por causa da desgraa da noite anterior. A discusso tivera como tema as ervilhas, que eu detestava naquela altura e continuo a detestar agora.
    Tinha feito uma birra, porque retirava algum prazer dessa atividade, em especial quando algum se dava ao trabalho de tentar me tirar do amuo. Gostava que me dessem ateno. Toda a ateno que eu conseguisse que me dessem.                                
    Sabia, j nessa altura, que na hierarquia de 3 irmos, eu vinha em terceiro lugar. O Cade era visto como o herdeiro. Afinal, ele tinha um pnis e eu no. Suponho que a culpa no fosse dele, mas o fato  que lhe invejei aquele membro durante algum tempo, na minha juventude. At ter aprendido que era mais do que possvel a uma mulher possuir todos os apndices interessantes que quisesse, e de diversas formas agradveis.
    Descobri o sexo muito cedo, e desde a tenho-o gozado sem qualquer sentimento de culpa.
    Fosse como fosse, aos oito anos as conotaes sexuais dos homens e das mulheres eram ainda uma rea nublada para mim. Sabia apenas que o Cade era o futuro senhor de Beaux Revs porque era rapaz, coisa que no me aparecia aceitvel. Eram-lhe concedidos privilgios que me eram negados, mais uma vez porque ele era homem. E, para ser justa, suponho que fosse tambm devido  diferena de quatro anos entre as nossas idades.
    O meu pai olhava para ele com tanto orgulho. Era certo que exigia bastante do Cade, mas o olhar do papai, o tom da sua voz, a prpria postura do seu corpo, traduziam orgulho. Pai e filho. Eu nunca poderia ser o seu filho. Nem podia ser, como a Hope era, o seu anjo. Ele adorava-a. Sentia amor por mim e era um homem justo. Mas era dolorosamente bvio que a Hope era a dona do seu corao, como o Cade era o dono das suas esperanas. Acho que fui uma espcie de bnus, a gmea que veio acompanhando o seu anjo.                                
    Para a minha me, o Cade era tambm, penso eu, uma fonte de orgulho. Gerara o filho, como era esperado que fizesse. O nome dos Lavelle seria preservado, porque ela concebera e dera  luz um rapaz. Ficou bastante satisfeita por entregar ao meu pai a educao dele, na quase totalidade. Afinal, que sabia ela sobre rapazes? Pergunto-me se o Cade ter sentido esta distncia natural e discreta. Suponho que sim, mas tornou-se um homem inteiro e admirvel, apesar dela.
    Por causa dela?                                                                 
    Claro que a mame lhe ensinou maneiras, zelou pela sua higiene, mas a sua educao, o seu tempo, a sua condio de vida eram do pelouro do meu pai. No me lembro de t-la ouvido perguntar ao papai o que quer que fosse sobre o Cade.
    A Hope foi a recompensa dela por um trabalho bem feito. A filha que ela podia refinar e moldar, a criana que ela acompanharia desde a infncia at um casamento adequado. Adorava a Hope pela sua doura e por aceitar tudo sem protestar. Mas se a Hope tivesse vivido, acredito que teria feito exatamente o que lhe apetecesse e convencido a mame de que a idia fora dela.
    Deu-lhe a volta com a Tory. Dava-lhe a volta com tudo. Meu Deus, como sinto a falta dela! Sinto a falta da metade de mim que era alegre e divertida e entusiasmada. Sinto a falta dela de uma forma inominvel.
    Quanto a mim, fui uma provao para a mame. Quantas vezes a ouvi dizer isso! Portanto deve ser verdade. No tinha a doura da Hope, nem aceitava tudo sem protestos, como ela. Fazia perguntas e questionava amargamente coisas com as quais nem sequer me importava.
    Olhem para mim. Raios partam, todos! Olhem para mim! To triste e digna de pena.                                       
    A Hope tomou-se amiga da Tory um ano antes desse vero. Sentiram-se impelidas uma para a outra, como acontece a algumas almas. At eu conseguia ver o entendimento que havia entre elas, aquele dique especial. E tornaram-se, quase desde o primeiro instante, inseparveis. Mais gmeas do que eu e a minha irm alguma vez tnhamos sido.
    Por esse motivo, e s por esse, eu detestava a Victoria Bodeen. Olhava de lado para ela e para os seus ps sujos e os seus erros gramaticais, para os seus olhos enormes e observadores e para o lixo que eram os seus pais. Mas era a sua proximidade em relao a Hope que estava na raiz de tudo.
    Fazia troa dela sempre que possvel e quando no estava a troar dela ignorava-a. Fingia ignor-la. Na verdade, observava-a e  Hope com uma concentrao de falco.  procura de uma brecha, de uma quebra nos laos entre elas, que eu pudesse alargar para que o afeto que sentiam uma pela outra desaparecesse.
    Brincaram juntas no dia em que ela morreu. Em nossa casa, porque a Hope estava rigorosamente proibida de ir a casa da Tory.  claro que ia l, em segredo, mas passavam a maior parte do tempo juntas em Beaux Revs e  volta de Beaux Revs, ou no pntano.
    A mame no sabia de nada sobre o pntano. No teria permitido. Mas todos ns amos l, andvamos por l. O papai sabia, e s nos pedia que no fssemos l depois de escurecer.
    Antes do jantar, a Hope jogou as trs-marias, na varanda. Castiguei-a e no joguei com ela. Como isto pareceu no lhe estragar o prazer do jogo, fui amuar no meu quarto e s desci quando me chamaram para jantar. No tinha fome e continuava maldisposta por a Hope ter aceitado to facilmente o fato de eu estar zangada com ela. Desviei a ateno para mim, arranjando uma questo por causa das ervilhas - embora continue a afirmar que tinha todo o direito de no gostar de ervilhas -, e acabei por ser mal-educada com a minha me, pelo que me mandaram sair da mesa. Detestava que me mandassem sair da mesa. No que me importasse muito com a comida, mas aquilo significava ser banida. Acho que um psiclogo diria que esta ttica provava que eu no fazia parte da famlia, ao contrrio do meu irmo e da minha irm. Eu era a estranha que, por um lado, gostava da independncia em relao a eles e, por outro, queria desesperadamente fazer parte do conjunto.
    Fui para o meu quarto, como se isso fosse exatamente o que eu queria. Estava decidida a deix-los pensar isso mesmo, sem que suspeitassem que eu sentia o meu orgulho ferido e estava zangada.
    Um pequeno monte de ervilhas era mais importante do que eu. Deitei-me na cama, a olhar para o teto, e rodeei-me de ressentimento. Um dia, pensei, um dia seria livre de fazer o que quisesse, quando quisesse. Ningum me impediria, muito menos a famlia, que me punha de lado to facilmente. Seria rica e famosa e linda. No tinha uma idia clara de como iria conseguir estas coisas, mas elas eram o meu objetivo. Via o dinheiro e a glria e a beleza como uma espcie de prmio que eu ganharia enquanto eles ficariam mergulhados nas tradies e nas restries de Beaux Revs. Pensei em fugir, talvez em aterrar  porta da minha tia Rosie. Sabia que isso atingiria a minha me, que via na sua irm Rosie um motivo de vergonha. Mais ou menos como eu.
    Mas eu no queria ir embora. Queria que eles me amassem, e esse desejo urgente e frustrado era a minha priso.
    Mais tarde, ouvi a msica da minha me. Devia estar na salinha dela, a escrever cartas, a responder a convites, a planejar a ementa para o dia seguinte, horrios e tudo o mais que fazia como dona da casa. O meu pai devia estar no escritrio, a analisar o negcio da fazenda e a beber um usque tranquilo.
    A Lilah trouxe-me qualquer coisa para comer, s escondidas, sem ervilhas. No me acarinhou nem me fez festas, mas aquele pequeno gesto comoveu-me. Abenoada, sempre esteve presente, firme como uma rocha e quente como uma torrada.
    Comi, por ter sido ela a levar-me a comida e porque se tratava de uma rebelio que ambas partilhvamos, em segredo. Depois continuei no quarto, at que ficou escuro. Imaginei a mame a escovar o cabelo da Hope, como fazia todas as noites depois do banho. Para dizer a verdade, ela tambm queria escovar o meu, mas eu no parava quieta um s instante. Em seguida, a Hope iria dar as boas-noites ao papai. E enquanto fazia tudo o que lhe mandavam, planejava a sua prpria revolta secreta.
    Ouvi-a caminhar pelo hall e parar a porta do meu quarto. Quem me dera... No adianta nada, mas quem me dera ter-me levantado, aberto a porta e ter-lhe pedido que entrasse e me fizesse companhia. Podia ter mudado tudo. Ela teria sentido pena de mim e talvez me tivesse contado o que ia fazer. Dado o meu estado de esprito, talvez tivesse ido com ela, s para fazer frente  mame. E ela no estaria sozinha.
    Mas, na minha teimosia soturna, deixei-me ficar na cama e ouvi os passos dela se afastarem. 

    No a ouvi sair de casa. Podia ter olhado pela janela e t-la visto. Mas no. Fiquei enrolada no escuro, at que adormeci.
    E enquanto eu dormia ela morreu.                                   
    Ao contrrio do que se diz dos gmeos, no senti quebrar-se nenhum elo entre ns. No tive qualquer premonio ou sonho sobre qualquer coisa m que fosse acontecer. No senti a dor nem o medo dela. Dormi simplesmente, como acho que a maioria das crianas dorme, profunda e descansadamente, enquanto a pessoa que compartilhou comigo o tero e o nascimento morria, sozinha.
    Foi a Tory que sentiu essa quebra, essa dor e esse medo. Naquela altura no acreditei, optei por no acreditar. A Hope era minha irm e no dela, e como se atrevia ela a ser uma parte to ntima do que era meu? Como muitos outros, preferi acreditar que a Tory tinha estado no pntano, naquela noite, e que tinha fugido e deixado a Hope enfrentar o terror sozinha.
    Foi nisto que acreditei, apesar de t-la visto na manh seguinte. Veio a coxear pelo caminho at  nossa casa, bem cedo. Caminhava como uma velha, como se cada passo representasse um esforo de coragem. Foi o Cade que lhe abriu a porta da frente, mas eu estava no alto das escadas. O rosto dela estava plido como a prpria morte, e tinha os olhos enormes.
    Disse: a Hope est no pntano. No conseguiu fugir e ele fez-lhe mal. Tens de ajud-la.
    Acho que ele a convidou a entrar, educadamente, mas ela no quis passar da soleira da porta. Por isso ele deixou-a ali, e enquanto eu corria para o meu quarto ele foi ver o de Hope. Depois, aconteceu tudo muito depressa. O Cade descendo a escada a correr,  procura do papai. A mame tambm. Toda a gente falava ao mesmo tempo e ningum me prestava ateno. A mam agarrou a Tory pelo ombro e sacudiu-a, gritou com ela. A Tory no reagiu, deixou-se ficar como um capacho habituado a levar pontaps.
    Foi o papai que segurou a mame e lhe disse para ir chamar a polcia imediatamente. Foi ele que fez perguntas  Tory, numa voz que no estava completamente firme. Ela contou-lhe os planos para a noite anterior, e disse que no tinha sado porque tinha cado e ficado magoada. Mas a Hope tinha ido at ao pntano e algum tinha ido atrs dela. Disse isto tudo numa voz calma e inexpressiva, uma voz de adulto. E manteve sempre os olhos fixos no rosto do papai, e disse-lhe que podia lev-lo at ao lugar onde estava a Hope.
    Soube, mais tarde, que foi exatamente o que fez, guiou o papai e o Cade, e depois a polcia, pelo pntano, at ao lugar onde estava a Hope.
    A vida alterou-se para sempre, para todos ns.
    
    Faith pousou o bloco e recostou-se no banco. Ouvia agora o trinado dos pssaros e cheirava o perfume da terra escura e das flores abertas. Magros raios de sol tremeluziam por entre a abbada de ramos entrelaados e de musgo, colorindo o cho com bonitos padres e transformando a luz verde numa espcie de dourado.
    A esttua de mrmore permanecia silenciosa, a sorrir para sempre, jovem para sempre.
    Era mesmo do papai, pensou ela, cobrir o horrvel com o belo. Uma imagem falsa, talvez, mas era tambm uma mensagem. Hope vivera, teria sido o pensamento do seu pai. E era minha.
    Teria trazido a sua amante aqui?, perguntou-se. A mulher de quem ele se aproximara quando se afastara da sua famlia ter-se-ia sentado ali com ele, enquanto ele recordava o passado e sofria? Porqu ela, e no eu? Porque nunca fui eu? Faith pousou o bloco e tirou um cigarro.
    As lgrimas surpreenderam-na por completo. No fazia idia de que elas estavam ali,  espera de serem choradas. Choradas por Hope, pelo seu pai, por ela prpria. Pelo desperdcio de vidas e sonhos. Pelo desperdcio do amor.

    Tory parou junto de um canteiro de impatiens. O parque tranquilo, semeado de flores, era chocante. A sua memria trouxe-lhe a imagem de como aquele lugar era antes, verde e selvagem e escuro, e sobrep-la  que tinha diante dos olhos. Sobrepuseram-se, mas no se misturaram, por isso ela pestanejou e afastou a imagem que surgira. Ali estava Hope, aprisionada na pedra para sempre. E ali estava Faith, a chorar.
    Os msculos do estmago de Tory danaram, inquietos, mas ela forou-se a avanar, estremecendo enquanto as imagens do que acontecera ali dezoito anos antes tentavam apoderar-se dela. Sentou-se e esperou.
    - Nunca venho aqui. - Faith tirou um leno da mala e assoou o nariz. - Acho que  por isto. No sei se este lugar  horrvel ou belo. Nunca consigo decidir-me.
    -  preciso coragem para pegar numa coisa feia e trazer-lhe paz.
    - Coragem? - Faith voltou a meter o leno na mala e depois acendeu o cigarro, num movimento preciso. - Achas que isto foi um ato de coragem?
    - Acho. De uma coragem que eu no conseguiria ter. Ele foi sempre muito simptico para mim. Mesmo depois... - Pressionou os lbios um contra o outro. - Mesmo depois, nunca deixou de ser simptico para mim. E no deve ter sido fcil para ele, ser simptico para mim.                                                                       - Ele abandonou-nos, emocionalmente, como diriam os psiclogos. Abandonou-nos pela filha morta.
    - No sei o que vou dizer-te. Nenhuma de ns teve de lidar com a perda de um filho. No podemos saber como reagiramos, nem o que faramos para sobreviver a essa perda.
    - Eu perdi uma irm.                                            
    - Eu tambm - disse Tory, calmamente.        
    - Lamento que digas isso. E lamento ainda mais por saber que  verdade.
    - Esperas que te censure por isso?
    - No sei o que espero de ti. - Suspirando, pegou na trmica que pousara ao lado do banco. - O que aqui tenho  um belo jarro de margaritas. Uma bela bebida para uma noite quente.
    Serviu o lquido verde-lima em dois copos de plstico e ofereceu um a Tory.
    - Disse-te que amos beber qualquer coisa.
    - Pois disseste.
    -  Hope, ento. - Faith tocou com o seu copo no de Tory. - Parece apropriado.                                 
    -  mais forte do que a limonada que costumvamos beber aqui. Ela gostava da limonada que trazia.
    - Era a Lilah que a fazia para ela. Com muita polpa e acar.
    - Naquela noite, trouxe uma garrafa de Coca-Cola, que entretanto aqueceu dentro do seu kit de aventuras, e... - Tory calou-se e voltou a estremecer.
    - Ainda vs o que aconteceu?
    - Sim. Agradecia que no me perguntasses. J estou aqui h vrias semanas e ainda no tinha vindo aqui. No tenho tido coragem para isso. Por muito que no goste de ser covarde, tambm tenho de sobreviver.
    - As pessoas do demasiada nfase  coragem, exigem demasiado dela, e todas a colocam entre os seus padres mais elevados. No te chamaria covarde, mas neste captulo os meus padres so muito baixos.
    Tory quase riu, e bebeu mais um pouco.
    - Porqu?
    - Bem, assim posso atingi-los, sem grande esforo. Olha os meus casamentos, por exemplo, ainda que Deus saiba que se pudesse voltar atrs no teria casado. - Fez um gesto largo com o copo. - Haver quem diga que eu falhei, mas eu acho que triunfei, porque sa deles sem uma beliscadura, tal como entrei.
    - Estavas apaixonada?
    - Em qual das vezes?
    - Em qualquer uma delas. Em ambas.
    - Em nenhuma. Da primeira vez, foi uma questo de luxria. Deus Todo-Poderoso, aquele rapaz fodia como um coelho. Como o sexo foi, durante algum tempo, um prazer prioritrio para mim, no h dvida de que cumpriu essa parte do acordo. Era perigosamente bonito, cheio de charme e de falinhas mansas. E um idiota chapado. - Fez-lhe um brinde distraidamente, quase afetuosamente. - Mas tinha o condo de ser exatamente o que a minha me desprezava. Como podia eu no casar com ele?
    - Podias ter ficado no sexo.
    - E fiquei, mas o casamento foi um grande estalo na cara da minha me. Toma l, mame. - Faith atirou a cabea para trs e riu. - Jesus Cristo, mas que idiota. A segunda vez foi mais impulsiva. Bem, e houve outra vez a questo do sexo. Continuava a ser perfeitamente desadequado, porque era muito mais velho do que eu e era casado, quando comeamos a andar um com o outro. Acho que este foi antes um pequeno tiro disparado contra o meu pai. Gostaste do adultrio? Pois bem, eu tambm posso gostar. Ora, uma relao ilcita  uma coisa, mas casar com um mulherengo  outra. Acredito que ele tenha sido fiel durante um curto comeo, mas, meu Deus, que tdio! E acho que ele se sentia to entediado como eu e pensou em fazer o que diziam as letras das canes que compunha: enganou-me e bebia at ficar cego. Fez algum furor na cena musical. A primeira vez que decidiu meter-se com outra, desforrei-me bem e depois fui-me embora. O divrcio rendeu-me uma bela quantia, merecida at ao ltimo cntimo.
    Ela e Hope tinham-se sentado ali, pensou Tory, a falar de coisas que tinham feito e que queriam fazer. Coisas simples, coisas de infncia. Mas no menos vitais nem menos ntimas do que aquela de que Faith falava agora.                                         
    - Porqu o Wade?
    - No sei. - Faith soltou um suspiro e bebeu mais um pouco, pelo seu copo de plstico. - Isso  um mistrio e uma preocupao. No  por dinheiro, nem por dio. Ele  lindo e o sexo entre ns  maravilhoso. Mas, o veterinrio da cidade? A est uma coisa que nunca esteve nos meus planos. E agora ele tinha de vir complicar tudo e apaixonar-se por mim. Vou estragar-lhe a vida. - Sorveu o resto da margarita e serviu-se de outra. -  isso que vai acontecer.
    - Isso  problema dele.
    Surpreendida, Faith virou a cabea e olhou para Tory.
    - Ora a est a ltima coisa que esperava ouvir da tua boca.
    - Ele  um homem feito, que conhece a sua mente e o seu corao. Parece-me que sempre fez e conseguiu o que quis. Pode ser que te conhea melhor do que pensas. Mas isso s vem reforar o fato de eu no entender os homens.
    - Ora,  fcil. - Voltou a encher o copo de Tory. - Em metade das vezes pensam com o que tm entre as pernas, e na outra metade pensam nos seus brinquedos.
    - No  uma coisa muito simptica, vinda de uma mulher que tem um irmo e um amante.
    - No tem nada de antiptico. Adoro homens. H quem diga que amei demasiados. - Houve um brilho de desafio e humor nos olhos dela, mas nenhuma desculpa. Tory deu por si a apreci-lo, a invej-lo.
    - Sempre preferi a companhia dos homens - acrescentou Faith. - As mulheres so muito mais sacanas do que os homens e tm tendncia a encarar as outras mulheres como rivais. Os homens olham para outros homens como concorrentes, o que  completamente diferente. Mas tu no s sacana. Admito que foi preciso muito esforo para no gostar de ti e para te desejar mal.
    - E essa  a base para esta moratria?
    - Tens uma melhor? - Faith sacudiu um ombro e depois pegou no bloco onde tinha estado a escrever. - Senti necessidade de escrever umas coisas, e normalmente no ignoro as minhas necessidades. Queres ler isto?
    - Est bem.
    Faith ps-se de p e comeou a andar de c para l, com a bebida e o cigarro na mo. Achou que refletira mais naquele dia do que se habituara a fazer ultimamente. Refletira de forma honesta e sria. No resolvera nada, mas sentia-se mais forte.
    No seria estranho se o regresso de Tory a Progress a tivesse encaminhado para o encontro com o bem-estar na sua vida? Parou junto da esttua da irm e olhou para o rosto que tinham partilhado. No seria a mais perfeita das ironias, pensou, se se encontrasse a si prpria precisamente agora, quando se apercebia de h quanto tempo andava  procura?  
    Voltou a cabea para olhar para Tory. To calma, pensou. To tranquila  superfcie, com todos aqueles redemoinhos e movimentos abruptos nas profundezas. Era verdadeiramente admirvel a forma como Tory mantinha aquele escudo e no gelava por detrs dele. Misteriosa, pensou Faith com um sorriso, mas no gelada. Gelada era aquilo que a sua me se tornara. E gelada fora aquilo que ela prpria estivera  beira de tornar-se. Que estranho, e ao mesmo tempo que apropriado, ter sido Tory a dar-lhe nimo suficiente para parar antes de ter avanado demasiado no caminho que a levaria a ser aquilo que sempre combatera ao longo da sua vida: o espelho distorcido da sua me.
    Apagou o cigarro e meteu o que restava dele debaixo de umas agulhas de pinheiro.
    - Talvez eu deva enveredar pela escrita - disse Faith alegremente, voltando a aproximar-se de Tory. - Pareces absorta.
    Estava embrenhada no que lia, deixara-se levar pelo ritmo das palavras de Faith e pelas imagens que elas tinham despoletado na sua mente. Sentira-se divertida e triste, ao mesmo tempo. E depois sentira a presso, o peso no peito que fizera o seu corao bater demasiado depressa e com demasiada fora.
    Aquele lugar, pensou, as recordaes como punhos que tentavam penetrar no muro branco da sua defesa. No ia responder-lhes. No ia prestar-lhes ateno. Iria permanecer no aqui e agora.
    Mas o frio arrepiava-lhe a pele, e a escurido foi-se apoderando dela, at ao olhar.                                                                 
    O bloco escorregou-lhe dos dedos e caiu no cho, aos ps dela, onde uma fina brisa ficou a brincar com as pginas. Estava a afundar-se, a ser arrastada para o fundo.
    - Algum est olhando.
    - H? Querida, s bebeste dois copos disto, no foi?  pouco para ficares bbada.
    - Algum est  espreita. - Pegou na mo de Faith, com uma fora de ferro. - Foge. Tens de fugir.
    - Oh, merda. - Reunindo foras, Faith inclinou-se para ela e deu umas palmadas suaves na cara de Tory. - V l, controla-te.
    - Ele est espreitando. Nas rvores. Est  tua espera. Tens de fugir.
    - No h aqui ningum seno ns. - Mas sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. - Sou a Faith. No sou a Hope.
    - Faith. - Tory fez um esforo para manter as imagens claras, para manter o ontem e o hoje separados. - Ele est outra vez nas rvores. Consigo senti-lo. Est  espreita. Foge.
    O medo assolou-lhe aos olhos, tornando-os grandes e brilhantes. Conseguia ouvi-lo agora, apenas um ligeiro restolhar vindo dos arbustos do outro lado da clareira. O pnico queria tomar conta dela, sentia os seus dedos frios percorrerem-lhe a pele.
    - Somos duas, que diabo! - Soltou a exclamao enquanto remexia na bolsa. - E no temos oito anos indefesos. Uma ova!
    Tirou da bolsa a sua bonita pistola de calibre 22, com coronha de madre-prola, e puxou Tory, obrigando-a a pr-se de p.
    - Oh, meu Deus!
    - Controla-te - ordenou Faith. - Vamos atrs dele.
    - Ests doida?
    - Pergunta o roto ao nu. Anda c, meu grande filho da me. Ouviu o estalar de um ramo, um sussurro de folhas e avanou.
    - Est fugindo. Cabro.
    - Faith. No! - Mas ela j se metera por entre as rvores. Sem alternativa, Tory correu atrs dela. 
    O caminho tornou-se mais estreito, terminando num emaranhado de arbustos. Os pssaros voaram subitamente, como balas disparadas contra o cu, gritando em protesto. O musgo que pendia das rvores tocou no cabelo de Tory. Afastou-o com brusquido, enquanto continuava a correr, para apanhar Faith.
    - Acho que ele foi na direo do rio. Podemos no o apanhar, mas vamos assust-lo. - Apontou a arma para o cu e puxou o gatilho.
    Os tiros explodiram, ecoaram, parecendo vibrar atravs de Tory, da cabea aos ps. Os pssaros saram das rvores, voando em direo s nuvens. Ao ouvir o som da gua, Faith sorriu como louca.
    - Talvez ele ainda acabe comido pelos jacars. Anda.
    Tory sentia o cheiro do rio, forte e cheio. O terreno tornou-se enlameado debaixo dos ps, fazendo Faith deslizar como se andasse de skate.
    - Por amor de Deus, tem cuidado. Ainda te matas.         
    - Sei usar perfeitamente uma armazinha esperta como esta. - Mas a respirao dela estava se tornando mais pesada, devido  emoo e ao vigor da corrida. - Conheces o pntano melhor do que eu. Vai tu  frente.             
    - Desengatilha essa coisa. No quero levar um tiro nas costas. - Tory tentou recuperar o flego e afastou o cabelo da cara. - Podemos ir por este atalho at ao rio, poupamos tempo. Cuidado com as cobras.
    - Meu Deus, eu sabia que havia uma razo para eu detestar este stio. - A primeira torrente de adrenalina desaparecera e dera lugar  repulsa inata por tudo o que rastejasse ou deslizasse. Mas Tory j ia correndo  frente, e o orgulho no lhe deixou alternativa seno segui-la.
    - O que  que havia neste lugar que vos atraa tanto, a ti e  Hope?
    -  lindo. E selvagem. - Ouviu passos, pesados, decididos, e parou, erguendo uma mo. - Vem algum nesta direo. Vindo do rio.
    - Voltou ao ataque, eh? - Faith cravou os ps no cho e apontou a arma. - Estou pronta para receb-lo. Mostra-te, seu grande filho da me. Tenho uma arma e vou us-la.
    Ouviu-se um baque, como se algo tivesse cado ou atirado para o cho.
    - Cristo Santssimo, no dispare!
    - Sai da e mostra-te. Agora!
    - No quero levar um tiro. Meu Deus, Miss Faith? Miss Faith, sou eu, o Piney. Piney Cobb.
    Saiu das rvores, de costas para a curva do rio onde os ramos dos ciprestes tocavam a superfcie. Ps as mos no ar, a tremer.
    - Que diabo andavas aqui a fazer, a espiar-nos?
    - No andava. Juro por Deus. Nem sabia que algum andava aqui at ouvir os tiros. Fiquei morto de medo. No sabia se fugia ou me escondia. Tenho andado por a atrs de rs. H uma hora que ando atrs das rs. O patro no se importa que eu venha para aqui apanhar rs.
    - E onde esto elas?
    - Tenho ali o saco. Deixei-o cair quando a Miss falou. Pregou-me um susto de morte, Miss Faith.
    Tory viu apenas medo no rosto dele, sentiu apenas pnico vindo dele. Cheirava a suor e a usque.
    - Vamos l ver o saco.          
    - Est bem, est bem. Est logo ali. - Umedeceu os lbios com a lngua e apontou.
    - Tem muito cuidado com os passos que ds, Piney. Estou muito nervosa neste momento, e o meu dedo pode tremer.
    Manteve a arma apontada enquanto Tory comeava a avanar.
    - V? Est aqui. V? Andava s rs, com este saco velho de lona.
    Tory acocorou-se e espreitou para dentro do saco. Uma meia dzia de rs infelizes olharam para ela.
    - Caada fraca para uma hora de trabalho.
    - Perdi quase todas quando deixei cair o saco. Deixei-o cair duas vezes - acrescentou, enquanto um rubor lhe subia pelo pescoo. - Para dizer a verdade, quase me borrei todo quando essa arma disparou. Ouvi algum correndo naquela direo, mas nem sequer tive tempo para pensar nisso quando comecei a ouvir os tiros. Achei que o melhor era esconder-me e ficar quieto e sossegado. Talvez algum andasse a fazer tiro ao alvo, como Mister Cade e os amigos costumavam fazer, e eu podia apanhar uma bala perdida, se no tivesse cuidado. Venho aqui atrs das rs quase todas as semanas. Pode perguntar a Mister Cade.
    - O que achas? - perguntou Faith a Tory.
    - No sei. Aqui tem rs,  verdade.
    J no era jovem, pensou, mas conhecia o pntano e tinha msculos fortes, devido ao trabalho no campo. Mas isso no provava nada.
    - Desculpe termo-lo assustado, mas algum estava nos espiando, perto da clareira.
    - No era eu. - Os olhos dele saltavam continuamente de Tory para a arma. - Ouvi algum correndo, como j disse. H muitas entradas e sadas daqui.
    Ela concordou, acenando com a cabea, e recuou. Piney pigarreou e baixou-se para apanhar o saco.
    - Ento, acho que vou andando.
    - Sim, vai l - disse-lhe Faith. - E, se fosse tu, na prxima certificava-me de que o Cade fica sabendo quando vais apanhar rs.
    - No me esqueo, de certeza. Pode apostar a sua vida. Bem, agora vou andando. - Recuou, sem deixar de olhar para o rosto de Faith, at conseguir embrenhar-se nas sombras das rvores.
     
    Durante quase trinta e cinco anos, J.R. e Cari D. iam pescar juntos, no domingo  tarde. No nascera como tradio, e mesmo agora ambos ficariam aborrecidos e embaraados se algum lhe chamasse isso. Era apenas uma maneira de descontrair e passar o tempo.
    Depois de o pai de J.R. ter morrido e a sua me ter comeado a trabalhar, ris pagava  me de Cari D. para vigiar Sarabeth depois das aulas e aos sbados. E entre as duas mulheres estabelecera-se o contrato tcito de que ela tomaria tambm conta de J.R.
    Fanny Russ cozinhava como um anjo e tinha uma vontade de ao. E ambas as coisas constituam motivo de orgulho. Rapidamente, J.R. aprendeu a chamar-lhe ma'am. E durante os anos que se seguiram, nos anos cinquenta, quando o Klan ainda incendiava o seu dio, espalhando-o pelo Sul em forma de cruz, quando os negros no podiam sentar-se no restaurante de Market Street, o rapazinho branco e o rapazinho negro tornaram-se amigos, sem sobressaltos.
    Sem nunca terem discutido o assunto, domingo aps domingo, com as raras excees das frias e de alguma doena, os dois homens continuaram a sentar-se lado a lado na margem do rio, com as varas e os carretiss, tal como faziam quando eram garotos. Ambos tinham menos cabelo e mais barriga do que no princpio da sua amizade, mas o ritmo da tarde permaneceu verdadeiro na sua essncia.
    Durante algum tempo, enquanto J.R. cortejava Boots e nos primeiros meses de casamento, ela lhes preparava uns almoos apetitosos, num cesto de vime. J.R. tivera algum trabalho para desencoraj-la sem magoar os seus sentimentos. Cestos de piquenique cheios de sanduches de salada de frango e vegetais cuidadosamente cortados eram demasiado femininos. Os homens precisavam apenas de uma geleira com cerveja e uma mo-cheia de minhocas.
    
    E se tivessem sorte, alguns pedaos de batata-doce ou de torta de nozes, feitas pela Me Russ.
    Tudo isso permanecera constante ao longo dos anos. As mudanas junto ao rio eram poucas. O velho pessegueiro morrera havia trs invernos, mas deixara meia-dzia de rebentos que cresceram selvagens at que a cmara decidiu manter os dois melhores e cortar o resto.
    Os frutos, ainda verdes, estavam pendurados nos ramos  espera que as crianas aparecessem e os devorassem e apanhassem dores de barriga.
    A gua corria lenta e tranquila, como sempre, com o velho e enorme salgueiro curvado sobre ela, a banhar o rendilhado dos seus ramos verdes.
    E, de vez em quando, se a pacincia fosse suficiente, os peixes mordiam a isca.
    Se no mordessem, nenhum dos homens ficava pior do que estava antes de ter deitado a linha.
    Os anos tinham transformado os homens em cidados slidos, pilares de responsabilidade. Homens de famlia, com hipotecas e papelada. As poucas horas por semana que passavam a afogar minhocas eram a afirmao de que cada um deles continuava a ser to senhor de si prprio como at ali.      
    s vezes, discutiam poltica, e como J.R. era um republicano convicto e Cari D. um democrata igualmente inabalvel, estes debates tendiam para o explosivo e o efusivo. Ambos gostavam imenso do conflito. Noutros domingos, dependendo da poca, o assunto era o desporto. Um jogo de futebol dos garotos do liceu podia mant-los entretidos e apaixonados durante duas horas.
    Mas cada vez mais eram a famlia, os amigos e a prpria cidade que dominavam as suas discusses sinuosas, enquanto a gua lambia a margem e o sol era filtrado pelas rvores.
    O que cada um deles sabia era que podia confiar no outro para o que desse e viesse, e que o que conversavam junto ao rio ficava junto ao rio. Ainda assim, havia alturas em que a lealdade era posta  prova. Sabendo isso, Cari D. escolheu as palavras e abordou o assunto cuidadosamente.
    - O aniversrio da Ida-Mae  j daqui a pouco tempo. - Cari D. falava da sua mulher enquanto fazia saltar a tampa da sua segunda cerveja e observava a superfcie calma da gua. - Aquela fritadeira eltrica que lhe comprei o ano passado continua a ser um pomo de discrdia entre ns.
    - Eu te avisei. - J.R. tirou uma mo-cheia de batatas do pacote aberto, colocado entre ambos.
    - Sim.
    - Quando oferecemos a uma mulher qualquer coisa para ligar na eletricidade, estamos a pedir confuso.   
    - Ela queria uma nova. Estava sempre a queixar-se de que a velha j no estava em condies.
    - No interessa. Uma mulher no quer um eletrodomstico embrulhado e com um lao. Quer antes uma coisa intil.
    - Tenho andado com a cabea s voltas, a pensar no que ser suficientemente intil para lhe agradar. Pensei em ir at  loja da tua sobrinha e pedir-lhe ajuda...
    - Com certeza no vais te arrepender. A Tory tem bom gosto.
    - Conseguiu ali uma bela loja. Fartou-se de trabalhar.
    - Sempre gostou de trabalhar.  uma moa sria, com uma boa cabea em cima dos ombros.  difcil acreditar que veio de onde veio.
    Era a deixa de que Cari D. precisava, mas continuou a avanar com cuidado. Pegou numa nova tira de pastilha e cumpriu o seu pequeno ritual, desembrulhando e dobrando.
    - Teve uma infncia difcil. Lembro-me de que quase nunca dizia nada. Ficava a olhar, a observar as coisas com aqueles olhos grandes. O teu cunhado tinha a mo pesada.                            
    - Eu sei. - A boca de J.R. comprimiu-se. - Quem me dera ter sabido antes. No sei se teria feito grande diferena, mas gostaria de ter sabido.
    - Agora j sabes. Andamos  procura dele, J.R., por causa daquela situao em Hartsville.
    - Tambm gostaria que o encontrassem e lhe dessem o que ele est pedindo. A minha irm, bem, a vida dela  um inferno, seja de que maneira for. Mas p-lo atrs das grades talvez d  Tory umas noites mais descansadas.
    - Fico aliviado ao ouvir-te dizer isso, J.R. E para te dizer a verdade, tenho pior do que isso por aqui. Uma coisa to m que at nos deixa atordoados.
    - De que  que ests a falar?                     
    - Do que aconteceu  Sherry Bellows.
    - Meu Deus, isso foi mau, muito mau - repetiu J.R., abanando a cabea com ar srio. -  uma coisa de cidade grande e no de uma cidadezinha como a nossa. Uma mulher bonita como aquela... - Calou-se, endireitou os ombros e ficou hirto enquanto virava a cabea e ficava a olhar fixamente para Cari D. - Deus Todo-Poderoso, no me digas que achas que o Hannibal teve alguma coisa a ver com isso.
    - No devia estar a falar contigo sobre o caso. A verdade  que passei quase toda a noite com isto s voltas na cabea. Oficialmente, no devia tocar no assunto, mas no vou fazer isso. No posso. Neste momento, J.R., o teu cunhado no est apenas no topo da lista de suspeitos.  o nico suspeito.
    J.R. ps-se de p. Deu alguns passos junto ao rio, observando o seu curso estreito. Estava calmo, excetuando o chilrear de alguns pssaros agitados. O murmrio do trnsito da cidade mal se ouvia. E era preciso querer ouvi-lo para estabelecer ligao entre este local solitrio, com a sua erva alta e mida e as suas guas preguiosas, e as vidas e o bulcio de Progress.
    - Isso no me entra na cabea, Cari D. O Hannibal  um bruto e um grande filho da me. No consigo pensar em nada de bom que possa dizer sobre ele, mas matar aquela moa... Por amor de Deus, mat-la... No, isso no me entra na cabea.
    - Tem uma longa histria de maus tratos a mulheres.
    - Eu sei. Eu sei. No estou a arranjar desculpas. Mas vai uma distncia muito grande entre maltratar e assassinar.
    - A distncia torna-se mais curta com o tempo, especialmente se houver um motivo.
    - E que motivo podia ele ter tido? - J.R. voltou para trs e acocorou-se junto de Cari D., at os olhos de ambos estarem ao mesmo nvel. - Ele nem sequer conhecia aquela moa.
    - Conheceu-a na loja da tua sobrinha, no dia em que foi morta. Conheceu-a, falou com ela e, tanto quanto sei, ela e a Tory eram as nicas pessoas que sabiam que ele andava por aqui. E h mais - disse ele, quando J.R. abanou a cabea. - No vais gostar de ouvir. Nem imaginas como lamento ver a tua famlia envolvida nisto, mas tenho um trabalho a fazer e no posso deixar que isso me impea de faz-lo.
    - Nem eu te pediria uma coisa dessas. Mas acho que ests a olhar na direo errada,  tudo. - Voltou a sentar-se. - No posso deixar de pensar isso.
    - No digo que estivesse a olhar nessa direo, a princpio, mas foi a Tory que me virou para ela.
    - A Tory?
    - Levei-a comigo at  cena do crime.
    - A cena do crime? - Os olhos de J.R. tornaram-se momentaneamente inexpressivos e depois foram tomados pelo choque. - A cena do crime. Meu Deus, Cari D., meu Deus, porque fizeste isso? Porque a sujeitaste a uma coisa dessas?
    - Tenho  minha frente uma moa da mesma idade da minha Ella, que passou por uma coisa terrvel. Tenho um dever a cumprir, e vou usar tudo o que puder para cumpri-lo.
    - A Tory no tem nada a ver com isto.
    - Ests enganado. Est profundamente ligada a isto. Agora ouve-me durante o raio de um minuto, antes de comeares a dar-me pontaps. Levei-a l, e lamento que tenha sido to difcil para ela, mas voltaria a fazer o mesmo. Ela sabia coisas que no poderia saber. Viu como tudo aconteceu, como se tivesse l estado enquanto aconteceu. J tinha ouvido falar em coisas destas, pensado nelas, mas nunca tinha visto.  uma coisa que nunca mais vou esquecer.
    - Devias t-la deixado em paz. No tinhas o direito de us-la dessa maneira.
    - Tu no viste aquela moa, J.R. Deus queira que nunca vejas nada como aquilo que lhe fizeram. Mas se visses, no me dirias que no tenho o direito de usar o que quer que seja para resolver o caso. Foi a segunda vez que vi uma coisa destas. Se tivssemos prestado ateno  Tory, da primeira vez, talvez a segunda no tivesse acontecido.
    - De que diabo tu ests falando? Nunca tivemos uma mulher violada e assassinada em Progress.
    - No, da primeira vez foi uma criana. - Viu os olhos de J.R. abrirem-se muito e o rosto empalidecer. - Da primeira vez no foi na cidade. Mas a Tory estava l. Tal como estava aqui, agora. E quando ela me diz que a pessoa que matou a Sherry Bellows  a mesma que matou a Hope Lavelle, eu acredito nela.
    J.R. sentiu a boca seca.
    - Foi um vagabundo qualquer que matou a Hope Lavelle.
    - Isso  o que diz o relatrio. Foi nisso que todos quiseram acreditar. Foi nisso que o chefe Tate acreditou, e no posso dizer que no tenha tido razes para acreditar. Mas eu no vou dizer o mesmo, e j no consigo acreditar no mesmo. No vou tentar atribuir este crime a um estranho qualquer. E houve mais. A Tory sabe. O FBI sabe, e vem para c. Vo atrs dele, J.R., e vo falar com a Tory, com a me dela, com a tua irm. E contigo.
    - Hannibal Bodeen. - J.R. ps a cabea entre as mos. - Isto vai matar a Sarabeth. Vai mat-la. - Deixou cair as mos. - Ele vai voltar para l. Vai voltar para l. Deus Santssimo, Cari D., ele vai ter com a Sari e...
    - J falei com o xerife de l. Tem um homem a vigiar o local, de olho na tua irm.
    - Tenho de ir at l. Obrig-la a vir para c.
    - Acho que se fosse a minha irm eu faria o mesmo. Vou contigo, para te tornar as coisas mais fceis com a polcia de l.
    - Eu trato disso.
    - Eu sei que tratas. - Cari D. acenou com a cabea, e comeou a arrumar as suas coisas. Ouvia a raiva, o ressentimento. Estava  espera de ambos. Exatamente como estava preparado para que, o que fizera e o que iria fazer, pudessem causar estragos na amizade de uma vida inteira.
    No havia nada a fazer seno esperar e ver se os estragos poderiam vir a ser consertados.
    - Eu sei que tratas, J.R. - repetiu. - Mas vou contigo. Preciso falar com a tua irm e gostaria de fazer isso antes de os agentes federais chegarem l e me tirarem o caso.
    - Vais como polcia ou como amigo?
    - Sou ambas as coisas. Sou teu amigo h muito mais tempo, mas sou ambas as coisas. - Ps a vara ao ombro e olhou J.R. nos olhos. - E quero continuar a ser ambas as coisas. Se no te importas, vamos no meu carro.  mais rpido.
    Foi difcil, mas J.R. conteve palavras que sabia que ficariam a pairar sobre ambos como nuvens terrveis. Conseguiu esboar um sorriso leve e forado.
    - E ainda ser mais rpido se ligares a sirene e conduzires como um homem e no como uma velhinha.
    O alvio retirou algum peso do corao de Cari D.
    - Talvez faa isso, durante uma parte do caminho.

    Cade tentava controlar a ira, ter cuidado com as palavras. Sempre que pensava no risco louco e intil que a sua irm e Tory tinham corrido na noite anterior, sentia a fria trovejar dentro de si.
    Sermes, ameaas, recriminaes teriam aliviado alguma da tenso que sentia, e t-lo-iam levado a lado nenhum. E ele no era homem para seguir caminhos inteis. Sabia exatamente aonde queria ir e tinha de escolher o melhor caminho para l chegar.
    A pressa no era uma prioridade, por isso no se apressou.
    Havia muito tempo que no se dava ao luxo de passar uma manh de domingo a preguiar. Na sua opinio, a melhor maneira de consegui-lo era manter Tory na cama o mais tempo possvel. Era apenas uma questo de prend-la l e de mord-la como e onde quisesse, at ela entrar no esprito da coisa. E tinha ainda o benefcio de limar algumas das suas prprias arestas.
    Arranjou o pequeno-almoo, porque tinha fome e porque chegara  concluso de que Tory considerava que a refeio da manh podia resumir-se a duas chvenas de caf. Levou a conversa para assuntos triviais. Livros, filmes, arte. Tinham a sorte de ter gostos comuns. Era algo que Cade no considerava essencial, mas sim um bnus agradvel e confortvel.
    Imaginou que ela no tivesse reparado que ele a vira olhar inmeras vezes para a janela, como se procurasse algum.
    Mas no havia nada em que ele no reparasse. Nas mos nervosas que ela tentava manter ocupadas, na forma como parava de repente e ficava muito quieta, como se tentasse ouvir qualquer mudana no ritmo dos sons l fora. Na maneira como ela saltava se ele deixava a porta de tela bater, quando saa para juntar-se a ela enquanto ela tratava das flores.
    Quantas vezes fora ter com a sua me enquanto ela trabalhava no jardim?, pensou. E era igualmente incapaz de adivinhar a direo dos seus pensamentos enquanto ela arrancava ervas daninhas e colhia ramos.
    Como eram ambas meticulosas e precisas naquela tarefa! Ajoelhadas, de chapu e de luvas enquanto preparavam a terra e enchiam um cesto de ervas daninhas e flores murchas.
    E como ficariam ambas furiosas se ele fizesse a comparao em voz alta.
    Ao longo da manh, a voz de Tory, o seu rosto, mantiveram-se perfeitamente calmos. E isso enfureceu-o. Ela no queria partilhar o seu nervosismo com ele. Continuava a manter uma parte de si prpria fechada e inacessvel.
    A me dele, voltou a pensar, sentado no alpendre, a observar a cabea curvada de Tory, mantivera uma parte de si prpria fechada e inacessvel. E ele no podia fazer nada, nunca conseguira fazer nada para chegar at  sua me.

    Mas iria chegar at Tory.
    - Anda, vem dar uma volta comigo.
    - Uma volta?
    Ele puxou-a, para faz-la pr-se de p.   
    - Preciso ir tratar de umas coisas. Vem comigo.
    A primeira reao dela foi de alvio. Ia ficar sozinha. Podia deitar-se, fechar os olhos e tentar acalmar o turbilho que tinha dentro da cabea. Algumas horas de solido para se endireitar e afastar os tremores.
    - Tambm tenho muito que fazer. Vai tu.                    
    -  domingo.                                                     
    - Sei muito bem qual  o dia da semana. E amanh, estranhamente,  segunda-feira. Estou  espera de umas encomendas, incluindo uma da Algodes Lavelle. Tenho papelada...
    - Que pode esperar at segunda-feira. - Descalou-lhe as luvas. - Quero mostrar-te uma coisa.
    - Cade, no estou em condies de ir a lado nenhum. Nem tenho aqui a minha bolsa.                                           
    - No vais precisar - disse ele, enquanto a puxava at ao carro.
    - Ora a est uma afirmao que s podia vir de um homem. - Resmungou quando ele a atirou para dentro do carro. - Pelo menos, deixa-me ir passar uma escova no cabelo.          
    Ele tirou-lhe o chapu e atirou-o para o assento de atrs.
    - Est muito bem assim. - Sentou-se ao volante antes de ela ter tempo de arranjar outra desculpa. - O vento vai despente-lo um bocadinho, e vai ficar mais sensual.
    Tirou os culos de sol do porta-luvas, p-los e depois engatou a marcha r.                                                                        
    - E aqui est outra afirmao que s podia vir de um homem. Ficas bonita quando ests zangada. - Ele entrou na estrada e acelerou.
    - Ento neste momento devo estar linda.
    - E ests, querida. Mas eu gosto do teu ar qualquer que seja a tua disposio. D muito jeito, no d? H quanto tempo nos conhecemos, Tory?
    Ela segurava o cabelo com uma mo.
    - Ao todo? H uns vinte anos, acho eu.
    - No. Conhecemo-nos h mais ou menos dois meses e meio. Antes disso, sabamos da existncia um do outro, andvamos  volta um do outro. Talvez tenhamos pensado ocasionalmente um no outro. Mas h cerca de dois meses que nos conhecemos. Queres saber o que aprendi sobre ti durante este tempo?
    Tory no conseguia perceber muito bem a disposio dele. O tom de voz era ligeiro, o rosto estava calmo, mas havia qualquer coisa.
    
    - No sei bem se quero.
    - Essa foi uma das primeiras coisas que aprendi. A Victoria Bodeen  uma mulher cautelosa. Raramente d um passo antes de olhar, e depois ainda faz um estudo exaustivo. No confia facilmente. Nem sequer nela prpria.
    - Se dermos um passo antes de olharmos, temos menos hipteses de chegarmos inteiros ao outro lado.
    - A est outra coisa. Lgica. Uma mulher cautelosa e lgica. Ora, esta combinao pode parecer bastante comum, at desinteressante, a algumas pessoas. Mas essas pessoas no levariam em conta o conjunto completo. No estariam a pensar na determinao, na inteligncia, na perspiccia ou na bondade. Acima de tudo, ignorariam o calor, que  de tudo o mais precioso por ser to raramente partilhado. E tudo isto envolto num embrulho muito atraente, embora s vezes muito rgido.
    Entrou por um caminho estreito e enlameado e diminuiu a velocidade.
    - Mas que grande anlise.
    - Meramente superficial. s uma mulher complexa e fascinante. Complicada e difcil. Exigente, simplesmente porque te recusas a exigir. Difcil para o ego de um homem, porque nunca pedes coisa nenhuma.
    Ela no disse nada, mas as mos tinham-se entrelaado, num sinal inequvoco de tenso. Ouvia agora a fria na voz dele.
    - A partir daqui, vamos a p.                                           
     Parou o carro e saiu. De ambos os lados, os campos estendiam-se em filas contnuas de algodo, que marchavam como soldados. Tory sentiu o cheiro a terra, a estrume e a calor, doce, maduro e forte. Deviam ter feito o cultivo recentemente, pensou, deitado as sementes  terra.
    Confusa, sem saber o que tinham a fazer ali ou porque tinham vindo ali, seguiu-o por entre as filas de plantas jovens, arranhando as pernas e lembrando-se da sua infncia.
    - No tem chovido muito - disse Cade. - O suficiente, mas no muito. No precisamos de tanta gua como as outras fazendas. O solo retm mais gua quando no est cheio de qumicos. Se o tratarmos como uma coisa natural, cresce naturalmente saudvel. Se insistirmos em mud-lo, em for-lo a viver segundo as nossas expectativas, precisa de mais e mais para se aguentar. Daqui a uns meses, as cpsulas vo abrir.                                                                                    
    Acocorou-se, tirando os culos e prendendo-os na camisa antes de tocar com a ponta de um dedo numa cpsula fechada.
    
    - O meu pai teria usado um regulador de crescimento e um produto para queimar as folhas. Era isso que sabia fazer. Era assim que se fazia. As pessoas no gostam muito quando algum faz as coisas de maneira diferente. Temos de provar-lhes o nosso valor. Temos de querer provar-lhes o nosso valor. - Endireitou-se e olhou-a nos olhos. - Que mais tenho de provar-te, Tory?
    - No sei o que queres dizer?
    - Acho que as pessoas te trataram de uma certa e determinada maneira. Foi isso que conheceste. Foi assim que foi feito. E eu diria que tenho feito as coisas de maneira diferente.
    - Ests zangado comigo.
    - Pois estou. Estou zangado contigo. J l iremos. Mas neste momento estou a perguntar-te o que queres de mim. Exatamente o que queres de mim.
    - No quero nada, Cade.
    - Raios partam! Essa resposta est errada. - Quando ele se virou e comeou a afastar-se, ela correu atrs dele.
    - O que h de errado na resposta? Porque haveria eu de querer alguma coisa de ti, ou que fosses alguma coisa, ou fizesses alguma coisa, quando tenho sido mais feliz contigo, tal como s, do que fui em toda a minha vida?
    Ele parou e virou-se para ela. O sol fustigava impiedosamente os campos. Cade sentiu o calor sobre ele, dentro dele.
    - J  um comeo. Ests a dizer que te fao feliz. Mas eu vou dizer-te o que h de errado nisso. Eu quero coisas de ti, e isto no vai funcionar entre ns se for apenas um a querer. Nenhum de ns vai ficar feliz assim, por muito tempo.
    A dor esmurrou-a no estmago e subiu-lhe at  garganta.
    - Queres acabar tudo. Eu no... - O ar faltou-lhe e quebrou-lhe a voz. As lgrimas alagaram-lhe os olhos, queimando-os. - No podes... - Virou-se, sem saber o que dizer. - Desculpa.
    -  o que deves pedir, por pensares o que ests a pensar. - No se deixou perturbar pelas lgrimas dela e semicerrou os olhos, pensativo. - Disse-te que te amava. Achas que consigo deixar de sentir isso, s porque ds muito trabalho? Trouxe-te aqui para te mostrar que acabo o que comeo, que me dou inteiro ao que me pertence. E tu me pertences. - Agarrou-a pelos braos e puxou-a para si. - Estou ficando farto de esperar que compreendas isso. Cuido do que  meu, Tory, mas espero algo em troca. Disse-te que te amo. D-me algo em troca.
    
    - Tenho medo do que sinto por ti. Consegues compreender?
    - Talvez, se me disseres o que sentes por mim.
    - Demasiado. - Fechou os olhos. - Tanto, que no consigo imaginar a minha vida sem ti. No quero precisar de ti.
    - E claro que para os outros  fcil precisar. Claro que  fcil para mim precisar de ti. - Ele sacudiu-a um pouco, o que a fez abrir os olhos. - Amo-te, Victoria, e isso tem-me feito passar alguns momentos muito maus. - Pousou os lbios na testa dela. - Mas no mudaria isso, mesmo que pudesse.
    - Quero sentir isto com calma. - Ela apoiou a face no peito dele, sorrindo um pouco quando ele tirou os culos e os atirou para o cho. - S quero sentir isto de uma forma normal.
    - E porque haverias de pensar que  normal algum sentir-se calmo em termos de amor? Eu no me sinto calmo. - Passou a mo pelo cabelo dela. - Me amas, Tory?
    Ela agarrou-se mais a ele, como se ele fosse uma ncora.
    - Sim. Acho...
    - Sim chega. - Puxou-lhe o cabelo at ela levantar a cara. - Vamos ficar-nos pelo sim - murmurou, cobrindo-lhe a boca com a sua. - Diz umas quantas vezes para nos habituarmos, ambos. - Amas-me?
    - Sim. - Soltou um suspiro trmulo e lanou-lhe os braos ao pescoo.
    - J est melhor. Amas-me, Tory?
    Desta vez, ela riu. - Sim.                    
    - Quase perfeito. - Roou os seus lbios nos dela e sentiu os dela suavizarem-se. - Queres casar comigo, Tory?
    - Sim. - Abriu muito os olhos e deu um salto para trs. - O qu?
    - Aceito a primeira resposta. - Pegou-lhe ao colo e manteve a boca na dela at ela perder o flego e ficar tonta.
    - No. Pe-me no cho. Deixa-me pensar.                              
    - Desculpa, acho que deste um passo antes de olhares. Agora, vais ter de viver com isso.                                                        .
    - Sabes muito bem que me enganaste.
    - Manobrei-te - corrigiu ele, enquanto a levava para o carro. - E bem, se me  permitida a imodstia.
    - Cade, o casamento no  nenhuma brincadeira, e  uma coisa em que nem sequer comecei a pensar.
    
    - Ento, vais ter de pensar depressa. Se quiseres um casamento com uma festa grande podemos esperar at o outono, depois da colheita. - Deixou-a cair no assento do carro. - Mas se quiseres uma cerimnia pequena e ntima, que  o que eu prefiro, o prximo fim-de-semana est bem para mim.               
    - Pra com isso. Pra! No concordei com casamento nenhum.
    - Concordaste, sim. - Saltou para o assento ao lado dela. - Podes dar o dito por no dito, barafustar, andar em crculos, mas a verdade  que te amo. E tu me amas. O caminho  o casamento.  esse o tipo de pessoas que somos, Tory. Quero viver a minha vida contigo. Quero construir uma famlia contigo.
    - Famlia. - A idia fez gelar-lhe o sangue. - No vs que  por isso... Meu Deus, Cade.                  
    Ele tomou-lhe o rosto entre as mos.
    - A nossa famlia, Tory. A famlia que construirmos juntos ser a nossa famlia.
    - Sabes que no  to simples assim.
    - No tem nada de simples. O fato de estar certo no quer dizer que seja simples.
    - No  a melhor altura, Cade. H demasiadas coisas a acontecer  nossa volta.
    - Por isso  que a altura  perfeita.                            
    - Vamos falar disto de forma razovel - disse-lhe ela, enquanto ele fazia avanar o carro pela estrada de lama. - Quando a minha cabea no estiver  roda.                                                   
    - Est bem. Falamos de tudo o que quiseres. - Quando o caminho se bifurcou, ele tomou a esquerda. Instantaneamente, Tory afundou-se no assento, com o estmago a doer-lhe.
    - Onde vais?
    - A Beaux Revs. Preciso ir buscar uma coisa.
    - Eu no vou. No posso ir.        
    - Claro que podes. - Pousou a mo na dela. -  uma casa, Tory. Apenas uma casa. E  minha.
    Doa-lhe o peito e as palmas das mos dela comearam a transpirar.                                                       
    - No estou preparada. E a tua me no vai gostar.  a casa da tua me, Cade.
    -  a minha casa - corrigiu ele, friamente. - E vai ser a nossa casa. A minha me vai ter que aprender a viver com isso.
    E Tory tambm, pensou.       
    Era uma casa maravilhosa, pensou Tory. No era grandiosa e elegante, como as casas antigas de Charleston, com a sua fluidez e graa feminina. Mas era vibrante, nica e poderosa. Quando era criana, via-a como um castelo. Um lugar de sonhos e de beleza, e de grande fora.  
    Nas poucas ocasies em que se atrevera a entrar, gaguejara e falara em sussurro, como um pago que entra numa catedral.
    Raramente entrara, demasiado tmida e receosa para arriscar incorrer na desaprovao da boca comprimida de Margaret Lavelle. E demasiado nova para se proteger das setas afiadas que eram os pensamentos de Margaret.
    Mas vira e cheirara e tocara todas as divises, atravs de Hope.
    Conhecia a vista de cada janela, a superfcie do cho de mosaicos e de madeira. Sob os seus ps cheirou o aroma que pairava no escritrio da torre, a mistura de couro e usque que indicava a presena de um homem.
    Papai.
    No podia permitir-se v-la atravs dos olhos de Hope, agora, ser arrastada para isso. Tinha de v-la atravs dos seus prprios olhos. Agora.
    Era to desconcertante como fora da primeira vez que a vira. Desconcertante e orgulhosamente erguida contra o cu, com as suas torres em desafio. Beaux Revs. Sim, era exatamente isso. Belos sonhos e flores estendiam-se aos seus ps como uma oferenda, e rvores enormes guardavam-na de ambos os lados.
    Por alguns preciosos momentos, Tory esqueceu-se de que da ltima vez que a vira coxeara pelo caminho com o horror estampado nos olhos e a morte no corao.                      
    
    - No muda - murmurou.
    - H?
    - Acontea o que acontecer  volta dela, ou mesmo dentro dela, continua igual.  um mistrio.
    Era importante para Cade ouvir a satisfao na voz dela quando falava da sua casa.
    - Os meus antepassados tinham ego e humor. Ambos so caractersticas importantes para a construo. - Parou o carro e desligou o motor. - Entra, Victoria.
    O sorriso que lhe moldara os lbios sem ela dar por isso desapareceu.
    - Ests a pedir confuso.
    Ele saiu do carro e deu a volta para lhe abrir a porta.
    - Estou a convidar a mulher que amo para entrar em minha casa. - Pegou-lhe na mo e ajudou-a a sair. Ela recordou-se de que, por mais gentil que fosse, ele era tambm muito teimoso. - Se houver confuso, logo se v.
    -  mais fcil para ti. Sempre estiveste sobre uma fundao slida, esta casa. Eu sempre pisei terreno movedio, por isso tenho de ver onde ponho os ps. - Olhou para ele. -  to importante para ti que eu d este passo?
    - Bem, lembra-te disso se eu me afundar.
    Subiram os degraus at ao alpendre. Ela recordou-se de estar ali sentada com Hope, a jogar s trs marias ou a estudar um dos mapas de piratas que tinham. Copos altos, cheios de limonada e de gotas de frescura. Bolachas com cobertura. O aroma das rosas e da lavanda.
    Aquela imagem entrou e saiu da sua mente. Duas meninasas, de braos e pernas bronzeados pelo sol, as cabeas muito juntas. A murmurar segredos, embora no houvesse ningum para ouvi-los.
    - Aventura - disse Tory, calmamente. - Era a nossa palavra-passe. Ns amos ter tantas aventuras.
    - Agora, vamos ser ns a t-las. - Pegou-lhe na mo e beijou-a. - Ela havia de gostar, no achas?
    - Sim, acho que sim. Embora no gostasse muito de rapazes. - Tory conseguiu esboar um sorriso quando ele abriu a porta. - So to chatos e to palermas. - O corao dela batia depressa, e o grande hall com os seus lindos mosaicos verdes estendeu-se  sua frente como uma armadilha. - Cade.
    - Confia em mim - disse ele, e f-la entrar.       
    O ar estava fresco. Estava sempre fresco e cheirava sempre bem. Tory recordou a magia disso, do contraste que fazia com o calor abafado da sua casa, de como os cheiros do jantar da noite anterior nunca sujavam o ar aqui.                                                    
    E lembrou-se de j ter estado ali com Cade.
    - Eras alto. - Fez um esforo para manter a voz firme. - Achava-te to alto e to bonito. O prncipe do castelo. Continuas a s-lo. Mudou to pouco aqui.
    - A tradio  uma religio para os Lavelle. Somos criados nela desde que nascemos.  simultaneamente um conforto e uma armadilha. Vamos para a sala. Vou buscar-te qualquer coisa fresca para beberes.
    No a deixavam ir para a sala. Quase disse isso sem pensar. Podia sentar-se na cozinha, se fosse para as traseiras. Lilah dava-lhe ch gelado ou Coca-Cola, uma bolacha ou um doce. E se ela ajudasse a varrer, um quarto de dlar para meter no frasco que guardava debaixo da cama.                                                                                                                            
    Mas no podia ir para as divises reservadas  famlia.
    Com esforo, bloqueou as imagens antigas que queriam intrometer-se e concentrou-se no presente. As primeiras coroas imperiais estavam em flor e havia uma jarra cheia delas sobre uma mesa espantosa, que se estendia por baixo da curva das escadas.
    O cheiro que exalavam era inequivocamente feminino. Ao lado deles havia velas brancas em castiais azuis. Ningum as acendera, por isso continuavam puras, intocadas e perfeitas.
    Como uma fotografia, pensou. Cada pea mantida no mesmo lugar absoluto, como se assim tivesse permanecido durante dcadas.
    E agora ela estava a entrar na fotografia.
    No momento em que ela se encaminhava para a porta, Margaret apareceu ao cimo das escadas.
    - Kincade. - A voz soou agreste, pungente. A mo ia comear a tremer-lhe quando agarrou o corrimo, mas ela no o permitiria. De cabea levantada, desceu alguns degraus. - Gostaria de falar contigo.
    - Claro. - Cade conhecia o tom, a atitude, e no se deu ao trabalho de mascarar a sua resposta com um sorriso educado. - Vou levar a Tory para a sala. Porque no se senta conosco?
    - Preferia falar contigo em privado. Por favor, vem c acima. - Comeou a virar-se, segura de que ele a seguiria.
    - Receio que tenha de esperar - disse ele, alegremente. - Tenho uma convidada.                                                                                    
    
    Ela estacou e virou a cabea no momento em que Cade fazia entrar Tory para a sala.                             
    - Cade, no faas isto. - A tenso, as pontadas de animosidade estavam a atingi-la. - No vale a pena.
    - Claro que vale a pena. O que queres beber? Tenho a certeza de que a Lilah tem ch gelado na cozinha, e h gua com gs no bar.
    - No preciso de nada. No me uses como arma. No  justo.
    - Querida. - Ele baixou-se para lhe beijar a testa. - No estou a usar-te.
    - Como te atreves? - Margaret estava  porta, o rosto plido e srio, os olhos tomados pela fria. - Como te atreves a desafiar-me desta maneira, e com esta mulher? Deixei os meus desejos perfeitamente claros. No a quero nesta casa.
    - Talvez eu no tenha deixado os meus desejos suficientemente claros. - Cade mexeu-se e ps a mo no ombro de Tory. - A Tory est comigo e  bem-vinda. E eu espero que qualquer pessoa que eu traga a minha casa seja tratada com cortesia.
    -J que insistes em ter esta conversa na presena dela, no vejo motivo para preocupar-me com questes de cortesia ou boas maneiras.
    A imagem voltou a mudar com a entrada de Margaret. O cenrio, pensou Tory, era perfeito e esttico. Apenas as personagens se moviam.
    - s livre de dormir com quem quiseres. No posso impedir que passes o teu tempo com essa mulher ou que ds azo a mexericos sobre ti e sobre esta famlia. Mas no vais trazer a devassa com quem andas para debaixo do meu teto.
    - Tenha cuidado, me. - A voz de Cade era agora suave, perigosamente suave. - Est a falar da mulher com quem vou casar.
    Como se ele lhe tivesse batido, Margaret vacilou e deu um passo atrs. A cor assomou-lhe ao rosto, manchando-lhe as faces.
    - Perdeste o juzo?
    Onde est a minha deixa?, perguntou-se Tory. Devo ter alguma nesta pea estranha. Porque no consigo lembrar-me dela?
    - No estou a pedir-lhe que aprove. Embora lamente que isto a deixe transtornada, vai ter de adaptar-se.
    - Cade. - Tory encontrou a voz, j enferrujada devido  falta de uso. - Estou certa de que a tua me preferia falar contigo em particular.   
    
    - No ponhas palavras na minha boca - lanou-lhe Margaret. - Vejo que talvez tenha esperado demasiado tempo. Se insistires neste caminho, com esta mulher, ests a arriscar Beaux Revs. Vou usar a minha influncia para convencer a administrao da Algodes Lavelle a demitir-te de presidente.
    - Pode tentar - respondeu ele. - No vai conseguir. Vou enfrent-la, e estou em vantagem. E mesmo que consiga minar a minha posio na fbrica, nunca tocar na fazenda.
    -  esta a tua gratido? A culpa  dela. - Os saltos de Margaret soaram nas tbuas do cho quando ela correu na direo de Tory. Cade deu um passo para o lado, interpondo-se entre Tory e a me.
    - No, a culpa  minha.  comigo que tem de lidar.
    - Mas que bela festa. - Com a cadelinha a correr junto aos calcanhares, Faith entrou. Tinha os olhos brilhantes e um sorriso algo diablico. - Ol, Tory, ests bonita. Queres um pouco de vinho?
    -  uma excelente idia, Tory. Serve um pouco de vinho  Tory.  comigo que tem de lidar - repetiu para Margaret.
    - Ests a desgraar a tua famlia e a memria da tua irm.
    - No, a me  que est a fazer isso.  uma vergonha culpar um filho pela morte de outro. Uma vergonha tratar uma mulher sem culpa com desrespeito e maldade tendo apenas como motivo a sua prpria culpa e a sua prpria dor. Lamento que tenha deixado que elas a impedissem de olhar para os filhos que lhe restavam, para a vida que podia ter construdo fora dessa bolha onde se fechou.
    - Atreves-te a falar comigo desta maneira?
    - Tentei de outra. Se fez o que fez por si prpria, no a censuro por isso. Se continuar a viver como tem vivido ao longo destes ltimos dezoito anos, a escolha  sua. Mas a Faith e eu temos vida prpria. E a minha vida vai ser vivida ao lado da Tory.
    - Bem, parabns. - Faith ergueu o copo de vinho que acabara de servir e bebeu-o. - Acho que isto pede champanhe. Tory, deixa-me ser a primeira a dar-te as boas-vindas  nossa famlia feliz.
    - Fica calada - silvou Margaret, ao que a filha respondeu com um mero encolher de ombros. - Achas que no sei porque ests fazendo isto? - disse ela a Cade. - Para me magoares. Para me castigares por erros imaginados. Sou tua me e como tal fiz o melhor por ti desde o dia em que nasceste.                                               
    - Eu sei.
    - Deprimente, no ? - murmurou Faith. Cade olhou para ela e abanou a cabea.
    - No tenho por que mago-la, ou castig-la. No estou a fazer isto para atingi-la, me. Estou a fazer isto por mim. Tive um milagre na minha vida. A Tory entrou nela.
    Voltou a pegar-lhe na mo e encontrou-a gelada. Manteve-a junto a si.                                                                        
    - E descobri que sou capaz de mais do que imaginava ser. Sou capaz de amar algum e de querer fazer o melhor por ela. Sou eu quem fica a ganhar. Ela no pensa assim, nem vai pensar mesmo depois disto. Mas eu sei. E tenciono preservar isso.
    - Amanh, o juiz Purcell j ter o meu novo testamento redigido. Vou deixar-vos a ambos fora dele, sem um tosto. - Apontou o seu olhar furioso a Faith. - Nem um cntimo, ests a entender? A no ser que fiques ao meu lado agora. No tens nenhum interesse pessoal nesta mulher - disse ela a Faith. - Vou dar-te a tua parte e a do Cade, a comear pelo valor patrimonial da Casa do Pntano e da propriedade de Market Street.                        
    Faith contemplou o vinho.
    - Hummm. E qual ser esse valor patrimonial?
    - Perto de cem mil - disse-lhe Cade. - No sei bem qual seria a minha parte da herana da nossa me, mas acho que deve estar bem perto de alguma coisa com sete dgitos.
    - Oh! - Faith arredondou os lbios. - Imagina s. E tudo isso vai ser meu se eu lanar o Cade aos lobos, por assim dizer, e fizer o que quer que eu faa. - Fez uma pausa. - Vejamos, alguma vez fiz o que a me queria?
    - Serias sensata, se pensasses na proposta.                   
    - Segunda pergunta: alguma vez fui sensata? Queres vinho, Cade, ou preferes cerveja?
    - No vou voltar a fazer esta oferta - disse Margaret, friamente. - Se insistires em levar esta farsa por diante, deixarei esta casa e tu e eu no teremos mais nada a dizer um ao outro.
    - Vou ter muita pena. - A voz de Cade manteve-se calma. - Espero que mude a sua maneira de pensar, com o tempo.
    - Escolhes a ela em vez da tua famlia? De quem tem o teu sangue?
    - Sem hesitar um s minuto. Tenho pena de que nunca tenha sentido isso por ningum. Se tivesse, no levantaria essa questo.
    - Ela vai arruinar-te. - Controlando-se, Margaret olhou para Tory. - Achas que foste esperta em teres esperado e insistido. Achas que ganhaste. Mas ests enganada. Ele vai acabar por ver quem tu s e vais ficar sem nada.                                               
    De sbito, ali estavam as palavras, e ela compreendeu que estivera  espera do momento certo para diz-las.
    - Ele v quem eu sou. Esse  o meu milagre, Mistress Lavelle. Por favor, no o obrigue a escolher entre ns. No nos faa viver a todos com isso.
    - Tive outra filha que te escolheu, e pagou um preo elevado por isso. Agora, vais levar-me o meu filho. Vou preparar as coisas para sair desta casa imediatamente - disse ela a Cade. - Tem a decncia de mant-la longe de mim at eu me ir embora.
    - Muito bem. - Faith voltou a encher o copo enquanto a me se afastava. - Foi agradvel.
    - Faith.
    - Ora, no olhes assim para mim - disse ela, abruptamente. - Imagino que nenhum de vocs estivesse a divertir-se particularmente, mas eu estava. E muito. Deus sabe que ela estava a pedi-las. Toma. - Meteu o vinho na mo de Tory. - Ests com ar de quem precisa disto.
    - Vai falar com ela, Cade. No podes deixar isto assim.
    - Se ele tentar fazer isso, perco todo este novo respeito e esta admirao que tenho por ele. - Pondo-se em bicos de ps, Faith beijou-lhe a face. - Parece que afinal no nos deixou na runa.
    Ele pegou-lhe na mo e segurou-a nas suas.
    - Obrigado.
    - Ora, querido, o prazer foi meu. - Erguendo o copo, deixou-se cair numa cadeira, sorrindo quando a Abelha lhe saltou para o colo. - E tenciono festejar.                                                                            
    - O qu? O fato de o Cade ter anunciado que tenciona casar comigo ou a infelicidade da tua me?
    Faith inclinou a cabea enquanto observava Tory.
    - Posso fazer as duas coisas, mas parece que tu no. Tens demasiada sensibilidade. E bondade. Ai, ela detestaria isso. Mais uma coisa para festejar - decidiu, bebendo o vinho.
    -  de mau gosto, Faith - murmurou Cade.
    - Ora, deixa-me dar largas  satisfao por um minuto, est bem? Nem toda a gente tem um esprito to elevado como o vosso. Meu Deus, esto mesmo bem um para o outro. Quem haveria de pensar? Estou feliz por vocs. Imaginem! Estou sinceramente feliz por vocs. Acho que me sinto um bocadinho emocionada.
    - Tenta controlar esta exploso de sentimento embaraosa. - Impaciente, Cade voltou-se para Tory e passou-lhe as mos pelos braos, primeiro subindo at aos ombros e depois descendo at aos pulsos. - Preciso ir buscar uma coisa no escritrio, e depois vamos embora. Ficas bem?                               
    - Cade, fala com a tua me.
    - No. - Deu-lhe um beijo ao de leve. - No me demoro.
    - Bebe o teu vinho - sugeriu Faith, quando ficaram sozinhas. - Vai trazer-te alguma cor de volta  cara.                          
    - No quero vinho. - Tory pousou o copo e depois foi at  janela. Queria ir l para fora, para onde pudesse respirar.
    - Se insistires nesse ar infeliz, s vais estragar este momento ao Cade. Ele fez isto porque te ama.
    - E tu, porque fizeste isto?
    - Pergunta interessante. H um ano... que diabo, se calhar h um ms!, eu teria ficado ao lado dela.  um monte de dinheiro e eu gosto mesmo do que o dinheiro pode comprar.
    - No, nunca o terias feito, nunca, e vou dizer-te porqu. - Tory olhou para trs. - Primeiro, para lhe atirares o dinheiro  cara, e segundo, e mais importante do que o primeiro, por causa de Cade. Porque o amas.
    - Sim, e o amor no  fcil para nenhum de ns. A minha me encarregou-se de fazer com que assim fosse.
    - Vais culp-la de tudo?
    - No, apenas por aquilo a que tem direito. Dei cabo da minha vida sozinha. Mas ele no. Ele nunca fez mal a ele prprio, nem a ningum. Amo-o tremendamente.
    Surpreendida, Tory olhou para cima. Os olhos de Faith continuavam brilhantes, mas havia lgrimas neles.      
    - Ele no disse o que disse para magoar a me, disse-o porque  verdade. Eu t-lo-ia dito para mago-la. Sente pena dela, se achares que deves ter, mas no esperes que eu sinta o mesmo. Ele tem a oportunidade de ser feliz contigo e quero v-lo aproveit-la.
    - Porque no lhe disseste isso?
    - Estou a dizer-te. Vejo o que ele sente por ti, e gostaria de conseguir sentir o mesmo por algum. No para me tornar uma pessoa melhor. Gosto de mim como sou. Mas se algum  to importante... - Contemplativamente, observou o vinho no copo, a luz que brilhava atravs dele, vinda da janela. - Se algum  to importante, tem de vir roubar-te uma parte de ti. - Olhou para Tory. - No  assim?
    - Sim. Mas estou a comear a pensar que  uma parte de que j no precisamos. No precisamos dela porque h algum que nos ama.
    - Interessante.  idia para ficar a remoer. - Olhou para a porta quando Cade entrou. - Suponho que queiram ficar sozinhos agora.
    - Sim.
    - Ento, a Abelha e eu vamos retirar-nos, no vamos?
    Esfregou o nariz na cadelinha e pousou-a no cho.
    - Para dizer a verdade, acho que vamos l para fora at o ar desanuviar. - Tocou na face de Cade quando passou por ele. - E sugiro que faas o mesmo.
    - Ainda no. - Esperou at ouvir a porta fechar-se atrs da irm, e depois estendeu a mo a Tory. - Quero fazer isto aqui. Podemos consider-lo o fechar de um crculo.
    - Cade, isto foi difcil para ti, para todos vs. Eu...
    - No, no foi. E est feito. Tu e eu estamos apenas comeando. - Tirou uma caixa do bolso e abriu-a. O diamante refletiu a luz do Sol e explodiu. - Era da minha av e eu herdei-o.
    O pnico ameaou sufoc-la.
    - No. - Puxou a mo, mas ele manteve-lhe os dedos firmemente agarrados.
    - Herdei-o - repetiu -, na esperana de que um dia o desse  mulher com quem quisesse casar. No o dei  Deborah, nunca me ocorreu d-lo. Acho que sabia que estava a guard-lo para outra pessoa. Que estava  espera de outra pessoa. Olha para mim, Tory.
    - Est a ser tudo to rpido. Devias esperar mais tempo.
    - Vinte anos ou dois meses. O tempo nunca foi problema para ns. Se no consegues acreditar e confiar no que digo, se isso no  suficiente para te tranquilizar, olha para o que sinto. - Levou a mo dela ao seu corao. - Olha para dentro de mim, Tory.
    Ela no conseguiu recusar nem resistir. E o calor entrou nela. Calor e fora. E esperana. O corao dele batia com firmeza sob a palma da sua mo, os olhos dele mantinham-se fixos nos dela. Confiana, pensou. Ele estava a confiar nela com todo o seu ser. O prximo passo era dela.
    - Quem me dera que pudesses olhar para dentro de mim, porque no sei como diabo vou te dizer o que sinto. Assustada, porque  tanto o que est envolvido. Nunca quis voltar a apaixonar-me. Mas no sabia que podia ser diferente. No sabia que podias ser tu. s to tranquilo, Cade. - Sorrindo agora, estendeu uma mo para brincar com o cabelo dele. - Me ds tranquilidade.
    - Casa comigo.
    - Oh, meu Deus. - Respirou bem fundo e precisou de um momento. - Sim. - Olhou para baixo enquanto ele lhe metia o anel no dedo. -  lindo. Fico tonta, s de olhar para ele.
    - Est um bocadinho grande. - Passou o polegar pelo aro de ouro. - Tens umas mos delicadas. Vamos mandar cort-lo  medida.
    - Ainda no. Quero me habituar a us-lo, primeiro. - Fechou a mo e depois soltou um suspiro. - Ela o amava. - Tinha os olhos lquidos quando voltou a ergu-los. - A tua av. Amava-o. Chamava-se Laura e foi feliz.
    - E ns tambm seremos - prometeu ele. E ela acreditou.

    Cari D. manteve a sirene ligada e o velocmetro nos cento e trinta, seguindo pela 195. Claro que no era preciso, mas dava-lhe algum gozo. E divertia J.R.
    Desligou-a quando se aproximaram da sada.
    - Talvez devssemos passar a fazer isto aos domingos, em vez de irmos pescar.
    - Mantm o sangue em movimento - concordou J.R. -  difcil sentirmo-nos um trapo velho quando estamos a rolar assim pela estrada.
    - A quem ests a chamar trapo velho? Vamos fazer o seguinte, J.R., se achares que  mais fcil para ti: deixo-te em casa da tua irm e depois vou falar com o xerife e acertar tudo com ele. Isso te d tempo para lhe falares e para ela emalar algumas coisas.
    - Obrigado. - J.R. sentia alma pesada, mas fez o possvel para no mostrar. - Ela no vai querer sair daqui, por isso vai demorar um pouco. Acho que vou dizer-lhe que temos quase a certeza de que o Hannibal ainda est nos arredores de Progress, por isso ela vai ficar mais perto dele se vier comigo.                            
    - Pode mesmo ser verdade. E, se for esse o caso, vou pr mais patrulhas na tua rua. Quero que ligues o sistema de alarme que a Boots te convenceu a instalar, h uns anos atrs.
    - Est ligado desde que a Sherry Bellows foi descoberta. A Boots diz que s consegue descansar se o tivermos ligado. - Pensou na sua cidade, nas ruas onde poderia caminhar de olhos fechados, nas pessoas que conhecia pelo nome. E em todas as que o conheciam. - No devia ser assim.   
    - Pois no, mas s vezes . Tu e eu, J.R., crescemos juntos. Vimos a mudana chegar a Progress, e essa mudana foi quase sempre boa. Habituamo-nos a ela, e talvez percamos alguma coisa quando plantam casas num campo onde costumvamos jogar  bola, ou pem de p mais um Jiffy Mart e falam na porcaria de uns  sada da cidade. Mas habituamo-nos. E h outro tipo de mudana a que temos de habituar-nos tambm.
    J.R. sorriu um pouco.                                                             
    - Que diabo quer isso dizer?
    - Diabos me levem se sei.  este o caminho que vai dar a casa dela?
    - Sim. A estrada est m. Vais ter pena do teu motor. Tenho vergonha que vejas como ela vive, Cari D.
    - No te preocupes com isso. Somos amigos h demasiado tempo para ligarmos a merdas dessas. - O carro bateu por baixo e raspou. Estremecendo, Cari D. desacelerou e comeou a avanar a passo de caracol. Depois, olhando para o que tinha  sua frente, semicerrou os olhos. - Que diabo  isto? Raios partam. H confuso. Raios partam - repetiu, e acelerou, pelo que fizeram o resto do caminho aos solavancos.
    Havia dois carros da polcia estacionados frente a frente, diante da casa. A fita amarela da polcia delimitava o quintal em desalinho. Mal freiara e o guarda que se encontrava no alpendre em runas j vinha ao seu encontro.
    - Chefe Russ, de Progress. - Tirou a identificao do bolso e mostrou-a ao guarda. - O que aconteceu aqui?
    - Tivemos um incidente, chefe Russ. - O rosto do agente estava plido e srio, os olhos escondidos atrs de culos escuros. - Vou ter de pedir-vos que fiquem aqui. O xerife est l dentro. Precisam da autorizao dele para entrarem.
    - Esta  a casa da minha irm. - J.R. puxou pela manga do polcia. - A minha irm vive aqui. Onde est a minha irm?
    - Vai ter de falar com o xerife. Por favor, mantenha-se atrs da fita - ordenou, avanando na direo da casa.
    - Aconteceu alguma coisa  Sarabeth. Tenho de...
    - Espera. - Cari D. agarrou-o pelo brao antes de J.R. conseguir dar um passo. - Espera. No podes fazer nada. Vamos esperar.
    J reparara na mancha escura na lama, diante do galinheiro, e numa segunda, que cobria uma parte do terreno junto  erva crescida.
    O xerife Bridger era um homem enorme e possante, com um rosto onde as marcas dos anos e do sol eram visveis. Os olhos eram de um azul mortio, enquadrados por linhas que pareciam ter sido queimadas na pele pelo sol. Quando saiu olhou em volta, parou um momento para limpar as gotas de suor da testa, e depois caminhou na direo dos homens que se encontravam  espera.
    - Chefe Russ.
    - Sim. Xerife, trouxe Mister Mooney, que vinha buscar a irm. Sarabeth Bodeen. Que aconteceu aqui?
    Bridger volveu os olhos plidos para J.R.
    -  irmo de Sarabeth Bodeen?
    - Sim. Onde est a minha irm?
    - Lamento dizer-lhe, Mister Mooney. Houve problemas aqui, hoje de manh cedo. A sua irm est morta.
    - Morta? De que  que est falando? No pode ser. Ainda no h dois dias falei com ela. Ainda no h dois dias. Cari D., disseste que a polcia estava aqui, a tomar conta dela.
    -  verdade, estvamos. E tambm perdi um homem, esta manh. Um bom homem, que tinha famlia. Lamento a sua perda, Mister Mooney, e lamento a deles.
    - J.R., vem sentar-te. Quero que te sentes at sentires as pernas. - Cari D. abriu a porta do carro, baixou a cabea do amigo e f-lo sentar-se. O rosto de J.R. estava assustadoramente vermelho, e a sua enorme figura comeara a tremer.
    - Xerife, importa-se de pedir a algum que lhe traga gua?
    Com um aceno de cabea, Bridger virou-se e fez sinal ao guarda.
    - Purty, traz um copo de gua a Mister Mooney.            
    - Deixa-te estar aqui sentado. - Os joelhos de Cari D. estalaram como foguetes, quando ele se sentou. - Senta-te aqui e recupera o flego. Eu vou fazer o que puder.
    - Falei com ela - repetiu J.R. - Na sexta-feira  noite. Falei com ela.
    - Eu sei. Fica aqui sentado at eu voltar. - Afastou-se do carro, at J.R. no conseguir ouvi-lo. - Pode dizer-me o que aconteceu aqui?
    - H umas horas que andamos a tentar descobrir. O Flint ficou com o turno das duas s dez. S soubemos que havia confuso quando o agente que o vinha render o encontrou. Ali. - Bridger apontou para o galinheiro.
    Tinham levado o seu homem para a morgue, metido num saco de plstico. Nunca mais iria esquecer isso.                
    
    - Levou um tiro nas costas. Caiu. Ele era jovem e forte. Tentou chegar ao equipamento, aqui, rastejou mais de cinco metros depois de ter levado o tiro. Tinha a pistola na mo. Algum lhe ps a pistola na mo, apontada ao ouvido, e puxou o gatilho.
    - Tinha trinta e trs anos, chefe Russ. Tem um filho de dez anos e uma menina de oito. A responsabilidade de j no terem pai  minha. Fui eu que o mandei para aqui. Sabamos que o Bodeen era perigoso, mas no sabamos que ele estava armado. Nunca usou armas de fogo nos outros crimes que cometeu. O filho da me matou o meu homem pelas costas.
    Cari D. passou com as costas da mo pela boca.
    - E Miz Bodeen?
    Sarabeth. Sari Mooney, que se sentara no alpendre da sua me, comera com ela  mesa.
    - Acho que ela sabia que ele vinha. Tinha a mala feita. H uma lata de caf vazia no quarto, e parece-me que seria ali que ela guardava o dinheiro que tinha em casa. Desapareceu. A porta estava aberta, sem sinais de arrombamento. Ou ela o deixou entrar, ou ele entrou, simplesmente. Deu-lhe dois tiros. Um no peito, outro na nuca.
    Cari D. deixou de lado a dor e olhou para a casa, para a terra. - J fizeram o reconhecimento, no?
    - Sim. Falei com os vizinhos. Houve um que acabou por dizer que ouviu o que podiam ser tiros, por volta das cinco, cinco e meia da manh. As pessoas no querem saber da vida dos outros, aqui. Ningum prestou ateno.       
    O calor era impiedoso. Cari D. tirou um leno do bolso e passou-o pelo rosto. O suor ensopava-lhe tambm a sua camisa da pesca.
    - Como diabo chegou ele aqui?
    - No se sabe. Talvez tenha apanhado uma carona. Roubado um carro. Estamos investigando.
    - Pelo dinheiro que estava na lata de caf? No faz sentido. Ela tinha a mala feita?
    - Sim. Com as roupas dela e algumas dele. Sabia que ele vinha. Estamos verificando os telefonemas. Ele deve ter-lhe telefonado e ela disse-lhe o que se passava. No pode dizer-se que se tenha mostrado muito disposta a cooperar com a polcia.
    E, embora estivesse morta como Eva, ele a culpava pela morte do homem que perdera.                    
    - Mister Mooney vai estar em condies de identific-la?
    - Sim. - Cari D. voltou a passar a mo pela boca. - Ele vai fazer isso. J informaram a me da falecida?
    - No. Ia agora tratar disso.                                    
    - Gostaria que me deixasse faz-lo, xerife Bridger. No quero intrometer-me no vosso trabalho, mas ela me conhece.
    - At agradeo que o faa.  algo que dispenso.
    - Muito bem. Vou levar o J.R. para a casa da me. Ser mais fcil para eles.                                          
    - Est certo. Ele matou um polcia, chefe Russ. Se isso d algum conforto ao seu amigo, diga-lhe que aquele filho da me no vai conseguir escapar.                                                                      
    - Mantenha-me informado, xerife, que eu farei o mesmo. Os agentes federais chegam amanh ou depois de amanh. Vo querer lhe telefonar.
    - Fico  espera. Mas esta terra  minha e foi o meu homem que levaram num saco, esta manh. - Bridger cuspiu no cho. -  melhor o Bodeen rezar a Deus Todo-Poderoso para que os agentes federais o encontrem antes de mim.
    A quilmetros dali, Hannibal Bodeen atirava-se a uma costeleta de porco. Tirara-a, juntamente com algum po e queijo e uma garrafa de Jim Beam, de uma casa que assaltara. Fora muito simples, enquanto a famlia estava na igreja. Vira-os sair de casa, todos elegantes nas suas roupas de domingo, e apinharam-se numa minivan reluzente. Hipcritas. Iam  igreja para mostrarem os seus bens materiais.  casa de Deus para ostentarem o que tinham.
    Deus ia castig-los, como castigava todos os orgulhosos e presunosos. E Deus no o abandonava, pensou, enquanto limpava o osso de porco.
    Encontrara muita comida naquela casa grande. Carne que sobrara do jantar de ontem. Suficiente para voltar a dar-lhe foras. E bebida para matar a sede, nesta hora de necessidade. Este era o seu teste, a sua travessia do deserto.
    Atirou o osso para o lado e bebeu um longo trago da garrafa.
    Por momentos, desesperou. Porque estava a ser castigado, um homem que se regia pela moral e pela justia? Depois, tudo se tornou claro. Estava a ser testado, para provar o seu valor. Deus o pusera diante da tentao, uma e outra vez. Algumas vezes fora fraco, algumas vezes sucumbira. Mas agora lhe era dada esta oportunidade.
    Satans vivera em sua casa, debaixo do seu teto, durante dezoito anos. Ele fizera tudo o que pudera para expulsar o demnio, mas falhara. Desta vez, no falharia.
    Pegou na garrafa e deixou que o calor do usque lhe desse fora. Em breve, muito em breve, completaria a tarefa que lhe fora dada. Descansaria, rezaria. Depois, o caminho ser-lhe-ia revelado.
    Fechou os olhos e enrolou-se para dormir. Deus no o abandonava, pensou, e ps a mo sobre a arma que tinha a seu lado.
     
    Tory viu o carro do chefe Russ rolar devagar pelo caminho de acesso  sua casa, afastar-se e tomar a estrada na direo de Progress. Estava sentada no mesmo lugar desde que o tio lhe contara o que acontecera  sua me, no velho balano do alpendre da frente.
    Era a sua imobilidade que preocupava Cade. A sua imobilidade e o seu silncio.
    - Tory, vem para dentro e deita-te um bocadinho.
    - No quero deitar-me. Estou bem. Gostava de sentir mais do que sinto. H um nada dentro de mim, onde deveria haver dor. Estou a tentar inscrever l qualquer coisa, e no consigo. Que tipo de pessoa sou eu, que no consigo sofrer por ter perdido a minha me?
    - No te martirizes.
    - Senti mais dor e mais pena pela Sherry Bellows. Uma mulher com quem estive uma vez. Senti mais horror e mais choque por uma estranha do que por algum que  do meu prprio sangue. Olhei para os olhos do meu tio e vi a dor, a tristeza. Mas no nos meus. No tenho lgrimas para chorar por ela.
    - Talvez j tenhas chorado as suficientes.
    - Falta qualquer coisa dentro de mim.                         
    - No, no falta. - Deu a volta e se ajoelhou diante dela. - Ela deixou de fazer parte da tua vida.  mais fcil lamentar a morte de um estranho do que a de algum que devia ter feito parte de ti e no fez.                                                                                                                                                                                
    - A minha me est morta. Acham que foi o meu pai que a matou. E a pergunta que est na minha cabea, que ocupa o meu pensamento neste momento,  por que razo queres ficar com algum que vem de uma coisa destas?
    
    - Tu sabes a resposta. E se o amor no for suficiente, acrescentemos o bom senso. Tu no s os teus pais, assim como eu no sou os meus. A vida que comearmos e construirmos juntos  nossa.
    - Eu devia ir-me embora. Mas no vou. Preciso de ti. Quero tanto ter o que podemos conseguir juntos. Por isso, no vou encher-me de coragem para ir-me embora.
    - Minha querida, no conseguirias dar dois passos. Soltou o ar numa gargalhada trmula.
    - Talvez eu saiba isso, Cade. - Era to fcil tocar-lhe, passar as pontas dos dedos pelas pontas douradas do cabelo dele. - Achas que estaramos juntos, se a Hope estivesse viva? Se nada do que aconteceu tivesse acontecido e tivssemos crescido aqui como pessoas normais?
    - Sim.                                                                                                                                      
    - s vezes a tua confiana  um conforto. - Foi at ao outro extremo do alpendre, para olhar para as rvores que mergulhavam o pntano em sombras. - Esta  a segunda morte, desde que voltei a casa. Achei que a segunda ia ser eu. Mas ele vir  minha procura.                                                                                   
    - No vai conseguir aproximar-se de ti.
    Sim, pensou ela, a confiana dele podia ser reconfortante.
    - Ele vir. Tem de tentar. - Endireitou-se e virou-se para trs. - Podes arranjar-me uma arma?
    - Tory...
    - No digas que vais me proteger, ou que a polcia vai encontr-lo e impedi-lo. Acredito nisso tudo. Mas ele vir tentar apanhar-me, Cade. Sei isso com toda a certeza. Tenho de ser capaz de me defender, se for obrigada a isso. E vou defender-me. No vou hesitar em acabar com a vida dele para salvar a minha. J fiz isso uma vez. Mas agora h demasiado em jogo. Agora, tenho-te a ti.
    Cade teve uma sensao de nusea no estmago, mas acenou com a cabea. Sem dizer nada, foi at ao carro e abriu o porta-luvas. Comeara a trazer aquele revlver consigo desde o homicdio de Sherry Bellow.
    Levou-o a Tory.                                                                      
    - Isto  um revlver, um trinta e oito.
    -  menor do que eu imaginava.                       
    - Era do meu pai. - Cade virou o velho Smith & Wesson na mo.
    -  aquilo a que poderia chamar-se um revlver discreto, porque  compacto. Sabes dispar-la?
    Ela pressionou os lbios um contra o outro. Parecia sinistro e eficaz na mo dele. Na sua mo elegante de agricultor.
    - Puxo o gatilho?
    - Bem, h mais umas coisas a saber. Tens a certeza de que  isto mesmo que queres, Tory?
    - Sim. - Suspirou. - Sim, tenho a certeza.
    - Ento, anda l. Vamos l para fora para eu te dar umas lies.

    Faith cantava numa voz surpreendentemente leve e doce enquanto levava as compras, escada acima, at ao apartamento de Wade. A Abelha saltitava atrs dela, cheirando o ar que guardava inmeras recordaes de ces, gatos e ratinhos de estimao. Encantada consigo prpria, Faith mudou os sacos para a outra mo, pegou na maaneta e abriu a porta com a anca.
    No meio da sala, deitado num tapete velho, estava Mongo, com a cabea entre as patas. Bateu com a cauda no cho e levantou a cabea quando Faith entrou.
    - Ol, ol. Ests com muito melhor ar, sua coisa grande. Abelha, o Mongo est a recuperar. No lhe mordas as orelhas. Ele vai engolir-te num instante. - Mas a Abelha j estava a cheirar, a mordiscar e a empurrar.
    - Bem, acho que  melhor conhecerem-se, afinal. Onde est o doutor?
    Encontrou-o na cozinha, a olhar para uma chvena de caf.
    - Aqui est ele. - Deixou cair os sacos em cima da bancada e depois virou-se para lhe lanar os braos  volta do pescoo e beij-lo no alto da cabea. - Tenho uma grande surpresa para si, doutor Wade. Hoje vai jantar comida caseira. E, se se portar bem, um interldio romntico seguir-se-  sobremesa.
    Uma metralhadora de latidos vinda da sala f-la sair da cozinha a correr.
    - Oh, mas que amores! Wade, anda c ver isto. Esto a brincar. Bem, o cozarro est quase a esmagar a Abelha com uma pata, mas esto a divertir-se muito.
    Ainda estava a rir quando voltou  cozinha, mas parou ao ver a cara de WAde.
    - Querido, o que se passa? Correu alguma coisa mal com o cavalo, ontem  noite?
    - No, no. A gua est bem. A minha tia, a irm do meu pai, morreu. Foi assassinada hoje de manh.
    - Oh, meu Deus! Oh, Wade, isso  horrvel. Mas o que  que se passa aqui? - Sentou-se diante dele, desejando saber o que fazer. - A irm do teu pai? A me da Tory?
    - Sim. Nunca mais fui visit-la. Meu Deus, j nem me lembro da ltima vez que a vi. Nem sequer me consigo recordar da cara dela.
    - Est tudo bem.
    - No est nada tudo bem. A minha famlia est a desfazer-se. Por amor de Deus, Faith, pensam que foi o meu tio que a matou.
    Foi o horror nos olhos dele que a fez controlar o seu.
    - Ele  um homem mau, Wade. Um homem mau e perigoso, e no tem nada que ver contigo. Lamento pela Tory, juro que sim. E pela tua tia e pela tua famlia. Mas... bem, vou dizer o que penso, mesmo que fiques zangado comigo. Ela escolheu-o, Wade, e ficou com ele. Talvez isso seja um tipo de amor, mas  um mau tipo.  um tipo lamentvel.
    - No sabemos o que vai nas vidas das outras pessoas.
    - Ora, o raio  que no sabemos. Estamos sempre a dizer isso, mas sabemos. Eu sei o que se passava nas vidas dos meus pais. Sei que se tivessem tido coragem e determinao, teriam feito o casamento deles dar certo, ou ento ter-lhe-iam posto fim. Em vez disso, a minha me agarrou-se ao nome Lavelle como se fosse uma espcie de trofu, e o meu pai meteu-se com outra mulher. E de quem foi a culpa? Passei muito tempo a acreditar que a culpa foi da outra mulher, mas no foi. Foi do papai, por no ter respeitado os votos do casamento, e da me, por ter permitido isso. Talvez seja mais fcil dizer que a culpa de tudo isto  do Hannibal Bodeen. Mas no . Mas tambm no  tua, nem da Tory, nem do teu pai.
    Afastou-se da mesa.
    - Gostava de ter qualquer coisa agradvel para dizer. Ter coisas doces e agradveis para dizer, mas no tenho jeito para isso. Acho que deves querer ir ter com o teu pai, agora.
    - No. - Manteve os olhos fixos no rosto dela desde que ela comeara a falar. - Ele est melhor com a minha me. Ela sabe confort-lo. Quem diabo teria pensado que tu sabes confortar-me? - Estendeu a mo. Quando ela a agarrou, ele puxou-a para si e ficou com a cara junto da barriga dela. - Fica comigo, ficas?
    - Claro que sim. - Passou-lhe a mo pelo cabelo. Sentia-se a tremer por dentro, uma sensao estranha. - Vamos ficar aqui sossegados, durante um bocado.
    Ele abraou-a, surpreendido com o fato de ela ser uma ncora para ele.
    - Estou aqui sentado desde que o meu pai telefonou. No sei h quanto tempo. Meia hora, uma hora. Gelado por dentro. No sei o que vou fazer pela minha famlia.
    - Vais saber, quando chegar a hora. Sabes sempre. Queres que te faa caf?                                             
    - No, obrigado. No. Tenho de telefonar  minha av e  Tory. Mas primeiro tenho de pensar no que vou dizer. - Com os olhos fechados e o rosto pressionado contra ela, ouviu os ces a ladrar na sala. - Vou ficar com o Mongo.               
    - Eu sei, querido.
    - A pata dele est ficando boa. Vai demorar algum tempo para sarar completamente, mas ele vai ficar bem. Talvez um pouco coxo. Pensei em encontrar uma boa casa para ele ficar, mas... no consigo. - Olhou para cima, confuso. - Porque  que disseste eu sei? Eu nunca fico com co nenhum.
    - Ainda no tinhas encontrado o co certo, pronto.        
    Olhou para ela com os olhos semicerrados, mas as covinhas da sua cara tornaram-se mais profundas, como acontecia quando estava divertido.
    - Ests ficando demasiado esperta e sensata.                             
    -  o meu novo eu. Pela parte que me toca, estou satisfeita.
    - E este teu novo eu faz o jantar?
    - Em ocasies raras. Comprei uns bifes e uns acompanhamentos.
    Foi at  bancada, remexeu no saco e tirou de l duas velas brancas. - L no mercado, a Lucy perguntou-me que tipo de sero estava eu a planejar, para comprar carne de vaca e velas brancas e um apetitoso cheesecake que estava numa caixa.
    Ele sorriu um pouco e levantou-se da cadeira.
    - E que disseste tu  Lucy, l no mercado?
    - Disse-lhe que ia preparar um jantar romntico para dois, eu e o doutor Wade Mooney. Alguns ouvidos interessados ficaram radiantes com este pedacinho de informao. - Pousou as velas. - Espero que no te importes com a minha indiscrio e que passemos a ser assunto de conversa e especulao considerveis.
    - No. - Abraou-a e pousou o rosto no cabelo dela. - No me importo.

    - Lissy, querida, no acho isto bem.
    - Ora, Dwight, vamos dar os sentimentos a amigos e a vizinhos.
    - Tentando encontrar uma posio confortvel, Lissy mexeu-se no assento do carro, apoiando a barriga num brao. - A Tory acabou de perder a me e vai saber-lhe bem algum carinho.
    - Talvez amanh. - Dwight lanou um olhar aborrecido  estrada que tinha  sua frente. - Depois de amanh.
    - Ora, nesta altura  que no deve estar em condies de cozinhar uma refeio decente. Por isso, vou levar-lhe este guisado de frango. Vai ajud-la a manter as foras. Meus Deus, deve ser uma provao difcil para ela.
    Apesar do seu suspiro piedoso, um fascnio irreprimvel danava dentro dela. A me de Tory morta pelo pai. Parecia mesmo uma coisa tirada dos tablides ou de Hollywood. E como arrancara Dwight de casa apenas uma hora depois de a notcia ter chegado, devia ser a primeira a ver Tory.
    No que no sentisse pena de Tory. Claro que sentia. No levava ali a comida que a sua me lhe preparara para ela aquecer depois do nascimento do beb? A comida era para a morte, toda a gente sabia.
    - No deve estar a apetecer-lhe companhia - insistiu Dwight.
    - Ns no somos companhia. Ora, eu andei com a Tory na escola. Conhecemo-nos desde crianas. No suporto a idia de v-la sozinha numa altura destas. - Nem que algum chegasse l primeiro. - Alm disso, Dwight Frazier, tu s o presidente da cmara.  teu dever consolar os infelizes. Meu Deus, cuidado com os solavancos, querido. Tenho de fazer xixi outra vez.
    - No quero que te emociones demasiado. - Estendeu o brao para lhe fazer uma festa na mo. - No quero que entres em trabalho de parto aqui, Lissy.
    - No te preocupes. - Mas ficou satisfeita por ele se preocupar. - Ainda faltam trs semanas, pelo menos. Meu Deus, estou bem? - Ansiosa, puxou o espelhinho do carro. - Devo estar um susto, depois de ter sado s pressas como sa. Uma vaca grande, gorda e horrvel.                                                              
    - Ests linda. Continuas a ser a moa mais bonita de Progress. E s toda minha.
    - Oh, Dwight. - Ela corou e ajeitou o cabelo. - s to doce.  que me sinto to gorda e feia, ultimamente. E a Tory est to elegante.
    - Pele e osso. A minha mulher tem curvas. - Estendeu a mo e passou-a pelo peito dela, fazendo-a soltar um gritinho.
    - Pra com isso. - A rir, deu-lhe uma palmada na mo. - Que vergonha. Estamos quase chegando e agora estou toda agitada. - Meteu a mo entre as pernas dele. - E parece que tu tambm ests. Lembras-te de como costumvamos estacionar para estes lados, quando ramos jovens e loucos?                                                    
    - E eu convenci-te a ir para o assento de trs do carro do meu pai.
    - No foi preciso muito esforo para me convenceres. Eu estava doida por ti. A primeira vez que fizemos amor foi aqui. Estava to escuro, um ambiente to sensual. Dwight - Passou os dedos pela perna dele. - Depois de o beb nascer e eu recuperar a minha figura, vamos pedir  mame que venha ficar com o beb. E tu trazes-me para aqui e vs se ainda consegues convencer-me a ir para o assento de trs.                                                                                  
    Ele soltou um sopro.
    - Se continuas a falar assim, Lissy, quando eu sair deste carro vou apanhar uma vergonha.
    - Vai um bocadinho mais devagar. Quero pr batom. - Tirou-o da mala. - A mame disse que ficava com o Luke durante a noite. Devamos ir ver a Boots e o J.R. depois de sairmos de casa da Tory. Acho que vo fazer o funeral em Florence. Ns vamos ter de ir, claro, em representao da cidade e essas coisas. No tenho nenhum vestido preto que me sirva. Acho que vou ter de me arranjar com o azul-escuro, embora tenha aquela gola bonita, branca. Mas as pessoas vo compreender se eu usar o azul-escuro, no achas? E vamos ter de mandar flores.
    Continuou a falar at entrarem no caminho de acesso  casa de Tory. Dwight j no estava excitado, mas estava ficando com uma leve dor de cabea.
    Quinze minutos, prometeu a si prprio. Iria dar a Lissy quinze minutos para tratar de Tory, e depois iria lev-la para casa e faz-la deitar-se com os ps um pouco elevados. Assim, ele podia beber uma cerveja, estender-se e ver o que estivesse a dar na ESPN.
    Ningum em Progress ia chorar a morte de Sarabeth Bodeen exceto a famlia mais chegada. No via porque  que uma morte to distante dele e da sua cidade haveria de ocupar-lhe mais do que o tempo estritamente necessrio, fosse pessoal ou oficial. Ia cumprir o seu dever e depois esquecer o assunto. - No sei porque algum iria querer viver neste ermo, sem uma nica alma por companhia - disse Lissy, enquanto Dwight a ajudava a sair do carro. - Mas a Tory sempre foi estanha. Estranha como um pato com duas cabeas, costumava dizer a minha me. Mas afinal... - Comeou a andar na direco da casa e lanou um olhar significativo ao carro de Cade. - Acho que no tem falta de companhia. Juro que no consigo imaginar aqueles dois juntos, Dwight, nem por um s minuto. No consigo ver que tenham alguma coisa em comum, e tanto quanto sei a Tory no  do tipo de aquecer um homem, se  que me entendes. Pode dizer-se que  bonita, para quem gosta daquele tipo, mas no  nada, comparada com a Deborah Purcell. Juro pela minha vida que no consigo entender o que  que o Cade v nela. Um homem na situao dele podia ter escolhido bem melhor. Deus sabe que eu tentei que ele fosse por melhores caminhos.
    Dwight disse hummm e h-h e sim, querida algumas vezes, enquanto tirava a comida do carro. No era realmente necessrio ouvir o que dizia a sua mulher, quando comeava com as suas divagaes. Aps vrios anos de casamento conhecia de cor aquele ritmo, por isso conseguia pontuar as suas afirmaes nos momentos exatos, sem fazer a mnima idia do que ela estava a dizer.
    Era um bom sistema para ambos.
    - Acho que no vai demorar muito at ele se cansar dela e ir cada um para seu lado, como acontece s pessoas que no tm um lao forte entre elas, como ns temos.
    Piscou-lhe o olho, deu-lhe uma pequena palmada no brao, e ele leu o sinal corretamente. Ofereceu-lhe um olhar quente e apaixonado.                                                                                                      
    - Depois de ele estar livre outra vez, convidamo-lo para jantar com... bem, talvez a Crystal Bean. Talvez tambm consiga encontrar um homem para a Tory, que faa mais o gnero dela. Isso vai dar-me bastante trabalho, porque acho que no h muitos homens dispostos a ficar com uma mulher to estranha. Juro que s vezes quando ela olha para mim fico cheia de arrepios. Tory!
    Soltou a exclamao assim que Tory abriu a porta, e abriu imediatamente os braos.
    - Oh, querida, lamento tanto o que aconteceu  tua me. O Dwight e eu viemos assim que soubemos. Pobrezinha. Porque no ests a descansar? Pensei que o Cade te convencesse a deitar, numa altura como esta.
    O abrao foi apertado e quente.
    - Eu estou bem.
    - Claro que no ests bem, e conosco no tens de fingir. Somos velhos amigos. - Deu uma pequena palmada nas costas de Tory. - Agora senta-te, que eu vou fazer-te um belo ch. Trouxe-te qualquer coisa para comeres. Quero que comas uma refeio quente, para conservares as foras neste perodo difcil. Cade.
    Soltou Tory para virar a ateno para Cade, quando este saiu da cozinha.
    - Ainda bem que ests aqui, a tratar da Tory. Numa altura como esta, ela precisa de todos os amigos. Agora vem comigo, querida. - Ps o brao  volta da cintura de Tory, como se fosse ampar-la. - Dwight, traz esse prato para a cozinha para eu poder aquec-lo para a Tory.
    - Lissy,  muito simptico da tua parte - comeou Tory.
    - No h nada de simptico nisto, somos amigas. Sei que deves estar meio fora de ti, mas estamos aqui contigo. D por onde der, podes contar connosco, no , Dwight querido?
    - Claro que sim. - Lanou a Cade um olhar aborrecido enquanto Lissy empurrava Tory para a cozinha. - No consegui impedi-la - murmurou. - A inteno dela  boa.
    - Tenho a certeza que sim.
    -  uma coisa terrvel. Terrvel. Como est a Tory a aguentar-se?
    - Bem. - Cade olhou na direo da cozinha onde soava a voz de Lissy. - Estou preocupado com ela, mas est bem.
    - Diz-se que foi o Hannibal Bodeen que fez isto. As notcias espalham-se depressa. Achei que gostarias de saber que  o que se diz por a. Acho que vai ser pior ainda, mas depois as coisas vo acalmar.
    - Acho que j no pode ser pior. O chefe Russ deu-te alguma informao sobre a caa ao homem?
    - Est a fazer o melhor que pode. No houve uma coisa como esta por aqui desde que perdeste a tua irm, Cade. - Hesitou, e depois mexeu-se um pouco, ainda com o prato na mo. - Tambm no deve ser fcil para ti, recordar tudo aquilo outra vez.
    - No, no . Mas vou dizer-te quais so as ltimas suspeitas, e se for assim o assunto pode ficar encerrado de uma vez por todas. Comea a suspeitar-se de que pode ter sido o Bodeen a matar a Hope.
    - Matar... - Respirou bem fundo, soltou o ar num sopro e depois olhou na direo da cozinha. - Deus Todo-Poderoso, Cade. No sei o que dizer. Nem o que pensar.
    - Nem eu. Ainda.                                                                                       
    - Dwight, traz l esse prato, se faz favor.
    - Vou a caminho - respondeu ele. - Vou levar a Lissy assim que puder. Sei que no querem companhia.
    - Ficava-te agradecido. E ficava-te agradecido se no falasses na ligao do pai da Tory com a Hope. Nem  Lissy, nem a ningum, por enquanto. As coisas j so suficientemente difceis para a Tory, tal como esto.                                                                    
    - Podes contar comigo. A srio, Cade. Diz-me se precisares de alguma coisa, que eu trato disso. - Conseguiu esboar um sorriso. - Tu, eu e o Wade somos amigos h muito tempo. H muito tempo.
    - Conto contigo. Conto mesmo. Eu...
    - Ouviu-se um guincho sbito na cozinha, que fez Dwight correr como um raio, muito assustado. Quando entrou de rompante, viu Lissy, com os olhos e a boca muito abertos, com a mo de Tory presa nas dela.
    - Noiva! No posso acreditar! Dwight, olha para o que a Tory tem no dedo. E nenhum deles dizia uma palavra sobre o assunto. - Puxou a mo de Tory para a frente, com o rosto animado pela convico de que era a primeira a saber. - No  uma maravilha?
    Dwight observou o anel e depois olhou Tory nos olhos. Viu o cansao, o embarao, a leve irritao.
    - Claro que sim. Espero que sejas muito feliz.
    - Claro que ela vai ser feliz. - Lissy largou a mo de Tory, para poder dar a volta  mesa e abraar Cade. - Mas que grande malandro. Sem nunca te quereres prender e depois agarras a Tory to depressa. Bem, ela ainda deve ter a cabea  roda. Temos de celebrar, fazer um brinde ao feliz casal. Oh!                                                    
    Calou-se e corou, embora os seus olhos continuassem a danar.
    - Onde  que eu tenho a cabea? Sou mesmo tonta. Oh, querida, deves estar desfeita. - Voltou a correr para junto de Tory, o mais depressa que conseguiu. - Ficaste noiva e perdeste a tua mezinha, tudo ao mesmo tempo. A vida continua, no te esqueas. A vida continua.
    Tory no se deu ao trabalho de suspirar, mas conseguiu pr a mo no colo antes de Lissy conseguir voltar a agarrar-lha.
    - Obrigada, Lissy. Desculpa, espero que compreendas, mas preciso de telefonar  minha av. Temos coisas a combinar.
    - Claro que compreendemos. Mas diz-me, se eu puder fazer alguma coisa. Qualquer coisa que seja. Nada  demasiado grande nem demasiado pequeno. O Dwight e eu ficaremos muito satisfeitos se pudermos ajudar. No  verdade, Dwight.
    - Sim, sim. - Ps o brao sobre os ombros de Lissy, com firmeza. - Agora, vamos andando, mas telefonem-nos se precisarem de alguma coisa. No se levantem. - Encaminhou Lissy para a porta. - Saimos sozinhos. Telefonem, ouviram?                                         
    - Obrigada.
    - Imagina s! Imagina! - Lissy mal conseguiu esperar at chegarem  porta. - A usar um diamante suficientemente grande para cegar uma pesoa, e no mesmo dia em que descobre que o pai matou a me. Juro, Dwight, no sei o que pensar. Est fazendo planos para um casamento e um funeral, ao mesmo tempo. Eu te disse que ela era estranha, no disse?                                                                    
    - Disseste, querida. - F-la entrar no carro e fechou a porta. - Claro que me disseste - murmurou.

    L dentro, Cade sentou-se  mesa. Por um momento, ele e Tory observaram-se um ao outro, em silncio.
    - Desculpa - disse ele, por fim.            
    - Porqu?                                                                                                                       
    - O Dwight  meu amigo e ela vem com ele.
    - Ela  uma tonta. No  particularmente ardilosa, nem particularmente m. Alimenta-se dos assuntos das outras pessoas, bons e maus. Neste momento, no sabe a qual h-de atender primeiro. Aqui est Victoria Bodeen, no meio de uma tragdia e de um escndalo. E c est ela outra vez, noiva de um dos homens mais proeminentes da regio.
    Tory fez uma pausa e olhou para o anel que tinha no dedo. Sentiu-se sobressaltada por v-lo ali, pensou. No era uma sensao m, apenas estranha.
    - Tantas novidades para espalhar - prosseguiu ela. - Deve estar tudo a chocalhar na cabea dela como berlindes. Devem andar a rolar de um lado para o outro, porque no h com certeza muito que os trave, l dentro.
    A boca dele contorceu-se um pouco.    
    - Ests a especular ou deste uma espreitadela?
    - No  preciso. No vou fazer isso quando tudo o que ela est a pensar se mistura na cara dela. O Dwight nunca conseguiria tir-la daqui to depressa, se ela no estivesse em pulgas para pegar num telefone e comear a espalhar a novidade.                        
    - E isso te incomoda.
    - Sim. - Afastou-se da mesa e foi at  janela. Estranho, como era reconfortante olhar para as sombras do pntano. - Quando voltei aqui, sabia que ia estar sob observao microscpica. Sabia isso. E vou superar isso. A minha me... Vou superar isso, tambm. No posso fazer mais nada.
    - No tens que superar isso sozinha.
    - Eu sei. Acho que voltei aqui para me enfrentar a mim prpria. Para resolver, ou pelo menos aceitar, o que aconteceu  Hope e o papel que tive nisso. J contava com as conversas, os olhares, a especulao e a curiosidade. Pensei em us-las para fazer progredir o negcio.  o que tenho feito e o que vou continuar a fazer. Uma atitude calculista.
    - No, de bom senso. Dura, talvez, mas no calculista.
    - Voltei por mim prpria - disse ela, calmamente. - Para provar que era capaz. Esperava pagar por isso. Acalmar a inquietao dentro de mim, mas pagar por isso. Nunca esperei encontrar-te.
    Virou-se.                                                                                                            
    - Nunca esperei encontrar-te, Cade. E ainda no sei bem o que fazer a tudo isto que sinto por ti.
    Ele ps-se de p e foi ter com ela, para lhe afastar o cabelo do rosto.
    - Vais descobrir.
    - Isto  to fcil para ti.
    - Acho que tenho estado  tua espera.
    - Cade, o meu pai... O que ele . Uma parte disso est em mim. Tens de pensar nisso. Tens de ter isso em conta.
    - Tenho? - Observou-a com ateno, enquanto a virava e a fazia encaminhar-se para o quarto. - Se calhar, tens razo. Suponho que deva dar-te a mesma oportunidade de teres em conta o meu av Horace, que teve um longo caso libidinoso com o irmo da mulher dele. Quando ela descobriu, no meio de todo o choque e de toda a tristeza, como podes imaginar, ameaou denunci-lo. O meu av Horace, com o seu amante, descontentes com esta reao, cortaram-na aos pedaos e mantiveram os aligtores gordos e felizes durante vrios dias.
    - Ests a inventar isso.
    - No estou nada. - F-la deitar-se na cama. - Bem, a histria dos aligtores  uma lenda de famlia. H quem diga que ele se limitou a fugir para Savanah e que viveu at aos noventa e seis anos, na vergonha e na solido. Seja como for, no  uma nota de rodap digna na histria da famlia Lavelle.
    Ela virou-se para ele, encontrou a curva do seu ombro e pousou a cabea ali.                                                       
    - Acho que posso dizer que ainda bem que no tenho irmos.
    - L ests tu. Dorme um pouco, Tory. S estamos aqui os dois. E  isso que importa agora.
    Enquanto ela dormia, ele ficou acordado, a escutar os sons da noite.
    - Estou a pedir-te que compreendas. - Tory observou os recortes de Beaux Revs. - Ests a pr-me entre ti e a tua me outra vez, Cade. Isso no  justo para nenhum de ns.
    - No. Mas preciso de falar com ela e no quero que vs  cidade sozinha. No quero que andes sozinha at isto estar acabado, Tory.
    - Bem, j somos dois, portanto quanto a isso podes estar descansado. Mas eu espero no carro enquanto tu fazes o que tens a fazer.
    - Vamos chegar a um compromisso.
    - Ora, ora, quando  que essa palavra entrou no teu vocabulrio? Ofereceu-lhe um sorriso lento e muito suave.
    - Vamos por trs. Podes esperar na cozinha. A minha me no passa l praticamente tempo nenhum.
    Ela ia voltar a argumentar, mas desistiu. Sabia que ele iria sempre contornar as desculpas dela e estava demasiado cansada para discutir sobre isso. Demasiados sonhos durante a noite, demasiadas imagens que deslizavam na sua cabea durante o dia.
    Quando isto tiver acabado, disse ele. Como se alguma vez acabasse. Como se pudesse acabar.
    Saiu do carro, acompanhou-o pelo caminho do jardim, por entre os rosais abundantemente floridos, a camlia de folhagem lustrosa onde, certa vez, uma menina escondera a sua bicicleta cor-de-rosa, os montes de azleas, com as suas flores j murchas, e aromticas espirais de lavanda, que iriam perfumar o ar at ao Inverno.
    Aqui, o mundo era de abundncia, cheio de cor, de formas e de perfume. Um lugar elegante e tranquilo, cheio de caminhos pavimentados e bonitos bancos estrategicamente colocados por entre os canteiros e os arbustos, com vasos a transbordar das mais diversas flores artisticamente dispostos. O resultado era semelhante a um quadro meticulosamente executado.
    Mais uma vez, o mundo de Margaret, pensou Tory, com a mesma perfeio existente nas divises da casa. Nada podia destru-la, nada podia mud-la. Que devastador seria ter algum a invadir a casa e a estragar o equilbrio de tudo.
    - Tu no a compreendes.
    - Desculpa?
    - A tua me. No a compreendes.
    Intrigado, Cade enlaou os seus dedos nos de Tory.
    - Fiz-te crer que a compreendia?
    - Este  o mundo dela, Cade.  a vida dela. A casa, os jardins, a vista que v das janelas. Mesmo antes de a Hope ter morrido, este era o centro para ela. Aquilo de que cuidava e que preservava. E continuou a faz-lo depois de ter perdido a filha. Pelo menos podia ficar com isto - disse ela, virando-se para ele. - Toc-lo, v-lo, zelar para que no mudasse. No lhe tires isto.
    - No vou tirar. - Segurou o rosto de Tory entre as mos, aproximando-o do seu. - Mas tambm no vou tolerar que ela use a casa, ou a fazenda, como ameaa para me manter o p em cima. No posso dar-lhe mais do que j lhe ofereci, nem mesmo por ti.
    - Tem de haver um compromisso. Como tu prprio disseste.
    - Seria de pensar que sim. - Pousou os lbios na testa dela. - Mas s vezes, com algumas pessoas, h apenas sim ou no. No insistas. - Ele afastou-a um pouco e ela viu que os olhos dele estavam perturbados. - No me peas isto, Victoria. - Emitiu um som que parecia um suspiro, mas era mais como se lhe tivesse faltado o ar. - No me peas que troque a nossa felicidade pela aprovao dela. Para comear, a aprovao dela foi coisa que nunca tive.
    Era to estranho perceber aquilo assim, de repente. Ele crescera num castelo e tivera tanta fome de palavras amveis como ela.
    - Este assunto magoa-te. Desculpa, no vi o quanto te magoa.
    - Feridas antigas. - Passou as mos pelos braos dela e voltou a entrelaar os dedos nos dela. - J deixaram de sangrar.
    Mas, de tempos a tempos, abriam e voltavam a doer, pensou, enquanto retomavam o caminho. Nunca ningum lhe batera com os punhos fechados, nem com um cinto. Mas havia outras formas de bater numa criana.
    Mesmo ali, em toda aquela beleza, to distante das divises inspitas e sufocantes da sua infncia. Belo, sim, pensou Tory enquanto passavam sob uma prgula coberta de campainhas roxas, mas solitrio. Era apenas outra forma de dizer inspito.
    Devia haver algum sentado no banco ou a cortar gerberas para dentro de um cesto. Uma criana estendida de barriga para baixo no caminho, a observar um lagarto ou um sapo.
    O quadro precisava de vida, de som, de movimento.
    - Quero filhos.
    Cade deteve-se. - Desculpa?
    De onde viera aquilo, e como lhe sara do pensamento como se sempre ali tivesse estado?
    - Quero filhos - repetiu. - Estou farta de ptios vazios e jardins silenciosos e casas arrumadas. Se vivermos aqui, quero barulho e migalhas no cho e pratos no lava-loua. No conseguiria sobreviver em todas estas divises perfeitas, intocadas, e esta  uma coisa que no podes pedir-me que faa. No quero esta casa sem vida dentro dela.
    As palavras saram da boca dela, e o pnico que as acompanhava f-lo sorrir. Lembrou-se de um menino que queria construir um forte. De madeira velha e tela.
    - Mas que coincidncia interessante. Eu tinha pensado em dois filhos, ou trs.
    - Est bem. - Soltou um suspiro de alvio. - Est bem. Devia ter percebido que j tinhas pensado nisso.
    - Sou agricultor. Os agricultores fazem planos. Depois, esperam que o destino ajude. - Baixou-se para colher uma haste de rosmaninho, no jardim de ervas aromticas. - Para te recordares - disse ele, oferecendo-lho. - Enquanto estiveres  minha espera, lembra-te que temos uma vida para planejar, com a confuso e o barulho que nos apetecer.
    Ela entrou com ele e l estava Lilah, como tantas vezes, junto ao lava-loua. O ar cheirava a caf e a bolachas e ao aroma suave a rosas que Lilah espalhava pela casa todas as manhs.
    - Vm atrasados para o pequeno-almoo - disse ela. - Tm sorte porque eu estou bem-disposta. - Estivera a observ-los nos ltimos minutos, com uma sensao de leveza no corao. Ficavam bem, juntos. E h algum tempo que desejava ver o seu rapaz ficar bem com algum.
    - Bem, sentem-se. O caf foi feito h pouco tempo. Fiz um bolo na chapa, que ningum se deu ao trabalho de comer.
    - A minha me est l em cima?
    - Est, e o juiz est  espera na sala da frente. - Lilah estava j a pegar nas canecas. - Ainda no teve grande coisa para me dizer, hoje. Tem estado quase sempre ao telefone, e com a porta fechada. E a sua irm nem sequer se deu ao trabalho de vir para casa, est noite.
    O estmago de Cade apertou-se-lhe.                               
    - A Faith no est em casa?
    - No se preocupe. Est com o Doutor Wade. Saiu daqui ontem e disse-me para onde ia e que voltaria quando voltasse. Parece que nos ltimos tempos ningum dorme na sua cama seno eu. Est demasiado calor para tanta azfama. Sente-se e coma.
    - Preciso de falar com a minha me. D-lhe de comer a ela - ordenou Cade, apontando para Tory.
    - No sou nenhum co - resmungou Tory, enquanto ele se afastava. - No vale a pensa estar com trabalho, Lilah.
    - Senta-te e tira esse ar de mrtir da cara. Ele  que tem de resolver as coisas com a me, no s tu. - Tirou o bolo para aquec-lo. - E tu vais comer o que eu te puser  frente.
    - Estou a comear a pensar que ele saiu a si.
    - Porque no haveria de sair? Fui eu que praticamente o criei. No estou a falar contra Miss Margaret. Algumas mulheres no so feitas para mes e pronto. No so menos por isso, so assim e mais nada.
    Tirou uma tigela da geladeira e destapou-a.
    - Sinto muito o que aconteceu  tua me.                          
    - Obrigada.
    Lilah ficou parada um instante, com a tigela segura pelo brao dobrado, os olhos escuros e quentes fixos no rosto de Tory.
    - H mulheres - voltou a dizer - que no so feitas para mes.  por isso que, como diz a cano, Deus abenoa as crianas que tm fora dentro de si. Tu tens, querida. Sempre tiveste.
    Pela primeira vez desde que soubera da morte da me, Tory chorou.
    Cade passou primeiro pela sala. As boas maneiras nunca permitiriam que ele passasse por um amigo da famlia sem lhe falar.
    - Juiz.
    Gerald virou-se, e as linhas severas e pensativas do seu rosto suavizaram-se um pouco quando viu Cade.
    - Tinha esperana em conseguir falar contigo, esta manh. Espero que possas dar-me um minuto.     
    - Claro. - Cade entrou e pegou numa cadeira. - Espero que esteja bem.
    - Um pouco de artrite, mas so achaques que vo e voltam.  da idade. - Gerald virou-se para Cade, quando ele se sentou. - Nunca pensamos que vai acontecer-nos, e um dia acordamos e perguntamo-nos quem diabo  o velho que estamos a ver ao espelho quando nos barbeamos. Bem... - Gerald pousou as palmas das mos nos joelhos das calas. - Conheo-te desde que nasceste.
    - Por isso, no h necessidade de ter cuidado com as palavras - concluiu Cade. - Sei que a minha me falou consigo sobre umas legalidades e algumas coisas que quer mudar no testamento.
    -  uma mulher orgulhosa e est preocupada contigo.
    - Est? - Cade ergueu as sobrancelhas como se tivesse ficado fascinado pela informao. - No precisa estar. Eu estou bem. Mais do que bem. Se a preocupao dela  com Beaux Revs - prosseguiu -, tambm no  necessria. Estamos a ter um bom ano. Acho que melhor do que o ano passado.
    Gerald pigarreou.
    - Cade, conheci o teu pai desde muito jovem, era amigo dele. Espero que entendas o que tenho para dizer  luz dessa amizade. Podias adiar os teus planos pessoais, refletir mais um pouco. Estou perfeitamente consciente das necessidades e dos desejos de um homem, mas quando esses desejos so postos  frente do dever, do aspecto prtico e, acima de tudo,  frente da famlia, o resultado nunca pode ser bom.                              
    - Pedi a Tory em casamento. No preciso do consentimento da minha me, nem da sua. Mas lamento no o ter.
    - Cade, s jovem, tens a vida toda  tua frente. Estou apenas a pedir, como amigo dos teus pais, que reflitas mais um pouco. Na tua idade, o tempo no foge. Pensa em todos os aspectos. Principalmente agora que esta tragdia se abateu sobre a vida de Tory Bodeen. Uma tragdia - acrescentou Gerald - que diz bem de onde e de quem ela vem. Quando ela vivia aqui no passavas de um rapaz, poupado aos fatos mais duros da vida.
    - E que fatos seriam esses? Gerald suspirou.
    - O Hannibal Bodeen  um homem perigoso, inequivocamente louco. Essas coisas vm no sangue. Eu at tenho simpatia pela moa, no se trata disso, mas no se pode mudar aquilo que  como .
    - Est a dizer Quem sai aos seus no degenera? Ou De pequenino se torce o pepino?
    A irritao perpassou o rosto de Gerald.
    - Qualquer deles serve. A Victoria Bodeen viveu naquela casa, debaixo da mo dele, durante demasiado tempo para no ter sido modelada por isso.
    - Debaixo da mo dele - disse Cade, cuidadosamente.
    - Em sentido figurado e receio que literalmente tambm. H muitos anos, ris Mooney, a av materna de Victoria, veio falar comigo. Queria processar os Bodeen e ficar com a custdia da rapariga. Disse que o Bodeen batia na filha.
    - Quis contrat-lo?
    - Sim. Mas no tinha qualquer prova deste abuso, no havia substncia. No tenho dvida, nem a tinha na altura, de que ela estava a dizer a verdade, mas...                
    - O senhor sabia - disse Cade muito calmamente. - Sabia que ele lhe batia, a deixava cheia de vergastadas e ndoas negras, e no fez nada?
    - A lei...                                      
    - Que se foda a lei. - Disse isto no mesmo tom mortalmente tranquilo, enquanto se levantava. - Ela foi pedir-lhe ajuda, porque queria tirar uma criana de um pesadelo. E o senhor no fez nada.
    - No era da minha competncia interferir na famlia biolgica. Ela no tinha provas. O caso era fraco. - Agitado, Gerald tambm se levantou. No estava habituado a ser questionado nem olhado com aquela averso. - No havia relatrios da polcia, nem dos servios sociais. Apenas a palavra de uma av. Se eu tivesse aceitado o caso, no teria dado em nada.
    - Nunca o saberemos, pois no? Porque no aceitou o caso. No tentou ajudar.
    - No era da minha competncia - repetiu Gerald.
    - Era da sua competncia.  da competncia de toda a gente. Mas ela ultrapassou isso sem a sua ajuda, sem a ajuda de ningum. Agora, se me d licena, tenho coisas a tratar.
    Saiu da sala apressadamente. No andar de cima, Cade bateu  porta do quarto da me. Ocorreu-lhe que sempre houvera portas fechadas naquela casa, barreiras que exigiam um pedido de autorizao antes de serem removidas. Aqui, as boas maneiras sempre tinham precedido a intimidade.
    Isso iria mudar. Prometeu isso a si prprio. As portas de Beaux Revs abrir-se-iam. Os seus filhos no teriam de esperar para entrar, como se fossem convidados na sua prpria casa.
    - Entre. - Margaret continuou a fazer as malas. Vira Cade chegar com aquela mulher e estava  espera que ele batesse  porta. Achou que ele viria pedir-lhe que mudasse de idias sobre a sua sada daquela casa, que tentaria chegar a um acordo. Era um negociador nato, pensou ela, enquanto colocava papel de seda entre as blusas cuidadosamente dobradas, exatamente como o pai.
    Dar-lhe-ia uma enorme satisfao ouvir todos os seus pedidos e ofertas. E recus-los a todos.
    - Desculpe incomod-la. - O prlogo saiu automaticamente. Dissera a mesma coisa vezes sem conta quando entrara nas divises da casa onde ela estava. - E lamento que estejamos em desacordo.
    Ela no se deu ao trabalho de olhar para ele.
    - J tratei de tudo, para virem buscar a minha bagagem esta tarde. Naturalmente, espero que o resto dos meus pertences me sejam enviados. Tenho uma lista do que  meu. Ainda no est terminada. Adquiri vrios haveres nos anos que passei nesta casa.
    - Claro. J decidiu onde vai ficar?
    O tom corts da pergunta fez com que as mos lhe tremessem. Olhou subitamente para ele.
    - No tratei de nada permanente. Estas coisas requerem uma reflexo cuidadosa.
    - Sim. Acho que ficaria mais confortvel numa casa sua, aqui perto, porque tem laos com a comunidade. A propriedade entre a Magnolia e a Main  nossa.  uma bonita casa de tijolo, com dois andares e um belo ptio com jardim. Neste momento, est alugada, mas o contrato termina daqui a dois meses. Se estiver interessada, eu aviso os inquilinos.
    Olhou para ele, verdadeiramente surpreendida.                         
    - A facilidade com que me pes fora.                                      
    - No estou a p-la fora. A escolha  sua.  bem-vinda, se quiser ficar. A casa  sua e pode continuar a ser. Mas tambm vai ser a casa da Tory.
    - Vais acabar por perceber o que ela , mas nessa altura j te ter arruinado. A me dela no prestava. O pai  um assassino. E ela no passa de uma oportunista, uma dissimulada calculista, que nunca soube qual era o seu lugar.
    - O lugar dela  aqui, comigo. Se no consegue aceitar isso, nem a ela, ter de arranjar casa noutro lado.
    s vezes, para algumas pessoas, a resposta era sim ou no. Ocorreu-lhe que, desta vez, isso se aplicava tanto a ele como  me.    
    - A casa da Magnolia  sua, se a quiser. No entanto, se preferir ir para outro lugar, Beaux Revs pode adquirir a propriedade da sua escolha.
    - Por culpa?
    - No, me. No sinto qualquer culpa por querer a minha felicidade, nem por amar uma mulher que tambm admiro e respeito.
    - Respeitas? - rugiu Margaret. - Como podes falar de respeito?
    - Posso. Nunca conheci ningum que respeitasse mais. Por isso, a culpa no tem lugar aqui. Mas vou zelar para que tenha uma casa confortvel.
    - No preciso de nada vindo de ti. Tenho dinheiro meu.
    - Eu sei. Demore o tempo que precisar para decidir. Qualquer que seja a sua deciso, espero que se sinta feliz com ela. Ou, pelo menos, satisfeita. Gostaria... - Fechou os olhos por um instante, cansado de manter a fachada das boas maneiras. - Gostaria que houvesse mais do que isto entre ns. Gostaria de saber porque no pode haver. Desiludimo-nos um ao outro, me. Lamento muito.
    Ela teve de pressionar os lbios um contra o outro para impedir que tremessem.                                                                                      
    - Quando eu sair desta casa, morreste para mim.
    A dor assomou-lhe aos olhos, redemoinhou neles e depois desvaneceu-se.
    - Sim, eu sei.
    Recuou e depois fechou suavemente a porta entre ambos. Sozinha, Margaret deixou-se cair na cama, a escutar o silncio.
    Cade reuniu todos os papis que achou que iria precisar nos prximos dois dias, e ouviu as mensagens que tinha no atendedor, enquanto os metia na pasta. Precisava falar com Piney, responder aos telefonemas da fbrica e passar por algumas das propriedades arrendadas. Havia uma reunio da administrao no dia seguinte, mas podia ser adiada.
    A reunio peridica com o seu contabilista no. Tinha de arranjar um lugar seguro para deixar Tory por umas horas.       
    Olhou para o relgio e pegou no telefone. Faith atendeu, com a voz entaramelada pelo sono.
    - Onde est o Wade?                                                                
    - H? L em baixo, com um cocker spaniel, ou algo do gnero. Que horas so?                                                               
    - Passa das nove.         
    - Vai-te embora. Estou a dormir.
    - Vou  cidade. A Tory est comigo. Est com idia de ir para a loja. No quer abrir hoje, mas acho que o objetivo dela  ter qualquer coisa que a mantenha ocupada. Quero que abras os olhos e depois vs l ter e fiques com ela.
    - Talvez no me tenhas ouvido. Estou a dormir.
    - Levanta-te. Daqui a meia hora estamos l.
    - Ests horrivelmente mando, esta manh.
    - No quero nenhuma de vocs duas sozinhas at o Bodeen estar preso. Fica com ela, ests ouvindo? Volto assim que puder.
    - Que raio vou eu fazer com ela?
    - Vais pensar em alguma coisa. Levanta-te - repetiu, e depois desligou. Satisfeito, levou a pasta para o andar de baixo.
    A primeira coisa em que reparou foi que o prato de Tory estava quase vazio. A segunda foi que ela estivera a chorar.
    - Que se passa? O que foi que lhe disseste?
    - Ora, deixa-te de bisbilhotices. - Lilah sacudiu-o como a uma mosca. - Ela esteve a chorar e agora sente-se bem melhor. No , minha menina?
    - Sim, obrigada. No consigo comer mais, Lilah. A srio que no consigo.
    De lbios franzidos, Lilah observou o prato e depois acenou com a cabea.
    - Portaste-te muito bem. - Olhou para Cade. - Miss Margaret ou o juiz vo querer tomar o pequeno-almoo?
    - Acho que no. A minha me tem tudo preparado para sair esta tarde.
    - Vai avante com isto?
    - Parece que sim. No quero que fiques aqui sozinha, Lilah. Pensei que talvez quisesses ir visitar a tua irm e ficar l por uns dias.
    - Talvez. - Pegou no prato de Tory e levou-o para o lava-loua. - Logo vejo, se no se importar, Menino Cade.           
    - Depois confirmo contigo.
    -  melhor ela ir-se embora. Liberta-se desta casa e daqui a algum tempo ser mais feliz.
    - Oxal tenhas razo. Telefona  tua irm - disse ele, estendendo a mo a Tory.
    Tory ps-se de p, e aps um momento de hesitao aproximou-se de Lilah e encostou o rosto ao dela.       
    - Obrigada.
    - s uma boa rapariga. E lembra-te da fora que tens.
    - Vou lembrar-me.
    Esperou at estarem l fora, no carro e a rolar pelo caminho ladeado por rvores at  sada da propriedade.
    - No quero um casamento grande. Cade franziu a testa.
    - Est bem.
    - Gostaria que fosse o mais discreto possvel e...
    - E...?                          
    Virou para a estrada principal. Tory olhou pela janela, para os campos e o pntano.
    - O mais depressa possvel.        
    - Porqu?
    Era mesmo dele, perguntar, pensou, e virou-se para ele.
    - Porque quero comear a nossa vida. Quero comear.
    - Vamos tratar da licena amanh. Achas bem?
    - Sim. - Ps a mo sobre a dele. - Acho muito bem. Sorrindo para ele, Tory no viu nada, no sentiu nada vindo do pntano. Nem do que estava nele,  espera.                 
    Faith estava a chegar  Conforto do Sul quando viu Cade estacionar o carro. Abriu um grande sorriso e enganchou o brao no de Cade, satisfeita.                                                    
    - Aqui ests tu. Pensei que te tivesses esquecido.
    - Esquecido?                                                                    
    - Querido, lembra-te que disseste que me emprestavas o teu carro hoje. Toma. - Deixou cair as chaves do seu carro na mo dele e bateu as pestanas. -  mesmo querido da tua parte. Ele no  o melhor irmo do mundo, Tory? Sabe que eu tenho um fraquinho por este conversvel, e est sempre a emprestar-mo.
    Arrancou a chave dos dedos de Cade e depois deu-lhe um beijo grande e ruidoso.
    - Tory, estou to aborrecida hoje. O Wade est cheio de trabalho. Vou ficar a fazer-te companhia um bocadinho, est bem? Estou pensando em comprar para o Wade um desses castiais gordos que tens a dentro.
    Com naturalidade, largou o brao de Cade e pegou no de Tory.
    - A casa dele est mesmo a precisar de uns arranjos. Bem, j viste por ti prpria, por isso sabes. Parece que vou comear a passar mais tempo l, e no suporto aquela decorao primitiva de homem que ele tem. O carro est atrs da casa do Wade - disse ela a Cade, puxando Tory na direo da porta. - Est quase sem gasolina.
    Lanando um ltimo olhar ao rosto aborrecido de Cade, Tory abriu a loja.
    - O carro foi um suborno?
    - No, ele no se deu ao trabalho de me oferecer subornos. Acordou-me esta manh, por isso tem de pagar um preo alto. Quer que tomemos conta uma da outra.                       
    - Onde est a tua cadela?
    - Oh, est a divertir-se imenso em casa do Wade. - Faith virou-se na direo da janela e acenou alegremente a Cade. - Est fumegando. Detesta que eu conduza o brinquedo dele.
    -  claro que por isso o conduzes o maior nmero de vezes possvel.
    - Naturalmente. Tens alguma coisa fresca que se beba? Est um calor sufocante.                                                 
    - L atrs. Serve-te.              
    - Vais abrir a loja hoje?
    - No. No quero estar com ningum, hoje. Por isso, no te ofendas se eu te ignorar.
    - Digo o mesmo.
    Faith foi at s traseiras e voltou com duas garrafas de Coca-Cola. Tory tinha posto msica a tocar baixinho e estava ocupada usando um limpa-vidros e um pano.        
    - Podes dar-me qualquer coisa para fazer, antes que eu morra de tdio.
    Tory estendeu-lhe o pano.
    - Deves conseguir fazer isto. Tenho muito trabalho l atrs. Por favor, no deixes entrar ningum. Se algum aparecer  porta, diz-lhe que estamos fechadas hoje.
    - Tudo bem.
    Encolheu os ombros enquanto Tory se dirigia para o escritrio, e depois entreteve-se a reorganizar a seu gosto os objetos expostos, imaginando como seria ter uma loja.
    Demasiado trabalho, concluiu, demasiadas preocupaes. Embora fosse divertido estar perto de tantas coisas bonitas e especular sobre quem iria compr-las.
    Encontrou as chaves da caixa das jias atrs do balco, e experimentou vrios pares de brincos, admirou uma pulseira feita com uma serpentina de prata e experimentou-a tambm.         
    
    Quando algum bateu  porta, deu um salto com ar culpado e fechou o expositor.
    No reconheceu os rostos. O homem e a mulher ficaram do lado de fora a observ-la, enquanto ela os observava tambm. Era uma pena Tory no ter a loja aberta, pensou Faith. Pelo menos os clientes trariam alguma animao.
    Faith sorriu abertamente e apontou para o letreiro que dizia que a loja estava fechada. A mulher mostrou um distintivo.
    - Ups. - O FBI, pensou. Uma animao ainda maior. Destrancou a porta.                                                      
    - Miss Bodeen?
    - No, est l atrs. - Faith deteve-se um instante, para medi-los. A mulher era alta e forte, tinha o cabelo curto e preto e olhos escuros e inexpressivos. Usava aquilo que Faith considerou um traje cinzento muito desinteressante e uns sapatos feios de morrer.
    O homem tinha mais potencial, com o cabelo castanho encaracolado e um maxilar quadrado com uma cicatriz pequena e sensual. Tentou sorrir para ele e obteve como resposta um ligeirssimo esgar.
    -  a primeira vez que conheo um agente do FBI, por isso estou um bocadinho atrapalhada.
    - No se importa de pedir a Miss Bodeen que venha at aqui? - pediu a mulher.
    - Claro que no. Dem-me licena um minuto. Esperem aqui. - Apressou-se a ir at ao escritrio e fechou a porta atrs de si. -  o FBI.                                                                   
    Tory levantou a cabea bruscamente.
    - Aqui?
    - Aqui mesmo. Um homem e uma mulher, e no so nada como os da televiso. Ele no  mau de todo, mas ela traz um traje que eu no queria nem para ser enterrada. E tambm  ianque. Quanto a ele, no sei. No abriu a boca. C para mim, ela  que  a manda-chuva.
    - Por amor de Deus, Faith, o que  que isso me importa? - Tory ps-se de p, mas tinha os joelhos a tremer.
    Antes de conseguir acalmar-se, ouviu-se um bater repentino na porta, que se abriu.
    - Miss Bodeen?
    - Sim, eu... sim.
    - Sou a agente especial Tatia Lynn Williams. - A mulher voltou a mostrar o distintivo. - E este  o agente especial Marks. Precisamos falar consigo.             
    - Encontraram o meu pai?       
    - At agora, no. Ele contactou-a?
    - No. No o vi, nem ouvi nada sobre ele. Ele sabe que eu no o ajudaria.
    - Gostaramos de fazer-lhe algumas perguntas. - Williams lanou a Faith um olhar desagradvel.
    Nesse preciso momento, Faith correu para trs da escrivaninha e ps o brao sobre o ombro de Tory.
    - Esta  a noiva do meu irmo. Prometi-lhe que no a deixava ficar sozinha. No vou quebrar a minha palavra.
    Marks pegou no seu bloco-notas e folheou algumas pginas.
    - E a senhora ...?
    - Faith Lavelle. A Tory est a passar por um momento muito difcil. Eu vou ficar com ela.
    - Conhece Hannibal Bodeen?
    - Conheo. E acredito que ele matou a minha irm, h dezoito anos.
    - No temos qualquer prova disso - disse Williams, sem mostrar qualquer emoo. - Miss Bodeen, quando foi a ltima vez que viu a sua me?
    - Em abril. O meu tio e eu fomos v-la. H alguns anos que estou afastada dos meus pais. No a via desde os meus vinte anos, nem ao meu pai. At ele ter vindo aqui,  minha loja.
    - E nessa altura sabia que ele era um fugitivo.
    - Sim.                              
    - No entanto, deu-lhe dinheiro.
    - Ele levou o dinheiro - corrigiu Tory. - Mas eu ter-lho-ia dado, para mant-lo longe de mim.                                   
    - O seu pai foi fisicamente violento consigo.
    - Durante toda a minha vida. - Tory no aguentou e sentou-se.
    - E com a sua me?
    - No, nem por isso. No era preciso. Acho que lhe bateu mais nestes ltimos anos, quando eu j no estava l. Mas isso  apenas especulao.
    - Disseram-me que no precisa de especular. - Williams fixou os olhos no rosto de Tory. - Afirma possuir poderes psquicos.
    - No afirmo nada.
    - Esteve envolvida em vrios casos de crianas raptadas, h alguns anos.                                   
    - E o que pode ter isso a ver com o assassnio da minha me?
    - Era amiga de Hope Lavelle. - Marks abordou o assunto tranquilamente e sentou-se numa cadeira, enquanto a sua colega permanecia de p.
    - Sim, ramos muito amigas.                                        
    - E levou a famlia dela e as autoridades at ao local onde estava o corpo dela?
    - Sim. Tenho a certeza de que tm os relatrios. No tenho nada a acrescentar-lhes.                                                                  
    - Afirma ter visto o homicdio dela.
    Quando Tory no respondeu, Marks inclinou-se para a frente. - Recentemente, pediu ajuda a Abigail Lawrence, uma advogada de Charleston. Estava interessada numa srie de homicdios sexuais. Porqu?
    - Porque elas foram todas mortas pela mesma pessoa, a mesma pessoa que assassinou a Hope. Porque todas elas eram a Hope, para ele, com uma idade diferente.
    - Voc... sente isto - comentou Williams e estudou o olhar de Tory.
    - Eu sei isto. No estou  espera que acredite em mim.
    - Se sabe isto - continuou Williams -, porque no disse nada?
    - Para qu? Para divertir algum como a senhora? Para ver o que aconteceu ao Jonah Mansfield voltar  tona e ver atirarem-me  cara o papel que tive? A senhora j sabe tudo o que h para saber sobre mim, agente Williams.
    Marks tirou um saco de plstico do bolso e atirou-o para cima da escrivaninha. L dentro estava um brinco, uma argola simples, de ouro.
    - O que pode dizer-nos sobre isto? Tory manteve as mos no colo.
    -  um brinco.
    - Uma das coisas que sabemos  que consegue manter a calma debaixo de fogo. - Williams deu um passo em frente. - Estava suficientemente interessada nos homicdios para recolher informaes sobre eles. No est suficientemente interessada para ver o que consegue ficar sabendo, digamos, a partir disto?
    - J lhe disse tudo o que sei sobre o meu pai. Falo tudo o que puder para vos ajudar a encontr-lo.
    Marks pegou no saco.                                
    - Comece por aqui.
    - Era da minha me? - Sem pensar, Tory tirou-lhe o saco da mo, quebrou o selo e depois fechou os dedos sobre o brinco.
    Abriu-se, desejando esta ltima ligao mais do que pensara. Estremeceu uma vez e depois deixou cair o brinco em cima da escrivaninha.
    - O par est no seu bolso - disse ela a Williams. - Tirou-os quando vinha a caminho da cidade e ps este aqui dentro. - Os olhos dela mantiveram-se fixos nos de Williams. - E eu no tenho de me sujeitar a isto.                                                              
    - Desculpe. - Williams deu um passo em frente para pegar no brinco. - Sei realmente muitas coisas a seu respeito, Miss Bodeen. Fiquei interessada no trabalho que fez em Nova Iorque. Estudei o caso Mansfield. - Voltou a meter o brinco no bolso. - Eles deviam ter-lhe dado ouvidos. - Trocou um olhar tranquilo com o colega. -  isso que tenciono fazer.
    - No posso dizer-lhe mais nada. - Ps-se de p. - Faith, importas-te de acompanhar os senhores  porta?
    - Claro que no.
    Williams tirou um carto do bolso, deixou-o em cima da escrivaninha e depois seguiu Faith. Alguns minutos depois, Faith voltou a entrar, pegou numa Coca-Cola fresca e instalou-se na cadeira que Marks deixara vaga.
    - Conseguiste dizer aquilo s por tocares naquele brinco. Soubeste que era dela s por lhe tocares?
    - Tenho trabalho para fazer.
    - Ora, deixa-te disso. - Faith bebeu um longo trago pela garrafa. - Juro que nunca vi ningum levar as coisas to a srio. Devamos era ir comprar uns bilhetes de lotaria ou ir at s corridas de cavalos. Consegues adivinhar quem ganha nas corridas de cavalos? No vejo porque no.
    - Por amor de Deus!
    - Bem, porque no? Porque no podes divertir-te com isso? No tem de ser um peso deprimente. No, j sei! Melhor do que cavalos. Vamos a Las Vegas, jogar blackjack. Meu Deus, Tory, vamos levar a banca  falncia em todos os casinos.
    - No  coisa para ser usada em benefcio prprio.
    - Porque no? Ah, claro, j me esquecia. Tu s assim. Gostas da autocomiserao. Coitadinha de mim. - Faith usou um leno invisvel para secar os olhos. - Tenho poderes paranormais, por isso tenho de sofrer.
    O insulto foi to grande que Tory no conseguiu imaginar por que motivo os lbios dela se contorceram num sorriso ridculo.
    - No estou com pena de mim.                                 
    - Mas estarias, se tivesses oportunidade. Eu sou especialista nisso. - Sentou-se na escrivaninha. - Vem comigo at  casa do Wade. Podes procurar na mente dele, ou seja l o que for, e descobrir o que ele tem na cabea sobre mim.
    - Nem pensar!
    - Oh, v l, s boazinha.
    - No.       
    - s mesmo devassa.
    -  verdade. Agora, vai-te embora. E pe essa pulseira no stio de onde a tiraste.
    - Muito bem. Seja como for, no faz o meu estilo. - Inclinou-se sobre a escrivaninha. - O que estou eu a pensar neste preciso momento?                                                      
    
    Tory olhou para cima e a boca dela estremeceu.
    -  inventivo, mas anatomicamente impossvel. - Voltou a concentrar-se no teclado. - Faith, obrigada.
    Faith abriu a porta.
    - De qu?
    - Por me aborreceres deliberadamente, para eu no sentir auto-comiserao.
    - Ah, isso. Foi um prazer. Afinal,  fcil.
    - Wade, querido? - Faith segurou o telefone com o ombro e espreitou por cima do balco, para ver o escritrio da loja onde lhe parecia que Tory estava metida havia mais de dez dias. - Ests ocupado?
    - Eu? Claro que no. Acabei de esterilizar um dachshund. Mais um dia no paraso.                                                   
    - Ah. - O que  que fazes exatamente... no, deixa l, acho que no quero saber. Como est o meu amor?                       
    - Estou bem, e tu?
    - Referia-me  Abelha. Ela est bem?
    - Sem flego. - Soltou um suspiro pesado. - Est a divertir-se. Tenho a certeza de que logo vai contar-te tudo sobre o primeiro dia de trabalho.
    - Eu tambm estou no meu primeiro dia de trabalho. Mais ou menos. - Faith observou, com uma sensao de satisfao que a surpreendeu, os expositores de vidro que limpara at ficarem brilhando. - A que horas achas que vais ficar despachado, a?
    - Devo estar pronto s cinco e meia. Em que ests pensando?
    - Tenho o conversvel do Cade, e estava pensando que podamos ir dar uma volta bem grande. Est tanto calor! Estou toda transpirada. E s tenho o vestido vermelho em cima do corpo. - Com um sorriso atrevido na cara, enrolou uma madeixa de cabelo em volta do dedo. - Lembras-te do meu vestido vermelho, no lembras, querido?
    Seguiu-se uma pausa muito, muito longa.
    - Ests tentando matar-me.                        
    Ela riu baixinho e com satisfao.            
     
    - S estou tentando certificar-me, j que ultimamente temos passado muito tempo a conversar, de que uma certa parte da nossa relao no est esquecida.
    - Eu at gosto dessa parte.
    - Ento, porque no vamos dar a tal volta? Podamos alugar um quarto num hotel oedinrio,  beira da estrada, e brincar de caixeiros-viajantes.
    - E o que  que tu vendes?
    Desta vez a gargalhada que ela soltou foi forte e sonante.
    - Ora, querido, confia em mim. Vais pagar um bom preo.
    - Ento compro. Mas temos de regressar ainda esta noite, ou amanh de manh cedo. Tenho consultas marcadas.
    - No h problema. - Estava a habituar-se ao fato de ele ter sempre planos agendados. - Wade?
    - Sim?
    - Lembras-te de teres dito que estavas apaixonado por mim? 
    - Parece que me lembro de ter dito qualquer coisa do gnero.
    - Bem, acho que tambm te amo. E sabes uma coisa? No  uma sensao muito m.
    Seguiu-se mais uma longa pausa.
    - Acho que consigo sair daqui s cinco e um quarto.
    - Eu vou buscar-te. - Desligou e danou  volta do balco. - Tory, sai da. Parece que ests na priso - disse ela, abrindo a porta.
    Tory levantou os olhos da sua lista de inventrio.
    - Nunca tiveste um emprego, pois no?                                
    - Para que haveria eu de querer ter um emprego? Tenho uma herana.
    - Realizao pessoal, auto-satisfao, o prazer de fazer uma tarefa.
    - Est bem, venho trabalhar contigo.
    - H algum telefrico para o inferno?
    - No, a srio, pode ser divertido. Mas falamos nisso depois. Agora, tens de vir comigo. Tenho de ir em casa depressa, buscar umas coisas.                                                      
    - Vai.
    - Para onde eu for, tu tambm vais. Prometi ao Cade. E estamos aqui, a fazer-te a vontade h... - Olhou para o relgio e revirou os olhos. - Quase quatro horas.
    - Ainda no terminei.
    - Pois bem, eu j. E se ficarmos aqui o resto do dia, aquela gente do FBI pode voltar.                     
    - Est bem. - Tory pousou o lpis. - Mas prometi  minha av que estaria em casa do meu tio s cinco.
    - Perfeito. Deixo-te l antes de ir buscar o Cade. Traz umas Coca-Colas, querida. Estou seca. - Faith saiu para retocar o batom, com a ajuda de um dos espelhos decorativos de Tory.
    - Desde quando tens reflexo? - perguntou Tory com voz doce, com as garrafas na mo.
    Sem se ofender, Faith ps a tampa no batom e meteu-o na bolsa.
    - Ests atravessada porque estiveste metida na tua caverna durante todo o dia. Vais agradecer-me quando nos fizermos  estrada e eu acelerar aquela beleza do Cade. Apanha um bocado de vento no cabelo, at te vai dar estilo.
    - No h nada de errado com o meu cabelo.          
    - Nada de nada. Se quiseres parecer uma solteirona bibliotecria.
    - Isso  um clich ridculo e um insulto a toda uma profisso.
    Faith deteve-se mais um pouco diante do espelho e ajeitou o seu cabelo louro e macio.
    - Tens visto Miss Matilda, da Biblioteca de Progress, ultimamente?
    Apesar das suas boas intenes, os lbios de Tory tremeram.
    - Ora, fica calada - sugeriu, metendo a garrafa de Coca-Cola nas mos de Faith.
    -  disso que gosto em ti. Tens sempre a resposta pronta. - Deu um jeito ao cabelo e preparou-se para sair. - Bem, anda l.
    - Mudaste as coisas. - Tory olhou para as prateleiras, os expositores e notou as pequenas mudanas na distribuio das peas.
    Resposta pronta, pensou Faith, e olho de falco.
    - E ento?
    Apeteceu-lhe barafustar, quase comeou a faz-lo. Mas a honestidade imps-se.
    - No est mal.
    - Desculpa, estou to emocionada com o elogio que acho que me sinto tonta.
    - Nesse caso, dirijo eu.
    - O diabo  que diriges. - A rir, Faith saiu a danar. Enquanto a seguia e trancava a loja, Tory deu conta de que estava se divertindo. Com Faith era impossvel ficar amuada ou deprimida durante muito tempo. A idia de uma volta a alta velocidade num conversvel era bastante sedutora. Ia concentrar-se nisso, apenas nisso, e preocupar-se com o resto mais tarde.
    - Pe o cinto - disse ela, quando Tory se sentou.
    - Ah, est bem. O ar est to denso que quase podemos mastig-lo.                                                                                                                                                                                                          
    Faith tambm ps o cinto de segurana, pegou nos culos e depois ligou a ignio. Fazendo roncar o motor, lanou a Tory um sorriso atrevido.                                                                           
    - Agora, um pouco de msica para dar ambiente. - Apertou o boto do CD e fez busca at Pete Seeger comear a produzir rock-and-roll. - Ah, clssico. Perfeito. Vamos ver de que tmpera s feita, Victoria.
    Tory pegou nos culos de sol e p-los.
    - De fibra.
    - Muito bem. - Faith esperou por uma pausa no trnsito e depois saiu da linha de estacionamento, fazendo uma ruidosa inverso de marcha. Passou o semforo da praa segundos antes de ficar vermelho.
    - Vais arranjar uma multa ainda antes de sares da cidade.
    - Ora, acho que o FBI deve estar a manter a polcia local bastante ocupada. Cristo! No adoras este carro?
    - Porque no compras um para ti?
    - Assim perdia o divertimento que  chatear o Cade at  medula para ele me emprestar.
    Saiu dos limites da cidade e acelerou.
    O vento batia na cara de Tory, embaraava-lhe o cabelo e fazia-lhe vibrar o sangue. Uma aventura, pensou, enquanto serpenteavam pela estrada. Uma idiotice. Havia muito, muito tempo que no permitia a si prpria esta entrega  loucura.
    Velocidade. Hope gostava de andar depressa, de andar de bicicleta como se fosse um cavalo de corrida ou um fogueto. Desafiava o destino quando punha os braos no ar e se entregava ao momento.
    Agora, Tory fazia o mesmo, atirando a cabea para trs e deixando que a velocidade e a msica a arrebatassem.
    Cheirava a vero e o vero era a infncia. O alcatro quente a derreter sob o sol escaldante, a gua a modorrar ao sabor do calor.
    Podia correr pelos campos, quando o algodo explodira j nas suas cpsulas, e fingir que era um explorador num planeta qualquer. Fazer a roda na estrada e sentir o alcatro amolecido sob as palmas das mos. Embrenhar-se no pntano, que era o mundo onde queria estar. A correr, a correr, com o solo esponjoso debaixo dos ps, com o musgo a pender das rvores e com a msica dos mosquitos sedentos de sangue.     
    A correr. A correr, com o corao a bater descompassadamente e um grito preso na garganta. A correr...
    - Est ali o Cade. - Tory voltou  terra, semiconsciente, fria e transpirada, com os olhos muito abertos e quase cegos, enquanto virava a cabea.
    - Ali. - Faith fez um gesto na direco do campo onde dois homens estavam numa zona de algodo verde. Buzinou alegremente, acenou e riu. - A esta hora est a amaldioar-nos, a encher os ouvidos do Piney sobre a irm louca e irresponsvel que tem. No te preocupes - acrescentou com complacncia. - Vai achar que estou a tentar corromper-te.
    - Eu estou bem. - Tory obrigou-se a inspirar e a expirar. - Estou bem.
    Faith observou-a mais demorada e atentamente.
    - Claro que ests. Mas tambm ests plida. Porque  que no... oh, merda!
    O coelho atravessou a estrada como uma seta, um flash castanho de confuso. Instintivamente, Faith acionou os freios e o carro guinou, chiou e voltou a encontrar o equilbrio sob a firmeza das mos dela.
    - No posso pensar na idia de atropelar o que quer que seja. Embora Deus saiba que eles aparecem assim, de repente. At parece que esto  espera que venha um carro e... - Interrompeu-se quando voltou a olhar para Tory. A gargalhada soltou-se antes de ela pigarrear para tentar control-la, enquanto abrandava. - Ui!
    Sem dizer nada, Tory olhou para baixo. Quase toda a Coca-Cola que estava na garrafa encontrava-se derramada na sua camisa. Com dois dedos, afastou-a da pele e olhou fixamente para Faith.
    - Ora, no querias que eu atropelasse o coelhinho, pois no?
    - Faz-me um favor e leva-me a casa, para eu mudar de roupa, est bem?
    Com os dedos bem firmes no volante, Faith entrouu pelo caminho que ia dar a casa de Tory, cuspindo p e gravilha quando freiou. A rir, mas cautelosa, Faith saltou do carro.
    - Vou pr a camisa em gua fria enquanto tu te limpas.  uma pena deix-la estragar, ainda que seja perfeitamente banal.
    - Clssica.
    - Acredita no que quiseres. - Satisfeita com a diverso, Faith subiu os degraus. - Demora o tempo que quiseres a pr-te em ordem - disse ela, quando Tory abriu a porta. - Precisas mais do que eu.
    - Acho que no  preciso muito para ficar com ar de quem est pronta a saltar para a cama mais prxima.
    Sorrindo, Faith seguiu-a at ao quarto e depois, muito -vontade, abriu o armrio de Tory e espreitou.
    - Hei, algumas destas coisas no esto mal de todo.
    - Tira os teus dedos das minhas roupas.
    - Esta cor fica-me bem. - Tirou uma blusa de seda, de um azul-escuro e luminoso, e depois virou-se para o espelho. - Reala-me os olhos.
    De suti, Tory arrancou-lhe a blusa das mos e atirou-lhe a que estava molhada.
    - Vai fazer alguma coisa de til.
    Faith revirou os olhos, mas encaminhou-se para o banheiro, para passar gua na blusa no lavatrio.
    - Se no vais us-la nos prximos dias, podias emprestar-me. Estava pensando que o Wade e eu podamos passar o sero em casa, amanh. E se as coisas correrem como  suposto, nem sequer vou t-la muito tempo vestida.
    - Ento, o que vestires tambm no  importante.
    - Uma afirmao dessas s prova que precisas de mim. - Faith meteu a camisa na gua. - Aquilo que uma mulher veste est diretamente relacionado com o que pretende de um homem.
    Tory procurou no armrio uma camisa branca, franziu o sobrolho e olhou para a blusa de seda. Bem, porque no?
    Tory abotoou a blusa e aproximou-se do espelho para escovar o cabelo. Precisava de dom-lo e apanh-lo atrs, disse a si prpria. Ia consolar a av, fazer o que pudesse para manter unido o que restava da sua famlia. No era altura para frivolidades nem para egosmos. Embora, como Deus sabia, estivesse a precisar mesmo daquilo e no esqueceria que Faith lhe proporcionara.                               
    Levantando os braos, comeou a prender o cabelo num rolinho. O movimento repetitivo, o zumbido do ventilador de teto embalaram-na at ficar com os olhos meio fechados, a sorrir sonhadoramente diante do espelho.                                                 
    Viu o coelho atravessar a estrada como uma seta. Um flash castanho de pnico. A fugir. A fugir do cheiro do homem.
    Vinha a algum. Algum estava a espiar.
    Os braos ficaram imveis sobre a cabea dela, e o pnico atravessou-a at ao corao. O ar tornou-se denso, pesado, transportando um vago cheiro a usque.       
    Ela sentiu o cheiro, como uma presa sente o cheiro do caador.
    Num salto, estava junto da mesa-de-cabeceira, segurando na mo o revlver que Cade lhe dera. Sentiu um grito no fundo da garganta, mas reteve-o. Tudo o que soltou foi a convulso do medo. Saiu do quarto, no momento exato em que Faith saa do banheiro.
    - Deixei-a de molho. Podes tir-la quando... - Primeiro viu a arma e depois o rosto de Tory. - Oh, meu Deus - foi tudo o que conseguiu dizer antes de Tory lhe agarrar o brao.                      
    - Ouve-me e no faas perguntas. No temos muito tempo. Sai pela porta da frente, depressa. Mete-te no carro e vai buscar ajuda. Vai buscar ajuda. Eu detenho-o, se conseguir.
    - Vem comigo. Anda, agora.
    - No. - Tory afastou-se e correu para a cozinha. - Ele vem a. Vai!
    Correu para as traseiras da casa para dar a Faith tempo de fugir. E para enfrentar o pai.
    Ele abriu a porta de trs, a pontap, e entrou abruptamente. Tinha as roupas sujas, o rosto e os braos cheios de arranhes e de marcas de picadas de mosquitos. Bamboleou um pouco, mas os seus olhos mantiveram-se fixos no rosto da filha. Tinha uma garrafa vazia numa mo e uma arma na outra.
    - Tenho estado  tua espera. Tory apertou mais o revlver.
    - Eu sei.                            
    - Onde est aquela devassa Lavelle? Longe. Salva.
    - S estou eu aqui.
    - Puta mentirosa. No ds dois passos sem a fedelha daquele homem rico. Quero falar com ela. - Sorriu. - Quero falar com as duas.
    - A Hope est morta. Agora, sou s eu.
    - Pois , pois . - Levantou a garrafa e depois, apercebendo-se de que estava vazia, atirou-a contra a parede, fazendo-a estilhaar-se. - Morreu. Estava a pedir isso. As duas mereceram tudo o que vos aconteceu. A mentir e a esconder coisas. A tocarem-se uma  outra como umas porcas.
    - Entre mim e a Hope s havia inocncia. - Tory apurou os ouvidos para tentar escutar o rugido do motor do carro de Cade, mas no ouviu nada.                                                                
    - Pensavas que eu no sabia? - Fez um gesto furioso com a arma na mo, mas ela no vacilou. - Pensas que no as vi, a nadarem nuas, a flutuar na gua, a salpicarem-se nela e a deixarem que ela escorresse pelos vossos corpos?
    Sentiu nuseas por ele profanar aquela recordao de infncia.
    - Tnhamos oito anos. Mas o pai no. O pecado estava dentro de si. Sempre esteve. No, para trs. - Apontou a arma, e o tremor percorreu-lhe o brao, do ombro at s pontas dos dedos. - Nunca mais vai voltar a pr-me as mos em cima. Nem a mim, nem a ningum. A me no lhe deu dinheiro suficiente desta vez? No se mexeu suficientemente depressa? Foi por isso que fez aquilo?       
    - S levantei a mo  tua me quando foi preciso. Deus fez o homem senhor da sua casa. Pousa essa coisa e vai buscar-me de beber.
    - A polcia vem a caminho. Andam  sua procura. Pela Hope, pela me, por todas as outras. - A arma tremeu-lhe incontrolavelmente na mo quando ele avanou para ela. Ouviu o assobiar e o bater de um cinto Sam Browne. - Se se aproximar de mim, no vamos esperar por eles. Acabo com isto agora.
    - Pensas que me assustas? Nunca tiveste discernimento nenhum.
    - O mesmo no pode dizer de mim. - Faith apareceu atrs de Tory. A pistola brilhava-lhe na mo. - Se ela no lhe der um tiro, juro que eu dou.
    - Disseste que ela estava morta. Disseste que ela estava morta. - Era um homem grande, com braos compridos. Movido pelo pnico e pela fria, avanou para Tory e atirou-a com fora contra a parede. Ouviu-se um tiro e o cheiro a sangue encheu-lhe os sentidos.
    Tory caiu sobre Faith, enquanto o pai soltava um uivo de dor e saa por onde entrara.
    - Mandei-te embora. - Batendo os dentes, Tory caiu de joelhos.
    - E eu no ouvi, pois no? - Sentindo a viso turvar-se-lhe, Faith apoiou-se contra a parede e abanou a cabea com fora. - Usei o telefone do carro do Cade e chamei a polcia.
    - E voltaste aqui.
    - Claro. - Soltando a respirao numa espcie de pequenos sopros, Faith curvou-se para a frente, dobrada pela cintura, tentando fazer com que o sangue voltasse a chegar-lhe  cabea. - Tu tambm no me terias deixado.
    - Havia sangue. Cheirou-me a sangue. - Subitamente Tory ps-se de p, puxando Faith. - Ests ferida? Ele disparou contra ti?
    - No. Foste tu. Deste-lhe um tiro, Tory, escapou-se da tua pistola.        
    Tory olhou para a mo. Continuava a segurar a pistola, que tremia como se estivesse viva. Deixou-a cair no cho, ligeiramente arquejante, em choque.
    - Dei-lhe um tiro?        
    - A tua arma disparou-se quando ele te empurrou. Acho eu. Meu Deus, aconteceu tudo to depressa. Ele tinha sangue na camisa, disso tenho a certeza, e eu no disparei. Acho que vou vomitar. Detesto vomitar. Sirenes! - Ao ouvi-las, Faith encostou-se  parede. - Graas a Deus!
    Depois, ouviu o rugido de um motor e afastou-se da parede.
    - Oh, no! Meu Deus! O carro do Cade! Deixei as chaves no carro.
    Antes de Tory conseguir impedi-la, j Faith corria para a porta da frente. Saram ambas a tempo de ver o carro chiar na estrada.
    - O Cade vai matar-me.
    Tory soltou um suspiro semelhante a um soluo, mas que acabou por transformar-se numa gargalhada.  beira da histeria, mas era uma gargalhada.
    - Acabamos de livrar-nos de um louco e tu ests preocupada com o teu irmo. S tu.
    - Bem, o Cade pode ser uma fera. - Para lhe dar conforto e para se apoiar a si prpria, Faith ps o brao sobre os ombros de Tory. Tory pousou a cabea nele e fechou os olhos.
    O grito das sirenes ecoou-lhe nos ouvidos. Viu mos no volante do carro. As mos do seu pai, cheias de arranhes profundos. Sentiu a velocidade, a dana dos pneus, enquanto ele acelerava o carro.
    A velocidade aumentava cada vez mais. O rdio deitava rock enfurecido. As luzes em espiral. Consegue v-las pelo retrovisor, com os olhos apontados  estrada. Pnico, revolta, dio. Eles esto cada vez mais perto.
    Os braos ardem-lhe da bala e das gotas de sangue.
    Mas vai escapar. Deus est ao seu lado. Deixou-lhe o carro. Depressa. Mais depressa.
    Um teste.  apenas mais um teste. Vai escapar. Tem de escapar. Mas vai voltar para apanh-la. Oh, sim, vai voltar e faz-la pagar.
    As mos esto escorregadias por causa do sangue. O volante escapa-lhe da mo. O mundo abalroa-o, as formas rodopiam.
    Um grito. s tu que ests a gritar?                                               
    - Tory! Por amor de Deus, Tory. Pra com isso. Acorda. Acordou na beira da estrada, de cara para baixo, com o corpo a tremer e os gritos a dilacerarem-lhe a mente.
    - No faas isto. No sei o que hei-de fazer.
    - Eu estou bem. - A custo, Tory virou-se e protegeu os olhos com o brao. - D-me s um minuto.
    - Ests bem? Quando eles chegaram, foste a correr para a estrada. Tive medo que fosses a correr direto a eles e te atropelassem. Depois, os teus olhos reviraram-se e tu apagaste-te. - Faith deixou cair a cabea entre as mos. - Isto  de mais para mim.  de mais.
    - Est tudo bem. Acabou. Ele est morto.
    - Acho que percebi essa parte. Olha. - Apontou para a estrada, mais adiante. As chamas e o fumo erguiam-se em espiral e o sol refletia-se nos cromados e nos vidros dos carros da polcia estacionados em crculo.
    - Ouvi o choque e depois uma espcie de exploso.
    - Uma morte pelo fogo - murmurou Tory. - Foi a morte que pedi para ele.
    - Ele  que a pediu. Quero o Wade. Oh, meu Deus, quero o Wade.
    - Vamos mandar algum cham-lo. - Mais firme, Tory ps-se de p e estendeu a mo a Faith. - Vamos l abaixo e pedimos a algum que lhe telefone.
    - Est bem. Sinto-me um bocado bbada.   
    - Eu tambm. Vamos amparar-nos uma  outra.
    Com os braos enlaados  volta da cintura uma da outra, comearam a percorrer a estrada. O calor incidia no asfalto, lanando um reflexo trmulo no ar. Atravs das ondas desse reflexo, Tory viu o fogo, o rodopio de luzes, o bege-claro do carro do governo, com os agentes do FBI ao lado.
    - Consegues ver onde est? - murmurou Tory. - Exatamente  frente do stio onde a Hope... precisamente na curva da estrada, diante do stio onde ela estava.
    Ouviu o carro aproximar-se, parar e virar. Cade saiu e correu para elas, abraando-as.
    - Vocs esto bem. Vocs esto bem. Ouvi as sirenes e depois vi o fogo. Oh, meu Deus, pensei...
    - Ele no nos fez mal. - O cheiro de Cade estava ali, doce, de homem. Do seu homem. Tory deixou-se invadir por ele. - Est morto. Senti-o morrer.
    - Chiu. No digas nada. Vou levar-vos para casa.
    - Quero o Wade.
    Cade pousou os lbios no alto da cabea de Faith.         
    - Vamos busc-lo, querida. Vem comigo. Apoia-te em mim.
    - Cade, ele levou o teu carro. - Faith manteve os olhos fechados, o rosto contra o peito do irmo. - Desculpa.
    Cade abanou a cabea e abraou-a com mais fora.
    - No penses nisso. Vai tudo correr bem.
     beira do descontrole, ajudou-as a entrar no carro. Quando arrancou, a agente Williams saiu para a estrada e fez-lhe sinal.
    - Miss Bodeen, pode confirmar que se trata do seu pai? - Fez um gesto na direo dos destroos. - Que era Hannibal Bodeen que ia a conduzir aquele veculo?
    - Sim. Est morto.           
    - Preciso lhe fazer umas perguntas.
    - No neste local nem neste momento. - Cade voltou a engatar a primeira. - Passe por Beaux Revs, quando terminar aqui. Vou lev-las para casa.
    - Est bem. - Williams olhou para Tory. - Est ferida?
    - J no.
    Por um momento, sentiu a mente em branco. Sentiu vagamente Cade a lev-la para casa e a ajud-la a subir as escadas. Afastou-se ainda mais quando ele a deitou numa cama.
    Passado pouco tempo, sentiu qualquer coisa fresca no rosto. Abriu os olhos e viu os dele.
    - Estou bem. S um bocadinho cansada.
    - Fui buscar uma das camisolas da Faith. Vais sentir-te melhor depois de a vestires.
    - No. - Ela sentou-se e abraou-o. - J me sinto melhor. Ele acariciou-lhe o cabelo, suavemente. Depois agarrou-a com fora e enterrou a cara no cabelo dela.
    - Preciso de um minuto.
    - Eu tambm. De muitos minutos, provavelmente. No me deixes.
    - No deixo. No posso. Vi-vos passar. A Faith ia a conduzir como uma louca. Preparei logo o sermo.
    - Ela fez de propsito. Adora fazer-te zangar.
    - E  o que est sempre a fazer. Andei pelo campo a vociferar que ela havia de pagar-mas, e o Piney atrs de mim, a rir como um idiota. Foi nessa altura que ouvi o tiro. Foi como se me tivesse parado o corao. Comecei a correr, mas ainda estava a uma boa distncia da estrada e do carro quando a polcia chegou. Vi a exploso. Pensei que te tinha perdido. - Comeou a embal-la. - Pensei que te tinha perdido, Tory.
    - Estive no carro com ele, no meu pensamento. Acho que quis estar, para saber o momento exato em que tudo acabasse.      
    - Ele no pode voltar a tocar-te.
    - No. No pode voltar a tocar em nenhum de ns. - Pousou a cabea na curva forte do ombro dele. - Onde est a Faith?
    - L em baixo. O Wade est c. Ela no consegue parar sossegada. - Afastou-se um pouco dela e o seu olhar percorreu-lhe o rosto. - Vai estar assim at cair, e nessa altura ele estar c para agarr-la.
    - Ela ficou comigo. Exatamente como tu lhe pediste. - Soltou um suspiro. - Tenho de ir a casa da minha av.
    - Ela vem para c. Telefonei-lhe. Esta  a tua casa agora, Tory. Depois vamos buscar as tuas coisas  Casa do Pntano.
    - Parece-me uma bela idia.
    O crepsculo chegou enquanto ela percorria os jardins com a av.
    - Quem me dera que ficasse aqui conosco, av. A av e o Cecil.
    - O J.R. precisa de mim. Perdeu a irm, uma irm que ele no foi capaz de salvar de si prpria. E eu perdi uma filha. - A voz quebrou-se-lhe. - J a tinha perdido h muito tempo. Mas, por mais que se negue, h sempre aquela esperana que teima em dizer que tudo vai ficar bem, tudo se h-de compor. Agora, acabou-se.
    - No sei o que posso fazer por si.
    - J ests fazendo. Ests viva e ests feliz. - Apertou a mo de Tory. Parecia que no conseguia deixar de abra-la, deixar de tocar-lhe.
    - Todos temos de encontrar paz em relao a isto, cada um  sua maneira. - ris respirou fundo, tentando recuperar a firmeza. - Vou enterr-la aqui, em Progress. Acho que  assim que deve ser. Passou aqui alguns anos felizes e, bem, o J.R. quer assim. No quero servio religioso. Nesse ponto, estou em desacordo com ele. O funeral  depois de amanh, ao princpio do dia. Se o J.R. quiser, o sacerdote da igreja dele pode dizer umas palavras junto  sepultura. Tory, no te censuro se no quiseres ir.                                       
    - Claro que vou.
    - Fico contente. - ris sentou-se num banco. Os pirilampos j andavam c fora, iluminando a escurido com as suas luzes. - Os funerais so para os vivos, servem para ajudar a fechar um vazio.  melhor ires-te preparando. - Puxou Tory para baixo, fazendo-a sentar-se junto de si. - J sinto os anos, pote de mel.
    - No diga isso.
    - Ora, isto passa-me. Nem eu permitiria que no passasse. Mas esta noite sinto-me velha e cansada. Diz-se que os pais nunca deviam enterrar um filho, mas a natureza e o destino  que sabem. Temos que viver com isso. Vamos todos viver com isto, Tory. Quero que me digas que vais agarrar o que tens  tua frente com ambas as mos e com muita fora.
    - Vou, sim. A irm da Hope sabe fazer isso. Estou aprendendo com ela.
    - Sempre gostei daquela moa. Ela tem inteno de casar com o meu Wade?
    - Acho que ele tem inteno de casar com ela e vai deix-la pensar que a idia foi dela.
    -  um rapaz esperto. E forte. Vai mant-la na linha sem lhe cortar as asas. Vou ver os meus dois netos felizes.  a isso que vou agarrar-me, Tory.

    Wade lutava com o n da gravata. Detestava aquelas malditas coisas. Sempre que usava uma, lembrava-se da sua me, com um chapu de primavera que parecia uma taa de flores virada ao contrrio, a estrangul-lo com uma gravata azul-viva, a condizer com o detestvel terno azul-vivo.
    Tinha seis anos, e achava que aquilo o tinha traumatizado para o resto da vida.
    Usava-se gravatas nos casamentos e usava-se gravatas nos funerais. No havia forma de contornar a questo, mesmo para quem tinha a sorte de ter uma profisso que no exigia a porcaria de uma corda ao pescoo todos os dias da semana.
    Iam enterrar a sua tia dali a uma hora. Tambm no havia forma de mudar isso.
    Estava a chover, com direito a trovoada. Os funerais exigiam mau tempo, pensou, tal como exigiam gravatas e crepe preta e flores com um perfume exageradamente doce.
    Teria dado um ano da sua vida para poder voltar a meter-se na cama, puxar os cobertores at  cabea e deixar que tudo acontecesse sem a sua presena.
    - A Maxine disse que no se importa de tratar dos ces - anunciou Faith. Entrou, dentro de um vestido preto perfeitamente digno que encontrara no armrio. - Wade, que fizeste a essa gravata?
    - Dei-lhe um n.  isso que se costuma fazer s gravatas.
    - Parece mais que andaste a brigar com ela. Anda c, deixa-me ver o que consigo fazer.
    Puxou ligeiramente, depois com mais fora e torceu.          
    - Deixa l. No importa.
    - Desde que queiras sair com o aspecto de quem tem bcio preto debaixo do queixo. A minha tia-av Harriet tinha bcio, e no era bonito de se ver. Fica quieto um minuto, estou quase conseguindo.
    - Deixa, Faith. - Afastou-se para pegar no casaco do terno. - Quero que fiques aqui. No vale a pena sares por causa disto, no vale a pena ficarmos os dois molhados e infelizes durante as prximas horas. J chega aquilo por que passamos.
    Ela pousou a bolsa em que acabara de pegar.
    - No me queres contigo?
    - Devias ir para casa.
    Ela olhou para ele e depois em volta. O perfume dela estava em cima da cmoda dele, o roupo pendurado no cabide, atrs da porta.
    - Engraado, e eu aqui a pensar que era a que estava. Enganei-me, afinal?
    Ele tirou a carteira da gaveta e meteu-a no bolso de trs, depois de t-la esvaziado dos trocos.
    - O funeral da minha tia  o ltimo stio onde devias estar.
    - Isso no responde  minha pergunta, mas vou fazer outra. Porque  que o funeral da tua tia  o ltimo stio onde eu devia estar?
    - Por amor de Deus, Faith, pensa. A minha tia foi casada com o homem que matou a tua irm e que podia ter-te morto h dois dias. Se j te esqueceste disso, eu no.               
    - No, no me esqueci disso. - Virou-se para o espelho e, para manter as mos ocupadas, pegou na escova. Com uma calma aparente, passou-a pelo cabelo. - Sabes, muitas pessoas, provavelmente a maioria delas, acham que eu no tenho muito mais bom senso do que uma rama de nabo. Que sou frvola e tonta e demasiado leviana para me prender a qualquer coisa durante mais tempo do que aquele que levo a limar as unhas. No faz mal.                            
    Pousou a escova, pegou no frasco de perfume e ps um pouco no pescoo.
    - No faz mal - repetiu. - Para a maioria das pessoas. Mas o engraado  que achei que tu pensavas melhor de mim. Achei que pensavas melhor de mim do que eu prpria.
    - Penso bem de ti.                                                        
    - Pensas, Wade? - Os olhos dela mexeram-se e encontraram os dele, no espelho. - Pensas mesmo? E ao mesmo tempo achas que podes ter essa atitude irritante e enxotar-me hoje. Talvez eu devesse ir ao cabeleireiro enquanto tu vais ao funeral da tua tia. E da prxima vez que tiveres de lidar com alguma coisa difcil ou desconfortvel vou s compras. E depois dessa - continuou ela, num tom de voz cada vez mais alto e mais duro -, j no estarei aqui, portanto nem se levantar a questo.                                                   
    - Isto  diferente, Faith.
    - Pensei que fosse. - Pousou o frasco de perfume e virou-se. - Esperava que fosse. Mas se no me queres contigo hoje, se achas que no quero estar contigo hoje, ou no tenho coragem para isso, no  diferente do que j vivi antes. E no estou interessada em repetir-me.
    A emoo assolou-lhe os olhos, enraiveceu-o at as suas mos se transformarem em punhos.
    - Odeio isto. Odeio ver o meu pai assim, desfeito. Odeio saber que a tua famlia voltou a ser violentada, e que a minha teve um papel nisso. Odeio saber que estiveste no mesmo quarto que o Bodeen, imaginando o que podia ter acontecido.
    - Ainda bem, porque eu tambm odeio essas coisas todas. E vou dizer-te uma coisa que talvez no saibas. H dois dias, quando acabou tudo, assim que consegui voltar a pensar, quis ter-te ao p de mim. Eras a nica pessoa que eu queria comigo. Sabia que irias cuidar de mim e abraar-me e dizer-me que ia ficar tudo bem. Se no precisas do mesmo da minha parte, ento eu tambm no vou permitir a mim prpria precisar de ti. Sou suficientemente egosta para isso. Vou contigo hoje, e fico ao teu lado e tento dar-te algum conforto. Ou ento volto para Beaux Revs e comeo a esquecer-te.
    - Sei que farias isso - disse ele, calmamente. - Porque ser que admiro isso em ti? Irresponsabilidade? Loucura? - Abanou a cabea enquanto se aproximava dela. - s a mulher mais forte que conheo. Fica comigo. - Encostou a testa  dela. - Fica comigo.
    - A minha inteno  essa. - Lanou os braos  volta dele e passou-lhe as mos pelas costas. - Quero poder estar ao teu lado. Isto  novo para mim. E a culpa  tua. No me largaste at eu me apaixonar por ti. Foi a primeira vez em que no disparei sem olhar. E acho que gosto.
    Abraou-o e sentiu-o apoiar-se nela. Gostou disso tambm. Ningum se apoiara nela antes.
    - Agora, vamos. - Falou energicamente e beijou-o na face. - Vamos chegar atrasados, e um funeral no  ocasio para se fazer uma entrada em grande estilo.
    Ele no conseguiu deixar de rir.
    - Est bem. Tens guarda-chuva?
    - Claro que no.
    - Claro que no. Vou buscar um.
    Enquanto ele remexia no armrio, tentando desencantar um guarda-chuva, ela inclinou a cabea e observou-o com um ligeiro sorriso.
    - Wade, quando ficarmos noivos, compras-me uma safira em vez de um diamante?
    A mo dele fechou-se sobre a pega do guarda-chuva e permaneceu ali.
    - Vamos ficar noivos?       
    - Uma bonita, no muito grande, para no dar muito nas vistas. Quadrada. O primeiro atrasado mental com quem casei nem sequer me deu um anel, e o segundo comprou-me o diamante mais ordinrio que conseguiu encontrar.                                              
    Pegou no chapu preto que atirara para cima da cama e foi at ao espelho para o colocar na cabea num ngulo adequado.
    - Pelo aspecto que tinha, se calhar era s um bocado de vidro. Vendi-o depois do divrcio, e com o dinheiro passei duas belas semanas num spa de luxo. E gostava de uma safira quadrada.
    Ele tirou o chapu-de-chuva e afastou-se do armrio.
    - Ests a pedir-me em casamento, Faith?
    - Claro que no. - Endireitou a cabea, para ver se estava bem. - E no penses que, l porque estou a dar-te umas pistas sobre qual seria a minha resposta, ficas dispensado de fazer o pedido. Espero que sigas a tradio, de joelho no cho e tudo. E - acrescentou -, com uma safira quadrada na mo.
    - Vou tomar nota.                                                                
    - Muito bem, faz l isso, ento. - Estendeu-lhe a mo. - Preparado?
    - Achei que estava. - Pegou-lhe na mo e enlaou os dedos nos dela, com fora. - Mas nunca se est preparado para ti.

    Enterraram a me dela debaixo de uma chuva que bombardeava o cho como balas, enquanto os relmpagos dilaceravam o cu, a este. Violncia, pensou Tory. A me vivera com ela, morrera com ela e, mesmo agora, parecia atra-la.
    No ouviu o sacerdote, embora estivesse certa de que as suas palavras procuravam trazer conforto. Sentiu-se demasiado desprendida para precisar dele, e no conseguia sentir-se mal por isso. Nunca conhecera a mulher que estava no caixo coberto de flores. Nunca a compreendera, nunca dependera dela. Se Tory sofria, era pela ausncia com que vivera a vida inteira.
    Observou a chuva bater no caixo, a martelar nos guarda-chuvas. E esperou que terminasse.
    Viera mais gente do que ela esperara, formando um pequeno crculo escuro e melanclico. Ela e o tio ladeavam a av, com o enorme Cecil logo atrs. E Cade estava ao lado dela.
    Boots, abenoada, chorava baixinho entre o marido e o filho.
    As cabeas mantiveram-se curvadas enquanto as oraes eram lidas, mas Faith levantou a dela e encontrou os olhos de Tory. E sentiu o conforto inesperado de algum que compreendia.
    Dwight viera, por ser presidente da cmara, sups Tory. E por ser amigo de Wade. Manteve-se um pouco afastado, com ar solene e respeitoso. Imaginou que ele estaria desejoso que aquilo acabasse, para poder voltar para Lissy.
    Ali estava Lilah, firme como uma rocha, os olhos secos enquanto acompanhava silenciosamente o sacerdote nas oraes.
    E, estranhamente, a tia Rosie, toda vestida de preto, incluindo chapu e vu. Apanhara toda a gente de surpresa quando chegara, com uma mala enorme, na noite anterior.
    Margaret estava temporariamente em casa dela, anunciara. O que significava que Rosie fizera imediatamente as malas para ficar temporariamente noutro lado.
    Oferecera a Tory o vestido de casamento da me, que amarelecera como manteiga, com o passar do tempo, e deitava um cheiro forte a bolas de naftalina. Depois, vestira-o e usara-o durante o resto da noite.
    Quando o caixo baixou  terra molhada, e o sacerdote fechou o livro, J.R. deu um passo em frente.
    - Ela teve uma vida mais difcil do que precisava. - Pigarreou. - E uma morte mais dura do que merecia. Agora, est em paz. Quando era menina, os malmequeres amarelos eram as suas flores preferidas. - Beijou o malmequer que tinha na mo e atirou-o para a sepultura. Depois virou-se para a mulher.
    - Ele teria feito mais por ela - disse ris - se ela o tivesse deixado. Vou visitar o Jimmy, daqui a pouco - disse ela a Tory. - Depois, vamos para casa. - Agarrou Tory pelos ombros e beijou-a em ambas as faces. - Estou feliz por ti, Tory. E orgulhosa. Kincade, toma conta da minha menina.
    - Sim, minha senhora. Espero que venham passar uns dias conosco quando voltarem a Progress.
    Cecil baixou-se para tocar com os lbios na face de Tory.    
    - Eu tomo conta dela - sussurrou. - No te preocupes.
    - No me preocupo. - Virou-se, sabendo que as pessoas estavam  espera que ela comeasse a receber condolncias. Rosie j ali estava, com os olhos brilhantes como os de um pssaro, atrs do vu. - Foi um belo servio religioso. Digno e breve. Condiz contigo.
    - Obrigada, Miss Rosie.                                         
    - No podemos escolher a nossa famlia, mas podemos escolher o que fazer com ela. - Tocou no rosto de Tory e olhou para o sobrinho. - Escolheste bem. A Margaret vai entender, ou talvez no, mas no te preocupes com isso. Vou falar com a ris, e saber quem  aquele homem grande e musculado que est com ela.
    Avanou pela lama, com um traje Chanel de dois mil dlares e sapatos Birkenstock.                                                                 
    Tentando no ceder  vontade de rir, nem  de chorar, Tory ps a mo no brao de Cade.
    - Vai levar-lhe o teu guarda-chuva. Eu fico bem.
    - Volto j.                                                       
    - Tory, lamento imenso. - Dwight estendeu-lhe a mo e, agarrando a dela, beijou-a na face enquanto mudava a posio do guarda-chuva para proteg-la. - A Lissy queria vir, mas eu obriguei-a a ficar em casa.
    - Ainda bem. No seria bom para ela sair com este tempo. Foi simptico da tua parte estares presente, Dwight.
    - Conhecemo-nos h muito tempo. E o Wade  um dos meus dois melhores amigos. Tory, h alguma coisa que eu possa fazer por ti?
    - No, mas obrigada. Vou dar uma volta e visitar o tmulo da Hope, antes de ir-me embora. Devias ir para casa, ter com a Lissy.
    - E vou. Fica com isto. - Colocou a mo dela no guarda-chuva.
    - No, eu estou bem.
    - Fica com ele - insistiu. - E no fiques na chuva durante muito tempo.
    Deixou-a e voltou a aproximar-se de Wade.
    Grata pelo abrigo, Tory desviou o olhar do tmulo da sua me e comeou a caminhar por entre a erva e as pedras, at ao tmulo de Hope.                                                                                                                                                 
    A chuva caa pelo rosto do anjo como lgrimas, e batia nas rosas mgicas. Dentro do globo, o cavalo alado voava.
    - Acabou tudo. Ainda no sinto paz - disse Tory, com um suspiro. - Tenho este peso dentro de mim. Bem, so demasiadas coisas para digerir ao mesmo tempo. Quem me dera... h tantas coisas a desejar.
    - Nunca venho pr flores aqui - disse Faith, atrs dela. - No sei porqu.
    - Ela tem as rosas.
    - No  isso. No so as minhas rosas, rosas que eu lhe venha trazer.
    Tory olhou para trs e deu alguns passos para ficarem ao lado uma da outra.
    - No consigo senti-la aqui. Talvez tu tambm no consigas.
    - Quando chegar a minha vez, no quero ser enterrada. Quero as minhas cinzas espalhadas algures. No mar, acho eu, porque  l que estou planejando fazer com que o Wade me pea em casamento. Junto ao mar. Talvez ela sentisse o mesmo, s que as dela teriam sido espalhadas no rio, ou prximo do rio, no pntano. Ali era o lugar dela.
    - Pois era. Ainda . - Pareceu-lhe importante e natural dar a mo a Faith. - H flores em Beaux Revs, que foi tambm o lugar dela. Acho que vou cortar algumas, quando a tempestade passar, e lev-las at ao pntano. At ao rio. Deix-las l para a Hope. Talvez essa seja a coisa certa a fazer, pr flores na gua em vez de deix-las morrer no cho. Queres fazer isso comigo?
    - Odiei partilh-la contigo. - Faith fez uma pausa e fechou os olhos. - Agora j no. O tempo vai melhorar da parte da tarde. Vou dizer ao Wade. - Comeou a afastar-se, mas deteve-se. - Tory, se fores a primeira a chegar...
    - Espero por ti.
    Tory viu-a afastar-se e olhou para trs, para o pequeno outeiro, a cortina de chuva, a umidade que comeava a condensar-se junto  terra. Ali estavam a av e Cecil, forte, a apoi-la, Rosie com o seu vu e Lilah, com um chapu-de-chuva.
    J.R. e Boots continuavam junto  sepultura da irm que ele amara mais do que pensava.
    E ali estava Cade, com os seus amigos,  espera.
     medida que se foi aproximando dele, a chuva comeou a escassear e o primeiro raio de sol lanou a sua luz lquida e rompeu a escurido.
    - Compreendes porque quero fazer isto?
    - Compreendo que queiras.                                             
    - Tory sorriu um pouco, enquanto sacudia a chuva das hastes de alfazema que acabara de colher.
    - E ests aborrecido, s um bocadinho, por eu no te pedir que venhas comigo.
    - Um bocadinho. Mas isso  contrabalanado pelo fato de tu e a Faith estarem a tornar-se amigas. E tudo isso  suplantado pelo terror de saber que vou ficar  merc da Tia Rosie at regressares. Tem um presente para mim, j o vi.  um chapu alto, a cheirar a mofo, que ela espera que eu use no nosso casamento.
    - Fica bem com o vestido rodo pelas traas que ela me vai dar. Vamos fazer uma coisa: tu usas o chapu, eu uso o vestido, e pedimos  Lilah que nos tire uma fotografia. Pomo-la numa moldura bonita para a Tia Rosie, e depois metemo-los num stio escuro e seguro antes do casamento.
    - Brilhante. Vou casar com uma mulher inteligente. Mas temos de tirar a fotografia esta noite. Casamos amanh.
    - Amanh? Mas...
    - Aqui - disse ele, abraando-a. - Tranquilamente, no jardim. J tratei de quase todos os pormenores, e vou tratar do resto hoje  tarde.                                                                                       
    - Mas, a minha av...
    - J falei com ela. Ela e o Cecil vo ficar mais uma noite. Vo assistir ao casamento.
    - No tive tempo de comprar um vestido, nem...
    - A tua av falou nisso, e espera que estejas disposta a usar o que ela vestiu quando casou com o teu av. Vai num instante a Florence busc-lo, esta tarde. Disse que significaria muito para ela;
    - Pensaste em tudo, no foi?
    - Sim. Tens algum problema com isso?
    - Vamos ter muitos problemas com isso, nos prximos cinquenta ou sessenta anos. Mas para j? No.                                          
    - Muito bem. A Lilah est a fazer um bolo. O J.R. vai trazer uma caixa de champanhe. A idia animou-o consideravelmente.
    - Obrigada.
    - J que ests to grata, deixa-me acrescentar que a minha tia Rosie est pensando em cantar.
    - No acrescentes. - Recuou um pouco. - No vamos estragar este momento. Bem, j que toda a gente aprovou o horrio e os detalhes, quem sou eu para me opor? Tambm j trataste da lua-de-mel? - Viu-o hesitar e revirou os olhos. - Cade, francamente.
    - No vais discutir por causa de uma viagem a Paris, pois no? Claro que no. - Deu-lhe um beijo rpido antes de ela poder responder. - Talvez queiras fechar a loja durante uns dias, mas a Boots gostou da idia de tomar conta dela e a Faith andava com umas idias.
    - Meu Deus.
    - Mas isso  contigo.
    - Muito obrigada. - Passou a mo pelo cabelo. - Tenho a cabea  roda. Falamos sobre isto tudo quando eu voltar.
    - Claro. Sou flexvel.
    - O diabo  que s - resmungou ela. - Finges ser. - Pegou no cesto com as flores e entregou-lhe a tesoura de corte. - No comeces a dar nomes s crianas enquanto eu estiver fora.
    Homem exasperante, pensou ela, enquanto se metia no carro e colocava o cesto com as flores no assento ao lado. A planejar o casamento nas costas dela. E a planejar exatamente o tipo de casamento que ela queria. Que irritante, e que maravilhoso, algum conhecer-nos to bem.
    Ento, porque no estava tranquila? Quando entrou na estrada, rodou os ombros. No conseguia acabar com a tenso. Era compreensvel, disse a si prpria. Passara por uma provao terrvel. No conseguia imaginar-se a casar dali a vinte e quatro horas, com tantas coisas presas dentro de si.
    Mas queria comear uma vida nova. Queria fechar esta porta e abrir a prxima. Olhou para as flores que levava ao seu lado. Talvez fosse isso que estava prestes a fazer.
    Estacionou na beira da estrada, onde Hope deixara a bicicleta. Depois de sair, atravessou a pequena ponte onde as coroas imperiais floriam como num livro de contos, e seguiu pelo caminho que sabia que a sua amiga tomara naquela noite.
    Hope Lavelle, a espi.
    A chuva transformara-se numa espcie de vapor, que se elevava do cho como dedos curvados que se separavam e depois se voltavam a unir,  volta dos tornozelos dela. O ar estava cheio de umidade, de verde, de fungos. De mistrios por resolver.
    Quando se aproximou da clareira, desejou ter-se lembrado de trazer alguma madeira. Ali estaria tudo demasiado mido para fazer uma fogueira, e talvez fosse uma tolice querer fazer uma, com aquele calor. Mas lamentou no ter pensado nisso, porque assim poderia acender uma, como fizera Hope.
    A pensar nisso, a recordar-se disso, cheirou-lhe a fumo.
    Ali estava a fogueira, pequena e cuidadosamente preparada para no lanar chamas altas, um pequeno crculo de chamas, com uma srie de paus compridos e afiados, ao lado,  espera de marshmallows.
    Pestanejou uma vez, para perceber se era verdade. Mas a fogueira ardia devagar e o fumo esvanecia-se lentamente na neblina. Intrigada, Tory entrou na clareira, com o cesto prestes a entornar-lhe as flores aos ps.
    - Hope? - Levou uma mo ao corao, como que a certificar-se de que ele continuava a bater. Mas a criana de mrmore que fora sua amiga permaneceu no seu mar de flores e no disse nada.
    Com a mo a tremer, pegou num dos paus e viu que os cortes feitos para o afiar eram recentes.
    No era um sonho, no era um flashback. Estava a acontecer ali e naquele momento. Era real.
    No era Hope. Nunca mais seria Hope.
    A presso cresceu dentro dela, num assomo quente de medo e de entendimento.
    Dos arbustos veio um restolhar, mido e dissimulado.
    Ela virou-se na direo dele. A senha. Pensou isso, ouvi-o na sua cabea. Mas no era Hope. No tinha oito anos. E, Deus!, afinal no tinha acabado.

    Cade estava no jardim, a decidir onde deviam pr as mesas para o copo-d'gua, quando o chefe Russ apareceu.
    - Ainda bem que est aqui. Acabei de receber novidades que achei que devia saber.                                                        
    - Entre, l dentro est fresco.
    - No, no posso demorar-me, mas quis dizer-lhe pessoalmente. Temos o relatrio da balstica sobre Sarabeth Bodeen. A arma com que ela foi morta no foi a mesma que o Bodeen tinha com ele. Nem sequer so do mesmo calibre.
    Cade sentiu-se levemente tocado pelo medo.
    - No sei bem se estou compreendendo.
    - Acontece que a arma que o Bodeen tinha quando entrou na casa onde estavam a Tory e a sua irm foi roubada de uma casa a cerca de vinte e cinco quilmetros daqui, na manh em que a me da Tory foi morta. A casa foi assaltada entre as nove e as dez da manh desse dia.
    - Como pode isso ser?
    - A nica maneira  o Bodeen ter aberto as asas e voado at aqui desde Darlington County. Ou ento, foi outra pessoa que meteu aquelas balas na Miss Bodeen.
    Cari D. cobriu o queixo com a mo e esfregou-o com fora. Os olhos ardiam-lhe de cansao.
    - Tenho estado em contacto com os agentes federais, e estou encaixando as peas. Miss Bodeen recebeu um telefonema logo depois das duas da manh, da cabine que fica  sada de Winn-Dixie, a norte daqui. Ora, seria de pensar que foi o Bodeen que lhe telefonou daqui, dizendo-lhe que ia busc-la. At aqui, tudo bem. Mas as coisas no encaixam, quando se acrescenta o resto.                        
    - Foi o Bodeen que lhe telefonou, de certeza. Seno, porque teria ela feito as malas?
    - No sei. Mas imaginemos que ele telefonou daqui, por volta das duas da manh, foi at l, disparou os tiros entre as cinco e as cinco e meia, e depois voltou para aqui e foi mais vinte e cinco quilmetros para sul, assaltou uma casa e roubou uma arma, uma garrafa e uns restos do jantar. Ora, porque andaria o homem a ziguezaguear para trs e para a frente?
    - Era louco.
    - No vou dizer o contrrio, mas o fato de ser louco no faz com que seja capaz de andar a bater recordes de velocidade numa manh. Principalmente porque parece que no tinha nenhuma espcie de veculo. Ora, no estou a dizer que no pudesse ser feito. Estou a dizer que no faz sentido.
    - E que tipo de sentido pode fazer de outra maneira? Quem mais poderia ter morto a me de Tory?
    - No posso responder a isso. Tenho que trabalhar com fatos. Ele tinha a arma errada, e ns no temos nada que prove que o homem tinha carro. Mas pode ser que ainda venhamos a encontr-lo, ou  arma que ele usou para matar a mulher. Pode ser.
    Tirou o leno do bolso e limpou a parte de trs do pescoo.
    - Mas parece-me que se o Bodeen no cometeu aqueles crimes em Darlington County, talvez no tenha morto ningum. Isso significa que quem quer que os tenha cometido ainda anda  solta. Vinha  espera de conseguir conversar com a Tory.
    - Ela no est aqui. Ela... - Um medo branco e quente atravessou-o por dentro. - Foi ter com a Hope.

    Tory abriu a mente, tentou senti-lo, medi-lo. Mas tudo o que viu foi escurido. Um escuro frio e vazio. O restolhar movia-se num crculo, persistente. Ela movia-se com ele, e mesmo quando a saliva lhe secou na boca virou-se para enfrent-lo.
    - Qual de ns duas querias naquela noite? Ou ser que isso no interessava?
    - Nunca foste tu. Porque havia eu de querer-te? Ela era linda.
    - Era uma criana.
    - Verdade. - Dwight entrou na clareira. - Mas eu tambm.
    Ela sentiu o corao despadaar-se. De uma s vez.
    - Eras amigo do Cade.
    - Claro. Cade e Wade, como se fossem, eles prprios, gmeos. Ricos e privilegiados e bonitos. E eu era o seu gorducho de estimao. Dwight, o Marro. Pois bem, enganei-os a todos, no foi?
    Ele devia ter doze anos, pensou Tory, observando o sorriso fcil no rosto dele. No teria mais de doze anos.            
    - Porqu?
    - Chama-lhe um rito de passagem. Eles eram sempre os primeiros. Um ou o outro, eram sempre primeiros em tudo. Eu ia ser o primeiro a ter uma moa.
    Uma espcie de divertimento (s podia ser isso) bailou-lhe nos olhos.
    - No era coisa de que pudesse gabar-me. Era mais ou menos como ser o Batman.
    - Meu Deus, Dwight.
    -  difcil perceberes, porque s mulher. Vamos chamar-lhe uma coisa de homens. Tinha uma comicho. Porque no havia de ter usado a irm do meu bom amigo Cade para co-la?
    Falava to calmamente, com tanta naturalidade, que os pssaros continuavam a cantar, notas lquidas em vez de lgrimas.        
    - No sabia que ia mat-la. Aquilo... aconteceu. Tinha bebido usque do meu pai, s escondidas. Beber como um homem, sabes? Tinha a cabea um bocado tonta.
    - Tinhas apenas doze anos. Como pudeste querer uma coisa dessas?
    Ele percorreu o crculo da clareira, no se aproximando exatamente, jogando apenas o paciente jogo do gato e do rato.
    - Costumava observar-vos, s duas, enquanto nadavam nuas ou se estendiam aqui, de barriga para baixo, a contar segredos. E o teu velhote tambm - disse ele, com um esgar. - Pode dizer-se que fui inspirado por ele. Ele desejava-te. O teu velho queria foder-te, mas no tinha bolas para isso. Eu fui melhor do que ele, melhor do que qualquer deles. Naquela noite, fui um homem.
    Presidente da cmara, pai orgulhoso, marido dedicado, amigo leal. Que espcie de loucura podia esconder-se to bem?
    - Violaste e assassinaste uma criana. Isso fez de ti um homem?
    - Toda a minha vida ouvi S um homem, Dwight... - O divertimento esmoreceu nos olhos dele, que se tornaram frios e vazios. - Por amor de Deus, s um homem. No se pode ser homem sendo virgem, pois no? E nenhuma moa olharia para mim duas vezes. Eu tratei disso. Aquela noite mudou a minha vida. Olha para mim agora.
    Abriu os braos e aproximou-se, observando-a.
    - Tenho confiana, estou em forma, e no  que acabei por ficar com a moa mais bonita de Progress? Tenho respeito. Uma mulher linda, um filho. Tenho posio. E tudo comeou naquela noite.
    - Todas as outras moas...
    - Porque no? No podes imaginar o que . Ou talvez consigas. Sim, talvez consigas. Enquanto est a acontecer, sou a pessoa mais importante do mundo para elas. Sou o mundo para elas. Isso d um prazer inimaginvel.
    Tory pensou em fugir. A idia entrava-lhe e saa-lhe da cabea a cada segundo. At que viu o brilho nos olhos dele, viu que era exatamente disso que ele estava  espera: que ela tentasse fugir. Delibe-radamente, Tory comeou a respirar mais devagar e abriu a mente. Outra vez o vazio, como um buraco, mas  volta havia uma espcie de fome.                                                          
    Reconhec-la, antecip-la, era a nica arma que Tory possua.
    - Nem sequer as conhecias. Eram estranhas para ti, Dwight.
    - Limito-me a imaginar que elas so a Hope, e  aquela primeira noite que se repete. No passam de vagabundas e falhadas, at que eu as transformo nela.
    - No foi o mesmo com a Sherry.
    - No quis esperar. - Encolheu os ombros. - A Lissy no anda muito virada para o sexo, ultimamente. E aquela professorazinha sexy queria. Mas queria que fosse o Wade, devassa estpida. Pois bem, fui eu que lhe dei o que ela queria. Mas no foi bem o que eu achava que ia ser. No foi bem. A Faith  perfeita.    
    Dwight viu Tory sobressaltar-se.
    - Pois, andas muito juntinha  Faith, no andas? Eu tambm tenciono ficar muito juntinho a ela. Ia esperar por ela at agosto, tenho o meu pequeno ritual, como sabes. Mas vou ter de apressar as coisas. Ah, a propsito: ela vai atrasar-se. Convenci a Lissy a ir visit-la, e tu conheces a minha mulher. Vai manter a Faith ocupada o tempo suficiente.
    - Desta vez vo ficar a saber, Dwight. No vais conseguir culpar mais ningum.
    - O teu pai colaborou muito, no colaborou? J te disse que fui eu quem matou a tua me? Fiz-lhe um telefonema, disse-lhe que era um amigo e que o seu adorado marido estava a caminho da casa, para ir busc-la. Pareceu-me uma boa ttica para deixar os polcias s aranhas e para me deixar em situao de observador, na minha qualidade de presidente da cmara preocupado.
    - Ela no significava nada para ti.
    - Nenhuma delas significava. Excepto a Hope. E no te preocupes comigo. Ningum vai desconfiar de mim. Sou um cidado exemplar, e neste momento estou no centro comercial a comprar um ursinho para o meu filho que vai nascer. Um grande urso amarelo. A Lissy vai ador-lo.
    - Nunca consegui sentir-te - murmurou. - Porque no h nada para sentir. s praticamente vazio por dentro.
    - Cheguei a pensar nisso. Passei uns maus momentos por causa disso. Hoje peguei-te na mo, uma espcie de teste, s para ver. No sentiste nada. Mas agora vais sentir, antes de terminarmos. Porque no foges, como ela fez? Sabes que ela fugiu e gritou. Vou dar-te uma oportunidade.
    - No. Eu  que vou dar uma oportunidade a mim prpria.
    Sem um instante de hesitao, investiu com o pau afiado na mo, apontando aos olhos de Dwight.                                          
    Quando ele gritou, ela correu, como Hope fizera. O musgo emaranhava-se-lhe no cabelo, roava-lhe nas pernas como aranhas, e o cho sugava-lhe os ps avidamente. Os sapatos escorregavam por entre os fetos ensopados, enquanto ela embatia dolorosamente nos ramos.
    Viu o que Hope vira, as duas imagens sobrepostas numa s. A noite quente de vero fundida com a tarde chuvosa. E sentiu o que Hope sentira, com o seu prprio medo e a sua prpria raiva a correrem logo  frente do terror da criana.
    Ouviu o que Hope ouvira, os passos a ressoarem atrs dela, o restolhar entre os arbustos.
    Foi a raiva que a fez parar e que a fez virar-se para trs, antes de a inteno estar perfeitamente definida na sua cabea. Queimou-a por dentro, negra como alcatro, quando investiu sobre ele com os dentes e as unhas.
    Surpreendido pelo ataque, meio cego devido ao sangue, caiu aos ps dela, uivando de dor quando ela lhe cravou os dentes no ombro. Ele debateu-se, mas ela agarrou-se a ele como um gancho, cravando-lhe as unhas na cara. 
    Nenhuma das outras conseguira lutar contra ele, mas ela lutaria. Por Deus, lutaria!
    Eu sou a Tory. As palavras eram um grito de batalha a tinir-lhe nos ouvidos. Ela era Tory e lutaria.
    Mesmo quando as mos dele lhe apertaram a garganta, ela continuou a investir. Quando a viso se lhe nublou, quando o ar comeou a faltar-lhe, usou os punhos.   
    Algum gritava o nome dela, num desespero que ecoava por entre o tumulto do sangue que tinha dentro da sua cabea. Cravou dedos e unhas nas mos que lhe apertavam a garganta, quase sufocada quando elas a soltaram.
    - Agora estou a sentir-te. Medo e dor. Agora sabes. Agora sabes, filho da me.
    Sentiu-se agarrada e lutou desesperadamente, o olhar fixo no rosto de Dwight. O sangue escorria-lhe do olho e tinha a cara rasgada pelas unhas dela.
    - Agora j sabes. Agora j sabes.
    - Tory. Pra, pra! Olha para mim.
    Com o rosto plido e empapado em suor, Cade segurou-lhe o rosto at ela voltar a ver claramente.
    - Ele matou-a. Foi sempre ele. E eu nunca vi. Detestou-te durante toda a tua vida. Detesta-vos a todos.
    - Ests ferida.
    - No, no estou.  sangue dele.
    - Cade, meu Deus. Ela enlouqueceu. - A tossir, Dwight rolou at ficar de lado, e tentou pr-se de p com a ajuda das mos e dos joelhos. Sentia-se como se estivesse a sangrar de mil feridas. O seu olho direito parecia carvo em brasa. Mas tinha a cabea a funcionar, e a funcionar bem e depressa. - Ela pensou que eu era o pai dela.
    - Mentiroso! - A raiva renasceu e f-la debater-se violentamente para se libertar de Cade. - Ele matou a Hope. E estava aqui  minha espera.
    - Matei a Hope? - O sangue escorria-lhe da boca rasgada quando Dwight caiu de joelhos. - Isso foi h quase vinte anos. Ela est doente, Cade. Toda a gente pode ver que ela est doente. Meu Deus, o meu olho. Tens de ajudar-me.
    Tentou pr-se de p e ficou genuinamente chocado quando as pernas no lhe obedeceram.
    - Por amor de Deus, Cade, chama uma ambulncia. Vou perder a porra do olho.
    - Sabias que elas vinham aqui. - Cade manteve os braos de Tory firmemente agarrados enquanto observava o rosto maltratado do seu velho amigo. - Sabias que elas se esgueiravam  noite para virem para aqui. Fui eu que te disse. At rimos por causa disso.
    - O que  que isso tem a ver com o que quer que seja? - O olho so de Dwight mexeu-se quando ele ouviu o fustigar dos ramos molhados. Cari D., arquejante devido ao esforo, surgiu entre os arbustos. - Graas a Deus. Chefe, chame uma ambulncia. A Tory teve uma espcie de ataque nervoso. Veja o que ela me fez.
    - Meu bom Jesus Cristo! - murmurou Cari D., enquanto se apressava a chegar junto de Dwight.
    - Ele queria que eu fugisse. Mas eu parei de correr. - Tory deixou de se debater e ps a mo sobre a de Cade quando Cari D. se baixou para pr o seu leno sobre o olho devastado de Dwight. - Ele matou a Hope, e as outras. Matou a minha me.
    - J vos disse, ela  maluca - gritou Dwight. No conseguia ver. Merda, no conseguia ver. Comeou a bater os dentes. - Ela no consegue enfrentar o que o pai dela fez.
    - Vamos levar-te para o hospital, Dwight, e depois vamos resolver isto tudo. - Cari D. olhou para Tory. - Est ferida?
    - No, no estou ferida. No quer acreditar em mim. No quer acreditar que o que ele  tem vivido lado a lado consigo, durante todos estes anos. Mas tem. Encontrou uma maneira de viver.
    Virou-se e fixou os olhos de Cade.
    - Lamento.                                                                            
    - Eu tambm no quero acreditar em ti. Mas acredito.
    - Eu sei. - Agarrando-se a isso, ps-se de p. - A arma que ele usou para matar a minha me est no sto da casa dele, por cima das vigas, do lado sul. - Suavemente, passou a mo pela garganta, no stio onde a violncia dos dedos dele deixara marca. - Cometeste um erro, Dwight, ao deixares-me chegar to longe, ao deixares-me aproximar tanto. Devias ser mais cuidadoso com o que pensas.
    - Ela est a mentir. Foi ela que l ps a arma. Ela  maluca. - Cambaleou quando Cari D. o puxou, fazendo-o levantar-se.
    - Cade, fomos amigos durante toda a vida. Tens de acreditar em mim.
    - Tu  que tens de acreditar numa coisa - disse-lhe Cade. - Se eu tivesse chegado aqui mais cedo, a esta hora estarias morto. Podes acreditar nisso. E nunca o esquecer.
    - Agora tens de vir comigo, Dwight. - Cari D. ps as algemas nos pulsos de Dwight.
    - O que est a fazer? Que diabo est a fazer? Est a dar mais importncia  palavra de uma mulher maluca do que  minha?
    - Se aquela pistola no estiver onde ela disse, ou caso no condiga com a que foi usada para matar um polcia jovem e uma mulher indefesa, vou apresentar-te um enorme pedido de desculpas. Vem comigo. Miss Tory,  melhor ir ao hospital tambm.
    - No. - Limpou o sangue da boca com as costas da mo. - Ainda no fiz o que vim aqui fazer.
    - Vo l - disse-lhes Cari D. - Eu trato disto. Miss Tory, passo por sua casa mais tarde, para falar consigo.
    - Ela  maluca. - Dwight continuou a gritar a frase repetidamente enquanto Cari D. o levava.
    - Sente-se insultado. - Com uma gargalhada nervosa, Tory pressionou os dedos contra os olhos. -  essa a emoo primria que o percorre neste momento. Insultado por ser tratado como um criminoso.  ainda maior do que o dio e do que a demncia.
    - Afasta-te dele - pediu Cade. - No olhes para ele.
    - Tens razo, Cade. Tens razo.
    -  a segunda vez que quase te perco. Diabos me levem se vai voltar a acontecer.
    - Acreditaste em mim - murmurou Tory. - Senti como isso te magoava, mas acreditaste em mim. No tenho palavras para te dizer o que isso significa para mim. - Apertou-o num abrao forte. - Tu gostavas dele. Lamento muito.
    - Nem sequer o conhecia. - E, ainda assim, Cade estava a sofrer. - Se eu pudesse voltar atrs...
    - No podemos. Demorei muito tempo a aprender isso.
    - Tens a cara ferida. - Beijou-a.
    - A dele est pior. - Encostou a cabea ao ombro dele quando comearam a andar. - Eu estava a fugir, e ia continuar a fugir, mas de repente ali estava esta vida dentro de mim. Esta raiva viva. Ele no ia ganhar, no ia perseguir-me como uma raposa atrs de um coelho. Por uma vez, ele iria saber como era. Ia ficar sabendo.
    Cade sabia que nunca tiraria completamente aquela imagem da sua cabea. A imagem de Tory, de rosto ferido e ensanguentado, a atacar Dwight como um gato. E as mos dele  volta do pescoo dela.
    - Ele vai continuar a negar - disse Cade. - Vai contratar advogados. Mas no importa. O que ele vier a fazer no interessa.
    - No. Acho que podes confiar na agente Williams para resolver o assunto. Pobre Lissy. - Suspirou. - Que ir ela fazer?
    
    Tory parou na clareira para apanhar as flores que tinham cado. A fogueira estava agora em cinzas, e a luz penetrava por entre as rvores em raios oblquos e lquidos.
    - Vou voltar aqui e fazer isto com a Faith noutra ocasio. Esta  para mim e para ti.                                                                
    Juntos, caminharam at  margem do rio.
    - Ns amvamo-la e havemos de record-la sempre. - Tory lanou flores  gua. - Mas agora acabou. Finalmente. Esperei tanto tempo para dizer adeus.
    Tory ainda tinha lgrimas dentro de si, mas eram lgrimas tranquilas e apaziguadoras. Brilhavam-lhe no rosto quando se voltou para Cade.
    - Gostaria de casar contigo no jardim, amanh, e usar o vestido da minha av.
    Ele pegou-lhe na mo e beijou-a.
    - Gostarias?
    - Sim, gostaria. Sim, gostaria muito. E gostaria de ir a Paris contigo, e sentar-me a uma mesa bem iluminada, e beber vinho e fazer amor contigo ao nascer do Sol. Depois, gostaria de voltar aqui e construir uma vida contigo.                                                                 
    -J estamos a constru-la.
    Cade puxou-a mais para si. O sol brilhava em raios finos e do musgo pingava gua.
    As flores, de ptalas vivas, flutuavam silenciosamente, levadas pelo rio.

Fim

A AUTORA

    Nora Roberts foi a primeira escritora a ser admitida no Romance Writers of America Hall of Fame, um galardo destinado a celebrar os mais populares romances sentimentais dos Estados Unidos. Comeou a escrever em 1979.
    Dois anos depois, aps vrios dos seus manuscritos terem sido rejeitados, conseguiu publicar o seu primeiro romance, Irish Thoroughbred.
    Foi o incio de uma fulgurante carreira.
    Com inmeros prmios literrios, e mais de uma centena de obras publicadas, de entre os seus livros destacam-se, para alm de 0 Pntano da Meia-Noite, Trs Destinos, Vozes do Passado e Lua de Sangue, os romances The Villa, From the Heart, Rivers End e Dance upon the Air, todos invariavelmente includos na lista de bestsellers do jornal The New York Times. Nora Roberts j vendeu, em todo o mundo, mais de 280 milhes de livros.



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